quinta-feira, 25 de junho de 2026

Crítica: O Afinador (2026)


Dirigido por Daniel Graham em sua estreia em longas-metragens, O Afinador (Tuner) parte de uma premissa curiosa, ao transformar um profissional que normalmente atua nos bastidores da música em peça fundamental de uma trama criminal. Misturando drama, suspense e elementos de filmes de assalto, a obra explora uma habilidade incomum de seu protagonista para construir tensão e conduzir a história por caminhos cada vez mais perigosos.


O filme acompanha Niki (Leo Woodall), que cresceu como um prodígio do piano. As circunstâncias da vida, porém, o fizeram abandonar a carreira ainda jovem e, hoje, ele trabalha como afinador de pianos ao lado de seu mentor, o experiente Harry Horowitz (Dustin Hoffman). O ofício exige um ouvido extremamente apurado, e isso Niki possui de sobra, sendo capaz de identificar qualquer nota ou frequência sonora com precisão impressionante. Paradoxalmente, Niki sofre de hiperacusia, uma condição que provoca extrema sensibilidade auditiva e o obriga a utilizar fones e abafadores de ruído o tempo inteiro para suportar os sons cotidianos. 

O conceito se torna ainda mais interessante porque a profissão retratada raramente recebe atenção no cinema, ou mesmo fora dele. Embora seja de conhecimento geral que pianos necessitam de manutenção periódica, poucas pessoas já tiveram contato com um afinador ou sabem exatamente como funciona esse trabalho. O filme se aproveita dessa familiaridade distante para construir uma premissa que soa simultaneamente inusitada e plausível, despertando curiosidade sobre um universo pouco explorado.

Por conta de suas habilidades, Niki acaba recebendo um convite incomum de Uri (Lior Raz), líder de uma gangue que pratica assaltos a grandes residências. Por conseguir ouvir o som quase imperceptível dos mecanismos internos das fechaduras, e consequentemente violar os cofres com certa facilidade, ele se torna uma peça valiosa para o grupo criminoso, e inicialmente aceita o trabalho motivado pela necessidade de ajudar financeiramente Harry, que está hospitalizado entre a vida e a morte enquanto acumula uma extensa dívida médica. O ponto central do filme é justamente este: transformar uma profissão aparentemente simples no elemento chave de uma trama de assalto. O envolvimento de Niki com o grupo criminoso, no entanto, rapidamente sai do controle. Depois de obter o dinheiro que precisava, ele tenta abandonar aquela vida, mas passa a ser chantageado pelos criminosos, que sabem o quanto suas habilidades são essenciais para o sucesso das operações.

O roteiro opta por caminhos bastante previsíveis, recorrendo a coincidências e conveniências narrativas em diversos momentos. No entanto, a forma como Graham trabalha a questão do som e da música, sempre centrando a narrativa na percepção auditiva de seu protagonista, evita que ele se torne superficial. Há sequências em que a imersão sonora é realmente impactante, como se o espectador estivesse compartilhando a mesma condição de Niki, ouvindo cada detalhe, cada ruído e cada interferência com intensidade ampliada. Esse recurso não apenas fortalece a tensão, mas também potencializa a essência da obra.

O próprio protagonista também desperta questionamentos ao longo da narrativa, e seu passado é envolto em mistério. Niki aparenta ser um homem profundamente solitário, marcado por acontecimentos que nunca são completamente revelados ao público. Seu principal ponto de transformação surge a partir da relação com a talentosa pianista Ruthie (Havana Rose Liu), e da necessidade de impedir que suas escolhas comprometam o futuro promissor dela. É nesse conflito que o filme encontra sua dimensão mais humana, indo além da simples mecânica dos assaltos para explorar culpa, responsabilidade e a busca por redenção.

Se há uma fragilidade evidente na narrativa, ela está em alguns personagens coadjuvantes. Harry, interpretado por Dustin Hoffman, acaba sendo utilizado de maneira bastante limitada. Apesar do peso que sua presença exerce sobre as decisões de Niki, o personagem raramente ultrapassa a função de oferecer conselhos ocasionais, comentários espirituosos e pequenas doses de humor. Fica a impressão de que sua participação existe mais para emprestar ao filme o prestígio de um dos nomes mais consagrados de Hollywood do que para desempenhar um papel verdadeiramente relevante dentro da trama.


Por fim, mais do que um thriller sobre roubos, O Afinador acaba funcionando também como uma reflexão sobre talentos que podem se transformar em fardos. A mesma sensibilidade auditiva que torna Niki extraordinário é também aquilo que o distancia das pessoas e o conduz para situações das quais parece impossível escapar. Uma obra envolvente, que mesmo recheada de clichês, se sustenta pela premissa original e por uma abordagem sonora capaz de transformar até mesmo o mais discreto dos ruídos em uma fonte constante de tensão.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Crítica: Um Triste e Belo Mundo (2025)


Longa-metragem de estreia do libanês Ciryl Aris, Um Triste e Belo Mundo (Nujum Al'Amal W Al'Alam) foi o representante do país na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025. A obra apresenta uma história que, em essência, demonstra o quão desafiador pode ser o amor quando ele precisa sobreviver às instabilidades de um país mergulhado em crises, onde o dia de amanhã é sempre uma incógnita.


Yasmina (Mounia Akl) e Nino (Hasan Akil) nasceram praticamente ao mesmo tempo, em meio a um bombardeio da Guerra Civil Libanesa que atingiu a maternidade onde estavam. O dia ficou marcado na história por dois opostos: de um lado, um massacre ocorrido no país deixava o mundo em choque; do outro, o país comemorava o lançamento do primeiro foguete, que alavancava sua corrida espacial. É neste cenário de contrastes que os dois chegam ao mundo, sem imaginar que seus destinos permaneceriam conectados pelos próximos trinta anos.

Após mostrar a infância de Yasmina ao lado da família, o filme avança cerca de duas décadas e passa a acompanhar Nino já adulto, administrando um restaurante. Para quem assistiu à série The Bear, o ambiente da cozinha remete imediatamente ao mesmo clima de tensão constante: gritos, correria e caos. Ao deixar o trabalho dirigindo, ele tem a visão prejudicada por objetos que atingem o para-brisa e acaba invadindo um estabelecimento, ferindo uma mulher. Após prestar socorro, ele a acompanha até o hospital e, tentando amenizar os ânimos exaltados da família, oferece um jantar gratuito para todos. O que não esperava era descobrir que a filha da vítima era justamente Yasmina, transformando um acontecimento aparentemente trágico em mais um divisor de águas na trajetória dos dois.


Com uma narrativa não linear, o longa também retorna à época em que Nino e Yasmina eram crianças e se tornaram grandes amigos na escola. O vínculo parecia inquebrável, até que as circunstâncias da vida os separaram por milhares de quilômetros. A premissa é simples, mas profundamente humana em sua execução. Aqui, o Líbano não funciona apenas como cenário, mas como um personagem ativo da trama. As crises econômicas, políticas e sociais que marcaram o país ao longo das décadas moldam diretamente os caminhos dos protagonistas e influenciam cada etapa de sua relação, e o espectador acompanha diferentes fases desse vínculo em paralelo às transformações e tragédias que atingem a nação, tornando impossível dissociar a história de amor do contexto que a envolve.

Além do caos externo, ambos também cresceram em ambientes familiares conturbados, o que contribuiu para aproximá-los ainda mais. Yasmina passou a infância testemunhando as constantes brigas dos pais, enquanto Nino perdeu a família muito cedo em um acidente devastador. Embora tenham passado mais de três décadas sem notícias um do outro, o reencontro traz à tona memórias, cicatrizes e questionamentos que o tempo jamais foi capaz de apagar. Mais do que uma história sobre coincidências ou reencontros, o filme reflete sobre a permanência dos laços afetivos mesmo quando tudo ao redor parece desmoronar.


Por fim, o título da obra sintetiza perfeitamente sua essência. O mundo retratado por Ciryl Aris é, de fato, triste, marcado por guerras, perdas, crises e incertezas, mas também é belo, justamente porque mesmo diante de tantas adversidades, ainda existe espaço para o amor, para a esperança e para as conexões humanas.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Crítica: Erupcja (2025)


Em polonês, Erupcja significa "erupção", e este fenômeno natural é um elemento crucial na trama do novo filme de Pete Ohs, protagonizado pela cantora britânica Charli XCX e pela atriz e produtora polonesa Lena Góra, que interpretam duas personagens cuja conexão extrapola o físico e que nem o passar dos anos e a distância foram capazes de dissolver.


Com um narrador onipresente, que comenta detalhes importantes sobre os personagens que estamos vendo em tela, o filme começa nos apresentando à Nel (Lena), que herdou uma floricultura de sua mãe e trabalha no local desde jovem. Em paralelo, conhecemos o casal Bethany (Charli) e Rob (Will Madden), que acabaram de chegar à Varsóvia vindos de Londres e se hospedam em um Airnbnb no centro da cidade. Enquanto ela cresceu na capital polonesa, seu namorado está conhecendo a cidade pela primeira vez, e ambos possuem expectativas diferentes para a viagem: ele quer aproveitar o poder sentimental que a cidade exerce em Bethany para pedi-la em casamento, enquanto ela quer se reencontrar com Nel, com quem tem uma relação estreita e intensa desde a adolescência.

É nítido, desde o início do filme, que Bethany carrega consigo algumas inquietações, que nem ela mesma consegue compreender completamente. Desta forma, a viagem acaba se tornando não apenas um reencontro com o passado, mas uma espécie de fuga emocional. Ela sabe que será pedida em casamento pois encontrou as alianças antes da viagem, e entrou em modo de pânico diante da perspectiva de tomar uma decisão para a qual não se sente preparada. Trata-se de uma personagem cujas atitudes aparentam ser imaturas e até mesmo repulsivas, mas que claramente não age por maldade. Bethany é apenas uma criatura perdida na vida, incapaz de entender os seus desejos e que, inevitavelmente, arrasta quem está ao seu lado junto neste turbilhão.


O ponto central da trama, no entanto, é a relação entre Bethany e Nelka, que aos poucos se revela muito mais complexa do que uma simples amizade. Há um elemento quase místico envolvendo as duas: desde que se conheceram aos dezesseis anos, toda vez que se reencontram, algum vulcão entra em erupção em alguma parte do mundo. Este, inclusive, é um dos argumentos utilizados por Bethany para justificar por que não vê Rob como seu parceiro ideal, já que com ele, segundo suas palavras, "não existem erupções". 

Simbolicamente, os vulcões funcionam como uma representação daquilo que existe de mais intenso dentro dessas duas mulheres. Quando Bethany afirma que com Rob não existem erupções, ela não está necessariamente dizendo que não o ama, mas que aquela relação não desperta nela a mesma sensação de descoberta e intensidade que Nel provoca. Pete Ohs conduz essa história com delicadeza, evitando transformar o filme em um romance convencional ou em um drama centrado em um triângulo amoroso, até porque o que une Bethany e Nel não é completamente explicado, permanecendo envolto por uma atmosfera de mistério que torna a experiência ainda mais intrigante.

Charli XCX entrega uma boa estreia como protagonista, na pele desta personagem impulsiva, inquieta e difícil de decifrar. Já Nel é uma figura cuja presença marca profundamente cada cena em que aparece, e não por acaso, parece estar constantemente atraindo a atenção das pessoas ao seu redor. Há algo de magnético em sua postura, uma combinação de confiança e vulnerabilidade que Lena Góra interpreta com enorme naturalidade. Uma curiosidade interessante é que o diretor declarou, recentemente, que todos os atores trabalharam de forma colaborativa no roteiro, determinando os rumos dos seus próprios personagens, e talvez seja justamente por isso que as relações apresentadas em tela soem tão orgânicas.


Entre romance, drama e realismo mágico, Erupcja constrói um retrato sobre pessoas que tentam compreender seus próprios desejos enquanto lidam com as expectativas que a vida adulta impõe. Assim como um vulcão pode permanecer silencioso durante anos antes de explodir, o filme sugere que alguns sentimentos jamais desaparecem por completo, eles apenas aguardam o momento certo para voltar à superfície.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Crítica: Sinta-se Em Casa (2025)


Marcando a estreia do húngaro Gábor Holtai na direção de longas-metragens, Sinta-se em Casa (Feels Like Home) é um thriller psicológico claustrofóbico e extremamente instigante, que parte de uma premissa quase alegórica para construir uma contundente metáfora da sociedade húngara contemporânea e dos mecanismos que sustentam regimes opressores.


A trama acompanha Rita (Rozi Lovas), uma mulher que acaba de ser demitida da loja de calçados onde trabalhava após o abrupto encerramento das atividades do estabelecimento. Ao sair do local, ela é sequestrada por um homem desconhecido e acorda horas depois, amarrada e amordaçada em um quarto escuro e sem mobílias. Seu algoz é Marci (Áron Molnár), um homem que insiste em dizer que Rita é, na verdade, sua irmã desaparecida, e que ele não a sequestrou, apenas a trouxe de volta para casa. Ele inclusive a chama por outro nome, Szilvi, e a pune severamente cada vez que ela nega ser quem ele procurava.

Logo, assumir o papel que lhe é imposto deixa de ser uma escolha e passa a ser uma questão de sobrevivência, mas a falsa identidade é apenas a porta de entrada para uma situação muito mais estranha e perturbadora. Aceitando que é Szilvi, ela conquista o "direito" de conviver com o restante da família Árpád, composta por irmãos, tios e, sobretudo, o pai (Tibor Szérvet), responsável por comandar toda aquela dinâmica. Aos poucos, ela descobre que, com exceção do patriarca, todos os demais integrantes também são prisioneiros da mesma encenação. Todos são pessoas que, em algum momento, também foram obrigadas a cumprirem aqueles papéis, e se adaptaram a isso. 

Quando Rita percebe que a figura de Szilvi ocupa uma posição privilegiada aos olhos do pai, em comparação com os demais, ela passa a explorar essa condição estrategicamente, manipulando as regras daquele ambiente para enfraquecer a autoridade do patriarca e encontrar uma saída não apenas para si, mas para todos os que vivem sob aquele sistema. A partir daí, o filme brinca constantemente com a percepção de verdade e de poder, e trabalha sem pressa na construção de seus mistérios, tornando a jornada de compreensão da protagonista bastante verossímil. O diretor evita revelações apressadas e reviravoltas artificiais, permitindo que cada descoberta surja de maneira orgânica, e o resultado é um roteiro que sustenta muito bem a tensão, até chegar a um desfecho que desafia a lógica convencional mas que, de forma alguma, soa incoerente.

O aspecto mais interessante do filme é que ele não se sustenta apenas pela violência física, mas principalmente pela pressão psicológica provocada pela perda da própria identidade. À medida que os personagens abrem mão de quem são para sobreviver, tornam-se peças fundamentais na manutenção do próprio sistema que os aprisiona, até que, de maneira natural, também se tornam opressivos e cruéis. Nesse sentido, a família retratada pelo filme se transforma em uma representação inquietante de regimes autoritários, nos quais a opressão se sustenta tanto pela força quanto pela internalização de comportamentos e discursos que normalizam a submissão.

Crítica: Garça-Azul (2026)


Longa metragem de estreia da diretora canadense Sophy Romvari, Garça-Azul (Blue Heron) é um retrato extremamente sensível de sua própria infância, que transforma um drama familiar muito íntimo em um potente relato sobre amor, família, empatia e o poder que a arte tem de resgatar fragmentos da memória.


O filme começa nos apresentando a uma família húngara, composta por um casal (Ádám Tompa e Iringó Réti) e seus quatro filhos, que se muda para o Canadá em meados dos anos anos 1990. A história é contada sob a perspectiva de Sasha (Eylul Guven), de apenas oito anos, que observa atentamente tudo que acontece à sua volta. Em meio a mais uma mudança de endereço, os pais de Sasha precisam lutar para manter a harmonia dentro da família, enquanto seu filho mais velho, Jeremy (Edik Beddoes), vem apresentando comportamentos cada vez mais erráticos, autodestrutivos e perigosos. Sem amigos e bastante isolado, ele demonstra enorme sensibilidade em alguns momentos com a família, mas ao mesmo tempo, suas atitudes são sempre imprevisíveis, tornando-o uma incógnita para todos ao seu redor.

Em um dia, Jeremy sai sem rumo de casa; em outro, retorna algemado, acusado de cometer pequenos furtos. Ora deita na calçada, chamando a atenção dos vizinhos, ora sobe no telhado em meio a uma crise emocional. São atitudes aparentemente pequenas, mas que aumentam progressivamente a preocupação dos pais, não apenas pelo bem-estar do filho, mas também pelos impactos que tudo aquilo pode causar nos irmãos mais novos. Tudo isso em uma época em que ainda havia pouca compreensão e discussão sobre tratamentos adequados para casos semelhantes.


Enquanto as demais crianças se encantavam com os novos lugares a conhecer e os novos amigos a fazer, Sasha parecia ser a única que percebia que algo não estava bem, mesmo sem possuir maturidade suficiente para compreender exatamente o que era. Se a primeira metade do filme transcorre na década de 1990, a segunda promove uma ruptura significativa ao apresentar Sasha já adulta (agora interpretada por Amy Zimmer), tentando reconstruir as memórias daquele período para realizar um filme. Cineasta reconhecida, ela decide contar a história do irmão por meio de um documentário, o que a leva de volta aos lugares onde cresceu e viveu boa parte dos acontecimentos retratados anteriormente.

Em busca de respostas, Sasha revisita suas lembranças por meio de visitas aos locais da infância, consulta arquivos produzidos pela assistente social que acompanhava a família e entrevista especialistas contemporâneos para tentar entender se Jeremy recebeu o tratamento adequado na época ou se algo mais poderia ter sido feito. Nesse momento, Blue Heron passa a se aproximar mais do documentário do que da ficção, e torna-se evidente que Sasha é uma representação da própria Romvari, assim como o filme que ela tenta realizar é, em essência, o mesmo que estamos assistindo.

Ao reconstruir a trajetória do irmão, Romvari não busca apenas explicações clínicas para seu comportamento, mas também entender como aquela experiência moldou toda a dinâmica familiar. O filme observa com sensibilidade o papel dos pais, divididos entre a culpa, a preocupação constante e a sensação de impotência diante de uma situação para a qual pareciam não existir respostas adequadas. Por isso, os questionamentos feitos mais de vinte anos depois carregam um peso emocional genuíno: seria possível ter feito mais? Ou aquela família simplesmente lidou com as limitações de conhecimento e suporte existentes na época?


Por fim, Romvari demonstra enorme maturidade ao transformar uma história tão pessoal em uma obra capaz de dialogar com qualquer espectador. Sua abordagem evita soluções fáceis, julgamentos ou sentimentalismos excessivos, e o resultado é um filme delicado e profundamente humano, que encontra na memória não apenas um espaço de dor, mas também uma possibilidade de compreensão e reconciliação.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Crítica: O Mandaloriano e Grogu (2026)


O ambiente intergaláctico de Star Wars, criado por George Lucas em meados dos anos 1970, volta e meia é revisitado por meio de continuações e spin-offs, seja na televisão ou nos cinemas. Dentro deste universo, uma das produções mais aclamadas nos últimos anos foi a série The Mandalorian, criada por Jon Favreau, que acompanha um caçador de recompensas e seu inseparável "bebê Yoda", Grogu. Agora, em 2026, a dupla enfim ganhou sua aventura nas telonas, mas o resultado infelizmente se mostra frustrante, esquecível e bastante genérico em sua composição.


A trama de O Mandaloriano e Grogu, assim como a série, se passa após a queda do Império, retratada em O Retorno de Jedi (1983). Nela, acompanhamos o mandaloriano Din Djarin (Pedro Pascal), trabalhando à serviço da Nova República como uma espécie de justiceiro encarregado de caçar criminosos de guerra remanescentes da Era Imperial. Ao seu lado, está o seu aprendiz, o pequeno Grogu, que é da mesma raça do lendário Mestre Yoda, e que apesar de pequenino, tem o poder de dominar a "Força". Aqui, o roteiro pressupõe que o espectador já conhece a relação dos dois, e não se preocupa em contextualizar absolutamente nada. O filme inicia sem apresentações, e a escolha acaba criando uma barreira para novos espectadores, como se a intenção fosse apenas agradar aqueles que já são fiéis à série.

Sendo assim, logo na primeira cena vemos a dupla no meio de um conflito, onde Djari e Grogu invadem e destroem uma nave de remanescentes imperiais. Ao retornar à base da Nova República, eles recebem uma nova missão da Coronel Ward (Sigourney Weaver), líder da resistência que ajudou a derrubar o antigo regime e personagem de relevância histórica na saga Star Wars. A missão consiste em viajar até uma galáxia distante para capturar o Comandante Coyne, ex-oficial imperial que continua representando uma ameaça. Antes disso, porém, eles precisam resgatar Rotta, filho do lendário gângster Jabba, que está sendo mantido em cativeiro por seus próprios tios. Em posse de informações valiosas, ele será peça fundamental para localizar Coyne, embora convencê-lo a colaborar esteja longe de ser uma tarefa simples.


Visualmente, o filme mantém o padrão técnico elevado que se tornou marca registrada das produções recentes da franquia. Os efeitos especiais impressionam, os cenários apresentam escala grandiosa e o design de criaturas e veículos continua sendo um dos pontos fortes. O problema é que toda essa competência estética serve a uma narrativa incapaz de justificar sua própria existência dentro da saga. O roteiro não consegue escapar da narrativa episódica, e isso afeta muito o ritmo do filme. Os "capítulos" são tão bem delimitados que parecem episódios costurados uns aos outros, com conflitos que começam e terminam rapidamente antes que o próximo segmento entre em cena. A sensação constante é a de estar assistindo a uma temporada condensada, e não a uma obra concebida para o cinema, como se o filme estivesse sempre "recomeçando".

Para piorar, a relação entre os personagens é extremamente superficial. Não há desenvolvimento significativo, tampouco qualquer esforço para tornar Din Djarin mais interessante além da figura do guerreiro mascarado e invencível, transformando-o em uma espécie de "Rambo espacial" cuja jornada não consegue despertar curiosidade ou empatia. O mesmo não acontece com Grogu, que continua sendo o principal responsável pelos poucos momentos genuinamente divertidos do longa. Sua aparência e comportamento ainda despertam simpatia instantânea, e o roteiro lhe concede mais participação nas decisões e nos acontecimentos do que fazia na série.. Ainda assim, o personagem permanece limitado a um papel funcional, incapaz de sustentar sozinho o peso da narrativa.


Por fim, O Mandaloriano e Grogu soa como um projeto concebido mais por necessidade comercial do que por inspiração criativa. Para os fãs mais dedicados da série, a experiência talvez funcione como uma continuação confortável e familiar, mas para quem espera encontrar uma aventura capaz de justificar a transição para as telonas, resta apenas um espetáculo visual competente, porém vazio, que dificilmente deixará qualquer marca duradoura dentro da já extensa galáxia de Star Wars.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Crítica: Era Uma Vez Minha Mãe (2025)


Mchikpara é uma expressão de origem judaico-árabe que significa "dou minha vida por você", e poucas formas de amor traduzem tão bem esse sentimento quanto o amor de uma mãe, que vence barreiras físicas e emocionais e faz o possível e o impossível pelo bem dos seus filhos. É sobre essa devoção incondicional que fala Era Uma Vez Minha Mãe (Ma Mère, Dieu et Sylvie Vartan), filme delicado do cineasta canadense Ken Scott, que se baseia na autobiografia do advogado e apresentador de televisão francês Roland Perez.


Na trama, é o próprio Roland quem narra a história de sua mãe, Esther (Leïla Bekhti), desde o ano em que ele nasceu, em 1963. Sexto filho de uma família de judeus radicada na França, o menino veio ao mundo com uma deformidade no pé direito, que segundo os médicos, o condenaria ao uso permanente de aparelhos ortopédicos. Rejeitando aceitar esse prognóstico, Esther tenta todas as formas que acredita serem possíveis para reverter a situação, e entre consultas com especialistas, tratamentos experimentais e orações diárias diante de um altar improvisado, ela se agarra praticamente sozinha à esperança de um milagre que parece nunca chegar, já que a figura paterna se mostra quase nula.

Roland cresce praticamente recluso dentro de casa, onde aprende a ler e escrever com a ajuda dos seus irmãos. O mundo exterior ele acompanha através da televisão, onde passa quase 24 horas do seu dia com os olhos grudados na programação. Enquanto isso, Esther encontra uma renomada médica disposta a tentar um tratamento inovador, alimentando a esperança de que o filho possa finalmente conquistar a mobilidade que lhe foi negada desde o nascimento. A partir daí, toda a rotina da família passa a girar em torno de sua recuperação, que é feita no próprio conforto do lar.

Por influência de uma das irmãs, Roland descobre a cantora Sylvie Vartan, tornando-se rapidamente um admirador apaixonado pela sua obra. Quando a artista sofre um grave acidente de carro e luta pela própria sobrevivência, sua história passa a servir de inspiração para o garoto, que encontra nela um exemplo de força e resiliência. Um fato curioso é que, já na vida adulta, Roland viria a trabalhar muito próximo de sua maior referência, sendo mais do que apenas um colaborador, mas um amigo e confidente.


Mesmo que em alguns momentos o filme flerte com o melodrama, Ken Scott demonstra sensibilidade suficiente para não permitir que a história se torne totalmente manipuladora. O diretor encontra equilíbrio entre humor, emoção e esperança, transformando uma trajetória marcada pela dor e pela superação em uma celebração da perseverança humana. Por fim, mais do que um relato sobre deficiência, Era Uma Vez Minha Mãe é uma homenagem comovente à força transformadora do amor materno.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Crítica: Michael (2026)


O subgênero das cinebiografias musicais vem sofrendo um desgaste ano após ano, com muitas ideias recicladas e roteiros preguiçosos, mas ainda sobrevive graças ao apelo popular em cima de grandes nomes da música e a pequenos respiros de originalidade trazidos por alguns cineastas. Dentro desta realidade controversa, surgiram obras muito boas recentemente, como Rocketman (Elton John) e Um Completo Desconhecido (Bob Dylan), mas também outras deploráveis, como Bob Marley: One Love (Bob Marley) e Back to Black (Amy Winehouse), que nem de perto faziam jus aos artistas retratados. Dentro deste contexto, dá para dizer que Michael, dirigido por Antoine Fuqua, fica exatamente no meio-termo dessa divisão, pois mesmo sem abrir mão de diversos clichês do gênero, o longa possui grandes acertos narrativos e momentos de genuína potência estética e musical.


O filme acompanha uma boa parte da história do "Rei do Pop", Michael Jackson, desde sua infância em Gary, Indiana, onde começou a cantar com seus irmãos no Jackson Five, até o momento em que passa a brilhar em carreira solo já na década de 1980. Quem interpreta Michael na fase infantil é Juliano Valdi, que demonstra muita competência, tanto nas sequências musicais quanto no controle dramático necessário para retratar uma infância conturbada e emocionalmente complexa. O filme desde cedo cria uma espécie de antagonismo para o pai dos garotos, Joe (Colman Domingo), que com a obsessão de vê-los se tornar um fenômeno musical, exige perfeição absoluta e pune severamente qualquer falha. De acordo com os relatos do próprio Michael em vida, o filme até suaviza parte dessas agressões paternais, que na vida real teriam sido muito mais graves e violentas do que apenas "surras de cinto".

Mesmo diante do comportamento agressivo do pai, o grupo consegue se manter unido e passa a ganhar cada vez mais espaço nas mídias, se tornando um grande sucesso, sobretudo pela voz, pelo carisma e pela desenvoltura do menino Michael em cima dos palco. O roteiro consegue trabalhar muito bem os conflitos internos e externos de Michael nesta fase, e também ilustrar referências que serviriam mais tarde como referência nas suas músicas e na sua estética visual. É ainda nesta fase que o filme também constrói a bonita relação de afeto entre Michael e sua mãe, Katherine (Nia Long), que não concordava com a agressividade do pai mas se via impotente diante da situação.


Quando o filme avança para a fase adulta, surge aquele que talvez seja seu maior trunfo: Jafar Jackson, sobrinho de Michael na vida real, que não apenas interpreta o cantor, mas praticamente o incorpora. Sua performance vai muito além da simples imitação, recriando voz, trejeitos, movimentos, olhares e até a energia física do artista com uma precisão impressionante. É algo que talvez a genética explique, mas a semelhança é tão absurda, que não é difícil imaginar, em diversos momentos, que estamos vendo o próprio Michael em cena, como se estivéssemos em documentário de sua carreira.

Outro ponto forte do filme, e não seria para menos, são suas sequências musicais. Fuqua aproveita ao máximo a presença magnética de Jafar e transforma o longa em um verdadeiro espetáculo audiovisual. Além das apresentações ao vivo, as recriações dos bastidores de videoclipes icônicos, como das músicas Beat It e Thriller, certamente estão entre os momentos mais marcantes do filme. Michael sempre foi conhecido pelo seu apreço pelo cinema, o que explica seus videoclipes grandiosos e muito bem elaborados, e o filme explora muito bem essa sua parte criativa, mostrando como ele era um artista completo.


Ao longo do filme, também ficamos conhecendo algumas figuras importantes da trajetória de Michael, como a executiva Suzanne de Passe, que foi essencial para que os irmãos assinassem com a Motown Records, e Bill Bray, chefe de segurança do cantor entre 1971 e 1996, que mais do que um protetor do artista, também se tornou um amigo e confidente. Outro ponto que o filme explora era o amor de Michael por animais, digamos, exóticos. Aparecem dividindo a casa com ele um ratinho, uma lhama, uma jiboia e até mesmo uma girafa, além é claro, do mais conhecido de todos, o chimpanzé Bubbles, que viveu por muitos anos com Michael e fez várias aparições públicas ao seu lado.

Sem transformar isso em discurso panfletário, o roteiro também toca sucintamente na questão do racismo estrutural presente na indústria musical da época, que em meados dos anos 1980, ainda não dava o espaço merecido à artistas negros. Com o lançamento de Billie Jean, a situação mudou, já que o videoclipe passou a ser amplamente exibido em canais como a MTV, abrindo caminhos para tantos outros.


Por fim, o que falta de ousadia para tratar aspectos mais polêmicos da vida de Michael, sobra em potência e, sobretudo, em respeito à figura retratada. Cada aparição do cantor em cena é tratada como um evento, deixando evidente não apenas o tamanho do artista em sua época, mas também sua permanência no imaginário das gerações futuras. Independente de qualquer controvérsia, é legal demais ver a música de Michael chegar aos jovens de hoje em dia através do filme. Isso, por si só, já faz obras como essa se tornarem necessárias. Agora resta esperar pela sequência, prevista para ser lançada nos próximos anos, e que deve mostrar os últimos anos de Michael.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Crítica: Tatame (2025)


Esporte e política muitas vezes andam de mãos dadas, por mais que muita gente insista que uma coisa não tem nada a ver com a outra. De exemplos históricos, como Jesse Owens desafiando a narrativa nazista em frente a Adolf Hitler nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, ou Muhammad Ali sendo banido dos ringues por se recusar a lutar na Guerra do Vietnã, até episódios recentes, como a seleção iraniana optando por não cantar o hino nacional durante a Copa do Mundo de 2022, o esporte sempre foi atravessado por disputas ideológicas, tensões diplomáticas e manifestações de resistência.


Inspirado em acontecimentos reais, a trama de Tatame (Tatami) gira em torno de Leila Hosseini (Arienne Mandi), uma judoca talentosa que está defendendo a seleção do Irã no Campeonato Mundial do esporte, que acontece em Tbilisi, capital da Geórgia. Com altas chances de ganhar uma medalha, a atleta vai vencendo suas adversárias e avançando na competição, mas o sucesso no tatame é atravessado por uma ordem vinda diretamente do governo iraniano: ela deve perder propositalmente ou abandonar o torneio antes de enfrentar uma atleta israelense.

O verdadeiro conflito, neste caso, não está na competição esportiva, mas no peso psicológico imposto à protagonista. Diferente dos tradicionais dramas esportivos, em que a superação depende exclusivamente da força de vontade do atleta, aqui existe um obstáculo impossível de ser vencido apenas com talento ou determinação. Leila até tenta resistir às ordens estatais, mas sabe que qualquer decisão sua pode colocar a própria família em risco. E o filme acerta ao compreender que, em regimes autoritários, o controle raramente se limita ao indivíduo: ele se estende também aos vínculos afetivos, transformando o medo em instrumento de coerção.


Essa atmosfera opressiva é construída com enorme eficiência pela direção. A fotografia em preto e branco não surge apenas como escolha estética, mas como elemento para amplificar a sensação constante de claustrofobia e vigilância. A cada nova luta vencida por Leila, a tensão aumenta gradualmente, como se cada passo rumo à medalha e à glória também aproximasse a personagem de uma tragédia inevitável. O roteiro alterna o avanço da competição com cenas da família sendo pressionada no Irã, além de apresentar pequenos flashbacks que revelam fragmentos de uma vida cotidiana aparentemente comum. Isso ajuda a humanizar ainda mais os personagens e reforçar o peso de viver em um país onde até conquistas pessoais podem se transformar em ameaças políticas.

Zar Amir Ebrahimi, que ganhou reconhecimento internacional após Holy Spider, entrega uma atuação especialmente forte como Maryam, treinadora de Leila. É através dela que o filme amplia sua discussão sobre ciclos de repressão e trauma. Maryam já viveu situação semelhante no passado e entende perfeitamente o que significa abrir mão da própria carreira, dos próprios sonhos e da própria identidade em nome da sobrevivência. Sua presença adiciona uma camada melancólica ao longa, como alguém que enxerga em Leila a repetição de uma violência que nunca deixou de existir.


Mais do que um filme sobre judô, Tatame se revela um thriller sufocante sobre autoritarismo, controle estatal e resistência silenciosa. Ao transformar o espaço esportivo em um campo de batalha moral, o longa evidencia como regimes opressivos tentam controlar até mesmo aquilo que deveria simbolizar mérito. E justamente por partir de uma situação tão específica, o filme encontra uma dimensão universal poderosa: a de indivíduos obrigados a escolher entre seus sonhos e sua própria sobrevivência.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Crítica: Provas de Amor (2026)


Marcando a grande estreia atrás das câmeras da diretora e roteirista Alice Douard, Provas de Amor (Des Preuves D'Amour) é um filme sensível e modesto sobre maternidade, pertencimento e reconhecimento afetivo, que sem recorrer a grandes melodramas ou conflitos artificiais, encontra força justamente na simplicidade com que observa as inseguranças e fragilidades de suas personagens.


O filme se passa em Paris, no ano de 2014. Enquanto rodam os créditos iniciais, uma voz anuncia, com muita comemoração ao fundo, a aprovação da lei que oficializa o casamento entre pessoas do mesmo sexo na França. Logo em seguida, passamos a acompanhar o casal formado por Céline Steyer (Ella Rumpf) e Nadia Hamadi (Monia Chokri). Céline é mais jovem e trabalha como DJ e produtora musical, enquanto Nadia tem uma carreira sólida como dentista. Com a possibilidade do casamento ser finalmente reconhecido pelo Estado, elas decidem ter um filho juntas e, em comum acordo, Nadia é escolhida para engravidar por meio de inseminação artificial.

A burocracia da nova legislação, no entanto, ainda impõe barreiras cruéis às duas. Mesmo casadas legalmente, Céline não pode simplesmente ter seu nome incluído na certidão de nascimento da criança: para ser reconhecida como mãe, ela precisa entrar com um processo formal de adoção. O processo, entretanto, se mostra bastante moroso e desgastante. Para seguir adiante, o casal precisa reunir quinze testemunhas dispostas a depor a favor da adoção, além de enfrentar uma infinidade de documentos, entrevistas e comprovações. 

Enquanto Nadia lida com as limitações físicas e emocionais de uma gravidez já avançada, Céline corre contra o tempo para conquistar algo que deveria ser básico: o direito de também ser reconhecida como mãe. É justamente aí que o filme encontra sua dimensão mais sensível. Céline sente o bebê como seu tanto quanto Nadia, mas a impossibilidade de experienciar a gestação faz surgir dúvidas, inseguranças e uma sensação constante de deslocamento. Em relações heteronormativas, os papéis de pai e mãe costumam ser automaticamente legitimados pela própria estrutura social; aqui, porém, Céline se vê obrigada a descobrir e reivindicar o seu lugar o tempo inteiro.


A situação se torna ainda mais dolorosa quando pessoas externas à relação começam a fazer perguntas invasivas ou comentários aparentemente inocentes, mas carregados de julgamento, transformando um momento que deveria ser de felicidade em uma experiência marcada pela ansiedade. Douard conduz tudo isso com enorme delicadeza, evitando transformar suas protagonistas em símbolos ou porta-vozes de discursos. O filme funciona justamente porque trata essas mulheres como pessoas reais, cheias de pequenas contradições, fragilidades e afetos cotidianos.

Outro aspecto especialmente tocante está na relação de Céline com sua mãe, interpretada por Noémie Lvovsky, uma pianista de sucesso que esteve ausente durante boa parte de sua vida. Mais uma vez, o filme retorna à ideia de maternidade, agora sob a perspectiva de alguém que abriu mão da presença constante em nome da carreira, mas que, ainda assim, jamais deixou de amar a filha. Essa relação adiciona novas camadas ao longa, ampliando sua reflexão sobre o que realmente define uma mãe: a biologia, a presença, o cuidado ou o afeto.


Sem grandes excessos, mas com uma força emocional singular, Provas de Amor encanta justamente pela honestidade com que observa suas personagens. Alice Douard transforma uma discussão social em algo profundamente humano, íntimo e universal, realizando um filme sobre maternidade que fala, acima de tudo, sobre o desejo fundamental de amar e ser reconhecido como família.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Crítica: O Drama (2026)


Dirigido pelo norueguês Kristoffer Borgli, dos instigantes Doente de Mim Mesma (2022) e O Homem dos Sonhos (2023), O Drama (The Drama) é daqueles filmes que funcionam especialmente melhor quando vistos sem qualquer informação prévia do roteiro. A surpresa aqui se torna essencial, e é justamente ela que faz a obra ser uma das mais desconfortáveis e provocativas do ano, ao mesmo tempo em que também é uma das experiências mais engraçadas e inquietantes.


Na trama, acompanhamos Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson), um jovem casal apaixonado que vive todas as expectativas e ansiedades que surgem às vésperas do tão esperado casamento. Enquanto Charlie escreve o discurso que fará durante a cerimônia, diversos flashbacks revelam o início da relação e suas principais fases, quase sempre marcadas por momentos genuinamente felizes. A química entre os dois atores é evidente, o que torna a relação instantaneamente convincente, fazendo com que o espectador rapidamente compreenda por que eles desejam construir uma vida juntos.

Tudo transcorre normalmente até que, durante uma brincadeira aparentemente inocente em um jantar com os amigos Mike (Mamoudou Athie) e Rachel (Alana Haim), Emma revela algo de seu passado impossível de ser recebido com indiferença. Obviamente, não entrarei em spoilers, mas trata-se de uma revelação extremamente sensível dentro do contexto social norte-americano. A revelação imediatamente altera toda a dinâmica da noite, instaurando um desconforto crescente que abala as estruturas aparentemente sólidas do relacionamento.


O filme, que inicialmente assume a atmosfera leve de uma comédia romântica, rapidamente se transforma em um drama denso sustentado por uma poderosa alegoria moral. É impossível não se questionar sobre o que faríamos ao descobrir a pior coisa que a pessoa que amamos já fez na vida. Os limites morais aqui são constantemente desconstruídos, e Borgli demonstra inteligência ao não buscar respostas fáceis ou julgamentos definitivos, mas sim, provocar o espectador a refletir sobre culpa, perdão e a dificuldade de separar alguém de seus próprios erros.

Mesmo abalados, Emma e Charlie precisam continuar lidando com os preparativos do casamento, como escolher figurinos, definir o cardápio, organizar ensaios fotográficos e decidir a trilha sonora da cerimônia, enquanto a relação lentamente se deteriora entre quatro paredes sob o peso da dúvida. Paralelamente, Emma tenta explicar-se, insistindo que já não é mais a mesma pessoa de anos atrás e oferecendo motivos bem plausíveis para compreensão de suas ações passadas. Mas até que ponto isso é suficiente? Afinal, existe uma linha moral que, uma vez ultrapassada, torna impossível enxergar outra pessoa da mesma maneira?


Um dos grandes destaques do filme é a atuação de Robert Pattinson, que mais uma vez demonstra uma impressionante versatilidade ao interpretar um personagem emocionalmente complexo e dividido entre amor, repulsa e desejo de compreensão. Entre momentos de humor constrangedor e diálogos carregados de tensão, O Drama constrói um retrato honesto sobre como relacionamentos podem ser abalados não apenas por traições ou mentiras, mas pela simples percepção de que talvez nunca conheçamos completamente quem está ao nosso lado.