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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Especial Óscar: os filmes estrangeiros que fizeram sucesso na premiação

Faltam poucos dias para a 92ª edição do Óscar, e um nome em especial vem chamando muito a atenção: Parasita, do sul-coreano Bong Joon-ho. Indicado em seis categorias, Parasita é apenas o oitavo filme em língua não-inglesa da história a concorrer também na categoria de melhor filme, e para muitos é o favorito para fazer história e se tornar o primeiro a vencer o prêmio principal. Pensando nisso, resolvi pesquisar e trazer para vocês uma lista com filmes que, assim como Parasita, também concorreram em categorias do Óscar além da de melhor filme estrangeiro. Confira:


Marie-Louise, de Richard Schweizer (Suíça) - Óscar de 1946
O longa suíço foi primeiro filme em língua não-inglesa da história a aparecer no Óscar, e já se saiu bem ao conquistar a estatueta de melhor roteiro original, feito que serviu para que finalmente a Academia começasse a abrir os olhos para enxergar e reconhecer o cinema feito em outros países.

Roma - Cidade Aberta, de Roberto Rossellini (Itália) - Óscar de 1947
Um ano depois, o clássico de Roberto Rossellini, que mostrava a Itália durante o final da ocupação nazista, concorreu como melhor roteiro adaptado. Foi a primeira participação de um filme italiano no Óscar, antes do país se tornar o maior detentor de indicações e vitórias ao longo dos anos.

Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica (Itália) - Óscar de 1950
O filme de Vittorio de Sica concorreu como melhor roteiro adaptado além de ter levado para casa a estatueta de melhor filme estrangeiro (que nesta edição ainda era entregue como um prêmio honorário, sem haver competição com outros longas).

A Estrada da Vida, de Federico Fellini (Itália) - Óscar de 1957
O filme de Fellini foi indicado também como melhor roteiro original, mas venceu apenas como melhor filme estrangeiro nesta edição, que marcou como sendo a primeira em que a Academia finalmente oficializou esta categoria, transformando-a em algo competitivo.

O Balão Vermelho, de Albert Lamorisse (França) - Óscar de 1957
No mesmo ano, o francês O Balão Vermelho conquistou o prêmio de melhor roteiro original, mesmo sem estar concorrendo como melhor filme estrangeiro.

Umberto D., de Vittorio de Sica (Itália) - Óscar de 1957
Ainda em 1957, outro filme italiano se fez presente na premiação, e também fora da categoria de filme estrangeiro: Umberto D., obra-prima do italiano Vittorio de Sica, que concorreu a melhor história original (prêmio que já foi extinto).

Os Boas Vidas, de Federico Fellini (Itália) - Óscar de 1958
A comédia de Fellini concorreu na categoria de melhor roteiro original em 1958, mas saiu sem a vitória. Curiosamente, Fellini conquistaria o Óscar de melhor filme estrangeiro nesta mesma edição com outro filme, Noites de Cabíria.

Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman (Suécia) - Óscar de 1960
O filme de Bergman não chegou a concorrer como melhor filme estrangeiro neste ano, mas estava na categoria de melhor roteiro original. Foi a primeira participação do cineasta no Óscar, que depois viria a ser indicado mais onze vezes, vencendo em três.

Os Incompreendidos, de François Truffaut (França) - Óscar de 1960
Considerado por muitos o grande filme da carreira de Truffaut, o drama concorreu na categoria de melhor roteiro original, e só não representou a França na categoria de melhor filme estrangeiro porque concorria com Orfeu Negro, que inclusive se sagrou como grande vencedor.

A Doce Vida, de Federico Fellini (Itália) - Óscar de 1962
A Doce Vida de Fellini foi o primeiro estrangeiro a concorrer em quatro categorias no Óscar, mas curiosamente não estava na de melhor filme estrangeiro (algumas coisas no Óscar são realmente difíceis de se entender). O filme foi indicado a melhor diretor, melhor roteiro original, melhor direção de arte e melhor figurino, saindo vencedor apenas desta última.

Através de um Espelho, de Ingmar Bergman (Suécia) - Óscar de 1962
Com Através de um Espelho, Bergman conquistou a primeira das suas três vitórias na categoria de melhor filme estrangeiro. O filme também concorreu como melhor roteiro original.

A Balada do Soldado, de Grigori Chukhrai (União Soviética) - Óscar de 1962
Outro filme que concorreu a melhor roteiro original em 1962 foi o soviético A Balada do Soldado, que numa injustiça (provavelmente pelas questões políticas da época) ficou de fora na categoria de melhor filme estrangeiro.

Divorcio à Italiana, de Pietro Germi (Itália) - Óscar de 1963
Outro caso de um filme que não concorreu como melhor filme estrangeiro mas que concorreu em outras categorias é o de Divórcio á Italiana, que foi indicado a melhor diretor, melhor roteiro e melhor ator (Marcello Mastroianni) em 1963.

8 1/2, de Federico Fellini (Itália) - Óscar de 1964
Fellini voltou ao Óscar dois anos depois de A Doce Vida e levou seu filme mais autobiográfico (para muitos a sua obra-prima) a cinco categorias da premiação: melhor diretor, melhor roteiro original, melhor direção de arte, melhor figurino e melhor filme estrangeiro. O filme fez história ao se tornar o primeiro em outra língua a ganhar dois prêmios na mesma noite: melhor filme estrangeiro e melhor figurino.

Um Homem, Uma Mulher, de Claude Lelouch (França) - Óscar de 1967
O grande sucesso da carreira de Claude Lelouch concorreu em quatro categorias, incluindo melhor direção e melhor atriz (Anouk Aimée), e saiu vencedor em duas: melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original.

A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo (Itália) - Óscar de 1969
No ano que ficou marcado por uma grande mudança de perspectiva do cinema em Hollywood, o filme ítalo-argelino concorreu em melhor diretor e melhor roteiro original, mas não conseguiu vencer em nenhuma das duas. Curiosamente, o filme já havia concorrido como melhor filme estrangeiro, mas em 1966, três anos antes.

Z, de Constantin Costa-Gavras (Argélia) - Óscar de 1970
O filme de Costa-Gavras fez história ao se tornar o primeiro em língua estrangeira a concorrer também na categoria principal do Óscar, a de melhor filme, fato que só se repetiu mais sete vezes (1973, 1974, 1999, 2001, 2013, 2019 e agora em 2020). Perdeu para Perdidos da Noite, mas venceu em outras duas: melhor filme estrangeiro (primeira filme africano a ganhar este prêmio) e melhor edição. O filme ainda concorreu em melhor roteiro original e melhor diretor.

Satyricon, de Federico Fellini (Itália) - Óscar de 1971
Depois de ser esnobado no Óscar de melhor filme estrangeiro em 1970, a comédia satírica e ousada de Fellini concorreu em apenas uma categoria no Óscar de 1971, justamente na de melhor diretor.

O Jardim dos Finzi-Contini, de Vittorio de Sica (Itália) - Óscar de 1972
O drama de Vittorio de Sica foi indicado em duas categorias, a de melhor filme estrangeiro e a de melhor roteiro original, saindo vencedor apenas da primeira.


O Discreto Charme da Burguesia, de Luis Bunuel (França) - Óscar de 1973

O filme do espanhol Luis Bunuel representou a França na categoria de melhor filme estrangeiro e também concorreu como melhor roteiro original, mas venceu apenas na primeira.

Os Emigrantes, de Jan Troell (Suécia) - Óscar de 1973
O drama sueco surpreendeu a todos na edição de 1973 ao concorrer em cinco categorias, incluindo a de melhor filme. Também concorreu em melhor diretor e melhor atriz (Liv Ulmann), porém não venceu nada.

Gritos e Susurros, de Ingmar Bergman (Suécia) - Óscar de 1974
O maior sucesso de Bergman no Óscar concorreu em cinco categorias, incluindo a de melhor filme principal. Curiosamente, não concorreu na categoria de melhor filme estrangeiro, por uma opção da Academia, mas saiu vencedor na de melhor fotografia.

A Noite Americana, de François Truffaut (França) - 1974/1975
O filme de Truffaut concorreu em dois Óscar diferente, em 1974 como melhor filme estrangeiro, e em 1975, como melhor diretor, melhor roteiro original e melhor atriz coadjuvante (Valentina Cortese).

Amarcord, de Federico Fellini (Itália) - Óscar de 1975/1976
A última participação de Fellini no Óscar foi com Amarcord, que foi indicado em dois anos diferentes. Em 1975, concorreu e venceu como melhor filme estrangeiro. Já em 1976, concorreu como melhor diretor e melhor roteiro original, não tendo vencido em nenhuma das duas.

Pasqualini Sete Belezas, de Lina Wertmuller (Itália) - Óscar de 1977
O filme foi indicado em quatro categorias, melhor filme estrangeiro, melhor diretor, melhor ator (Giancarlo Giannini) e melhor roteiro original, mas curiosamente perdeu em todas, inclusive na de melhor filme estrangeiro (para o marfinense La Victoire de Chantant) onde era o grande favorito.

Cousin, Cousine, de Jean-Charles Tacchella (França) - Óscar de 1977
O filme concorreu a três Óscar, melhor filme estrangeiro, melhor roteiro original e melhor atriz (Marie-Christine Barrault), mas não ganhou nenhum.

Face a Face, de Ingmar Bergman (Suécia) - Óscar de 1977
Face a Face concorreu em duas categorias no ano de 1977; melhor diretor e melhor atriz (Liv Ulmann), e ficou de fora justamente na de melhor filme estrangeiro.

Esse Obscuro Objeto do Desejo, de Luis Bunuel (Espanha) - Óscar de 1978
O filme de Bunuel foi indicado a melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original em 1978, mas perdeu nas duas categorias.

Sonata de Outono, de Ingmar Bergman (Suécia) - Óscar de 1979
Sonata de Outono é mais um filme do sueco Ingmar Bergman que não concorreu a melhor filme estrangeiro, mas que estava presente na categoria de melhor roteiro original.

A Gaiola das Loucas, de Édouard Molinaro (França) - Óscar de 1980
A comédia Ítalo-francesa concorreu a três Óscar em 1980, melhor diretor, melhor roteiro adaptado e melhor figurino, mas não ganhou nenhum.

O Barco - Inferno no Mar, de Wolfgang Petersen (Alemanha) - Óscar de 1983
O filme alemão concorreu em cinco categorias no Óscar de 1983, incluindo melhor diretor e melhor roteiro adaptado, mas não se sagrou vencedor em nenhuma.

Fanny & Alexander, de Ingmar Bergman (Suécia) - Óscar 1984
Essa foi a terceira vez que Ingmar Bergman concorreu e venceu como melhor filme estrangeiro, mas o filme foi ainda além. Ganhou também nas categorias de melhor figurino, melhor fotografia e melhor direção de arte, sendo até aquele ano o filme estrangeiro mais bem sucedido na premiação.

Ran, de Akira Kurosawa (Japão) - Óscar de 1986
Considerado o maior diretor da história do cinema japonês, Akira Kurosawa teve pouco reconhecimento no Óscar. Com Ran ele concorreu a melhor diretor, além de melhor direção de arte, melhor fotografia e melhor figurino, vencendo apenas nesta última.

A História Oficial, de Luis Puenzo (Argentina) - Óscar de 1986
O argentino A História Oficial foi o primeiro filme sul-americano a concorrer no Óscar fora da categoria de filme estrangeiro. O filme de Luis Puenzo também foi indicado como melhor roteiro original.

Minha Vida de Cachorro, de Lasse Halmstrom (Suécia) - Óscar de 1988
O drama do sueco Lasse Halmstrom, que lançou sua carreira, foi indicado em duas categorias no Óscar de 1988: melhor diretor e melhor roteiro adaptado.

Pelle, O Conquistador, de Bille August (Dinamarca) - Óscar de 1989
O drama dinamarquês venceu como melhor filme estrangeiro e ainda concorreu na categoria de melhor ator, com Max von Sydow. Curiosamente foi o segundo ano seguido que a Dinamarca ganhou na categoria, tendo vencido em 1988 com A Festa de Babette.

Indochina, de Régis Wargnier (França) - Óscar de 1993
Além de vencer como melhor filme estrangeiro, o drama emocionante de Régis Wargnier também concorreu na categoria de melhor atriz, com Catherine Deneuve.

A Fraternidade é Vermelha, de Krzysztof Kieslowski (Polônia) - Óscar de 1995
O filme, que faz parte da "trilogia das cores" do cineasta Krzysztof Keislowski, concorreu a melhor diretor, melhor roteiro original e melhor fotografia, mas curiosamente não concorreu como filme estrangeiro.

A Vida é Bela, de Roberto Benigni (Itália) - Óscar de 1999
O filme italiano concorreu em sete categorias no Óscar de 1999, vencendo em três: melhor filme estrangeiro, melhor trilha sonora e melhor ator (Roberto Benigni). O filme também concorreu na categoria principal.


Central do Brasil, de Walter Salles (Brasil) - Óscar de 1999
Grande sucesso do nosso cinema, Central do Brasil concorreu em duas categorias no Óscar de 1999: melhor filme estrangeiro e melhor atriz (Fernanda Montenegro).

O Tigre e o Dragão, de Ang Lee (Taiwan) - Óscar de 2001
O Tigre e o dragão foi um grande marco na carreira do taiwanês Ang Lee, que já havia sido indicado duas vezes para melhor filme estrangeiro, mas que dessa vez foi indicado a nada mais nada menos do que dez prêmios, inclusive na categoria de melhor filme. O longa venceu em quatro: melhor filme estrangeiro, melhor trilha sonora, melhor direção de arte e melhor fotografia.


Cidade de Deus, de Fernando Meirelles (Brasil) - Óscar de 2004
Esnobado no Óscar de melhor filme estrangeiro em 2003, Cidade Deus voltou ao Óscar em 2004 concorrendo em quatro categorias: melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor fotografia e melhor montagem, sendo até o momento o brasileiro mais bem sucedido da história da premiação.

Amour, de Michael Haneke (Áustria) - Óscar de 2013
Após uma década de ostracismo dos filmes estrangeiros no Óscar, Amour, do Michael Haneke, apareceu concorrendo em cinco categorias, incluindo a de melhor filme, melhor diretor e melhor atriz (Emmanuelle Riva), e venceu apenas na de filme estrangeiro.

Roma, de Alfonso Cuarón (México) - Óscar de 2019
O último caso de filme estrangeiro fazendo sucesso no Óscar foi no ano passado, com o mexicano Roma, do diretor Alfonso Cuarón. O filme concorreu em dez categorias, e venceu em três: melhor diretor, melhor fotografia e melhor filme estrangeiro.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

10 filmes para festejar o Dia do Cinema Nacional

19 de junho é o dia do cinema nacional, e para comemorar e homenagear a data segue uma lista com dez filmes brasileiros que mudaram a forma de ver o nosso cinema, tanto aqui como no exterior, e que também me marcaram muito. Confira:

1. Anjos do Sol (2006)

Anjos do Sol, do diretor Rudi Legerman, é um dos filmes mais pesados que já assisti na vida. O enredo conta a história de Maria, uma menina de 12 anos, advinda de uma família miserável do sertão nordestino, que é vendida pelos pais e levada a um prostíbulo no meio da Amazônia. O filme choca ao mostrar uma realidade que não chega até nós, mas que é bastante comum em diversas partes do país. De um lado uma família arrasada por ter que optar pela venda de uma filha para poder sustentar os demais, do outro, uma menina que, tão cedo, perde a esperança no ser-humano ao ser vítima de verdadeiras atrocidades. Não é um filme fácil, mas é um filme extremamente necessário.

2. Eles Não Usam Black-Tie (1981)

Esse filme se torna ainda mais interessante quando analisamos a época em que foi lançado, já nos últimos anos de uma ditadura militar que acabou com direitos de todos os cidadãos. Influenciado pelos inúmeros movimentos grevistas que começaram a eclodir na época, Eles Não Usam Black-Tie acompanha Tião, um jovem operário que sempre fez parte dos movimentos sindicais mas que prefere furar uma greve com medo de perder o emprego, já que sua mulher está grávida. Isso gera um enorme conflito com seu pai, um líder militante que chegou a ser preso pelos militares.

3. Central do Brasil (1998)

Sendo o filme brasileiro mais premiado e reconhecido no exterior, Central do Brasil é uma obra-prima do nosso cinema. O enredo acompanha Dora, uma ex-professora que ganha a vida escrevendo cartas para quem não sabe escrever no maior terminal ferroviário do Rio de Janeiro, a Central do Brasil. Um dia ela acaba conhecendo Josué, um menino de nove anos de idade que acaba de perder a mãe num acidente e está perdido, e junto com ele inicia uma jornada pelo nordeste para encontrar seu pai. Simplesmente o maior papel da maior atriz do nosso cinema, Fernanda Montenegro.

4. O Auto da Compadecida (2000)

A aventura de João Grilo e Chicó é unanimidade e não poderia faltar na lista. Pobres, vivendo no meio do sertão, os dois usam toda sua esperteza para ganhar a vida aplicando golpes, que acaba dando errado quando a vítima é um famoso cangaceiro da região. Num encontro quase idílico com Nossa Senhora Aparecida e Jesus Cristo, eles passam a rever a vida e seus costumes. Baseado no livro de Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida é um dos filmes mais queridos por todos e uma obra genial do nosso cinema.

5. Teus Olhos Meus (2011)

Teus Olhos Meus, do diretor Caio Sóh, é um grande achado do cinema brasileiro atual. A trama acompanha Gil, um jovem músico de 20 anos cheio de sonhos e ideais, que alterna sua vida entre a música e a poesia. Expulso de casa por conta de seu estilo boêmio, Gil passa a vagar com seu violão pelas ruas do Rio de Janeiro até conhecer Otávio, um produtor musical que vai mudar sua vida de vez. Seu roteiro poético, seus diálogos e sobretudo a trilha sonora são o que verdadeiramente encantam nessa obra que, infelizmente, é pouco conhecida e reconhecida.

6. O Lobo Atrás da Porta (2013)

Quem disse que o cinema brasileiro não sabe criar uma obra intensa de suspense? O Lobo Atrás da Porta está aí pra provar o contrário. Com um roteiro cheio de reviravoltas, o filme inicia com o desaparecimento de uma criança, que faz com que seus pais vão até uma delegacia. Os dois depõe em separado e logo o delegado identifica que o marido possui uma amante, que também é chamada para depôr. É quando começa a ser descoberta uma rede de mentiras e vingança que, por mais que pareça, foge de todo e qualquer clichê.

7. Cidade de Deus (2002)

Outro filme brasileiro muito reverenciado no exterior é Cidade de Deus, filme que lançou o nome do diretor Fernando Meirelles para o mundo e concorreu a quatro Óscar. O enredo começa mostrando o nascimento das favelas do Rio de Janeiro nos anos 1970 até os dias atuais, acompanhando a figura de dois amigos que seguem destinos diferentes: Buscapé, um rapaz de bom coração que sonha ser fotógrafo, e Dadinho, que se torna um dos traficantes mais violentos da cidade.

8. Aquarius (2016)

Kléber Mendonça Filho é um dos nomes mais fortes e importantes do nosso cinema na atualidade, e não poderia deixar de citar um filme seu na lista. O enredo acompanha Clara, uma crítica de música aposentada de 65 anos, que é a única moradora de um condomínio que não aceita vender seu apartamento para uma construtora. Aquarius é, além de uma excelente crítica social, um verdadeiro tratado sobre a passagem do tempo e de tudo que acontece na vida de um ser-humano, que vai moldando seu caráter e sua visão de mundo ao longo dos anos. 

9. Tropa de Elite (2007)

Dirigido por José Padilha, Tropa de Elite é talvez o filme mais famoso dessa lista. Infelizmente muitos não levam a sério toda a crítica feita pelo filme, não dão muita atenção aos detalhes e até acham graça de algumas falas e cenas, mas é um dos filmes mais poderosos do nosso cinema quando se fala em crítica social. Padilha teve coragem de peitar instituições poderosas para mostrar os bastidores de uma realidade que a televisão mostrava todos os dias mas que a população, no geral, só conhecia de forma superficial.

10. Nise - O Coração da Loucura (2015)

Dirigido por Roberto Berliner, o filme é uma cinebiografia de Nise da Silveira, uma médica que mudou os rumos dos tratamentos psiquiátricos aplicados no Brasil. Insatisfeita com os métodos violentos e desumanos que eram usados para tratar a esquizofrenia nos anos 1950, Nise resolveu criar seu próprio método, utilizando música e arte e distribuindo amor ao invés de choques elétricos.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Os 20 Melhores Filmes Lançados no Brasil em 2017

Mais um ano chegou ao fim e é hora de fazer a famigerada lista dos melhores filmes lançados no Brasil neste período. Curiosamente, desde que comecei a fazer as listas de fim de ano, esta é a primeira vez que praticamente nenhum diretor consagrado está presente, o que mostra que há um mercado muito bom de jovens cineastas surgindo e fazendo seu nome, com ótimas histórias. Sem delongas, vamos à lista com os 20 melhores filmes que estrearam nos nossos cinemas em 2017:


20. Clash, de Mohamed Diab (Egito)


Conhecido pelo fantástico Cairo 678, o diretor Mohamed Diab volta a mostrar as ruas de Cairo, desta vez durante um dos momentos mais tensos do país nos últimos anos. Em 2013, logo após assumir o governo democraticamente, o presidente eleito pelo povo Mohamed Morsi foi derrubado pelo exército, o que causou uma série de protestos e atentados que literalmente botaram fogo na capital do Egito. Durante um destes protestos, algumas pessoas, de lados diferentes do conflito, acabam ficando presas dentro do camburão da polícia. A partir de então, toda a ação do filme acontece dentro deste espaço pequeno e claustrofóbico, mostrando um retrato nu e cru da população egípcia contemporânea e seus ideais.

19. Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi (EUA)

Em plena Guerra Fria, enquanto Estados Unidos e União Soviética travavam uma batalha pela supremacia na corrida espacial, dentro do território americano ocorria outra batalha: a pelos direitos civis, numa sociedade que ainda dividia negros e brancos em lugares públicos. Isso era refletido inclusive na NASA, onde um grupo de mulheres negras era obrigado a trabalhar em separado dos demais. Juntas, essas mulheres conseguiram vencer o preconceito e liderar um dos momentos mais importantes da era espacial americana, quando o país começou a enviar os primeiros homens em direção à lua.

18. Extraordinário, de Stephen Chbosky (EUA)

O que um filme precisa para tocar o meu coração? Simplicidade. E isso não falta em Extraordinário, filme baseado no best-seller de R. J. Palacio. Quem leu o livro sabe como é emocionante e ao mesmo tempo otimista a história de Auggie, um menino que nasceu com uma deformação facial, e o diretor conseguiu transferir ao filme esse mesmo sentimento. Interpretado brilhantemente por Jacob Tremblay (de O Quarto de Jack), Auggie precisa enfrentar o maior desafio de sua vida: entrar para a escola e ter que encarar os olhares de reprovação das outras crianças por conta de sua aparência.

17. The Discovery, de Charlie McDowell (EUA)

Algumas perguntas existenciais nunca abandonam o ser-humano. Até hoje ninguém foi capaz de responder de onde viemos, ou para onde vamos, por exemplo. O filme de Charlie McDowell foca na segunda pergunta, e mais polêmica de todas, e nos faz refletir sobre o que aconteceria se hoje fosse comprovado que existe vida após a morte. Logo que um cientista anuncia a descoberta, cresce exorbitantemente o número de suicídios pelo mundo, já que as pessoas começam a crer que suas "pós-vidas" serão muito melhores do que as vidas que levam na Terra. Como era de se esperar, o filme é pura filosofia, e talvez por isso tenha desagradado o público geral que o rejeitou fortemente. Mas uma coisa é certa: acreditando ou não no que o filme mostra, é impossível ficar indiferente ao que é abordado e não querer refletir sobre isso.

16. Era o Hotel Cambridge, de Eliane Cafféé (Brasil)

Centenas de famílias desabrigadas vivem no prédio abandonado onde um dia existiu o Hotel Cambridge, no centro de São Paulo. No local vivem brasileiros e estrangeiros vindos de todos os lugares, muitos fugindo de guerras e genocídios em seus países de origem. Misturando ficção com realidade, atores com moradores de verdade, o filme mostra o dia dia dessas pessoas, além de contar um pouco da história de cada um. São crianças e adultos, que juntos vivem um futuro incerto, principalmente quando chega uma ordem de reintegração de posse dando um prazo para eles saírem do local.

15. La Ragazza del Mondo, de Marco Danieli (Itália)

Em La Ragazza del Mondo, acompanhamos a vida da jovem Giulia (Sara Serraioco), uma jovem italiana que vive uma fase de descobertas, como é comum da idade, mas se sente presa pelo conservadorismo dos pais, testemunhas de jeová. Quando conhece um outro jovem da escola, completamente oposto a ela, Giulia começa a se soltar das amarras da família, mas nem tudo é como parece ser, já que o relacionamento se torna abusivo.


14. Star Wars: Os Últimos Jedi, de Rian Johnson (EUA)


40 anos depois do lançamento do primeiro filme, Star Wars voltou mais uma vez às telas para alegria de milhares e milhares de fãs espalhados pelo mundo. Na trama de Os Últimos Jedi, oitavo filme da saga, a resistência liderada pela princesa Leia vive dias difíceis. Obrigados a abandonar sua base principal após ataque da Primeira Ordem, eles vagam pelas galáxias fugindo dos caças do líder supremo Snoke, e a única forma de escapar é entrar dentro da nave inimiga para desativar seu dispositivo de rastreamento. Ao mesmo tempo, a jovem Rey passa a receber os ensinamentos do mestre Jedi Luke Skywalker em uma ilha isolada, enquanto descobre os poderes da força.


13. Mulheres Divinas, de Petra Biondina Volpe (Suíça)


Mulheres Divinas se passa nos anos 1970 e mostra a luta das mulheres pelo direito ao voto na Suíça, um dos últimos países do mundo a aceitar isso. Baseado em fatos reais, ele conta a história sob a perspectiva de Nora (Marie Leuenberg), uma dona de casa que mora com o marido e dois filhos em uma pequena aldeia. Por ser um local isolado, as mudanças que ocorreram no mundo nos últimos anos não chegou por aqui ainda, e os moradores vivem numa sociedade ainda machista e patriarcal, onde mulheres não tem direito a nada. Depois de ter contato com as ideias feministas, Nora passa a tentar trazer as outras mulheres da vila para unirem forças e mudar essa realidade.

12. Minha Vida de Abobrinha, de Claude Barras (França/Suíça)

Em plena era das animações ultrarrealistas, é lindo de ver um filme como Minha Vida de Abobrinha, todo feito com bonecos em Stop Motion e extremamente sensível. O filme acompanha o menino Icare, que prefere ser chamado de Abobrinha. Órfão de pai, ele vivia com a mãe alcóolotra até a morte dela, quando o menino vai parar em um orfanato. O filme acompanha a partir de então o cotidiano dele em meio às outras crianças com o mesmo destino, cada um com sua individualidade e sua forma de lidar com as rejeições da vida. O enredo é muito bonito, misturando momentos de graça com momentos de drama, sem deixar de ter um fundo de reflexão social.

11. Brimstone, de Martin Koolhoven (Holanda)

Com um enredo enigmático e muito bem escrito, o filme do holandês Martin Koolhoven se passa no século XIX e discorre sobre o desejo de vingança em meio a um clima de faroeste perturbador. Dividido em quatro capítulos, o filme conta de trás para a frente a história da jovem Liz (Dakota Fanning), uma mulher muda que vive com o marido e o filho dele. Tudo ia normal até a chegada na cidade de um novo reverendo (Guy Pearce), que tem uma história passada com Liz que vai sendo descoberta na medida em que os capítulos passam. Chocante, imprevisível e diferenciado, Brimstone é daqueles filmes que dá gosto de ver o cinema produzir em uma época em que a criatividade está em falta.

10. Bingo - O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende (Brasil)

Aclamado pela crítica, Bingo - O Rei das Manhãs é mais um exemplar do excelente momento atual do cinema brasileiro. O filme conta a história de Arlindo Barreto, que se tornou ícone da televisão brasileira ao dar vida ao palhaço Bozo, sucesso de audiência nos anos 1980 no SBT. Arlindo (que no filme virou Augusto por questões contratuais) ganhava a vida participando de pornochanchadas até, sem querer, ir parar na audição para fazer o papel do palhaço, que já era sucesso nos Estados Unidos. Sua criatividade conquistou a equipe de produção e lhe rendeu o papel, mas apesar de conquistar o país inteiro, ninguém o conhecia, já que ele era obrigado a esconder seu rosto a todo custo. Esse fato, aliado ao uso cada vez mais constante de drogas, pôs fim a uma carreira que tinha tudo para durar décadas.

9. Okja, de Joon-Ho Bong (Coréia do Sul/EUA)

Após o sucesso do excelente Expresso do Amanhã, o sul-coreano Joon-Ho Bong volta mais uma vez aos holofotes com um filme extremamente humano. Lançado diretamente na Netflix, Okja logo encanta pela bonita amizade criada entre Mija e seu "superporco", um porco fêmea gigantesco que foi modificado em laboratório pela empresa da megalomaníaca Lucy (Tilda Swinton). Os problemas começam quando a empresa quer de volta o animal, e Mija começa a fazer de tudo para não se separar da melhor amiga.

8. Frantz, de François Ozon (França)

O francês François Ozon é um dos diretores mais badalados dos últimos anos, e sua sensibilidade em contar histórias conquistou muitos admiradores. Com diálogos marcantes e poéticos, Frantz é sem dúvida o melhor filme até então de sua carreira, ou pelo menos o que mais mexeu comigo. O longa se passa após o fim da Primeira Guerra Mundial e acompanha Anna (Paula Beer), uma mulher que visita todos os dias o túmulo do marido morto em combate. Tudo normal até que um dia ela avista um homem desconhecido deixando flores na lápide. Indo atrás do homem, ela descobre se tratar de Adrian (Pierre Niney), um francês que logo revela ter se tornado amigo de Frantz em Paris antes da guerra começar. Aos poucos a figura de Adrian vai sendo desmistificada e segredos da vida na guerra começam a surgir.

7. Até o Último Homem, de Mel Gibson (EUA)

Depois de 10 anos sem lançar um filme, Mel Gibson voltou com essa obra-prima que se passa na Segunda Guerra Mundial. A trama acompanha Desmond Ross (Andrew Garfield), filho de um militar aposentado que é assumidamente contra todo e qualquer tipo de guerra. No entanto, com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, milhares de jovens se alistaram para lutar e Desmond se sentiu culpado por não estar lutando ao lado deles. Mas como um homem que se nega a pegar em armas pode ir para um campo de batalhas? Essa é a grande questão do filme.

6. Contratiempo, de Oriol Paulo (Espanha)

Quem assistiu El Cuerpo e ficou extasiado com o plot twist fantástico no final, vai se encantar novamente com mais uma obra do diretor Oriol Paulo. Contratiempo, lançado diretamente na plataforma da Netflix, é talvez o melhor filme de suspense do ano. A vida de Adrian ia bem, com dinheiro, fama e uma bela família, mas tudo muda quando ele acorda num quarto de hotel e se depara com sua mulher morta no banheiro. Sem lembrar de nada do que aconteceu, a polícia o transforma no principal suspeito, e ele precisa contratar uma advogada para fazer sua defesa. É aí que começam as revelações.

5. Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky (Brasil)


Como Nossos Pais cativa o espectador pela sutileza em abordar assuntos aparentemente simples, porém extremamente complexos, como a relação familiar, o autoconhecimento, e o papel da mulher na sociedade moderna. Durante um almoço de família, a mãe de Rosa (Maria Ribeiro) conta a ela que seu pai não é seu pai de verdade. A partir desta descoberta, Rosa começa a reavaliar todas as suas escolhas e a procurar um verdadeiro sentido pra vida. Entre as diversas questões abordadas pelo filme, está a necessidade que temos, diante das adversidades e surpresas da vida, de abrir mão de algo por um bem maior. Focando nas relações humanas e suas nuances, o longa de Laís Bodansky é o melhor filme nacional do ano.

4. Eu, Daniel Blake, de Ken Loach (Irlanda)

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2016, o britânico Ken Loach prova que, aos 80 anos de idade, ainda sabe abordar os problemas sociais contemporâneos como poucos. Com um enredo devastador que versa, sobretudo, a respeito da dignidade humana, Eu, Daniel Blake faz uma crítica contundente aos sistemas governamentais e suas burocracias. Daniel Blake (Dave Johns) é um carpinteiro de 59 anos que acaba de sofrer um ataque cardíaco. Impedido pela sua médica de trabalhar, ele busca conseguir um benefício financeiro ao qual tem direito, mas é aí que os problemas começam, já que o sistema é falho e demorado.No mundo de hoje, quem vive de auxílios, mesmo necessitando de verdade, é taxado de aproveitador e preguiçoso, e o filme tenta desmistificar isso. Eu, Daniel Blake é um filme para se refletir, independente de sua posição política. Pelo menos é o que se espera. Com uso do bom humor, Loach consegue trazer uma linguagem de fácil compreensão e nenhum didatismo. É a vida como ela é, a realidade crua de uma sociedade onde, quem pouco tem, não recebe o merecido respeito

3. Um Homem Chamado Ove, de Hannes Holm (Suécia)

Ove (Rolf Lassgard) à primeira vista é o típico rabugento da terceira idade. Morando em um pequeno condomínio de casas, ele se irrita com todos os atos dos vizinhos, que segundo ele, não fazem nada certo. No entanto, tudo começa a mudar quando um casal com filhos passa a morar na casa da frente. Ao mesmo tempo em que mostra o presente, o enredo, através da narração do próprio Ove, mostra também seu passado, passando por momentos bons e ruins de sua vida, que explicam muito sobre sua personalidade. Os pontos fortes são os diálogos, munidos de um humor bastante peculiar, e claro, a atuação de Lassgard que é sensacional.

2. Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan (EUA)

Cinco anos após o seu último trabalho, o diretor Kenneth Lonergan voltou às telas com um dos filmes mais poderosos do ano. Centrado no silêncio e abordando sentimentos como a perda e o remorso, Manchester à Beira-Mar (Manchester By The Sea) foge do comum trazendo uma trama simples mas muito bem trabalhada. Lee Chandler (Casey Affleck) precisa voltar à Manchester onde viveu por anos para o enterro do irmão. Muitos segredos fazem parte do passado de Lee nessa cidade, e pouco a pouco, através de flashbacks, vamos descobrindo o que de fato aconteceu. Singular e devastador, o filme foi meu favorito para ganhar o Óscar deste ano.


1. Lion - Uma Jornada Para Casa, de Garth Davis (Reino Unido)
Baseado em uma história real, o filme acompanha o menino Saroo (Sunny Pawar), que vive com a mãe e os dois irmãos em um pequeno vilarejo da Índia. Um dia Saroo se perde do irmão mais velho e acaba viajando milhares de quilômetros até Calcutá, uma megalópole onde vivem mais de 4 milhões de pessoas. O menino usa toda sua esperteza para sobreviver nas ruas dessa cidade caótica até ser resgatado por um orfanato, que logo consegue sua adoção para uma família australiana. O filme então pula para 20 anos após o ocorrido, onde Sarro (agora vivido por Dev Patel) é um estudante universitário na Austrália. Apesar do tempo, ele jamais esqueceu suas origens, e sonha com o dia em que poderá reencontrar sua mãe biológica. Com grandes atuações, o filme traz um conceito interessante de família, e aborda com simplicidade o assunto da adoção e do amor entre mãe e filho, seja de sangue ou não. É um filme incrivelmente humano.

quinta-feira, 12 de março de 2015

A Volta ao Mundo em.. 80 filmes!

Foi assistindo um filme de Burkina Faso, um pequeno país do noroeste africano, que eu tive a ideia para este artigo. Afinal, vocês já pararam para pensar em quantas voltas ao mundo nós conseguimos dar através do cinema? Quantos lugares, quantas etnias, quantos idiomas e quantas culturas somos capazes de conhecer por meio dos filmes, não é mesmo?

É justamente pensando nisso que eu criei essa lista com 80 filmes, oriundos de 80 países diferentes do nosso globo terrestre, provando que boas histórias podem surgir de qualquer canto do planeta. Antes de mais nada, a intenção não foi escolher os melhores de cada país, mas sim, apenas recomendar uma boa obra de cada um deles. Sem mais delongas, vamos dar início então à nossa viagem:


1 - Paisagem na Neblina, de Theodoros Angelopoulos (Grécia)

Nada melhor do que começar nossa viagem por um dos berços da civilização, a belíssima Grécia. O país tem diretores conceituados no cinema ocidental como Constantin Costa-Gavras e Theodoros Angelopoulos, e é do segundo que temos o clássico Paisagem na Neblina (Topio Stin Omichli). O drama conta a história de dois irmãos que partem em uma viagem rumo à Alemanha para encontrar o pai que nunca conheceram, e durante o trajeto enfrentam dificuldades que os fazem amadurecer mais cedo do que deveriam. Sensível e poético, mas ao mesmo tempo duro e angustiante, é o tipo de filme que, mesmo que você não queira, acaba mudando um pouco a sua forma de enxergar o mundo.


2. Antes da Chuva, de Milcho Manchevski (Macedônia)

Seguindo viagem pela região dos Bálcãs, chegamos à Macedônia. Dilacerada pela guerra, a nação é plano de fundo para três histórias distintas que se cruzam no final. A primeira delas é sobre uma jovem albanesa refugiada que é acolhida por um monge macedônio, que passa a nutrir sentimentos românticos por ela. A segunda conta a história de uma fotógrafa inglesa que se vê dividida entre o marido e o amante, o que culmina na terceira história, onde o amante dela está em viagem pela sua terra natal para reencontrar um velho amigo. Até hoje, Antes da Chuva (Before the Rain) é o filme mais lembrado e cultuado de um país que tem pouca tradição na sétima arte.

3. Terra de Ninguém, de Danis Tanovic (Bósnia-Herzegovina)

A próxima parada é na Bósnia-Herzegovina, parte independente da extinta Iugoslávia. O cinema Bósnio teve uma crescente após o fim da violenta disputa territorial ocorrida nos anos 1990, com grande parte dos filmes abordando o tema. Premiado como melhor filme estrangeiro no Óscar de 2001, Terra de Ninguém (Nicija Zemlja) mostra a relação entre dois soldados inimigos, um Bósnio e um Sérvio, que ficam presos em uma trincheira no meio das linhas inimigas. Utilizando de um humor peculiar, o filme faz uma reflexão sobre os motivos e as consequências de uma Guerra e critica principalmente o tratamento que a ONU e os demais países do mundo deram a essa em específico.


4. A Serbian Film: Terror Sem Limites, de Srdan Spasojevic (Sérvia)

Impossível falar do cinema sérvio e não lembrar dessa pérola. Banido em diversos países do mundo (inclusive no Brasil, onde ficou proibido por quase um ano), mas ao mesmo tempo premiado em muitos festivais europeus, A Serbian Film: Terror sem Limites (A Serbian Film) é sem dúvida um dos filmes mais chocantes e controversos de todos os tempos. Ele tenta, sem pudor, mostrar um pouco daquilo que ouvimos falar que existe na famosa "deep web" mas que nos negamos a acreditar. Necrofilia, pedofilia, estupros e violência extrema são apenas alguns dos ingredientes que fazem esse filme ser inesquecível, por bem ou por mal.


5. Os Filhos do Padre, de Vinko Bresan (Croácia)

Filme mais visto da história da Croácia, Os Filhos do Padre (Svecenikova Djeca) é uma comédia deliciosa que se passa na belíssima região da Dalmácia. A história inusitada acompanha o padre da paróquia local que começa a se preocupar quando a taxa de natalidade na região chega a zero. Investigando o motivo, ele descobre que todos os casais da localidade começaram a usar camisinha, e seu plano então é furar todas elas antes que cheguem ao comércio para que voltem a nascer crianças e a população volte a crescer. O humor do filme é bastante perspicaz, e faz uma crítica principalmente à hipocrisia da igreja.


6. O Mundo é Grande e a Salvação Espreita ao Virar a Esquina, de Stephan Komandarev (Bulgária)

Partindo rumo ao leste europeu, chegamos à Bulgária. O amor que senti por esse filme quando o assisti foi tão grande quanto o seu nome. Vindo de um país cujo cinema é extremamente desconhecido e pouco explorado, ele é uma verdadeira joia rara lapidada. Um rapaz jovem sofre um grave acidente de carro e acaba perdendo a memória, e na tentativa de curar sua amnésia, seu avô o leva para uma viagem de volta ao seu país natal, onde o garoto vai redescobrindo aos poucos quem ele é. O filme mistura drama e comédia de forma competente, o que ajuda a passar uma sensação boa apesar do tema dramático.

7. Trem da Vida, de Radu Mihaileanu (Romênia)

O cinema romeno carrega em si uma contradição: ao menos tempo que é dos menos expressivos da Europa em número de lançamentos, é um dos que mais tem filmes premiados, provando que às vezes qualidade é melhor que quantidade. O cinema do país só começou a chamar a atenção em meados de 1990, e foi em 1998 que ele teve sua obra-prima, Trem da Vida (Train de Vie). O filme conta a história de uma vila de judeus que durante a Segunda Guerra se reuniu em um mutirão para montar um trem com as próprias mãos, com a intenção de fugir do local antes da chegada do exército nazista. Apesar do tema pesado, é um filme super leve e engraçado, e com um final bsurdamente inesperado.



8. O Diário da Esperança, de Janos Szasz (Hungria)

O cinema húngaro é um dos mais importantes do leste europeu, e também um dos mais respeitados. Durante sua história já teve diretores reconhecidos mundialmente como István Szabó e Béla Tarr, e agora nos anos 2000 ganhou uma sobrevida com o surgimento de um nova e boa leva. Entre os principais exponentes está Janos Szasz, que dirigiu essa pequena grande obra de superação e amadurecimento precoce. Durante a Segunda Guerra, dois irmãos gêmeos são enviados pelos pais para viver no interior junto com a avó. Ela, no entanto, se mostra uma pessoa cruel e desumana, que coloca os garotos para trabalhar duro em troca de comida, além de maltratá-los todas as noites. O dia-dia dos garotos é contado por eles mesmos através de um diário, entregue por seu pai antes da separação.


9. Os Falsários, de Stefan Ruzowitsky (Áustria)

O cinema austríaco ganhou fama a partir dos anos 90 graças ao diretor Michael Haneke, diversas vezes premiado pelo mundo afora, inclusive pelo Óscar. Porém, para fugir do que seria clichê, o filme que escolhi para representar o país nessa lista não é do diretor. O longa Os Falsários (Die Falscher), de Stefan Ruzowitsky, conta uma história pouco conhecida que aconteceu nos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, onde os judeus mais inteligentes foram designados para ajudar o exército alemão a fabricar dinheiro falso, que depois seria usado para a compra de milhares de armas usadas na Guerra.


10. Kolya - Uma Lição de Amor, de Jan Sverák (República Tcheca)

Vencedor do Óscar de melhor filme estrangeiro em 1997, Kolya - Uma Lição de Amor (kolja) se passa na cidade de Praga, durante o  regime comunista, e conta a história de um homem solitário que aceita se casar com uma moça em troca de dinheiro. Depois do casamento, a mesma foge para a Alemanha Ocidental e deixa com ele seu filho pequeno. Sem nenhum preparo para cuidar de crianças, aos poucos ele vai criando uma afeição pelo garoto e uma bonita amizade surge entre eles. Mesmo não tendo nada de inovador no seu enredo, o filme encanta justamente pela relação singela que se cria entre um homem que já viu muito do mundo e uma criança que está arressem aprendendo o que é a vida.

11. Quero Viver, de Maciej Pieprzyca (Polônia)

O polonês Quero Viver (Chce Sie Zyc) está na lista dos melhores filmes que já assisti na minha vida, e eu realmente fico triste em perceber o quão pouco conhecido ele é por aqui. O longa mostra a vida de um garoto que nasceu com paralisia cerebral e passou a vida toda sofrendo com a doença, enquanto tentava provar aos outros que tinha inteligência e capacidade para ter suas próprias vontades. O filme é bastante poético e emocionante, tocando até mesmo os corações mais duros, sobretudo pelas atuações impressionantes de Kamil Tkacz (que faz ele jovem) e de Dawid Ogrodnik (que faz ele já adulto, na maior parte do filme).

12. Tangerines, de Zaza Urushadze (Estônia)

Finalista no Óscar 2015 de melhor filme estrangeiro, Tangerines (Mandariinid) é um dos melhores filmes já produzidos no leste europeu. O enredo bem humorado conta a história de dois soldados inimigos, um checheno e um georgiano, que acabam feridos na Guerra da Abecásia e são acolhidos na mesma casa por um senhor de idade. Quando acordam e se dão conta do ocorrido, os dois começam a brigar entre si, mas o anfitrião acaba acalmando os ânimos e fazendo brotar entre eles uma relação de humanidade e respeito acima de qualquer disputa.

13. Minha Vida Sem Minhas Mães, de Klaus Haro (Finlândia)

O cinema finlandês é conhecido por sua frieza, mas Minha Vida Sem Minhas Mães (Aideista Parhain) tem toda a ternura que os demais não tem, mostrando um episódio trágico ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial. Naquele período, milhares de crianças finlandesas foram enviadas para um espaço neutro na Suécia, sendo acolhidos por famílias voluntárias, e o filme acompanha uma delas, um garoto de nove anos. O enredo trata do doloroso impacto que a mudança traz para a vida do garoto e de outras tantas crianças que são afetadas pela guerra.

14. Canções do Segundo Andar, de Roy Andersson (Suécia)

A Suécia é a terra de Ingmar Bergman, e só por isso já merece respeito. Porém, no cinema sueco contemporâneo um nome se destaca: Roy Andersson. Canções do Segundo Andar (Sanger Fran Andra Vaningen) é um dos filmes mais bacanas desse diretor, que vem se mostrando um dos mais originais do cinema atual. Cheio de simbolismos, o filme acompanha uma série de acontecimentos surreais que acontecem durante uma noite em um lugar qualquer do hemisfério norte. Aparentemente não existe relação entre eles, mas no fundo, todos mostram o quão difícil é manter a calma e se comportar como ser humano no absurdo que o mundo se tornou.

15. Expedição Kon-Tiki, de Joachim Ronning e Esper Sandberg (Noruega)

Nossa última parada no continente europeu, por enquanto, é na Noruega. Em 1947 o explorador norueguês Thor Heyerdahl resolveu atravessar o oceano pacífico saindo da América do Sul em direção à Polinésia usando apenas uma pequena jangada. O barco foi montado apenas com materiais que existiam há centenas de anos atrás, na tentativa de provar sua própria teoria de que a ilha teria sido colonizada por indígenas da América. O filme mostra com competência essa aventura, e chama a atenção principalmente por sua fotografia impressionante.

16. Filhos da Natureza, de Friorik pór Frioriksson (Islândia)

Antes de atravessar o atlântico e chegar na América, fazemos uma escala na Islândia. O cinema da ilha pode ser considerado um dos mais jovens do mundo, tendo começado sua produção regular apenas no final dos anos 1980. Finalista ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Óscar de 1992, Filhos da Natureza (Born Náttúrunnar) foi o grande responsável por trazer os olhos do mundo pela primeira vez ao cinema do país. O filme belíssimo conta a história de um casal de idosos que se encontram em uma casa de repouso e resolvem fugir do local, na tentativa de buscar um sentido para seus últimos anos de vida na Terra.

17. Incêndios, de Denis Villeneuve (Canadá)

A primeira parada no continente americano é no Canadá. Considerado um dos principais pólos cinematográficos do continente, o Canadá possui uma lista de grandes obras e grandes diretores, e na atualidade três nomes se destacam: Jean-Marc Vallée, Xavier Dolan e Denis Villeneuve. O último é responsável pela obra-prima Incêndios (Incendies), que narra a história de dois irmãos gêmeos que após a morte da mãe partem para o Líbano para desvendar um segredo que ela guardou durante a vida toda. Indicado ao Óscar de melhor filme estrangeiro em 2011, o filme traz um retrato cruel da realidade no Oriente Médio e choca com um final espetacular.

18. Pulp Fiction, de Quentin Tarantino (Estados Unidos)

São tantos filmes americanos famosos na história que se torna uma tarefa ingrata ter que escolher apenas um. Cogitei deixar o país de fora da viagem, mas se tinha que escolher um, que fosse então um de Quentin Tarantino. Pulp Fiction: Tempo de Violência (Pulp Fiction) não só é o melhor filme do diretor, como também é um dos melhores já produzidos na história do cinema mundial. Contando três histórias distintas que se cruzam do meio pro final, o filme é uma verdadeira obra-prima e um divisor de águas do cinema americano dos anos 1990, graças ao seu humor negro, às suas atuações incríveis e aos seus diálogos emblemáticos e inesquecíveis.

19. Amores Brutos, de Alejandro González Iñarritu (México)

Muito antes de ter vencido o Óscar em 2015 por Birdman, Iñarritu já era um dos meus diretores favoritos, e essa minha admiração já começou cedo, com Amores Brutos (Amores Perros), seu primeiro longa-metragem da carreira. Chocante, principalmente pelas cenas de violência envolvendo cachorros de rinha (o que afastou muita gente dos cinemas, mesmo depois de ter sido provado que as cenas mais violentas foram feitas por computador), o filme é um retrato cruel e pútrido dos subúrbios de uma Cidade do México dominada pela violência.

20. A Jaula de Ouro, de Diego Quemada-Diez (Guatemala)

Descendo à América Central, temos o drama guatemalteco A Jaula de Ouro (La Jaula de Oro), que mostra a luta de um grupo de jovens imigrantes do país que partem rumo ao México para tentar atravessar a fronteira com os Estados Unidos. No caminho, eles se vêem obrigados a lidar com diversas dificuldades naturais, além de enfrentar narcotraficantes perigosos que querem se dar bem às suas custas. Com atuações excelentes de atores amadores e um enredo quase documental, o filme é um retrato dolorido de pessoas que tentam de tudo para conseguir uma vida melhor, mesmo que para isso tenham que pagar um alto preço.

21. Morango e Chocolate, de Juan Carlos Tabío e Tomáz Gutiérrez Alea (Cuba)

Um dos principais filmes da história do cinema cubano, Morango e Chocolate (Fresa Y Chocolate) se passa em Havana, na década de 1970, e acompanha o encontro de um universitário e militante comunista com um artista plástico homossexual, que está descontente com as atitudes do regime de Fidel Castro, principalmente em relação ao público LGBT e à censura cultural. Apesar dos diferentes conceitos de vida, uma forte amizade nasce entre eles, criando desavenças com defensores de ambos os lados.

22. Libertador, de Alberto Arvelo (Venezuela)

A primeira parada na América do Sul é na Venezuela. O cinema do país sempre foi pouco produtivo, mas nos últimos 5 anos deu uma boa crescida, o que possibilitou o lançamento de obras como Libertador. Representante do país no Óscar de melhor filme estrangeiro em 2015, o longa conta a trajetória do guerrilheiro Simón Bolívar, nome fundamental na luta pela liberdade da América Latina das mãos do Império Espanhol. Bolívar é visto até hoje como um herói pelas nações da América Hispânica, e suas estátuas estão por todos os lados, principalmente na Colômbia.

23. Maria Cheia de Graça, de Joshua Marston (Colômbia)

Um dos principais filmes colombianos da virada do século para cá, Maria Cheia de Graça (María, Llena Eres de Gracia) conta a história de uma jovem de 17 anos que, após ficar desempregada, aceita a proposta de transportar heroína para os Estados Unidos em seu estômago em troca de dinheiro. Ela consegue chegar nos Estados Unidos, mas sair de lá ilesa acaba sendo um pouco mais complicado do que ela esperava. O filme é um retrato dolorido da vida dessas pessoas, conhecidas como "mulas" de drogas, e choca pela veracidade dos fatos.

24. A Que Distância, de Tania Hermida (Equador)

Com uma bela paisagem e um enredo reflexivo, A Que Distância (Qué Tan Lejos) é um bonito filme equatoriano sobre as relações humanas e o amadurecimento pessoal. Uma turista espanhola resolve viajar ao país para apreciar as belas paisagens, e no caminho conhece uma jovem politizada que está viajando entre uma cidade e outra para encontrar o namorado. No caminho, as duas ainda conhecem um homem andarilho, que se mostra um dos personagens mais interessantes que já vi no cinema. O tipo de filme que encanta ao mesmo tempo que te faz refletir sobre inúmeras coisas.

25. Contracorrente, de Javier Fuentes-Léon (Perú)

Do desconhecido cinema peruano temos o elogiado Contracorrente (Contracorriente). O filme conta a história de um pescador respeitado em sua aldeia que está prestes a ter um filho, mas que vive um conflito interno sobre sua sexualidade com a chegada de um jovem turista no local. A temática LGBT é tratada com muita sensibilidade e naturalidade no enredo, sem nenhuma pretensão de didatismo, e é isso que faz dele um grande filme.

26. No, de Pablo Larraín (Chile)

Nossa última parada na América, por enquanto, é no Chile. A chegada do século XXI fez bem ao cinema chileno, trazendo uma nova leva de bons diretores. Prova disso é que o cinema do país conseguiu alcançar feitos até então inalcançáveis, como levar um filme seu à final do Óscar de melhor filme estrangeiro. O responsável por isso foi No, que retorna ao passado da nação vizinha e conta a história do plebiscito que, em 1988, mobilizou o país e pôs fim ao governo ditatorial de Augusto Pinochet. Muito bem montado, o filme mostra com excelência esse marco na história recente chilena, conseguindo captar com maestria o misto de tensão e esperança que existia no país naquela época.

27. O Orador, de Tusi Tamasese (Samoa)

Atravessando o pacífico, fazemos uma rápida parada na pequena e desconhecida ilha de Samoa. O Orador (O le tulafale) mostra um pouco da cultura desse minúsculo pontinho no mapa, tendo como pano de fundo a história de um agricultor que vive isolado do resto da população junto com a sua família, evitando contato com os demais a todo o custo. Quando uma tragédia assola o lar familiar, esse homem se vê obrigado a fazer algo para adquirir respeito de todos ao redor.

28. O Piano, de Jane Campion (Nova Zelândia)

Chegamos à Oceania, e a primeira parada é na Nova Zelândia. O cinema neozelandês ficou conhecido principalmente depois que o diretor Peter Jackson estourou em Hollywood com O Senhor do Anéis, cujas cenas foram gravadas na própria ilha. Mas antes disso outro nome fez sucesso por lá: o de Jane Campion, responsável pela obra-prima O Piano (The Piano). O filme mostra a vida de uma mãe solteira que é obrigada a deixar sua terra natal, a Escócia, por conta de um casamento arranjado pela família com um neozelandês. No novo país ela começa a ter aulas de piano com um homem aproveitador, e aos poucos a relação entre dois vai se tornando muito mais do que a de aluna-professor.

29. Shine - Brilhante, de Scott Hicks (Austrália)

Ainda na Oceania, fazemos uma parada na Austrália. O cinema australiano é bastante produtivo, cujas obras em inglês facilitam bastante sua popularização no outro lado do mundo. Entre tantos filmes excelentes vindos do país está Shine - Brilhante (Shine), sobre um homem que sofre de esquizofrenia mas que, mesmo com a doença, se mostra um brilhante pianista. Durante a trama acompanhamos, por meio de flashbacks, o que teria levado ele à doença, e vamos descobrindo um pouco mais sobre sua infância sofrida e a relação difícil com a família. O que mais chama a atenção é a atuação impressionante de Geoffrey Rush, que inclusive ganhou o Óscar de melhor ator em 1997.

30. Metro Manila, de Sean Ellis (Filipinas)

Vindo de um dos países mais pobres do oriente, Metro Manila é um filme bastante duro, principalmente por ser universal. Buscando melhorar de vida, um homem decide deixar para trás a vida no campo e partir para a cidade grande junto com a sua família. Além de toda dificuldade natural do percurso, eles ainda tem que lidar com pessoas inescrupulosas, que fazem de tudo para se aproveitar do pouco que eles tem. Para conseguir um lugar no mercado de trabalho, ele se obriga a pagar um preço ainda mais alto. O longa representou as Filipinas no Óscar de melhor filme estrangeiro em 2014.

31. Ilo Ilo, de Anthony Chen (Singapura)

Muito elogiado no festival de Cannes em 2013, Ilo Ilo acompanha a vida de uma jovem filipina, recém chegada em Singapura, que aceita o trabalho de empregada doméstica na casa de uma família conturbada da classe média. Ela fica responsável por cuidar do filho da família, um menino ríspido e agressivo, que sempre recebeu pouca atenção da família e que no início faz de tudo para humilha-la. Aos poucos ela vai conseguindo amansar o garoto, e uma amizade bonita e sincera nasce entre os dois.

32. A Imagem que Falta, de Rithy Pahn (Camboja)

No fim da década de 1970, foi instaurado no Camboja o regime do Khmer Vermelho, uma das mais violentas ditaduras que o mundo já viu e que causou a morte de mais de duas milhões de pessoas. A Imagem que Falta (L'Image Manquante) é um documentário fascinante de Rithy Pahn, um sobrevivente daquele período, que conta através de bonecos feitos detalhadamente de argila, os horrores que presenciou naqueles anos sangrentos. É um dos filmes mais primorosos que já assisti e mereceu chegar na final do Óscar de melhor filme estrangeiro em 2014.

33. A Última Vida no Universo, de Pen-Ek Ratanaruang (Tailândia)


O cinema tailandês é um dos mais respeitados e premiados do leste asiático, com nomes conhecidos como Ang Lee, Apichatpong Weerasethakul e Pen-Ek Ratanaruang, esse último diretor de A Última Vida no Universo (Ruang Rak Noi Nid Mahasan). A sinopse do filme remete a uma história clichê: um japonês que vive na Tailândia só pensa na morte e em modos de se matar até que conhece uma jovem tailandesa que é o oposto dele, e entre eles nasce uma bela relação de amizade. Porém, o enredo contemplativo do filme vai muito além disso, e aos poucos, de forma lenta, vamos adentrando até o fundo na história de cada um deles.

34. As Coisas Simples da Vida, de Edward Yang (Taiwan)

O cinema de Taiwan ganhou notoriedade entre os anos 1990 e 2000, e muito disso se vale pela qualidade do trabalho de Edward Yang. Seu filme mais premiado até então é As Coisas Simples da Vida (Yi Yi), e isso não é para menos. O longa narra a história de uma família de classe média do país que passa por dificuldades após a morte da matriarca. Abordando temas como o primeiro amor, a crise de meia-idade, tragédias familiares, política e a visão de uma criança sobre o mundo ao redor, o filme é um dos mais belos que já tive a chance de assistir. Todos os personagens são adoráveis, mas o mais cativante é o menininho, filho do protagonista, que ganhou uma máquina fotográfica para captar momentos que ele acha interessante, mostrando a visão de mundo de uma criança.

35. Confissões, de Tetsuya Nakashima (Japão)

O cinema japonês tem uma vasta história que se estende desde os tempos do cinema mudo, com nomes respeitados como Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu, Hayao Miyazaki e Takeshi Kitano. Porém, é de um diretor desconhecido que temos a obra-prima Confissões (Kokuhaku), talvez o melhor filme produzido no país em décadas. O enredo acompanha a história de uma professora que resolve abandonar a profissão, mas sem antes vingar a morte de sua filha pequena, que ela descobre ter sido culpa de dois de seus alunos.

36. Pietá, de Kim Ki Duk (Coréia do Sul)

O cinema da Coréia do Sul poderia ser resumido em uma única palavra: vingança. Brincadeiras à parte, não há outro cinema do mundo que aborde o tema tanto quando o sul-coreano, e o mais impressionante disso é que ele parece nunca ficar defasado. Um grande exemplo disso é Pietá (Pieta), filme de 2013, que mostra a relação de um homem violento e solitário com uma mulher que aparece na sua vida dizendo ser sua mãe. Não é um filme fácil de ver, principalmente para quem não está acostumado com as "bizarrices" do cinema oriental, mas vale a pena principalmente pelo seu final impressionante.

37. Lanternas Vermelhas, de Zhang Yimou (China)
O cinema chinês é um dos mais respeitados da Ásia, e um dos nomes mais reconhecidos é o de Zhang Yimou, responsável por grandiosas obras, como Lanternas Vermelhas (Da Hong Deng Long Gao Gao Gua). O filme se passa nos anos 1920 e mostra a história de uma menina que após a morte do pai, se vê obrigada a se tornar a quarta esposa de um homem rico e poderoso, indo morar no mesmo palácio que as outras três. Aos poucos vamos acompanhando o relacionamento entre essas mulheres, com todas as práticas e costumes que vem de geração em geração dentro daquela mesma família.

38. Camelos Também Choram, de Byambasuren Davaa e Luigi Farloni (Mongólia)

O cinema da Mongólia é muito precário e existem escassas salas espalhadas pelo país (quase nenhuma, para falar a verdade). Mas isso não impediu que de lá saísse Camelos Também Choram (Die Geschichte vom Wienenden Kamel), um bonito documentário que mostra o nascimento de um raro camelo branco no meio do deserto de Gobi, rejeitado pela mãe após o parto. Usando de diversas artimanhas, inclusive o uso da música, os habitantes da aldeia fazem de tudo para que a mãe aceite o filhote.

39. Tulpan, de Sergei Dvortsevoy (Cazaquistão)

No Cazaquistão, assim como em grande parte dos países de maioria muçulmana, o casamento arranjado ainda é uma realidade. Um jovem que vive nas estepes do deserto do país tem o sonho de se tornar um dono de terras e pastor de ovelhas, mas para isso precisa se casar. Para realizar o sonho dele, a família resolve pedir a mãe de Tulpan, a única moça solteira em quilômetros de distância, mas ela o rejeita por achá-lo sem aptidões. A partir de então o jovem começa a fazer de tudo para provar que é capaz de merecer o casamento.

40. Meu Nome é Khan, de Karan Johar (Índia)

Os indianos são os maiores produtores de filmes do mundo, superando de longe os Estados Unidos, tanto em número de filmes lançados como em número de bilheterias. O principal pólo cinematográfico do país fica em Mumbai, onde se concentra a chamada Bollywood, e é de lá que vem Meu Nome é Khan (My Name is Khan), um dos melhores filmes que já tive a oportunidade de assistir. O longa acompanha a vida de um indiano que nasceu com síndrome de asperger e que passou a morar nos Estados Unidos com os irmãos depois da morte da mãe. Na América ele se apaixonou e se casou com uma linda mulher, mas uma tragédia acabou separando o casal. Ele então começa uma longa caminhada pelo país para trazê-la de volta.

41. À Procura de Sugar Man, de Malik Bendjelloul (Paquistão)

A segunda metade da nossa viagem começa pelo Paquistão. Escolhido como melhor documentário no Óscar 2013, o filme mostra a história real de Rodríguez, um cantor americano que não conseguiu sucesso na América mas, por um acaso do destino, acabou se tornando um fenômeno na África do Sul após uma cópia pirata de seu trabalho chegar por lá. Durante anos o povo de lá o idolatrou, mas sua verdadeira identidade e o seu paradeiro sempre foram um mistério. O documentário acompanha a busca de dois desses fãs sul-africanos pelo paradeiro do artista, revelando a verdade por trás dessa impressionante história.

42. A Pedra da Paciência, de Atiqi Rahimi (Afeganistão)

Indicado ao Óscar de melhor filme estrangeiro em 2013, A Pedra da Paciência (Syngué Sabour) conta a história de um ex-combatente de guerra que levou um tiro no pescoço e ficou em estado vegetativo sendo abandonado por todos, menos por sua fiel esposa. No meio do nada, isolados e correndo perigo iminente a todo o tempo, ela começa uma solitária confissão sobre seu passado e sobre seus sonhos, o que vai ajudando ela a recuperar o seu próprio sentido de viver.


43. Filhos do Paraíso, de Majid Majidi (Irã)

O cinema iraniano é belíssimo e talvez um dos melhores do mundo, competindo de igual para igual com os grandes. Nomes como Majid Majidi, Abbas Kiarostami e Asghar Farhadi são conhecidos e premiados mundo a fora, e é do primeiro que temos o maravilhoso e singelo Filhos do Paraíso (Bacheha-Ye Aseman). A história acompanha a vida de dois irmãos pequenos depois que o sapato de um deles é perdido. Como os pais não tem condições de dar um novo par, eles resolvem revezar o uso do que sobrou, para que ambos consigam ir para a escola.

44. Tartarugas Podem Voar, de Bahman Ghobadi (Iraque)

Em uma vila curda do Iraque, uma população procura desesperadamente por uma antena parabólica para saber mais notícias da Guerra, pouco antes do ataque americano no país. Tragicamente doloroso, mas ainda assim com espaços para o bom humor, o filme retrata uma vila de refugiados onde a maioria são crianças, que são obrigadas a crescer antes do tempo vivenciando uma realidade que nós dificilmente conseguimos imaginar.

45. O Sonho de Wadjda, de Haifaa Al-Mansour (Arábia Saudita)

A Arábia Saudita é o único país do mundo que não possui salas de cinema, pois o entretenimento ainda é estritamente proibido por lá. Por isso, não é de se estranhar que o cinema de lá seja quase inexistente. Por conta disso, O Sonho de Wadjda (Wadjda), que conta a história de uma garota que sonha em ter uma bicicleta para competir com seus amigos, pode ser considerado um marco histórico, por ter sido o primeiro filme 100% saudita (com atores locais e, pasmem, direção de uma mulher) indicado ao Óscar de melhor filme estrangeiro em 2013.

46. Capitão Abu Raed, de Amin Matalqa (Jordânia)

Abu Raed é um simples faxineiro do aeroporto de Amã, que um dia leva para casa o chapéu de piloto que encontra na lixeira. Depois de perceber como as crianças do seu vilarejo careciam de diversão, ele resolve se passar por capitão de aeronaves para elas, inventando histórias de viagens pelo mundo que atiçam cada vez mais a imaginação dos pequenos. O filme é uma belíssima lição de humanidade, de alguém que faz o bem sem olhar a quem.

47. Valsa com Bashir, de Ari Folman (Israel)
O cinema israelense começou sua produção pela década de 1950, mas foi somente na primeira década do século XXI que ele começou a ganhar algum reconhecimento fora de seus limites. A animação Valsa com Bashir (Vals im Bashir) é na verdade um documentário autobiográfico do diretor Ari Folman, veterano da Guerra do Líbano de 1982, que mostra a tentativa de recuperar sua memória após o massacre de Sabra e Shatila, até hoje lembrado como um dos mais terríveis da história dessa região.

48. Omar, de Hany Abu-Assad (Palestina)

Finalista ao prêmio de melhor filme estrangeiro em 2013, Omar é um dos melhores filmes já produzidos a respeito da Guerra entre israelenses e palestinos. O filme acompanha um jovem militante palestino que atravessa a fronteira clandestinamente todos os dias para ver sua namorada do outro lado do muro. O caso amoroso e os sonhos da juventude é só um pano de fundo para o verdadeiro tema do filme, o ataque israelense a uma região controlada pelo Hamas, que levou ao óbito quase duas mil pessoas. O filme choca principalmente por sabermos que aquilo que vemos na tela realmente acontece diariamente por lá, e que aparentemente essa é uma realidade que não tem data para acabar.

49. O Atentado, de Ziad Doueiri (Líbano)

Pouco se houve falar no lado de cá do planeta, mas no Oriente Médio não existem apenas homens bombas, mas também mulheres. O filme mostra o atentado cometido por uma delas, que carregava uma bomba escondida em sua falsa túnica de grávida, e o desespero do marido que não sabia dos planos da mulher. Após o ocorrido ele parte em busca dos responsáveis por trás de tudo para descobrir o que teria levado ela a seguir essa opção. Angustiante, O Atentado (L'attentat) é mais um dos filmes que levanta a bandeira da paz numa região onde a guerra já é parte do cotidiano.

50. Cairo 678, de Mohamed Diab (Egito)

Nossa primeira parada na África é no Egito. Cairo 678 é um dos filmes mais interessantes que já assisti, e conta uma história real que aconteceu na capital egípcia, mas que infelizmente acontece em qualquer outro lugar do planeta. Diariamente, dezenas de mulheres são assediadas nas ruas, e a coisa é ainda mais séria dentro do transporte público. Por culpa da cultura machista do país, nenhuma tinha coragem de denunciar os atos já que, mesmo sendo vítimas, isso traria vergonha para a família. Até que uma mulher resolveu bater de frente e enfrentar a sociedade, expondo ao mundo os abusos e conseguindo aprovar uma lei que passou a punir os crimes sexuais no país.

51. Um Homem que Grita, de Mahamet-Saleh Haroun (Chade)

Do centro do continente africano temos essa triste história sobre a relação de um pai com seu filho em meio a um guerra civil. Adam é um homem já na idade dos 60, ex-nadador, que trabalha em um hotel cuidando da piscina. Quando o hotel muda de dono, ele acaba sendo deslocado da função que tanto ama, e seu filho toma seu lugar. O ato causa inveja em Adam, que logo depois tem que tomar uma decisão radical que muda para sempre o rumo dessa família.


52. Sons do Deserto, de Marion Hansel (Djibouti)

Deste pequeno país africano temos essa grande história de persistência e perdas. Um pai de família parte numa aventura pelo deserto com sua esposa e seus filhos em busca de água, depois que o vilarejo onde viviam secou completamente. Nesse cenário hostil, comandado pelas milícias, eles enxergam a morte de perto a todo momento, e é a filha mais nova da família que com o tempo acaba se mostrando a personagem mais forte entre todos.

53. Munyurangabo, de Lee Isaac Chung (Ruanda)

Munyurangabo e Sagwa, dois amigos inseparáveis que vivem na cidade grande, resolvem partir em uma jornada rumo ao interior para recuperar assuntos do passado. O primeiro quer vingar a morte dos pais num genocídio, enquanto o segundo quer rever os pais e a casa que ele abandonou há anos. Quando chegam na casa de Sagwa, os pais dele logo percebem que o amigo do filho é da etnia rival, e acabam desaprovando a amizade. O filme foi o primeiro rodado inteiramente no dialeto do país e com atores não-profissionais.

54. Hotel Ruanda, de Terry George (África do Sul)

Em 1994 estourou um conflito entre etnias nas ruas de Ruanda que deixou mais de um milhão de mortos em menos de um mês. Sem apoio dos demais países, o povo ruandense teve que lutar bravamente pela sobrevivência. O longa conta a história de um dono de hotel que, corajosamente, abrigou mais de 1200 pessoas durante o conflito, enfrentando os rebeldes para defender pessoas que ele jamais tinha visto antes.

55. Na Cidade Vazia, de Maria João Ganga (Angola)

Nossa próxima parada na África é em Angola. Na Cidade Vazia acompanha um grupo de crianças refugiadas de Guerra que viajam junto de uma freira em direção à capital do país, Luanda. Chegando lá, um dos meninos consegue fugir do grupo e passa a descobrir a cidade sozinho. No trajeto, ele conhece tanto pessoas boas como pessoas más. O filme, o primeiro feito por uma mulher no país, mostra com veracidade a conturbada situação política do país e os efeitos da Guerra para seus habitantes.

56. Questão de Honra, de Idrissa Ouedraogo (Burkina Faso)
Burkina Faso é um dos pólos cinematográficos mais importantes da África, e é no país que acontece o maior festival de cinema do continente. A história de Questão de Honra (Tilai) acompanha um homem que retorna para sua aldeia natal com a esperança de rever a família e a mulher que amava, mas chegando no local, acaba encontrando muitas coisas diferentes de quando ele partiu. Sua amada agora está casada com seu próprio pai, e para o costume do lugar, agora pode ser considerada sua mãe. Na tentativa de recuperar o que perdeu, ele planeja fugir com ela para sempre, mas a aldeia acaba o caçando vivo pelo deserto do país.

57. Moolaadé, de Ousmane Sembene (Senegal)

Em muitas aldeias da África, o costume selvagem da mutilação genital feminina ainda é praticado, sob as leis do islã, e com apoio inclusive de mulheres. Segundo os costumes, uma mulher que não passa por isso é considerada impura, e dificilmente consegue casar quando mais velha. Moolaadé fala sobre 6 meninas que fugiram antes da chamada "cerimônia de purificação", e que foram protegidas por uma mulher poderosa que tenta de tudo para impedir que elas sejam resgatadas. Trata-se de uma obra-prima dolorosa de Ousmane Sembene, considerado pela grande maioria dos críticos como o melhor diretor da história do continente africano.

58. Timbuktu, de Abderrahmane Sissako (Mauritânia)

Pela primeira vez um filme da Mauritânia ficou entre os cinco finalistas do Óscar de melhor filme estrangeiro, e isso já é grande coisa. O filme se passa numa pequena cidade do norte de Mali, controlada por extremistas islâmicos, e acompanha a história de um homem que acaba matando outro por acidente. Segundo as leis do islã, isso é um crime imperdoável (parece até irônico depois do que vemos diariamente na televisão), e o pai de família que cometeu o ato acaba virando alvo da facção religiosa.

59. Dias de Glória, de Rachid Bouchareb (Argélia)

A Argélia é uma das potências cinematográficas do continente africano, já tendo chegado a três finais do Óscar de melhor filme estrangeiro, vencendo em 1970. É de lá que vem Dias de Glória (Indigènes), bom filme que se passa durante a Segunda Guerra Mundial. Durante aquele período, o governo francês buscou na Argélia homens aptos para fazer parte do seu exército para lutar na guerra em nome da França, e o filme acompanha a trajetória de quatro desses soldados.

60. Baba Aziz - O Príncipe que Contemplava sua Alma, de Nacer Khemir (Tunísia)

Antes de mais nada, Baba Aziz - O Príncipe que Contemplava sua Alma (Bab Aziz - le prince qui contemplait son âme) é o tipo de filme para ser assistido com a mente aberta, sem nenhuma espécie de preconceito religioso. Em forma de poema visual, com as belas imagens do deserto do Saara como fundo, o filme mostra a história de um dervixe e sua neta, que viajam pelas areias do deserto para um encontro de devixes, que ocorre uma vez a cada 30 anos. No caminho, ele vai contando uma história para a menina, sobre um príncipe que contemplava sua alma em uma piscina d'água.

61. As Ruas de Casablanca, de Nabil Ayouch (Marrocos)

A capital marroquina serve de fundo para uma história comovente de amizade, que acompanha quatro pré-adolescentes que vivem nas ruas da cidade. Um deles sonha em ser marinheiro, mas acaba morto em confronto com uma gangue de meninos de rua que comanda a região. A partir de então, os outros três amigos começam uma jornada para tentar enterrar o amigo, contando inclusive com a ajuda da mãe do garoto, até então desaparecida.

62. Love Likes Coincidences, de Omer Faruk Sorak (Turquia)
Nossa última passagem pela Europa começa pela Turquia e seu cinema de excelente qualidade, que surgiu para o mundo principalmente a partir da década de 1990. Nos últimos anos, a produção e a popularidade do cinema local só aumentaram, e Love Likes Coincidences (Ask Tesadufleri Sever) é um belíssimo exemplo dessa nova leva. O filme acompanha a vida um menino e uma menina que nasceram no mesmo dia, lado a lado na maternidade, e mostra os encontros e desencontros deles durante toda a vida. É tocante ao extremo, e apesar de ser uma comédia romântica, foge de qualquer esteriótipo do gênero.

63. A Outra Margem, de George Ovashvili (Geórgia)
Sem muitos rodeios, A Outra Margem (Gagma Napiri) mostra de forma crua e fidedigna as consequências que uma Guerra causam nas pessoas, sejam elas crianças ou adultos. A história acompanha uma mãe e seu filho, refugiados da Guerra da Abecásia, que passam a morar numa cabana abandonada nos subúrbios de Tbilisi. O garoto no entanto não consegue se adaptar à nova realidade, e parte numa viagem de volta para a cidade natal na tentativa de reencontrar seu pai.

64. Cargo 200, de Aleksey Balabanov (Rússia)

Confesso que o cinema russo nunca me conquistou. Gostei de pouquíssimos filmes que assisti de lá, e um deles é Cargo 200 (Gruz 200), que se passa em 1984 e conta duas histórias distintas que se cruzam durante a extinta União Soviética. De um lado, o sumiço da filha do presidente do comitê do Partido Comunista, de outro o assassinato de um homem à sangue frio no meio da noite. É um suspense diferente de qualquer outro, principalmente pelo seu enredo propositalmente sujo e grotesco, mostrando o lado mais podre e deprimente do ser-humano.

65. Daisy Diamond, de Simon Staho (Dinamarca)

O cinema da Dinamarca ficou conhecido nos últimos anos principalmente pelo Dogma 95, manifesto lançado por Lars von Trier e Thomas Vintenberg, que foi criado com a intenção de fugir do cinema convencional. Daisy Diamond pode não fazer parte desse manifesto, mas foge igualmente daquilo que somos acostumados a ver no cinema comercial. O filme mostra a história de uma jovem mulher que sonha em ser atriz mas que enfrenta grandes dificuldades, principalmente por ter uma filha de poucos meses de idade. O filme é brilhante mas é para poucos, pois do meio pro final há que ser muito forte pra suportar o que é mostrado.

66. Kauwboy, de Rick Lens (Holanda)

Um dos filmes mais simples e simpáticos que já tive a oportunidade de assistir, Kauwboy mostra a história de amizade entre um menino e um pássaro. O garoto de dez anos tem uma infância complicada, tendo que lidar com a mãe ausente e com as mudanças drásticas de humor do pai, até que começa a ver a vida com outros olhos quando encontra uma gralha ferida e a leva para casa, criando um vínculo muito forte com o animal.

67. O Oitavo Dia, de Jaco Van Dormael (Bélgica)

O cinema da Bélgica sempre foi bastante competente e um dos mais produtivos do continente. É de lá que vem grandes obras como O Oitavo Dia (Le Huitième Jour), que mostra a relação fraternal que se cria entre um empresário solitário e um jovem com síndrome de down depois de um acidente de trânsito. Bonito e comovente, o filme é uma verdadeira lição de que, apesar das diferenças, no fundo somos todos iguais, e o festival de Cannes gostou tanto da atuação dos atores que deu o prêmio de melhor ator para os dois.

68. A Onda, de Dennis Gansel (Alemanha)


Baseado numa história real que ocorreu nos Estados Unidos em 1967, A Onda (Die Welle) nos mostra como uma ideologia levada a sério pode transformar pessoas em "animais". Um professor fica responsável por ensinar autocracia a seus alunos, e depois de muitos deles duvidarem de que o nazismo poderia voltar a acontecer na Alemanha moderna, ele resolve criar um experimento: formar um grupo fascista na turma, onde escolhem um nome (A Onda), um uniforme e até mesmo uma saudação. Porém, a brincadeira sai do controle quando os alunos começam a propagar as ideias porta fora, tornando tudo isso um movimento real e incontrolável.

69. Perder a Razão, de Joachim Lafosse (Suiça)

Perder a Razão é um drama devastador sobre um caso real que ocorreu na Bélgica. Um casal apaixonado resolve casar e morar juntos. Como tudo vai bem, eles resolvem dar uma nova cara ao relacionamento tendo filhos e construindo uma verdadeira família, mas a entrada das crianças na vida do casal acaba mudando a rotina dos dois. Quem mais sofre com isso é a mãe, que passa a ficar cada vez mais afetada emocionalmente, até que isso culmina em um final trágico e doloroso.

70. A Lenda do Pianista do Mar, de Giuseppe Tornatore (Itália)

O cinema italiano, se não for o mais bonito do mundo, está entre os três mais. Grandes obras e grandes diretores fazem parte de sua história, entre eles Visconti, Fellini, De Sica, Antonioni e Bernardo Bertolucci. Mais recentemente é Giuseppe Tornatore o nome mais forte da sétima arte no país, e é dele essa obra-prima, que está entre os cinco filmes mais bonitos da minha vida. A história acompanha um exímio pianista que é abandonado em um navio, ainda bebê, e criado por um dos empregados da embarcação. Durante sua vida toda ele jamais pisou em terra firme, e criou lindas canções em meio às ondas e o barulho do mar.

71. O Escafandro e a Borboleta, de Julian Schnabel (França)

Assim como o italiano, o cinema francês também está entre os mais belos do mundo. Sua história na sétima arte é de uma importância sem tamanho, começando desde a criação das primeiras câmeras no século 18, passando por diversos movimentos que mudaram a forma de ver os filmes (como a Nouvelle Vogue dos anos 60), até chegar o belo cinema atual do país. Um dos melhores exemplos contemporâneos é O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon), que mostra a vida real de um editor da revista Elle que tem um derrame cerebral e passa o resto da vida com um único movimento no corpo: o olho esquerdo. É com ele que ele consegue se comunicar com o mundo e escrever sua própria autobiografia, num exemplo de superação sem tamanho.

72. A Língua das Mariposas, de José Luis Cuerda (Espanha)

A Língua das Mariposas (La Lengua de las Mariposas) se passa nos momentos que antecederam a Guerra Civil Espanhola, e mostra a relação de amizade que se cria entre uma criança e seu professor. A criança, com seus 7 anos de idade, vai aprendendo aos poucos os valores mais importantes de vida, enquanto acompanha, sem entender muito, as turbulentas transformações pelas quais o país passava naquele momento.

73. A Gaiola Dourada, de Ruben Alves (Portugal)

A Gaiola Dourada (La Cage Dorée) é um belo filme português sobre raízes e o amor pela terra natal. Um casal de imigrantes portugueses mora há mais de 30 anos num bairro nobre na França, mas nunca esqueceram de suas origens. Um dia, uma herança inesperada acaba trazendo a possibilidade de eles retornarem à Portugal, mas a vizinhança, já tão acostumada com eles e seus costumes, começa a fazer de tudo para evitar que isso aconteça. É um filme bastante divertido e extremamente leve, que te faz querer fazer parte daquela vizinhança adorável.

74. Barry Lyndon, de Stanley Kubrick (Inglaterra)

Em termos de qualidade, o cinema britânico não perde em nada para o americano. Entre os maiores diretores da sua antiga história, estão David Lean, Fred Zinnemann, e Alfred Hithcock, além dos contemporâneos Danny Boyle, Mike Leigh, Alan Parker, Stephen Frears e Tom Hooper. Porém, o filme escolhido para representar o país nessa lista não é de nenhum deles mas de um diretor americano que teve as bases de sua carreira na ilha europeia. Que Stanley Kubrick era um gênio qualquer um que goste de cinema sabe, mas poucos conhecem Barry Lyndon, o filme mais impressionante do diretor. Contando a história de um homem pobre que se tornou parte da nobreza britânica e que por causa dos excessos chegou à decadência, o filme é uma obra-prima completa e inesquecível, e um dos melhores filmes da história do cinema.

75. A Parte dos Anjos, de Ken Loach (Escócia)

A comédia A Parte dos Anjos (The Angels' Share) mostra um pouco da história a respeito da produção de Whisky no país, conhecido por ser o melhor produtor da bebida no mundo. Um jovem que está cumprindo trabalhos comunitários após ser preso acaba conhecendo um pessoal que também está na mesma situação que a sua, e com a ajuda do monitor deles, todos descobrem um pouco mais sobre a degustação de Whisky, abrindo novas portas de mercado para eles.

76. Meu Pé Esquerdo, de Jim Sheridan (Irlanda)

Nossa despedida da Europa é na Irlanda. Meu Pé Esquerdo (My Left Foot) é um belíssimo drama protagonizado pelo "tricampeão" de Óscares Daniel Day-Lewis (foi inclusive com esse filme que ele ganhou o seu primeiro). O longa mostra a história real de um garoto que nasceu com uma grave paralisia cerebral que impedia que ele movimentasse qualquer parte do corpo, com exceção do seu pé esquerdo. Com o controle desse único membro, ele conseguiu pintar quadros e escrever sua própria autobiografia, que ficou famosa em todo o país.

77. 7 Caixas, de Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori (Paraguai)

Quase chegando em casa, fazemos uma parada no Paraguai. Maior sucesso de bilheteria da história do cinema paraguaio, 7 Caixas (7 Cajas) é um eletrizante thriller que acompanha a história de um garoto, amante dos filmes de ação americanos, que trabalha como carregador de compras em um mercado popular de Assunção. Tudo vai bem até que um dia ele recebe a incumbência de transportar e esconder sete caixas cujo conteúdo é um mistério. A partir de então ele começa a ser perseguido tanto por bandidos como por policiais, em uma caçada humana que prende o espectador até o último segundo. O mais interessante é que todos os atores do filme são amadores, alguns inclusive nunca haviam trabalhado em frente às câmeras, e mesmo assim todos tem excelentes atuações.

78. Valentín, de Alejandro Agresti (Argentina)

Para mim o cinema argentino está entre os três melhores do mundo, e isso não é pouca coisa. Nossos hermanos, que já tem dois Óscares de melhor filme estrangeiro em sua história (A História Oficial em 1986 e O Segredo dos Seus Olhos e 2010) possuem uma extensa lista de obra-primas, principalmente nos últimos 15 anos. Entre eles está Valentín, um filme doce e adorável sobre um garotinho de nove anos que vive com a avó e tem dois sonhos: se tornar um astronauta quando crescer e conhecer sua mãe biológica que ele nunca viu.

79. O Banheiro do Papa, de César Charlone e Enrique Fernández (Uruguai)

Chegando quase ao fim da viagem, paramos no Uruguai. Nos últimos anos, o cinema do nosso vizinho vem numa notável crescente, com bons títulos disputando prêmios importantes em festivais mundo à fora, e entre eles está O Banheiro do Papa (El Baño del Papa). O longa mostra a movimentação em torno da visita que o Papa João Paulo II fez ao país em 1988, onde diversas pessoas viajaram até a cidade de Melo, perto da divisa com o Brasil, para aproveitar a ocasião e vender desde comida e bebida até suvenires e lembrancinhas. Um homem que mora na região decide montar um banheiro, para que todas essas pessoas possam se "aliviar" durante o evento, mas para isso tem que lidar com diversas dificuldades.

80. Teus Olhos Meus, de Caio Sóh (Brasil)

Enfim, em casa. O cinema nacional, apesar de muito criticado, é um dos mais interessantes do mundo. Existem muitos filmes de qualidade feitos por aqui, o problema é que boa parte das boas histórias sequer chegam ao grande público, que prefere comédias babacas sem nenhum conteúdo. Um dos melhores exemplos do cinema daqui nesses últimos anos é Teus Olhos Meus, que aborda a relação homossexual que se cria entre um homem mais velho e um jovem com espírito libertário, e a mudança que isso inflige em cada um. Trata-se de um filme extremamente poético, e com um final que fica eternamente na cabeça.