sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Crítica: Coyote vs. Acme (2026)


Quem cresceu antes dos anos 2000, certamente guarda ótimas lembranças de assistir na televisão ao desenho do Papa-Léguas, onde a ave era constantemente perseguida por um coiote persistente. Na animação, o predador recorria às mais variadas engenhocas compradas da empresa Acme, mas todas acabavam produzindo o efeito contrário: em vez de capturar sua presa, faziam com que ele próprio se tornasse vítima das armadilhas. O que o diretor David Green faz em Coyote vs. Acme é responder a uma pergunta bastante simples: como seria se o coiote decidisse processar a Acme pelo mal funcionamento destes produtos?


Depois de mais uma tentativa frustrada de capturar o Papa-Léguas, Coyote volta para casa e se depara com uma verdadeira montanha de geringonças que, no passado, também não deram certo. Melancólico e aparentemente disposto a desistir de vez, ele é despertado por um anúncio na televisão. Na tela, o advogado Kevin Avery (Will Forte) oferece seus serviços a quem quiser processar a Acme. E é aparentemente nesse momento que Coyote finalmente se dá conta de que talvez a culpa por todos aqueles planos darem errado não fosse exatamente sua, mas do mal funcionamento dos produtos que comprou.

Quando o advogado entra em cena, é impossível não lembrar de Saul Goodman, personagem icônico de Breaking Bad. Além do uso de outdoors espalhados pelas paisagens desérticas do Novo México e de um escritório bastante semelhante ao do advogado da série, o próprio Avery carrega alguns dos trejeitos atrapalhados e oportunistas de Goodman. Ele e sua pequena equipe, acostumados a fechar acordos em vez de enfrentar grandes corporações nos tribunais, rejeitam inicialmente o processo de Coyote. Afinal, comprar uma briga contra a Acme seria muito maior do que a estrutura deles seria capaz de suportar. Mas, de maneira bastante ardilosa, Coyote consegue levar a situação adiante.


Do outro lado da disputa está Buddy Crane (John Cena), antigo colega de Avery na faculdade e que trabalha como responsável pelo jurídico da Acme. Prepotente e arrogante, Crane representa a força de um gigantesco conglomerado empresarial que está sempre disposto a fazer de tudo para impedir queimar sua imagem. Mesmo sem querer, Avery vai entrando em uma trama recheada de segredos obscuros, contando com a ajuda de alguns dos personagens mais clássicos dos Looney Tunes pelo caminho. A mistura de animação e live-action, que já vimos funcionar em filmes como Uma Cilada para Roger Rabbit e Space Jam, encontra aqui um equilíbrio bastante interessante.

Gosto especialmente da maneira como as referências aos personagens são utilizadas. Elas não parecem estar ali apenas para provocar nostalgia, mas são integrados naturalmente à narrativa, fazendo com que o universo cartunesco pareça realmente existir paralelamente ao nosso. É justamente nesse choque de universos que está o maior trunfo de Coyote vs. Acme, pois David Green não tenta tornar Coyote mais realista para encaixá-lo no nosso mundo, mas faz exatamente o contrário: obriga o mundo real a levar a sério um personagem que pode ser esmagado por uma bigorna e, segundos depois, simplesmente voltar a andar.


Por trás das piadas, o filme ainda encontra espaço para brincar com temas bastante humanos, como a relação entre grandes corporações e indivíduos, a exploração comercial dos elos mais fracos da sociedade, e a resiliência de nunca desistir do seu propósito, mesmo que para outros não faça sentido. Coyote vs. Acme entende que, para recuperar o encanto dos Looney Tunes, não é preciso reinventá-los completamente, vasta colocá-los em uma situação nova e confiar naquilo que sempre fez esses personagens funcionarem em tela. O resultado é um dos filmes mais divertidos do ano.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Crítica: El Ser Querido (2026)


Quatro anos após o excelente As Bestas (2022), o cineasta espanhol Rodrigo Sorogoyen volta aos cinemas com mais um drama intenso sobre a natureza das relações humanas. El Ser Querido parte de uma premissa já explorada por outras obras recentes, como o vencedor do Oscar de melhor filme internacional, Valor Sentimental, para investigar os laços familiares, os ressentimentos acumulados ao longo dos anos e, principalmente, a dificuldade de reconstruir uma relação depois que a distância emocional se torna muito maior do que a própria distância física.


O filme começa com um reencontro entre pai e filha, treze anos após a última vez que haviam se visto. Ele é Esteban Martínez (Javier Bardem), um cineasta de sucesso, vencedor de dois Oscar, que deixou a Espanha há muitos anos para morar nos Estados Unidos. Ela é Emília (Victoria Luengo), uma aspirante a atriz que vem construindo sua carreira em séries pouco conhecidas da televisão. Mais do que a distância física, porém, o que se criou entre os dois foi uma distância emocional aparentemente impossível de ser revertida. Isso fica evidente desde a primeira conversa, quando os primeiros ressentimentos vêm à tona, mostrando que há feridas profundas demais para serem ignoradas e, sobretudo, uma história que nenhum dos dois parece disposto a revisitar com facilidade.

O encontro, no entanto, tem uma finalidade bastante clara: a fim de recuperar a relação com a filha e, segundo ele, ajudá-la na carreira, Esteban quer que ela seja a protagonista de seu novo filme, um épico ambicioso sobre a exploração colonial da Espanha no Saara Ocidental, com filmagem nas Ilhas Canárias. Logo, Emília, que até então ninguém sabia ser filha do cineasta (nem mesmo o google), se torna a figura central do novo filme do pai, que se passa nos anos 1930 e se chamará Desierto. A partir de então, passamos a acompanhar as filmagens do longa, em um esquema de "filme dentro do filme" que sempre me encanta no cinema. Aqui, porém, o recurso ganha uma dimensão ainda mais pessoal e íntima, já que o processo de produção é constantemente atravessado pela tensão desse reencontro marcado por traumas e ressentimentos.

Javier Bardem está impecável na pele de um personagem ambíguo, que alterna constantemente entre o cruel e o carismático; ora sendo compreensível e lidando bem com todos ao seu redor, ora se transformando em um completo descontrolado quando as coisas não saem como planejado. Cada linha de diálogo e cada olhar do ator ajudam a construir essa personalidade contraditória, fazendo com que nunca saibamos exatamente qual será sua próxima ação. Victoria Luengo também está muito bem como Emília, especialmente por interpretar uma personagem que não se entrega facilmente ao papel de vítima. A atriz consegue transmitir bem a ideia de uma personagem que parece estar sempre tentando decidir se vale a pena abrir novamente uma porta que passou treze anos fechada. Além do mais, Emília ainda precisa conviver com aquele paradigma incômodo de ser a "filha do diretor", o que faz com que todos os demais membros da equipe duvidem de sua capacidade de estar ali.


A fotografia é outro ponto alto do longa. O uso das paisagens das Ilhas Canárias resulta em imagens belíssimas, criando uma dimensão quase monumental para Desierto, que contrasta com a intimidade do conflito familiar que acontece nos bastidores. Por fim, El Ser Querido é um filme que encontra sua força justamente na compreensão de que algumas relações não podem simplesmente voltar ao ponto em que foram interrompidas, não importa o esforço que se faça para tanto. Afinal, treze anos de afastamento não desaparecem depois de algumas conversas, e o filme é inteligente ao não tratar essa reconciliação como um processo simples ou instantâneo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Crítica: Fränk (2026)


Lembrando histórias clássicas e comoventes sobre amadurecimento, como Conta Comigo (1986) e Sempre Amigos (1998), Fränk marca a estreia do estoniano Tõnis Pill na direção de longas-metragens. Segundo o próprio diretor, o filme é baseado em um caso real e sombrio que marcou profundamente sua infância no interior da Estônia, quando, ainda menino, presenciou as trágicas consequências do bullying cometido por um grupo de garotos contra um homem com deficiência intelectual.


O filme acompanha Paul (Derek Leheste), um jovem que acaba de completar treze anos. Ele é levado da cidade grande pela mãe (Katariina Tamm) para passar alguns dias com o tio, Aivar (Märt Pius), em uma pacata cidade do interior. O motivo da viagem, porém, é mais complexo do que parece: o pai de Paul (Märt Avandi) é um homem violento e, após o garoto presenciar mais um episódio de violência doméstica, sua mãe decide mantê-lo afastado daquele ambiente até que as coisas se acalmem.

Dono de uma personalidade forte, acentuada pela dura realidade que enfrenta dentro de casa, Paul logo se aproxima de uma gangue de garotos da cidade, liderada por Jasper (Tõru Kannimäe). Eles passam o tempo livre perambulando pelas ruas, cheirando cola, bebendo álcool e praticando bullying contra Sasha (Oskar Seeman), um homem com deficiência intelectual e o rosto desfigurado, a quem os garotos chamam pejorativamente de “Frank”, em referência ao monstro de Frankenstein.

Apesar da “casca dura”, Paul demonstra ter um coração sensível e começa a se compadecer de Sasha. Primeiro por conveniência, ao perceber que pode usá-lo para conseguir cerveja no mercado; depois, por empatia, ao enxergar que, apesar de suas limitações, Sasha é um ser humano como qualquer outro, com seus próprios gostos, interesses e desejos. Enquanto mantém uma amizade secreta com ele, Paul ainda precisa provar ao grupo que não sente piedade, a fim de ser aceito, em um dilema bastante palpável, sobretudo em uma idade na qual a necessidade de pertencimento pode falar mais alto do que os próprios valores.


O filme toma novos rumos quando Paul e Jasper passam a brigar pela liderança do grupo, principalmente depois que um dos membros fica gravemente ferido por um ato de pura inconsequência de Jasper. O roteiro também passa a trabalhar com mais complexidade a personalidade deste personagem, mostrando que muito do seu comportamento raivoso e delinquente vem da relação com o pai, um homem rígido ao extremo. 

Desta forma, o filme constrói um retrato implacável de como o ambiente ao redor pode moldar não apenas o caráter de quem ainda está encontrando seu espaço no mundo, mas também a maneira como essa pessoa enxerga e trata aqueles que considera diferentes. No fundo, todos os personagens são vítimas antes de serem apenas agressores. Cada um carrega suas próprias dificuldades e histórias familiares complexas. Isso não serve para redimir seus atos, é claro, mas para levantar uma questão mais incômoda: até que ponto determinadas escolhas são realmente escolhas, e até que ponto são apenas reflexos daquilo que essas crianças aprenderam desde cedo?


O elenco, em grande parte formado por jovens atores, cumpre muito bem seu papel, enquanto a fotografia contribui para criar uma atmosfera convincente dos anos 1990. Fränk é um filme cru e pesado, mas que, acima de tudo, exala humanidade e sensibilidade. Embora derrape um pouco na reta final ao abraçar um sentimentalismo excessivo e um tom previsível de “mensagem inspiradora”, isso pouco compromete seu resultado. Tõnis Pill encontra força justamente ao observar seus personagens para além de seus atos, mostrando como violência, abandono e necessidade de pertencimento podem se entrelaçar durante uma fase tão determinante da vida.