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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O que foi o movimento Dogma 95?


Criado pelos diretores dinamarqueses Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, o movimento que ficou conhecido como Dogma 95 foi lançado a partir de um manifesto publicado em 13 de março de 1995. A intenção era a criação de um cinema mais realista e menos comercial, em um ato de resgate ao que era feito antes da exploração industrial.

Exemplo de certificado dado pelo Dogma 95.
O documento original continha 10 regras que, segundo os próprios organizadores, foram escritas em apenas 45 minutos. Eram regras técnicas (uma série de restrições quanto ao uso de tecnologias nas filmagens) e éticas (quanto ao conteúdo apresentado nos filmes). Em 2005, o diretor Lars Von Trier acrescentou ainda mais 4 regras que passaram a valer a partir de então.

Assim que os diretores estavam para lançar seus filmes, eles deveriam enviar uma cópia para a entidade responsável pelo Dogma 95, para que o trabalho fosse analisado e pudesse receber o certificado de participação no movimento.

O primeiro filme oficial da nova ideologia foi Festa de Família (Festen), lançado em 1998 pelo diretor Thomas Vinterberg, que ficou conhecido como Dogma #1. Aclamado pela crítica, o filme recebeu diversos prêmios em festivais cinematográficos ao redor do mundo. Lars Von Trier lançou logo após o seu Os Idiotas (Idioterne), também agraciado com prêmios e indicações, conhecido como Dogma #2.


Cena de Festa de Família, primeiro filme lançado com o selo do movimento.
Com uma linguagem audiovisual rude, e um custo bastante baixo para os padrões, os dois ficaram marcados como os primeiros a utilizarem as técnicas propostas no manifesto. As imagens são ruins, e o áudio ainda pior. Mas o que torna os dois filmes intrigantes são os belíssimos roteiros construídos nos mínimos detalhes.

Até os dias de hoje, mais de 300 filmes foram oficialmente reconhecidos com o cetificado Dogma 95. A lista completa pode ser conferida no site oficial da entidade: http://web.archive.org/web/20080526145250/www.dogme95.dk/menu/menuset.htm


As regras do Dogma 95

1 - As filmagens devem ser feitas no local. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).

2 - O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).

3 - A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos (ou a imobilidade) devidos aos movimentos do corpo. O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada, são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar.

4 - O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).

5 - São proibidos os truques fotográficos e filtros.

6 - O filme não deve conter nenhuma ação "superficial". (Homicídios, armas, etc. não podem ocorrer).

7 - São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme deve ocorrer na época atual).

8 - São inaceitáveis os filmes de gênero.

9 - O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento.

10- O nome do diretor não deve figurar nos créditos.



Regras acrescentadas por Lars Von Trier em 2005:

- A gravação deve ser feita em formato digital.
- As filmagens devem ocorrer na Escócia.
- As filmagens não podem ultrapassar o prazo de 6 semanas.
- O custo total do filme não pode ultrapassar a quantia de um milhão de libras esterlinas.


Os Criadores, Lars Von Trier e Thomas Vintenberg.

sábado, 20 de julho de 2013

Especial Dia do Amigo: 10 amizades inesquecíveis do cinema.

"Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito", já dizia a canção. E nesse dia 20 de julho, dia internacional da amizade, é essencial lembrarmos daqueles que estão sempre do nosso lado, ajudando nas tarefas mais difíceis, e nos acompanhando nas horas boas e ruins.

No cinema já foram expostos diversos exemplos clássicos desse sentimento fraternal. Resolvi então, em comemoração à data, criar uma lista com as 10 duplas de amigos mais marcantes do cinema.



1 - Bruno e Shmuel, em O Menino do Pijama Listrado

Relações de amizades nascem até mesmo nos momentos menos propícios, como no meio de uma guerra. E a história entre Bruno e Shmuel descrita no filme O Menino do Pijama Listrado (The Boy in the Striped Pyjamas) é uma das mais encantadores do cinema. Bruno é filho de um oficial nazista, e acaba conhecendo o menino judeu Shmuel, correspondendo-se através de uma cerca que separa a casa da família alemã do campo de concentração. A relação doce entre os dois acaba levando a um grave desfecho.


2 - Toto e Alfredo, em Cinema Paradiso

Para uma verdadeira amizade, não há diferença de idade. Isso já foi abordado em vários filmes, mas poucas vezes de forma tão sensível e emocionante como em Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso), do cineasta Giuseppe Tornatore. Toto é um menino apaixonado pela sétima arte, que de tanto frequentar o cinema local, acaba firmando amizade com o projetista, um senhor de idade rabugento e mau humorado que acaba se deixando levar pela doçura do menino.


3 - Amir e Hassan, em O Caçador de Pipas

Um relação de amizade, quando verdadeira, não se esvai com o tempo. Em O Caçador de Pipas (The Kite Runner), temos a história de Amir e Hassan, dois garotos áfegãos que crescem juntos, mas que por motivos de diferenças acabam se separando. Após 20 anos, morando nos Estados Unidos, Amir retorna ao Afeganistão para tentar consertar o ocorrido no passado entre os dois.


4 - João Grilo e Chicó, em O Auto da Compadecida

Clássico do cinema nacional, O Auto da Compadecida mostra a relação de amizade entre João Grilo e Chicó, dois amigos que vivem na região semi-árida do nordeste e lutam diariamente pelo pão de cada dia, usando de truques para enganar os outros moradores da cidade de Taperoá.


5 - Shrek e Burro Falante, em Shrek

Há tempos que os filmes de animação passaram a trazer lições de vida nos seus enredos, e Shrek é apenas mais um dos exemplos. Trata-se da história de amizade entre o incomodativo Burro Falante e o rabugento ogro Shrek, sendo uma lição de que amizades verdadeiras podem existir apesar das diferenças gritantes entre os dois.


6 - Germain e Margueritte, em Minhas Tardes com Margueritte

De um lado um senhor simples e intelectualmente ignorante, do outro uma senhora doce e apaixonada por livros. Dessa relação de opostos nasce uma das mais belas amizades já descritas nas telas dos cinemas, entre duas pessoas de idades, ideais e formações diferentes, que se completam em tardes de sol no banco de uma praça.


7 - Frodo e Sam, em O Senhor dos Anéis

Uma das maiores produções do cinema, a trilogia O Senhor dos Anéis (Lord of the Rings) traz junto uma das maiores lições de união e companheirismo. Frodo e Sam formam uma forte amizade, enfrentando juntos aventuras inesquecíveis e perigosas, nunca deixando de lado um ao outro.


8 - Thelma e Louise, em Thelma & Louise

Cansadas da vida monótona que viviam, as amigas Thelma e Louise resolvem deixar tudo para trás e seguir de carro pelas estradas dos Estados Unidos, vivendo aventuras antes impensáveis por ambas.


9 - Ernesto Guevara e Alberto Granado, em Diários de Motocicleta

Dirigido pelo brasileiro Walter Salles, Diários de Motocicleta narra a aventura de Enestro "Che" Guevara pela América, na companhia de seu amigo inseparável Alfredo. É nessa viagem que Che, ao constatar a miséria que algumas pessoas enfrentam dia-dia, resolve pôr em prática seus ideais revolucionários que o fizeram ficar conhecido mundialmente.


10- Georges e Harry, em O Oitavo Dia

Harry é um empresário estressado, que vive apenas para o trabalho, sem família. Certo dia, vagando pelas ruas com seu carro, Harry atropela Georges, um rapaz com síndrome de down, e acaba levando-o para casa para ajudar-lo. Com o tempo, a amizade cresce de tal forma que Harry não consegue mais se desvencilhar de George.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Giuseppe Tornatore: O Gênio Italiano.


Considerado um dos melhores diretores da história do cinema, e o melhor do cinema italiano contemporâneo, Tornatore está entre os meus cineastas preferidos e certamente merecia ter um post especial sobre seu trabalho por aqui. Siciliano da pequena cidade de Bagheria, Tornatore nasceu no dia 27 de maio de 1956, e já na adolescência frequentou aulas de fotografia onde acabou ganhando importantes concursos na região onde morava.



Com apenas 16 anos, começou a pôr em cena algumas peças de teatro, e graças a isso passou a ter contato com atores e consequentemente com o cinema. Foi então que conseguiu dirigir seu primeiro curta-metragem, Il Taxi.


Sua inicialização no mundo cinematográfico se deu por meio de documentários, entre eles Le minoranze etniche in Sicilia, que lhe rendeu um prêmio no Festival de Salerno. No cinema ficcional, estreou apenas em 1986 como diretor do filme O Professor do Crime (Il Camorrista), depois de trabalhar alguns anos na televisão. O filme mostra a história real de um mafioso que, mesmo preso, comandava sua família e seus negócios de vendas ilegais de trás das grades.

Seu reconhecimento e popularidade, no entanto, ficaram evidentes apenas com seu segundo longa metragem, o premiadíssimo e extraordinário Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso), de 1988. O filme gira em torno de Totó, um garoto pobre de uma cidade da Sicília que se encanta com a chegada do cinema na cidade e passa as tardes frequentando o local, fazendo amizade com Alfredo, um senhor de idade que trabalha como projetista.

A inesquecível amizade de Alfredo e Totó, em Cinema Paradiso.
Cinema Paradiso foi um enorme sucesso de público e crítica, chegando a conquistar o Oscar de melhor filme estrangeiro daquele ano. Foi também a primeira colaboração do diretor com o maestro Ennio Moricone, que rendeu e ainda rende as trilhas sonoras mais encantadoras de todos os tempos.

Segundo o próprio diretor, trata-se de um filme autobiográfico: "Eu escrevi a história recordando minha infância. Como Totó, eu vivia num pequeno povoado da Sicília e era apaixonado pelo cinema. Era nos filmes que eu encontrava as respostas. O cinema me ensinava tudo (...)".

Tornatore durante as filmagens de Cinema Paradiso.
Depois da aclamação mundial de Cinema Paradiso, em 1990 Tornatore lançou Estamos Todos Bem (Stanno Tutti Bene). Outro sucesso de sua autoria, o filme ficou marcado por ter sido um dos últimos trabalhos em vida do astro Marcelo Mastroiani. Ele dá vida a um personagem nostálgico que viaja pela Itália atrás de seus cinco filhos, após nenhum deles aparecer para comemorar seu aniversário, como é feito todo ano. Na viagem, o personagem de Mastroiani vai descobrindo coisas sobre eles que ele preferia não ter descoberto. O longa ganhou um remake americano em 2010, Estão Todos Bem, estrelado pelo ator Robert de Niro.

Mastroiani em Estamos Todos Bem.
Seu próximo filme, Sempre aos Domingos (La Domenica Specialmente) foi uma parceria de Tornatore com mais 3 diretores italianos da época: Francesco Barilli, Giuseppe Bertolucci e Marco Tullio Giordana. O longa, que contava três estórias paralelas sobre relacionamentos bastante incomuns, teve pouca aceitação do público e da crítica e nem é citado na filmografia oficial do diretor.

Após 5 anos longe das telas, Uma Simples Formalidade (Una Pura Formalita) trouxe o nome de Tornatore de volta ao circuito internacional. Estrelado  magnificamente por Gerard Depardieu e Roman Polanski, com um clima sombrio e cheio de diálogos marcantes o filme acompanha uma estória "Kafkaniana" sobre um homem que é preso e nem sequer sabe o porque.

Polanski e Depardieu em Uma Simples Formalidade (1995).
Em 1995 Tornatore lançou O Homem das Estrelas (L'uomo Delle Stelle). O enredo conta a história de um charlatão que se finge de diretor de cinema, cobrando dos moradores de uma pequena cidade da Sicilia uma quantia em dinheiro com a promessa de levar seus testes para um grande estúdio de Roma. O filme não atingiu o sucesso esperado, mas é considerado como um dos melhores do diretor pelos seus fãs.

Três anos se passaram, e em 1998 Tornatore lançou aquele que de longe é sua obra-prima suprema. Cheio de excessos, incluindo os gastos na produção, A Lenda do Pianista do Mar (La Leggenda Del Pianista Sull'oceano) é o filme mais caro e detalhado da carreira do diretor. O filme conta a história de um garoto que foi encontrado abandonado no convés de um navio por um dos engenheiros navais, que o pega para criar. Crescendo entre uma viagem e outra, e sem pôr os pés em terra firme, o garoto descobre um piano e junto descobre também o dom de tocar.

Tim Roth no papel da sua carreira em A Lenda do Pianista do Mar.

Monica Bellucci em Malèna.
Malèna (Malèna), lançado em 2000, é o último grande sucesso da carreira de Tornatore. Estrelado pela atriz Monica Bellucci, o filme se passa em 1941 numa pequena vila da Sicília. A personagem Malèna (Bellucci), viúva de um soldado morto na guerra, vive no vilarejo e causa inveja em todas as outras moradoras por ser belíssima e arrancar os olhares dos homens casados. Triste e cruel, Malèna é um retrato do quanto a felicidade alheia afeta a vida dos outros, e o quanto a opinião pública pode ser fatal para estragar a vida de alguém.

Após Malèna, em 2006 Tornatore lançou A Desconhecida (La Sconosciuta). O filme foi um fracasso de público e é cotado como um dos mais fracos do diretor pelos próprios fãs, e por ele mesmo. Em 2009, ele voltou a firmar parceria com a atriz Monica Bellucci, no filme Baarìa - A Porta do Vento (Baarìa), que assim como o seu último trabalho, não alcançou o sucesso desejado.

Geoffrey Rush em A Melhor Oferta, último filme do diretor.
Atualmente, Tornatore voltou em grande estilo com o suspense A Melhor Oferta (La Migliore Offerta), que mostra a obsessão de um administrador de leilões de arte por sua misteriosa herdeira. No elenco estão Geoffrey Rush, o talentoso Jim Sturgess e o veterano Donald Sutherland. A Melhor Oferta foi exibido em festivais e circuitos da Europa, mas ainda não tem previsão de estréia nem nos EUA e nem no Brasil.

Enquanto isso, Tornatore já trabalha no seu próximo trabalho, Leningrado, um roteiro abandonado pelo mestre Sergio Leone, que ainda deve trazer Al Pacino no elenco. Previsto para estrear apenas em 2015, só nos resta esperar para ver a próxima obra-prima que vai sair da cabeça desse gênio.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

De Humberto Mauro a Fernando Meirelles: Uma Breve História do Cinema Nacional.


Nesse dia 19 de junho é comemorado o Dia do Cinema Brasileiro. Isso se dá graças ao lançamento de Vista da Baía de Guanabara do Italiano Alfonso Segreto, no longínquo ano de 1898, considerado pelos historiadores como o primeiro filme gravado em solo nacional. Filmado em forma de documentário, o curta era centrado em cenas do cotidiano carioca, focando principalmente na vida noturna agitada da época e nos seus pontos turísticos.

Após o lançamento dos primeiros filmes ainda no final do século 19, o Brasil viveu um período de recesso por conta da escassez de energia elétrica, e somente após 1907 que a indústria cinematográfica retornou às atividades. Os Estranguladores (1908) de Antônio Leal, é considerado o primeiro filme de ficção do país, e baseava-se em uma história policial verídica (como grande parte dos filmes do período), tendo sido exibido mais de 800 vezes e arrecadado uma bilheteria recorde para a época.

Ainda em 1909 surgiram os primeiros filmes cantados, onde os atores ficavam atrás da tela do cinema dublando seus próprios personagens. Nesse período, o sucesso ficou por conta da filmagem de revistas musicais (Paz e Amor, 1910) e trechos de óperas (O Guarany, 1911). Hoje, porém, não existem sequer fragmentos dessas obras, perdidas no tempo.

O Italiano Alfonso Segreto junto de seus equipamentos de filmagem.
Em 1911 chegam ao Brasil alguns imigrantes Italianos, que tomam conta do mercado. O ator Vittorio Capelaro se une a Antônio Leal para juntos fazerem uma série de filmes baseados na literatura clássica nacional, como Inocência (1915) e O Guarani (1916). No Rio de Janeiro, Luiz de Barros também seguiria essa ideia e lançaria a adaptação de A Viuvinha (1915), Iracema (1918) e Ubirajara (1919).

Na década de 20, a produção que se limitava apenas a São Paulo e Rio de Janeiro, ganha novos lugares. Em Minas Gerais, o italiano Pedro Comello faz uma parceria com o mineiro Humberto Mauro e juntos produzem Os Três Irmãos (1925) e Na Primavera da Vida (1926). No Rio Grande do Sul, se destaca Amor que Redime (1928), um melodrama urbano de Eduardo Abelim e Eugênio Kerrigan. O estado já tinha ficado marcado em 1914 com O Crime do Banhado, do pelotense Francisco Santos, considerado o primeiro longa-metragem do cinema nacional.

Porém, o maior êxito de produções da época ficou por conta de Pernambuco, com Edson Chagas e Gentil Roiz. Retribuição (1925) e Jurando Vingar (1925) são aventuras com personagens que remetem aos caubóis americanos. Abordando temas mais regionais, surgem Aitaré da Praia (1925), o grande sucesso da dupla que chegou a ser exibido no Rio, e Filhos sem Mãe (1926). 

Os primeiros filmes falados

Carmen Miranda em Alô Alô Carnaval,
de 1936.
Na década de 30, surgiram os primeiros filmes falados no cinema mundial, e o Brasil aderiu logo à novidade. O primeiro longa sonoro brasileiro é a comédia Acabaram-se os Otários (1929), de Luiz de Barros. Na contramão da nova tecnologia, Mário Peixoto lança o grande sucesso da época, Limite (1930), filme mudo que até hoje é considerado um marco do cinema experimental.

A partir dessa década, surge a primeira companhia cinematográfica do país, a Cinédia, no Rio de Janeiro, e as produções passam a ser mais sofisticadas. Humberto Mauro, considerado o primeiro grande diretor do cinema nacional, lança sua obra-prima Ganga Bruta (1933) pela produtora, que ainda ficaria conhecida por lançar Carmem Miranda para o mundo com Alô Alô Brasil (1935) e Alô Alô Carnaval (1936).

O Período das Chancadas

A década de 40 é marcada pelo surgimento das Chanchadas no cinema nacional, que ficaram conhecidas por lançarem nomes como Grande Otelo e Oscarito. O primeiro grande sucesso do gênero ficou por conta de Moleque Tião (1943), comédia estrelada justamente pelo comediante Grande Otelo. Em seguida, passaram a ser lançadas comédias musicais de forte apelo popular, principalmente sobre o tema carnaval, como Carnaval no Fogo (1949).

Grande Otelo e Oscarito em cena. Dupla inesquecível do cinema nacional.

Aos poucos, os diretores vão largando o tema carnavalesco e passam a focar nas comédias sobre o cotidiano da vida urbana, como Nem Sansão Nem Dalila (1954) e Matar ou Correr (1954), ambos de Carlos Manga.

Ainda no final da década de 40, influenciados pelo cinema americano, banqueiros e empresários se unem ao engenheiro Franco Zampari para criar a mega produtora Vera Cruz, nos moldes de Hollywood, com grandes estúdios e equipamentos de primeira. Em 5 anos são produzidos 18 filmes, desde os dramas Caiçara (1950) e Sinhá Moça (1953), até as comédias Tico-Tico no Fubá (1952) e É Proibido Beijar (1954). O grande sucesso da produtora ficou por conta de O Cangaceiro (1953), que fez nome fora do Brasil e lançou o ator Mazaropi para o mundo.

As chanchadas acabaram se esgotando no final da década de 50, quando o público pareceu ter enjoado da fórmula. Os atores do gênero acabaram indo trabalhar em programas de humor na recém surgida televisão.

Mazaropi, em O Cangaceiro (1953).

Precursores do Cinema Novo

Em meados da década de 50, começa a surgir uma nova estética nacional, com influência no neo-realismo italiano. Filmes como Agulha no Palheiro (1953), de Alex Viany, Rio 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos e O Grande Momento (1958) de Roberto Santos, remetem justamente ao famoso movimento europeu.

Paralelamente, destacam-se o cinema de Anselmo Duarte, com seu O Pagador de Promessas (1962), premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e Glauber Rocha, com Barravento (1961).

Cena de O Pagador de Promessas, premiado filme de Anselmo Duarte.

Cinema-Novo

"Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça" era o grande lema dos cineastas desse período, que se propuseram a realizar filmes baratos repletos de preocupações sociais, muitos enraizadas na cultura brasileira da época. Três filmes podem ser considerados o pontapé inicial do movimento: Os Fuzis, de Ruy Guerra, Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos e Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, ambos de 1963.

O movimento de destacou por mostrar um Brasil desconhecido, com seus diferentes conflitos políticos e sociais, à beira de uma ditadura (ainda que o povo não soubesse disso até então). Após o golpe militar de 1964, o foco dos filmes passa a ser a classe média urbana, com O Desafio (1965), de Paulo César Saraceni e A Grande Cidade (1966), de Cacá Diegues.

Cena de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

Com Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), do cineasta Glauber Rocha, o cinema brasileiro tenta driblar a censura do regime militar por meio de filmes alegóricos. Se destacam ainda Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, Brasil Ano 2000 (1968), de Walter Lima Jr., O Bravo Guerreiro (1969) de Gustavo Dahl, e Os Deuses e os Mortos (1970), de Ruy Guerra.

Revoltados com a situação política do país, e influenciados pelo cinema experimental de Ozualdo Carreiras e José Mujica Marins (Zé do Caixão), alguns diretores "corajosos" lançaram mais filmes radicais, na fase que ficou conhecida no país como Cinema Marginal. Foram obras pouco assistidas pelo público em geral, com exceção do clássico O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla e Matou a Família e Foi ao Cinema (1969), de Júlio Bressane.


Cena de O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.


Década de 70

Remanescentes do Cinema Novo ou cineastas estreantes, em busca de um estilo de maior comunicação popular, produziram obras significativas nessa que pode ser considerada a época da grande explosão do cinema nacional. É nesse período que são lançados filmes emblemáticos como Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), do diretor Bruno Barreto, que levou mais de 11 milhões de espectadores aos cinemas de todo país e é até hoje a maior bilheteria da história do nosso cinema.

Outros grandes sucessos do período foram Lúcio Flávio, Passageiro da Alegria (1977), de Hector Babenco, A Dama da Lotação (1978) de Neville d'Almeida, Toda Nudez Será Castigada (1973) de Arnaldo Jabor, além de Xica da Silva (1976) e Bye Bye Brasil (1979), ambos de Cacá Diegues.

Mauro Mendonça, Sônia Braga e José Wilker em Dona Flor e Seus Dois Maridos.
Os anos 70 ainda se destacam pelo surgimento da "Pornochanchada". Diretores de talento que despontavam na época souberam aliar bem aquilo que dava bilheteria na época, os filmes eróticos, com as antigas chanchadas, produzindo filmes de alto teor sensual em pleno período conturbado da ditadura. Os filmes da pornochanchada não eram mais do que filmes feitos para agradar a massa, influenciados pelas comédias italianas, e obtiveram grande sucesso de público.

A jovem guarda, principal movimento musical da época, também marcou presença nesse período. Seu representante maior, o cantor Roberto Carlos, participou de filmes de sucesso como Roberto Carlos a 300 km/h (1971) e Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa (1970).

                                                         Década de 80

A abertura política na década de 80 possibilitou a inserção de temas antes proibidos nos filmes nacionais, como os vistos em Eles Não Usam Black-Tie, de Leon Hirszman e Pra Frente Brasil! de Roberto Farias, que foi o primeiro a discutir a questão da tortuta. Surgem no período novos bons diretores, como Lael Rodrigues (Bete Balanço), André Klotzel (Marvada Carne),Susana Amaral (A Hora da Estrela), Sérgio Bianchi (Mato Eles?) e Sérgio Toledo (Vera).

Cena do emblemático Eles Não Usam Black-Tie.
Graças à "Lei do Curta", todo filme estrangeiro em exibição no Brasil teria que ter um curta brasileiro antes do seu início, o que aumentou a produção desse tipo de filme no país, trazendo para o Brasil inúmeros prêmios na categoria.

Ainda na década de 80, outro destaque ficou por conta dos documentários de longa-metragem, como Jango, de Silvio Tendler e Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho. Ainda não podemos esquecer que foi a década do sucesso dos Trapalhões, que fizeram (juntando todos os filmes) a maior bilheteria do cinema brasileiro.


                                                              Anos 90

Com a ascenção de Fernando Collor à presidência do Brasil, e o confisco das reservas financeiras particulares do país, inúmeras produtoras e órgãos de incentivo ao cinema foram extintas. O único filme relativamente conhecido da época foi A Grande Arte, do diretor Walter Salles, que foi falado em inglês e não atingiu nem 1% do público total.

Marieta Severo no cartaz
de Carlota Joaquina.
A partir de 1993, já no governo de Itamar Franco, há um novo incentivo à Indústria CInematográfica do país, que resulta em uma retomada nas produções. Aos poucos, o cinema nacional vai voltando ao ritmo dos anos 80, e reconquistando seu espaço no cenário internacional. O filme que inicia esse novo período é Carlota Joaquina, Rainha do Brazil (1995), da diretora Carla Camurati. O Quatrilho, filmado no Rio Grande do Sul, chegou a ser candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro, mas fez pouquíssimo sucesso nos cinemas daqui. 

Em 1997, a distribuição dos filmes nacionais ainda era precária, com poucas salas disponíveis ao redor do Brasil. Por conta disso, as Organizações Globo decidiu criar sua própria produtora de filmes, a Globo Filmes, criando uma espécie de monopólio no circuito nacional, que de certa forma, serviu para alavancar o cinema de forma nunca antes vista na nossa história.

O grande exemplo disso é o filme Central do Brasil (1998), dirigido pelo cineasta Walter Salles, que chegou a concorrer em 2 categorias no Oscar Americano, melhor filme estrangeiro e melhor atriz para Fernanda Montenegro.

Cena de Central do Brasil, grande sucesso de Walter Salles.
Depois disso, outros grandes sucessos vieram lotar cada vez mais os cinemas daqui. O Auto da Compadecida (2000) de Guel Arraes, Cidade de Deus (2002) do promissor Fernando Meirelles, Carandiru (2003) de Hector Babenco, Olga (2004) de Jayme Monjardim, O Ano em que meus pais sairam de férias (2006) de Cao Hambuerger, Se eu Fosse Você (2006) de Daniel Filho, Tropa de Elite (2007) de José Padilha, entre outros, vieram para mostrar que a nova cara do cinema nacional estava de vez formada.

Para nosso orgulho, a tendência é que daqui para frente as obras filmadas no país continuem cada vez trazendo mais qualidade para as telas. Finalmente parece que o cinema feito por aqui voltou a ter motivos para comemorar a data.


Cena de Tropa de Elite, último grande sucesso do cinema nacional.

terça-feira, 18 de junho de 2013

O Cinema Colorido de Pedro Almodóvar


O diretor e roteirista Pedro Almodóvar está, junto com Luis Buñuel e Carlos Saura, no rol dos principais diretores de todos os tempos do cinema Espanhol. Nascido na cidade de Calzada de Calatrava, desde criança ele era apaixonado por cinema. Já na adolescência, frequentou compulsivamente os cinemas da cidade de Cáceres, onde foi morar com a família. Devido a situação financeira precária, nunca conseguiu fazer um curso na área, mas aos 16 anos se mudou sozinho para Madrid com o projeto concreto de aprender na prática a fazer seus próprios filmes.

Almodóvar trabalhou 12 anos como assistente administrativo na companhia telefônica nacional, e foi de fato onde ele teve sua verdadeira educação. Durante as manhãs, tinha contato com um classe social em que ele não teria conhecido diante de outras circunstâncias: a classe média espanhola, com seus dramas e misérias. Uma mina de ouro para um futuro contador de estórias.

Durante as tardes e noites livres, escreveu suas próprias estórias, algumas delas publicadas em revistas alternativas da época. Isso até se juntar ao grupo de teatro independente "Los Gollardos", onde fez seus primeiros filmes em Super-8. Nesse período, Almodóvar chegou até ser membro de um grupo de punk-rock, chamado "Almodovar e McNamara".

Após um ano e meio de difíceis filmagens em 16mm, ele finalmente estreou, em 1980, seu primeiro longa-metragem, Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón). Ele teve sorte que a estreia do filme coincidiu com o renascimento da democracia na Espanha, o que facilitou que o filme fosse divulgado sem censura, e o público tivesse livre acesso. Desde então, filmar se tornou sua grande paixão.


Declaradamente homossexual, seus filmes se destacam pela sexualidade abordada de forma aberta e sem tabus. Outro ponto marcante, e o que mais chama atenção em seu trabalho, é o forte uso de cores vivas, além de personagens exóticos e idiossincráticos. Em seus enredos, há uma constante necessidade de forças compensatórias para que as situações dramáticas sejam levadas com bom humor e esperança pelos personagens.

Almodóvar é um excelente observador, e coloca em cada personagem um pouquinho daquilo que vê no cotidiano comum. Sua obra alia drama com comédia, em um esforço que visa desnudar os desejos e sentimentos mais profundos do ser humano, com suas eternas crises de identidade. Sua carreira pode ser dividida entre três grandes momentos: os primeiros anos, o auge da consagração internacional, e a fase atual, com seus trabalhos mais maduros.


Primeiros Anos

Essa primeira parte da carreira de Almodóvar se estende de 1980, lançamento do seu primeiro longa, até 1987. Nesse período, o diretor era conhecido apenas na Espanha, e seus filmes rodados exclusivamente em cinemas de baixa expressão.


1980 - Pepe, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão (Pepi, Luci, Bom Y Otras Chicas del Montón): baseado em sua foto-novela Ereções Gerais, publicado anteriormente na revista El Víbora, o filme consiste em uma série de esboços vagamente ligados, ao invés de uma trama completamente formada. O enredo segue as aventuras das três personagens do título: Pepi, que quer se vingar do policial corrupto que a estuprou, Luci, uma dona de casa sado-masoquista, e Bom, uma cantora de punk-rock lésbica.


1982 - Labirinto de Paixões (Laberinto de Pasiones): Comédia maluca sobre identidades múltiplas, um dos assuntos favoritos de Almodóvar. O enredo segue as aventuras de dois personagens sexualmente exóticos: Sexilia, uma estrela pop apropriadamente chamada de ninfomaníaca, e Riza, filho homossexual do líder de um país fictício do Oriente Médio. O destino dos dois acaba sendo encontrar um ao outro, superar suas orientações sexuais e viver felizes para sempre em uma ilha tropical.


1983 - Maus Hábitos (Entre Tinieblas): O centro da narrativa é uma cantora de cabaré que, fugindo da justiça, encontra refúgio em um convento de freiras pobres, cada uma delas com um pecado diferente. A madre superiora, uma lésbica viciada em drogas, acaba apaixonando-se pela cantora. O filme é uma sátira das instituições religiosas da Espanha, retratando a desolação espiritual e a falência moral.


1984 - O Que Eu Fiz Para Merecer Isso? (Que he Hecho Yo Para Merecer Esto?): Inspirado nas comédias espanholas preto e branco do final dos anos 50 e início dos 60, trata-se de um conto sobre a luta de uma dona de casa chamada Gloria que tem de lidar com sua família desestruturada: seu marido violento que trabalha como motorista de táxi, seu filho mais velho traficante de drogas, o filho mais novo que vende seu corpo para os pervertidos locais e a avó que odeia a cidade e só quer voltar para sua aldeia rural.


1986 - Matador (Matador): História sombria e complexa que se concentra na relação entre um toureiro e uma advogada criminal que só pode experimentar satisfação sexual com alguma espécie de assassinato envolvido. O filme oferece o desejo como uma ponte entre atração sexual e morte, e trata-se de uma das obras mais obscuras da Almodóvar.


1987 - A Lei do Desejo (La Ley del Deseo): A narrativa segue três personagens principais: um diretor de cinema gay que embarca em um novo projeto, sua irmã transexual que trabalha como atriz, e um stalker reprimido que não passa de um assassino obsessivo. Foi o primeiro filme feito em sua própria produtora, a El Deseo, o que ampliou a independência do diretor.

Consagração Internacional

Iniciada com o grande sucesso Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, essa fase marca o momento em que Almodóvar ultrapassa a fronteira espanhola para se tornar um dos mais renomados diretores do final do século 20 no mundo todo.

Almodóvar junto com o elenco principal de Mulheres à Beira de um Ataque dos Nervos.

1988 - Mulheres à Beira de Um Ataque dos Nervos (Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios): A comédia estrelada por Carmen Maura, Antônio Banderas e Rossy de Palma, conta os detalhes de um período na vida de Pepa (Carmen Maura), uma dubladora profissional de filmes que foi abruptamente abandonada por seu amante casado e que freneticamente tenta localizá-lo. No curso da sua busca, ela descobre alguns de seus segredos, e percebe seus verdadeiros sentimentos. O filme lançou Almodóvar para fora da Espanha, além de ser indicado a melhor filme estrangeiro no Oscar, no Globo de Ouro e no BAFTA.


1990 - Ata-me! (Átame!): O próximo filme de Almodóvar marcou o rompimento com a sua atriz de referência, Carmen Maura, e o início de uma frutífera colaboração com outra grande atriz do cinema espanhol: Victoria Abril. Também foi a quinta e mais importante colaboração do diretor com Antônio Banderas. No enredo, Ricky (Antônio Banderas) é um paciente psiquiátrico recém-liberado que sequestra e mantém como refém uma atriz (Victoria Abril), a fim de fazê-la se apaixonar por ele. Ao invés de preencher o filme com muitos personagens, como em seus filmes anteriores, aqui a história concentra-se na relação entre os dois: a atriz e seu sequestrador, literalmente lutando por poder e por amor.

1991 - De Salto Alto (Tacones Lejano): Construído em torno da relação entre uma mãe egocêntrica, uma famosa cantora, e a filha crescida que ela abandonou quando criança, que agora trabalha como apresentadora de TV e é casada com o ex-amante da mãe. Canções populares, sempre um elemento chave na obra de Almodóvar, nunca estiveram tão presentes quanto nesse filme.


1993 - Kika (Kika): Depois da intensidade dramática de De Salto Alto, Almodóvar dá outra reviravolta em sua carreira, rodando um dos seus filmes mais inclassificáveis​​. Na trama, cada personagem pertence a um gênero de filme diferente, gerando assim um enredo diversificado. A trama concentra-se em Kika, uma artista sem noção, mas de bom coração, que se envolve com um velho escritor americano e seu enteado desnorteado. Um repórter de TV sensacionalista segue e narra todas as desventuras da personagem.

1995 - A Flor do Meu Segredo: Na trama, uma romancista de sucesso passa a enfrentar uma crise profissional e pessoal. O filme marcou a transição da fase mais agitada do início da carreira de Almodóvar, para o momento mais maduro artisticamente. O filme contudo não foi bem recebido pela crítica, sendo uma das suas obras menos conhecidas.

Amadurecimento

Cena de Tudo Sobre Minha Mãe, filme que deu o primeiro
Oscar da carreira de Almodóvar.
É a fase onde Almodóvar nos mostra seus trabalhos mais complexos, incluindo algumas pequenas obras-primas do cinema moderno. É também onde ele se consagra, levando para casa todos os grandes prêmios da carreira.


1997 - Carne Trêmula: Carne Trêmula explora amor, perda e sofrimento, contando a história de vários personagens entrelaçados pelo destino, de um jeito que foge do controle de cada um. É moldado a partir de 1970, quando Franco decretou a ditadura, até 1996, quando a Espanha estava completamente fora das restrições do regime comunista. Com este filme Almodóvar iniciou a sua colaboração com a atriz Penélope Cruz.

1999 - Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre Mi Madre): Almodóvar conseguiu atingir seu limite dramático dirigindo esse filme. O enredo surgiu de uma breve cena de A Flor do Meu Segredo, e conta a história de uma mãe de luto que, depois de ler a última entrada no diário de seu filho morto sobre como ele queria conhecer seu pai pela primeira vez, decide viajar a Barcelona em busca do pai do menino. Ela deve dizer ao pai que teve seu filho depois que ele a deixou há muitos anos, e que ele já morreu. Chegando lá, ela encontra uma série de pessoas estranhas (um travesti, uma freira grávida, e uma atriz lésbica) que tentam ajudá-la a lidar com a situação.

2002 - Fale com Ela (Hable con Ella): O filme gira em torno de dois homens que se tornam amigos enquanto cuidam das mulheres que amam, ambas internadas no hospital em estado de coma. Suas vidas seguem fluxos em todas as direções, passado, presente e futuro, puxando-os para um destino inesperado. Combinando elementos de dança moderna e do cinema mudo, com uma narrativa que explora as coincidências da vida e o destino, o filme foi aclamado internacionalmente pela crítica e pelo público.

2004 - Má Educação (La Mala Educación): Má Educação aborda, de forma excêntrica, o abuso sexual de crianças e adolescentes. Duas crianças, Ignácio e Enrique, descobrem o amor, o cinema e o medo num colégio religioso no início dos anos 1960. Padre Manolo, o diretor da escola e seu professor de literatura, é testemunha e parte dessas descobertas. Os três personagens se encontram mais duas vezes, no final da década de 1970 e na década de 1980. Trata-se de um dos roteiros mais complexos de Almodóvar, com uma série de digressões e retomadas.


2006 - Volver (Volver): Volver é uma mistura de comédia, drama, família e história de fantasmas. O filme começa mostrando dezenas de mulheres esfregando furiosamente os túmulos de seus mortos, que institui a influência dos mortos sobre os vivos como um tema chave (o roteiro do filme foi criado logo após a morte da mãe de Almodóvar). O enredo segue a história de três gerações de mulheres da mesma família que sobrevivem ao fogo, ao vento e à morte. Junto com Fale com ela e Tudo Sobre Minha Mãe, Volver representa o ponto alto da carreira do diretor.


2009 - Abraços Partidos: Trata-se do mais longo e caro filme do diretor. A trama segue o destino trágico de um diretor de cinema que ficou cego em um acidente de carro 14 anos antes. O filme tem uma estrutura fragmentada, enigmática, misturando passado e presente, recursos que o diretor explorou anteriormente em Má Educação. É uma homenagem à arte de fazer filmes.

2011 - A Pele que Habito: Criatividade, crise de identidade e sobrevivência, temas frequentes nos filmes de Almodóvar, dão uma reviravolta inesperada em A Pele que Habito, seu 13º filme, que representa a primeira incursão do diretor no gênero "horror". O filme se concentra em Vera, uma bela mulher mantida em cativeiro por um cirurgião plástico amoral que realiza experimentos em sua pele. O médico é interpretado por Antônio Banderas, que se reúne com o diretor 21 anos após um longo período de colaboração, no início da carreira de ambos. Na lista de personagens "Almodovarianos", está uma dona de casa e carcereira cheia de segredos, um estuprador usando uma fantasia de tigre, e um médico está mentalmente perturbado pela morte da filha.

Antonio Bandeiras e Elena Anaya em A Pele que Habito, de 2011.