segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Crítica: The Plague (2026)


É comum nos abraçarmos à nostalgia e lembrarmos com certo carinho da adolescência, mas uma coisa é certa: esta fase da vida não é nada fácil. Além dos hormônios à flor da pele e das inseguranças constantes, somos obrigados a lidar com a descoberta cruel de que o mundo fora das quatro paredes do nosso quarto não é nem um pouco acolhedor. Tudo isso enquanto moldamos a nossa própria personalidade, sem termos a verdadeira dimensão de que cada passo dado neste momento irá ecoar pela vida inteira.


Em seu filme de estreia, Charlie Polinger nos apresenta um thriller psicológico que aborda uma questão recorrente e dolorosa nesta fase complexa da vida: o bullying escolar. A trama se passa em 2003, e acompanha um grupo de jovens que vive em uma espécie de internato para meninos, todos alunos de polo aquático do professor Wags (interpretado por Joel Edgerton, que também é o produtor do longa). Entre eles está o recém chegado Ben (Everett Blunck), um garoto de 12 anos, sensível e meio desengonçado, que tenta desesperadamente se encaixar no grupo. Não sabemos muito sobre ele, apenas que ele se mudou há pouco com a mãe para a nova cidade após a separação dos pais, e seu sotaque diferente imediatamente acaba sendo motivo de risadas e deboches dos outros meninos.

No centro da dinâmica cruel do grupo está Jake (Kayo Martin), um líder informal. Com um rosto angelical, mas uma maldade intrínseca no olhar, ele aparentemente dita as regras, enquanto os demais apenas seguem suas ideias, sem pensar nas consequências dos seus atos. Um dos alvos preferenciais da violência psicológica de Jake é Eli (Kenny Rasmussen), um garoto tímido, solitário e acima do peso, que sofre de alergias na pele que nunca cicatrizam. A partir disso, o grupo cria o boato de que ele carrega a “peste”, uma doença supostamente contagiosa transmitida a qualquer um que toque em sua pele. A mentira funciona como uma sentença: Eli passa a ser sistematicamente isolado, ridicularizado e desumanizado.


É nesse ambiente sufocante que se estabelece o principal conflito de Ben. Diferente dos outros, ele demonstra empatia e se compadece do sofrimento de Eli, mas o medo de se tornar a próxima vítima o paralisa. Para sobreviver, acaba compactuando com as agressões, mesmo que isso o corroa por dentro. Polinger constrói com inteligência a ambiguidade do personagem, inclusive quando mostra o próprio Ben se questionando se a tal “peste” não seria real, num reflexo cruel de como a repetição de uma ideia pode distorcer a percepção da realidade. Essa tensão cresce até o momento inevitável em que Ben decide tomar uma posição à favor de Eli, pagando um preço alto e brutal por isso.

O filme escancara como crianças e adolescentes podem ser impiedosos, especialmente quando agem em grupo, protegidos pelo anonimato coletivo e pela ausência de consequências imediatas. O que torna o filme ainda mais perturbador é o quanto essa violência soa palpável e reconhecível. Não se trata de exagero cinematográfico, mas de um retrato incômodo de comportamentos que continuam se repetindo fora da tela. Casos recentes, como o do cão Orelha, em Santa Catarina, reforçam essa lógica cruel: alguém inicia o ato de violência, por pura maldade e psicopatia, e os demais vão na onda, muitas vezes por covardia.


Ao transformar o bullying em um verdadeiro horror psicológico, Polinger não apenas denuncia essa dinâmica, mas também nos obriga a encarar uma pergunta desconfortável: quantas vezes, por medo de exclusão, escolhemos o silêncio, ou ainda pior, a cumplicidade? Por fim, The Plague sugere que o verdadeiro contágio não é a “peste” inventada pelos garotos, mas a violência que se espalha quando ninguém tem coragem de interrompê-la, e é justamente essa constatação que torna sua experiência tão angustiante.

Crítica: A Empregada (2026)

Baseado no livro homônimo da escritora Freida McFadden, um fenômeno editorial que conquistou uma legião de fãs, A Empregada (The Housemaid) é um suspense que, na teoria, promete abordar temas importantes como violência doméstica, abuso psicológico e relações tóxicas mantidas por aparência, mas que, na prática, derrapa em um roteiro raso, superficial e cheio de reviravoltas que só funcionam se você morou a vida inteira em uma caverna e nunca assistiu um filme de suspense antes.

O filme começa nos apresentando a Millie (Sydney Sweeney), uma jovem mulher que está passando por dificuldades e consegue ser selecionada para ser a nova empregada na mansão de uma família rica. É Nina Winchester (Amanda Seyfried), a dona da casa, que lhe entrevista, lhe mostra os aposentos e sobretudo lhe dita as regras. Entre elas, a de que Millie deve morar no local, em um quartinho pequeno porém confortável do sótão. 

O cenário inicial de estabilidade logo se desfaz quando Nina passa a tratar a nova funcionária com uma hostilidade crescente. Além de agressiva, ela a humilha constantemente e constrói mentiras cruéis a seu respeito, especialmente para o marido, Andrew (Brandon Sklenar), que surge como a figura serena e racional da casa. É ele quem explica a Millie que Nina sofre de graves distúrbios psicológicos, usando isso como justificativa para seu comportamento abusivo. Precisando do emprego por questões externas que vão muito além do dinheiro, Millie precisa aguentar a pressão e seguir firme, mesmo sofrendo humilhação atrás de humilhação. Ao mesmo tempo, Andrew se mostra acolhedor e protetor, dando início a uma dinâmica que lentamente descamba para um triângulo amoroso tão óbvio quanto artificial.

Não tendo lido o livro, não cabe a mim fazer uma comparação direta com o material original, mas enquanto obra cinematográfica, A Empregada se sustenta sobre reviravoltas preguiçosas e soluções narrativas que subestimam a inteligência do espectador de maneira quase ofensiva. O ápice desse problema surge na metade do filme, quando uma longa sequência de flashback tenta se impôr como grande virada dramática, apenas para reciclar a fórmula mais batida possível: “a vilã, na verdade, é uma vítima”. Tudo apresentado de forma genérica, sem complexidade ou qualquer sutileza.

No fim das contas, o filme não oferece nada de novo, apenas uma colagem de clichês mal disfarçados. Em nenhum momento, por exemplo, é crível a tentativa de vender Millie como uma “pobre coitada sem ter onde morar”, já que a construção da personagem é tão frágil que nunca consegue sustentar essa vulnerabilidade. O apelo sexual em torno de Sydney Sweeney também é evidente e explorado sem pudor, mas as cenas entre ela e Andrew beiram o constrangedor: falta química, falta tesão, falta verdade. O que resta é um roteiro preguiçoso que aposta em dois corpos bonitos em situações artificiais para fisgar um público específico, deixando claro que, sem isso, o roteiro simplesmente não se sustenta.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Crítica: Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (2026)

Craig Brewer é um diretor conhecido por demonstrar um interesse particular no poder transformador da música em suas narrativas. Foi assim em Ritmo de um Sonho (2005) e no remake de Footloose (2011), filmes que tratam a música não apenas como pano de fundo, mas como motor emocional dos seus personagens. Inspirado no documentário homônimo de 2008, Song Sung Blue reafirma essa inclinação do cineasta ao acompanhar a trajetória de dois cantores que tentam reorganizar a própria vida por meio da arte.

A história gira em torno de Mike Sardina (Hugh Jackman), um artista frustrado que tentou seguir carreira autoral no passado, mas que acabou encontrando seu sustento ao imitar outros cantores em apresentações de bares. Caracterizado como Don Ho, ele conhece Claire (Kate Hudson), uma cabeleireira que também complementa a renda interpretando cantoras famosas. A conexão entre os dois surge instantaneamente, e logo se transforma também em parceria artística. Juntos, eles criam o duo Lightning & Thunder, com um show tributo a Neil Diamond que alcança relativo sucesso no estado do Wisconsin, até que uma tragédia pessoal atravessa suas vidas.

Se, por um lado, as sequências musicais são envolventes, vibrantes e prazerosas de assistir, o mesmo cuidado não se estende aos conflitos dramáticos. Brewer apela para soluções excessivamente melodramáticas, tratando os dilemas dos personagens com pouca sutileza. Ainda que a história real de Mike e Claire comporte uma virada emocional potente, o diretor falha na intensidade do drama, resultando em cenas que soam artificiais e enfraquecem o impacto final.

Nada disso, porém, pode ser atribuído ao elenco. Hugh Jackman e Kate Hudson exibem uma química convincente, sustentando o filme mesmo quando o roteiro acelera etapas importantes da relação. São dois personagens solitários mas cheios de energia, que encontram no outro um novo impulso para seguir em frente. Entre eles, no entrando, Hudson acaba se destacando um pouco mais, ao entregar uma atuação sensível e carismática, que acabou inclusive lhe rendendo a indicação ao Oscar de Melhor Atriz este ano.

Por fim, Song Sung Blue funciona mais quando confia na música e em seus intérpretes do que quando tenta forçar a comoção pelo drama. Ainda assim, é impossível negar a sinceridade de suas intenções, mesmo que a execução seja irregular. O filme nunca tenta ser maior do que é e, no fim das contas, se revela acima de tudo como uma homenagem sensível a quem tenta sobreviver da arte mesmo com todos os percalços pelo caminho.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Crítica: Um Pai (2025)


Que a vida é frágil, isso todos nós sabemos, mas a verdade é que nem sempre temos a verdadeira dimensão do quanto. Um gesto banal ou único erro cometido, independente se por descuido ou vontade própria, é capaz de transformar um destino para sempre e deixar marcas irreversíveis. É sobre este tema que trata Father (Otec), filme da diretora Tereza Nvotová, inspirado em uma história real e escolhido para representar a Eslováquia no Oscar de 2026.


O filme começa nos inserindo dentro da rotina matinal de uma família comum. O pai, Michal (Milan Ondrík), sai de casa para fazer sua corrida diária, e após voltar para casa e tomar um banho, se prepara para ir ao escritório onde trabalha. As notícias na televisão indicam que será mais um dia escaldante de calor em meio ao pico do verão europeu, e sua esposa Zuzka (Dominika Morávková) pede que ele deixe a filha do casal, Dominika (Dominika Zajcz), na creche durante o caminho. Tudo parece absolutamente normal, e é justamente essa tranquilidade que torna o golpe seguinte tão devastador.

Logo, vemos o homem no ambiente de trabalho, rodeado de preocupações e telefonemas que não acabam mais, num estado de estresse que já parece ser rotineiro. Essa aparente normalidade é despedaçada quando ele recebe uma ligação da esposa no meio da tarde, questionando o porquê da filha do casal não ter sido deixada na creche conforme o combinado. A partir de então, o mundo de Michal desaba. Apesar da lembrança vívida de tê-la deixado lá, a realidade é outra: ele esqueceu a criança dentro do carro, presa à cadeirinha, sob um sol implacável e uma temperatura desumana. O desfecho é irremediável: quando ele corre até o carro, encontra a menina morta.


A mudança no tom do filme causa um impacto imediato e sufocante no espectador. Milan Ondrík entrega uma atuação impressionante, transitando com precisão entre o homem absorvido pelas pressões do trabalho e alguém completamente devastado após a perda da filha, uma dor que é ainda mais agravada pela consciência de sua própria culpa no ocorrido. A cena em que essa tragédia se concretiza é uma das mais perturbadoras e potentes do cinema recente, daquelas que ficam martelando na cabeça muitos dias depois de assistir ao filme. 

Outro grande acerto da direção é mostrar a forma como a esposa de Michal lida com a tragédia. Mesmo desesperada, e com a consciência de que a morta da filha poderia ter sido evitada, ela engole a dor para demonstrar uma empatia inesperada pelo marido, pois no fundo sabe que Michal jamais teria feito isso de maneira proposital. É uma reação muito humana, talvez até incompreensível para alguns. Os dias que se seguem após a tragédia também não são nada fáceis para o casal, como acontece sempre em situações como esta. Uma das cenas mais marcantes neste processo é quando eles precisam retirar na delegacia o veículo onde a menina veio a óbito, uma função burocrática que inevitavelmente causa uma grande comoção em ambos.

Apesar do drama intenso, em momento algum a direção cai em armadilhas narrativas e apela para o sentimentalismo barato, e a dor dos personagens, assim como a culpa devastadora que Michal carrega, é tratada com um realismo cru e respeitoso. Quando o filme pula para o julgamento de Michal no tribunal, surge mais um dilema moral: será que existe punição maior do que carregar, para o resto da vida, a culpa da morte trágica da sua única filha? O próprio Michal diz não se importar com o resultado, já que isso jamais trará sua filha de volta, e é impossível não sentir a dor por trás desta declaração.


Esse questionamento ecoa para além da tela e atinge diretamente o espectador, sobretudo porque casos como esse existem fora da ficção, e nem sempre são recebidos com empatia. Father não oferece respostas fáceis, mas nos obriga a encarar uma das faces mais dolorosas da condição humana: a de que, às vezes, a tragédia nasce não da maldade, mas do cansaço, da falha e da fragilidade que define a nossa trajetória.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Crítica: The Ballad of Wallis Island (2025)

Quem nunca sonhou em chamar seu artista favorito para um show exclusivo? Esse desejo improvável se torna realidade para Charles (Tim Key), um homem solitário que vive em uma pequena ilha do Pacífico Sul e decide usar o dinheiro ganho na loteria para contratar uma apresentação particular de seu ídolo, o cantor Herb McGwyer (Tom Basden).


A trama de The Ballad of Wallis Island começa com a chegada de Herb à ilha, feita de barco, em meio a um cenário tão belo quanto isolado. Ele está indo ao local ciente de que fará um show intimista para uma plateia de pelo menos cem pessoas. Por muitos anos, Herb teve uma parceria musical de sucesso com sua ex-esposa, Nell (Carey Mulligan), mas o duo terminou quando o casal se separou. Desde então, ele tenta se firmar em uma carreira solo, mas vem sofrendo financeiramente para produzir um novo disco. Logo, a oferta de meio milhão de libras, feita pelo morador da ilha, é irrecusável.

A grande reviravolta ocorre com a chegada inesperada de Nell à ilha. Charles não era apenas fã de Herb, mas do duo que ele formava com a ex-esposa, e seu verdadeiro desejo sempre foi vê-los tocar juntos novamente — nem que fosse apenas para aquela reunião privada. Nell, por sua vez, parece lidar com a situação de forma leve e madura, chegando acompanhada de seu novo marido e disposta a ensaiar com Herb. Ele, no entanto, se sente enganado e inicialmente resiste à ideia, mas mais uma vez acaba cedendo por razões financeiras. O reencontro desperta lembranças e sentimentos mal resolvidos, especialmente em Herb, mas isso não é suficiente para ressuscitar a antiga química musical entre os dois. A falta de sintonia evidencia que certas conexões pertencem ao passado, e o filme utiliza esse impasse para refletir sobre a natureza da arte: ela não pode ser forçada, planejada ou comprada, pois depende de um estado emocional e criativo que nem sempre pode ser recriado.

A parte musical do filme é cativante, mas o personagem mais carismático da narrativa é Charles. Seu fanatismo pelos cantores fica evidente nos recortes de jornais e revistas que guarda com carinho, nos discos e pôsteres de shows espalhados pela casa, além de conhecer absolutamente tudo sobre a vida pessoal de Herb e Nell. No entanto, pouco a pouco, o filme revela que seu desejo obsessivo por este show de reunião vai muito além deste simples fanatismo: ele está profundamente ligado à memória de sua ex-esposa, falecida precocemente em decorrência de um doença, e que por sua vez era ainda mais fã do que ele. Tim Key equilibra com delicadeza o humor e o drama, construindo um personagem genuíno, ingênuo e profundamente humano.

Por fim, The Ballad of Wallis Island é um filme pequeno em escala, que não ambiciona grandes viradas narrativas nem um apuro técnico exuberante. Ainda assim, agrada justamente por sua simplicidade: pelas músicas melancólicas, pelas paisagens deslumbrantes e, sobretudo, pela sensibilidade com que aborda temas como luto, memória e a impossibilidade de reviver o que já passou.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Crítica: Hamnet - A Vida Antes de Hamlet (2026)


Que Romeu e Julieta é a peça de William Shakespeare mais lembrada por todos, isso é praticamente incontestável. No entanto, a frase "Ser ou não ser, eis a questão", de A Tragédia de Hamlet, é, sem dúvida alguma, a mais conhecida e repetida de toda a obra do dramaturgo. Dirigido por Chlóe Zhao (de Nomadland), Hamnet: A Vida Antes de Hamlet se baseia no livro homônimo escrito por Maggie O'Farrell, e mostra como uma tragédia familiar influenciou a criação de uma das obras mais emblemáticas da história.



O filme deixa claro desde o início que Shakespeare não é o centro da narrativa. Aliás, seu nome sequer é mencionado até quase o final da história. O foco recai sobre sua esposa, Agnes (Jessie Buckley), uma personagem da história da qual pouco se tem registros. Zhao a apresenta como uma mulher introspectiva, profundamente conectada à natureza e marcada por traumas antigos, como a perda precoce da mãe. Essa relação quase espiritual com o ambiente ao seu redor funciona como uma forma de sobrevivência emocional, até que sua rotina é interrompida pela chegada de William (Paul Mescal), um homem que está dando aulas de latim pra crianças do vilarejo.

É justamente nesse ponto que o filme começa a tropeçar. A construção do relacionamento entre Agnes e William soa apressada e pouco orgânica. Do primeiro encontro ao casamento, passando pelo beijo repentino, a rejeição das famílias e o nascimento dos filhos, tudo acontece com muita rapidez, o que impede qualquer envolvimento mais profundo com os personagens. Mesmo com um ritmo de montagem lento, a narrativa parece ansiosa demais em avançar etapas, o que enfraqueceu, pelo menos para mim, o impacto emocional dos acontecimentos futuros.


Com o passar do tempo, William começa a se transformar no Shakespeare que conhecemos, viajando constantemente para a cidade grande em busca de reconhecimento como dramaturgo. No entanto, esse processo também é retratado de forma superficial, e em nenhum momento o filme transmite a sensação de estarmos acompanhando o verdadeiro nascimento de um gênio artístico. Durante uma dessas viagens, seu filho Hamnet acaba sucumbindo à peste, vindo a óbito. A tragédia, irreversível, marca um novo ponto de ruptura na vida de Agnes, mais uma vez devastada pela perda, e mais uma vez sozinha.

Infelizmente, Zhao parece pesar mais do que deveria no sentimentalismo. Diferente do naturalismo delicado que marcou Nomadland, o drama aqui soa menos espontâneo, como se a diretora estivesse constantemente buscando provocar lágrimas no espectador mais sensível. A dor pela perda de um filho é, por si só, um acontecimento de impacto avassalador, que não precisaria de tantos sublinhados emocionais para funcionar. Além disso, o filme flerta com o fantástico em alguns momentos, o que acaba afastando a narrativa de um realismo mais cru e comprometendo sua força dramática.


A obra se propõe a refletir sobre a transformação da dor em arte, sobre como o luto pode ser transfigurado em criação, no entanto, essa abordagem encontra um desequilíbrio ao tratar o sofrimento de Shakespeare, que estava ausente no momento da morte do filho. Embora sua dor não seja menor, a narrativa já está tão ancorada na experiência de Agnes que a presença de William em cena parece fria, distante e até deslocada. Essa assimetria emocional gera um estranhamento, enfraquecendo a reflexão final sobre o impacto da tragédia na obra do autor.

É claro que o filme tem seus momentos assertivos e pontos positivos, e o principal deles é a atuação magistral de Jessie Buckley. Ela em cena é um acontecimento, e acaba se tornando o verdadeiro eixo emocional do filme. Seus olhares, suas expressões e seus gestos comunicam uma dor profunda com uma intensidade quase palpável, tornando impossível desviar a atenção sempre que Agnes ocupa o quadro. As crianças também estão incrivelmente bem, com destaque para Jacobi Jupe, que faz o menino Hamnet.


Por fim, Hamnet: A Vida Antes de hamlet é uma obra visualmente delicada, com pequenos momentos sensíveis e bonitos, mas emocionalmente irregular, que toca em temas universais como luto, memória e criação artística sem conseguir explorá-los em toda a sua complexidade. Acaba sendo eficaz como retrato do sofrimento silencioso de uma mulher, mas não como reflexão sobre a gênese de uma das maiores tragédias da literatura.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Crítica: A Voz de Hind Rajab (2026)

Não é exagero dizer que existem filmes capazes de provocar um desconforto quase físico em quem assiste. Não por serem ruins, mas justamente por serem tão reais, tão humanos, que nos obrigam a encarar, sem filtros, o mundo em que estamos inseridos. A Voz de Hind Rajab (The Voice of Hind Rajab) é mais um drama devastador da cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, conhecida por seu cinema de forte viés social, e se debruça sobre uma história real ocorrida na Faixa de Gaza.

O filme nos coloca dentro do Cento de Chamadas de Emergência do Crescente Vermelho Palestino, localizado em Ramallah, na Cisjordância, onde voluntários atendem diariamente dezenas de chamadas telefônicas pedindo socorro em meio à guerra. A narrativa se concentra em um único dia de janeiro de 2024, quando o exército israelense tomou a cidade de Tel Al-Hawa e decretou a evacuação total da população palestina da região. Em meio aos ataques, Omar (Motaz Malhees) atende à ligação de uma mulher presa dentro de um carro no fogo cruzado, chamada que se encerra abruptamente após o som de disparos.

Logo, ele descobre que a pessoa com quem estava falando foi morta pelos tiros, assim como todos os seus familiares que estavam junto no mesmo veículo. No entanto, no meio dos cadáveres, há uma sobrevivente: Hind Rajab, uma menina de seis anos de idade, que passa a se corresponder com Omar e seus colegas Rana (Saja Kilani), Nisreen (Clara Khoury) e Mahdi (Amer Hlehel) por telefone, enquanto a equipe tenta, desesperadamente, encontrar uma solução para furar o bloqueio e resgatá-la com vida. A ligação da prima de Hind Rajab, e posteriormente a comunicação da menina com o grupo, permeia todo o tempo da tela, e em diversos momentos a diretora opta por colocar a gravação original da ligação, fazendo com que o som cru do desespero ecoe na tela sem edição.

Em nenhum momento vemos a menina em tela, apenas sua foto, e tão pouco o local onde ela está ilhada. No entanto, os sons ouvidos na ligação, como tiros ao fundo, tanques passando e gritos distantes, são suficientes para criar uma atmosfera de angústia insuportável. Mesmo restrito fisicamente ao espaço do centro de operações, o filme assume um ritmo frenético, já que cada minuto sem resgate se transforma em uma eternidade. As barreiras burocráticas impostas para autorizar uma operação de salvamento urgente, sobretudo envolvendo uma criança, sufocam e indignam. Os socorristas querem agir imediatamente, mas estão presos a regras, protocolos e negociações que, paradoxalmente, colocam em risco tanto a vítima quanto aqueles que tentam salvá-la.

Se há algum ponto questionável na obra, talvez esteja nas atuações. Não a ponto de comprometer o impacto final, mas a escolha por manter a mesma intensidade dramática do início ao fim impede uma progressão emocional mais gradual. Esse efeito é potencializado pelo uso constante de closes nos rostos e nas expressões dos personagens, decisão que, embora coerente com a proposta claustrofóbica, acaba por nivelar o drama em um único tom. Por fim, A Voz de Hind Rajab é uma obra que recusa o conforto, e que ao misturar ficção com a realidade, se torna um registro doloroso da desumanização causada pela guerra, transformando uma simples ligação telefônica em um grito impossível de ignorar, e com um final que ficará pra sempre na minha memória.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Crítica: Drácula: Uma História de Amor Eterno (2025)

A história do Conde Drácula é amplamente conhecida. Desde os primórdios do cinema, incontáveis adaptações do romance de Bram Stoker chegaram às telas, seja sob o nome do próprio vampiro ou na figura icônica de Nosferatu. De volta aos cinemas após Dogman (2023), o diretor francês Luc Besson (de O Quinto Elemento e O Profissional) decide apresentar sua própria versão do mito, e embora tenha passado despercebido pelo grande público nos cinemas, Drácula: Uma História de Amor Eterno tem suas qualidades, em um filme esteticamente grandioso e narrativamente ambicioso.

A trama tem início em 1480, quando Drácula (Caleb Landry Jones) ainda não havia se tornado a criatura lendária que conhecemos. Príncipe da Valáquia, na região da atual Romênia, Vlad era respeitado tanto por sua posição na aristocracia quanto por sua devoção à Igreja Católica. Nesse período, ele vive uma paixão arrebatadora por Elisabeta (Zöe Bleu), amor plenamente correspondido e responsável por lhe conferir uma sensação de plenitude absoluta. No entanto, após a morte violenta da amada, Vlad renuncia a Deus em um ato de fúria e desespero, desencadeando a maldição que lhe concede a imortalidade e o transforma em vampiro.

Quatrocentos anos se passam, e o agora Conde Drácula vive isolado em seu castelo monumental. Durante muitos anos ele viajou o mundo tentando encontrar Elisabeta em outras mulheres, temente de que ela reencarnaria a qualquer momento. No entanto, ele nunca obteve sucesso, o que foi lhe deixando cada vez mais melancólico e recluso. A esperança ressurge quando ele fica sabendo da existência de Mina, uma jovem idêntica à Elisabeta, que vive em Paris e está noiva de Jonathan (Ewens Abid).

Embora a estética gótica remeta diretamente ao clássico Drácula de Bram Stoker (1992), de Francis Ford Coppola, Luc Besson imprime aqui uma assinatura bastante particular. O diretor aposta em elementos fantasiosos e quase barrocos, como gárgulas que ganham vida e servem como “empregados” do conde, além de sequências de dança que evocam musicais performáticos. O resultado é um visual exuberante e mais imaginativo do que o habitual, que casa com um ritmo frenético que não deixa o filme cair na monotonia. A fotografia é encantadora, bem como o figurino e os cenários, todos criados com muito esmero nos detalhes.

Na parte das atuações, o destaque é Caleb Landry Jones, ator que admiro e acompanho de perto desde o ótimo e desconhecido Nitram (2021). Sua interpretação confere ao Drácula um caráter ambíguo, oscilando entre a melancolia profunda e uma sedução quase trágica. Aqui, o vampiro deixa de ser apenas uma figura enigmática para assumir plenamente o papel de um amante condenado, movido pelo luto e pelo desejo eterno.

Diferentemente de outras versões do personagem, o filme dá um peso maior à questão religiosa, explorando o conflito entre fé, culpa e redenção, e acredito que este seja o seu único ponto fraco, sobretudo no desfecho raso que vai diretamente ao encontro desta abordagem do diretor. Entretanto, é inevitável dizer que Drácula: Uma História de Amor Eterno é uma experiência singular, em uma obra que une terror, romance e até mesmo ação com competência e apuro técnico.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Crítica: Família de Aluguel (2026)


Após uma volta por cima na carreira, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator em 2023 por seu papel em A Baleia, Brendan Fraser volta às telas em Família de Aluguel (Rental Family), uma comédia dramática leve e simpática que se propõe a refletir sobre a solidão no mundo moderno. Porém, apesar da boa intenção e de um ponto de partida instigante, o filme acaba se perdendo em soluções fáceis e em uma sucessão de clichês que infelizmente enfraquecem seu impacto.

A trama acompanha Phillip (Fraser), um ator estadunidense que alcançou fama inesperada no Japão após estrelar um comercial viral de pasta de dente. Anos depois, ainda vivendo no país, ele enfrenta dificuldades para conseguir novos papéis na indústria audiovisual. Para sobreviver, ele passa a trabalhar em um curioso ramo: o de atores contratados para se passarem por membros da família de seus clientes. Seja substituindo um parente falecido, representando um pai ausente em uma apresentação escolar ou simplesmente ocupando o lugar de um amigo em eventos sociais, sua função é encarnar essas figuras por algumas hora, ou até mesmo por dias.

Embora possa soar exótico aos nossos olhos, o serviço de “aluguel de família” é real e relativamente comum no Japão, e o tema já havia sido abordado em 2019 por Werner Herzog no ótimo Uma História de Família. Phillip nunca se sente plenamente confortável com o trabalho, mas o conflito moral se intensifica quando ele é contratado para interpretar o pai de Mia (Shannon Gorman), uma menina de doze anos que nunca conheceu o genitor biológico. Para que a garota possa concorrer a uma vaga na escola, a presença paterna se torna necessária, então sua mãe (Mari Yamamoto) decidi contratar Phillip. 

No entanto, para que a menina não tenha que ter o trabalho de mentir junto, ela pede que Phillip não conte nada para ela, e finja que é, de fato, o seu pai verdadeiro voltando para casa depois de muitos anos. A partir daí, o roteiro passa a explorar a relação entre Phillip e Mia, cujo prazo de validade somente um deles conhece. Enquanto isso, o protagonista também cruza o caminho de Kikuo (Akira Emoto), um ator aposentado que enfrenta a perda gradual da memória. Ao ajudá-lo a revisitar lembranças de sua antiga carreira, o filme ensaia uma reflexão sensível sobre a importância da memória na construção da identidade e dos vínculos humanos, em um dos momentos mais genuínos da narrativa.

Entre os vários temas que aborda, Família de Aluguel fala sobretudo da solidão na sociedade contemporânea, em que a fragilidade dos laços afetivos leva indivíduos a recorrerem a relações fabricadas para preencher vazios emocionais. É uma proposta pertinente e atual, mas que infelizmente se dilui nas escolhas da diretora Hikari, que aposta em um tom excessivamente melodramático. O resultado é um filme ingênuo demais, que prefere emocionar pela obviedade em vez de confiar na complexidade de suas próprias ideias.