sexta-feira, 18 de abril de 2014

Crítica: Quero Viver (2013)


Como sempre costumo dizer por aqui, em todo e qualquer filme sobre enfermidades existe uma linha tênue que o separa de ser, de um lado, dramaticamente apelativo, e de outro, uma verdadeira obra-prima. O polonês Quero Viver (Chce Sie Zyc), do diretor Maciej Pieprzyca, é um belo exemplo de um trabalho consistente, e já pode ser considerado um dos melhores filmes do cinema moderno oriundo do leste europeu.



Na trama acompanhamos a história real de Mateusz (Dawid Ogrodnik), que foi diagnosticado com uma forte paralisia cerebral desde criança. Sua infância foi extremamente difícil, principalmente por ele não compreender quase nada do que falavam e do que faziam ao redor, além de não conseguir fazer absolutamente nada sozinho. 

Apesar de tudo, Mateusz teve a sorte de ter nascido em uma família unida e determinada a fazer com ele tivesse uma vida normal. Sua mãe super protetora e seu pai extremamente carinhoso foram a base para que ele conseguisse sobreviver às dificuldades. Além deles, ele ainda tinha um irmão mais velho bastante atencioso e uma irmã na fase difícil da adolescência, que talvez tenha sido a mais distante em termos de contato.


Falando em família, a relação de Mateusz com seu pai é com certeza a parte mais bela do longa. Aliás, que pai maravilhoso ele tinha. O que ele fazia por Mateusz poderia servir de exemplo para todo e qualquer pai do mundo, e em qualquer situação. Seus ensinamentos ao garoto não vinham de forma didática, mas na prática, e através de suas próprias ações ele ensinou a Mateusz coisas que o menino levou para o resto da sua vida.

Ainda na infância, uma das coisas que Mateusz mais gostava de fazer era ficar olhando o movimento da rua pelo vidro da janela. Aliás, é interessante a observação que ele faz do cotidiano ao redor, e o modo como o diretor analisa alguns pontos da vida em sociedade sob a perspectiva dos olhos e sentimentos do menino. Desde a tristeza de ver crianças brincando e ele não estando junto (ainda que ele não compreenda muito bem isso), até a análise do casal de vizinho que não conseguem mais nem se olhar depois de um tempo. Outro ponto interessante que o diretor traz é a divisão do filme em capítulos, com títulos e figuras "estranhas", que vamos acabar entendendo melhor mais para o final.



Após a morte do pai, a vida de Mateusz muda significativamente. A tristeza do garoto é extrema, e de que forma não poderia ser? Com a tragédia, ele perdeu o seu maior elo de ligação com a vida, a pessoa que lhe dava tudo que ele precisava e que lhe fazia sentir especial e único. Se para nós uma perda já é difícil de aceitar, para Mateusz foi um sentimento de dor triplicado.

O filme pula então para sua adolescência, momento onde Mateusz se apaixona pela primeira vez. Anka, uma menina solitária que passa seus dias lendo para fugir do clima pesado de casa, acaba atraindo uma atenção diferenciada do menino, e a relação que eles criam entre si é extremamente forte. Quando são obrigados a se separar, ele sente novamente a mesma dor insuportável da morte de seu pai: a dor da despedida. O toque dos dedos que eles dão por baixo da porta se torna uma das cenas mais belas da história do cinema, e mais tristes também.

Após um tempo, com a doença da mãe, ele acaba sendo levado a um hospital psiquiátrico, onde passa seus próximos anos. Ele odeia o lugar, e odeia ainda mais a mãe por ela o ter deixado naquele lugar. Depois de muita resistência, Mateusz só consegue acostumar com a rotina quando chega uma nova voluntária, Magda, que passa a tratá-lo com carinho, ensinando coisas que até então ele nunca havia tido contado antes (como a beleza do corpo nu feminino, por exemplo). O relacionamento entre os dois causa a demissão de Magda, e ele se vê novamente sozinho no mundo, apesar das visitas da mãe.



Seu sonho sempre foi poder se comunicar com as pessoas ao redor, e dizer principalmente que ali tem uma cabeça pensante e não apenas um vegetal à espera da morte. E quando uma médica chega ao local com um novo método de comunicação através de piscadelas, ele consegue finalmente realizar esse desejo, passando a se comunicar com o mundo exterior da forma como sempre quis.

Em filmes como esse, o que se sobressai são as atuações. Não é fácil dar vida a personagens tão complexos como Mateusz, e Dawid Ogrodnik está realmente de parabéns, numa das melhores atuações que vi nos últimos anos. Porém, deve-se elogiar também o menino que fez sua versão mirim, que foi tão espetacular quanto.


Na questão do roteiro, só há o que elogiar. A forma poética com que foi filmado dá um ar gracioso ao longa, e é impossível não se deixar levar. Infelizmente é um filme que não deve chegar aos cinemas daqui, a não ser por meio de festivais isolados, o que é uma pena. Mas quem tiver a oportunidade de tê-lo em mãos para assistir, não deve pensar duas vezes.


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