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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Crítica: Uma Vida Oculta (2020)


Sou fã do trabalho de Terrence Malick, até mesmo do injustiçado A Árvore da Vida, e por isso fui com bastante expectativa assistir Uma Vida Oculta (A Hidden Life), que é baseado na história real e desconhecida de Franz Jaggerstatter, um objetor de consciência que preferiu a morte a aceitar jurar lealdade a Hitler. Confesso a vocês que terminei o filme um pouco decepcionado com o que vi, e explico o porque nas próximas linhas.


O filme começa em 1939, no interior da Áustria, onde Franz (August Diehl) vive com a esposa (Valerie Pachner) e com os filhos. A primeira metade do longa flui bem, mostrando o dia-dia de suas vidas tranquilas trabalhando na colheita e no trato dos animais. Nesse tempo Franz chega a ser chamado para o exército duas vezes, mas após um curto treinamento consegue a dispensa. Porém, na terceira, já em 1943, ele não consegue escapar, e é convocado a se apresentar ao exército de Adolf Hitler junto a outras centenas de soldados.

Resistente ao nazismo, Franz se negou a fazer o juramento político de lealdade logo ao chegar no quartel, e por isso acabou preso, acusado de ir contra o regime. A segunda metade do filme se passa toda nesse período da sua prisão, e é aí que ele parece perder o ritmo, se tornando absurdamente maçante. A narrativa lenta é, na maior parte do tempo, transcrita por uma narração em off dos personagens, tendo pouquíssimos diálogos interpessoais, característica já presente em outras obras de Malick mas que aqui se tornou repetitiva.


Outro fato que atrapalha um pouco a experiência é o uso dos idiomas no filme. Não incomodaria tanto o fato dele ser falado em inglês se não houvessem interferências do alemão no meio. Por exemplo, enquanto o personagem principal fala inglês (mesmo sendo austríaco), os guardas xingam em alemão, e isso cria uma miscelânea de linguagens que deixa tudo pouco verossímil. Também achei as atuações bem fracas, com destaque apenas para Bruno Ganz, que faleceu em fevereiro do ano passado e teve aqui sua última participação nas telas.

Porém, nem tudo é digno de reprimenda no filme. Achei muito interessante a utilização das cenas de arquivo dos comícios nazistas da época, grande parte feitas pela cineasta de propaganda do governo Leni Riefenstahl. Outro fator interessante é mostrar como a vizinhança passou a julgar Franz antes dele ir para o exército, e posteriormente como passaram a agir com os membros de sua família. Homens e mulheres que tinham a mesma rotina, mas que passaram a enxergá-los como vilões apenas por serem contrários ao regime.


Terrence é associado a um cinema de belas imagens, contemplativo, e aqui ele não foge à regra. A fotografia do filme é realmente encantadora, em mais uma parceria do diretor com Jorg Widmer, mas infelizmente um filme não sobrevive apenas disso. Sua beleza estética acaba sendo pouco para a desconjuntura de todo o resto, o que torna o filme descartável no geral.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Crítica: Corpus Christi (2020)


Representante da Polônia no Óscar de melhor filme internacional este ano, Corpus Christi (Boze Cialo), do diretor Jan Komasa, apresenta uma narrativa de estrutura simples mas impactante para versar sobre o bem e o mal, e como essa dualidade é, de certa forma, complexa e dividida por uma linha tênue.


O longa acompanha Daniel (Bartosz Bielenia), um jovem cristão que, por uma série de coincidências, acaba sendo confundido com um padre após sair do centro de detenção juvenil e ir para uma cidade do interior. Assumindo a paróquia no lugar do sacerdote local, que precisava se ausentar por alguns meses, Daniel começa a implantar ensinamentos controversos e pouco ortodoxos numa população conservadora e que passou recentemente por uma grande tragédia.

A premissa é interessante, mas o roteiro possui alguns pontos fracos que o comprometem. O primeiro deles é o fato de possuir algumas cenas aleatórias, que pareciam perdidas do restante da trama. O segundo é a escolha do ator protagonista, que não convence no papel. Ficou bem difícil acreditar, por exemplo, que ele seria capaz de enganar toda uma cidade com os seus trejeitos e sua maneira de agir e falar.

O mais interessante na trama foi ela ter trazido à tona novamente a discussão sobre a hipocrisia dos cristãos e dos ditos "cidadãos de bem", que pareceu bem familiar com a realidade que a gente está inserido. Também gostei da fotografia escura e esverdeada, que dá um tom bem melancólico ao filme.



Por fim, Corpus Christi é um filme que fala bastante sobre olhar para o passado, sobre ética, perdão, redenção e sobre como as pessoas escondem suas verdadeiras facetas e seus preconceitos atrás de máscaras. 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Crítica: 1917 (2020)


Centenas de filmes já retrataram nas telas a Segunda Guerra Mundial, mas existem poucas estórias que se passam na Primeira Guerra, que historicamente falando foi ainda mais violenta e sanguinária. Sem Novidades no Front (1930), Glória Feita de Sangue (1957) e Feliz Natal (2005) são ótimos exemplos, e agora junta-se a este seleto grupo o longa 1917, graças a um trabalho impressionante de Sam Mendes na direção.


O longa se passa justamente no ano de 1917, e narra a história de dois soldados que recebem a missão de levar uma mensagem para soldados aliados que estão em outro pelotão, com a intenção de salvar mais de 1600 homens de um verdadeiro massacre em uma armadilha orquestrada pelo exército alemão. O enredo é simples assim, com dois personagens que precisam ir de um ponto A a um ponto B, porém nesse trajeto eles precisam atravessar territórios inimigos e lidar com todo tipo de adversidade possível em um ambiente de guerra.

Você pode estar pensando "ok, eu já vi isso antes, então o que este filme traz de novidade e o que o diferencia dos demais filmes de guerra?", e é aí que entra a mão de Sam Mendes. Filmado com a intenção de ser um grande plano sequência (dois, na verdade), o filme cria uma imersão sensacional, como poucas vezes eu vi no cinema. Eu fiquei hipnotizado com cada cena, me senti realmente entrando na história e me transformando num terceiro personagem junto com eles. Essa maneira de contar os acontecimentos faz com que o ritmo nunca se perca, pois até mesmo nos momentos de calmaria existe uma tensão no ar, aquela ansiedade de saber o que pode acontecer dali a poucos segundos.


Pode até parecer estranho, mas mesmo sendo um filme de guerra não existe nenhuma cena de batalha propriamente dita, já que o roteiro se preocupa apenas em acompanhar a missão dos dois. E isso não é demérito algum, pelo contrário. A violência pode não aparecer através das lutas, que seria sua forma mais óbvia, mas ela está presente o tempo todo, seja nos cenários destroçados, nas casas abandonadas ou nos milhares de cadáveres pelo chão. É sutil e ao mesmo tempo pesada a visão que é mostrada da guerra. Vale lembrar ainda que o filme se passa no ano anterior ao final do conflito, onde os soldados já estão exauridos, esgotados, com fome, e isso também é mostrado muito bem na tela.

Tecnicamente é um filme impecável. Sua fotografia é um primor, bem como todo o design dos cenários. A trilha sonora onipresente também ajuda muito a criar o clima de apreensão. Outro fator que também precisa ser elogiado é o trabalho de maquiagem. Há um momento em que um soldado morre e é possível ver sua aparência ir empalidecendo aos poucos, e tudo isso sem perder o fio do plano sequência, sem cortes. Simplesmente sublime.


Dean-Charles Chapman e George MacKay são dois jovens atores desconhecidos do grande público, mas se saíram muito bem na pele dos protagonistas. Não chegaram a ser tão exigidos nas atuações propriamente ditas, mas com certeza não foi fácil seguir em cena por vários minutos sem cortes e isso deve ser exaltado. O filme ainda conta com brevíssimas participações de Benedict Cumberbatch e Colin Firth, além de um dos maiores elencos de figurantes dos últimos anos.

Algumas coisas, bem pontuais, me incomodaram um pouco, como o fato de um dos personagens principais explicar o que estava acontecendo em algumas cenas que eram por si só auto-explicativas, como se tivesse subestimando a inteligência do espectador, ou ainda, a falta de profundidade em alguns diálogos, como em uma cena que acontece dentro de um caminhão. Mas entendo, porém, que talvez o diretor tenha apenas optado por abordar a superficialidade e o vazio das relações num ambiente hostil como esse, então realmente isso não atrapalhou a experiência.


Por fim, considero 1917 não somente uma das grandes experiências cinematográficas do ano mas também um dos melhores filmes de guerra já realizados, e falo sem medo de estar exagerando. Que sirva como inspiração para que mais filmes tenham a coragem de usar este formato narrativo sem cortes, que aqui funcionou e fez toda a diferença no resultado final.

Crítica: Jojo Rabbit (2020)


Quando foi lançado no Festival de Toronto, Jojo Rabbit dividiu muito a opinião da crítica. De um lado, alguns acharam genial a ideia do diretor Taika Waititi em mostrar o nazismo na Segunda Guerra de forma sarcástica, porém de outro, teve quem achou desrespeitoso com as vítimas tratar um assunto tão pesado de forma "divertida". O fato é que, polêmicas a parte, o filme é extremamente necessário e já entra para a lista dos melhores do ano.



Jojo Betzler (Roman Griffin Davis) é um menino típico da juventude hiterilista. Treinado em um acampamento militar para crianças, comandado pelo capitão Klenzerdorf (Sam Rockwell), o menino é a personificação da lavagem cerebral feita pelo exército alemão na época. Ele bate no peito e diz se orgulhar de ser nazista, se considera superior por ser da raça ariana, e mesmo sem conhecer nenhum judeu pessoalmente sente nojo de tudo que tenha a ver com eles.

Seu comportamento advém exclusivamente destes treinamentos militares, já que em casa a sua mãe, Rosie (Scarlett Johansson), desde o primeiro momento demonstra ser contrária aos ideais de Hitler. Ela porém esconde isso até mesmo do filho, por ter medo dele contar na escola e isso trazer sérias consequências. Sua rejeição ao governo nazista vai sendo mostrada através de pequenos gestos e diálogos seus, mas fica ainda mais evidente quando descobrimos que ela está escondendo dentro de um buraco na casa a menina judia Elsa (Thomasin Mckenzie).


O filme vai ganhando forma e ficando complexo com o decorrer do tempo, principalmente depois que Jojo descobre a existência da menina atrás da parede. Apesar da relutância no começo, de ambos os lados, ele e Elsa vão conversando e se conhecendo melhor, e sob o pretexto de escrever um livro sobre os judeus, ele passa a fazer inúmeras perguntas para ela sobre os costumes e as origens desse povo. É curioso acompanhar como nessas conversas vão sendo desconstruídas todas as ideias que Jojo havia criado sobre os judeus na escola, pois ele vai enxergando, aos poucos, que não há nada de diferente entre eles.

Depois de um determinado acontecimento, o drama toma conta de vez da estória e não há mais como voltar atrás. O roteiro que trazia um bom humor no começo, principalmente por conta da figura de Adolf Hitler (interpretado pelo próprio diretor Taika Waititi) que aparece inúmeras vezes como um amigo imaginário de Jojo, ganha um ar bem melancólico, como um típico filme sobre o período. Jojo finalmente se dá conta da realidade em que está inserido e que, sem querer, estava fazendo parte, e o grande mérito do filme é justamente mostrar esse conflito interno do personagem, que vai percebendo a fragilidade do discurso de ódio e passa a rever suas convicções.


De todas as qualidades que o filme possui, a principal talvez seja a grande atuação do menino Roman Griffin Davis, que chegou a ser indicado ao Globo de Ouro de melhor ator já no seu primeiro trabalho no cinema. Roman entrega uma atuação firme, sem exageros, e sabe carregar muito bem essa dualidade que existe no filme entre humor e drama. Quem também está bem nesse quesito é Scarlett Johansson, cuja atuação lhe rendeu até mesmo indicação ao Óscar.

Tocante, divertido e super profundo, Jojo Rabbit aborda o tema com muita inteligência e sensibilidade, e ao trazer uma sátira sobre a alienação do povo alemão na época da Segunda Guerra, já aproveita também para acenar contra o crescimento de adeptos do neonazismo na atualidade. Um filme necessário para conscientização, e sobretudo para mostrar que aquilo que aconteceu no passado nunca mais pode chegar nem perto de se repetir.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Crítica: Joias Brutas (2020)


Os irmãos Ben Safdie e Joshua Safdie não possuem um grande currículo de filmes, sendo o mais conhecido deles o interessante Bom Comportamento (2017), que fez um pequeno sucesso mas apenas no circuito independente. Mas então o que explicaria esse hype em cima do seu mais novo trabalho, onde ele foi cotado até mesmo para estar no Óscar? A resposta é Adam Sandler, e a promessa de uma atuação completamente diferente de qualquer uma já vista anteriormente na sua carreira.



O enredo de Joias Brutas (Uncut Gems) gira em torno de Howard Ratner (Adam Sandler), um vendedor de peças de valor e dono de uma joalheria no centro de Nova Iorque, que tem como público alvo famosos e pessoas com alto poder aquisitivo. Um dos seus clientes mais famosos é Kevin Garnett, jogador de basquete da NBA, que interpreta ele mesmo na história. Ratner deposita todas as esperanças na venda de uma pedra preciosa para Garnett, para enfim conseguir pagar uma dívida com agiotas que estão no seu encalço.

O ritmo do filme é absurdamente frenético e a ação não pára um segundo sequer para deixar a gente respirar. Os personagens alterados e gritando o tempo todo, o clima de tensão que parece proceder uma tragédia eminente e a movimentação rápida da câmera são características que fazem o filme ser, com toda certeza, um dos mais intensos que já vi na vida.


O roteiro é bom, a direção é ótima, mas o maior mérito do filme é realmente apresentar um Adam Sandler completamente descaracterizado e fora da sua zona de conforto. Não é a primeira vez que Sandler se arrisca no drama, mas ele tem aqui a grande atuação de sua carreira. Seu personagem vive no limite, e a maneira como esse sentimento é mostrado torna a experiência agoniante também para quem está assistindo.  Lidando com a possível traição de pessoas em quem ele confiava, com o risco de ser morto a qualquer momento por causa de uma dívida e com o vício em apostas de jogos de basquete, o personagem de Sandler vai se afundando cada vez mais num mar de lama sem fim de onde parece que nunca mais vai conseguir sair.

Com um final surpreendente, Joias Brutas é, sobretudo, um filme sobre até onde a ganância pode levar o ser-humano. Chegou a estar cotado ao Óscar, mas talvez ainda falte algo aos irmãos Safdie para chegar lá. Porém, eles estão no caminho certo, e pode ter certeza que seus nomes ainda vão aparecer muito por aí.


sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Crítica: Judy - Muito Além do Arco-Íris (2020)


Judy Garland foi uma atriz, cantora e dançarina norte-americana que se tornou uma das principais estrelas da "Era de Ouro" dos musicais de Hollywood. Seu primeiro grande sucesso foi ainda com 16 anos de idade, quando interpretou Dorothy em O Mágico de Oz, que a levou a conquista do extinto "Óscar Juvenil" em 1940. Bom, esta parte radiante da vida de Judy Garland todos sempre acompanharam, mas poucos conheceram de verdade a sua intimidade, os seus problemas pessoais, e o fato da mesma indústria que a fez famosa ter, de alguma forma, acabado com a sua vida.



O filme de Rupert Goold (de A História Verdadeira) é uma adaptação da peça da Broadway "Judy: O Fim do Arco-Íris", que conta um pouco mais da vida e da personalidade por trás de Judy, abordando dois períodos da sua carreira: o primeiro durante as filmagens de O Mágico de Oz e o segundo, com mais tempo em tela, durante sua derradeira turnê em Londres, na boate Talk of the Tall, já nos seus últimos dias de vida. 

Judy enfrentou muitos problemas pessoais, e sua morte precoce (aos 47 anos) foi uma consequência disto. Durante toda sua vida ela teve de lidar com problemas como depressão e baixa auto-estima, e sua carreira foi muito comprometida por isso. Por não conseguir terminar muitos de seus filmes, os estúdios começaram a ter receio de contratá-la e consequentemente "jogar dinheiro fora", então ela foi cada vez menos sendo requisitada para papéis de destaque. O filme mostra bastante esse descontentamento interno dela com a forma que levou a carreira.



O longa tem muitos pontos negativos, principalmente na sua forma narrativa, que não convence e torna o filme um pouco cansativo, mas o que salva ele é mesmo a atuação impressionante de Renéé Zellweger, cotada para vencer todas as premiações do ano na categoria de melhor atriz (merecidamente). O diretor sabia o que tinha em mãos e aproveitou para enaltecer sua performance ao máximo. Vale reforçar que ela mesmo cantou em todas as cenas musicais, o que exalta ainda mais a grandeza de sua atuação.

Infelizmente Judy se torna um filme incompleto para mostrar a grandeza e a importância da carreira de Garland para o cinema, mas tem a importante missão de colocar o nome de Judy em voga novamente e fazer a juventude de hoje pesquisar mais sobre ela, o que de fato já o faz valer a pena.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Crítica: Um Lindo Dia na Vizinhança (2020)


Fred Rogers foi o criador e apresentador do Mister Rogers' Neighborhood, um programa de televisão infantil que ficou muito popular nos Estados Unidos na década de 1960. O novo filme de Marielle Heller (de Poderia me Perdoar?) nos conta um pouco da personalidade deste artista, sob a ótica de um jornalista que está escrevendo uma matéria de revista sobre ele.



O filme já começa apresentando, para aqueles que não o conheciam, como era o formato do programa de Fred Rogers (Tom Hanks), com sua maneira doce de falar, suas brincadeiras e seus bonecos fantoches falantes. Confesso que sou um dos que nunca tinham tido contato com o programa, e logo após o filme procurei por alguns vídeos do original para comparar, e realmente ficou muito boa esta caraterização, tanto da produção quanto do ator.

A estória porém muda de tom quando o jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys) recebe de sua editora chefe a missão de fazer uma reportagem para uma revista sobre o apresentador, contando um pouco da sua vida, da sua rotina e das suas ideias. É a partir deste momento que, para mim, o filme perde sua essência. Ao focar a narrativa em Lloyd, deixando o apresentador como um mero coadjuvante, o enredo perde fôlego, sobretudo pelo personagem do jornalista e suas relações familiares serem extremamente desinteressantes e sem carisma.



Os melhores momentos ficam mesmo por conta do personagem de Tom Hanks, que se torna quase uma alegoria na estória. Sua aparições são sempre recheadas de bons diálogos sobre a maneira de enxergar a vida, e a melhor cena do filme (e uma das melhores que já vi na vida) acontece quando ele incita Lloyd a pensar, durante um minuto, nas pessoas que tiveram influência em quem ele é hoje. É um exercício de linguagem brilhante e muito perspicaz da diretora, já que a cena fica exatamente um minuto parada e em silêncio, induzindo o espectador a fazer a mesma coisa.

Não é um filme focado na vida de Rogers, mas sim, na forma como ele tocava a vida das outras pessoas com sua doçura e empatia, e isso é interessante. Chegamos a nos perguntar "será possível uma pessoa ter um coração tão bom assim em 100% do tempo?", e o personagem do repórter é justamente essa nossa voz tentando encontrar algo que contradiga isso, mas a resposta de fato nunca vem.



Por fim, Um Lindo Dia na Vizinhança não deixa de ter seus belos momentos, mas o roteiro realmente deixa muito a desejar, o que de fato é uma pena, pois tinha um grande potencial pelo personagem complexo que possuía em mãos. Fica, pelo menos, a compensação de ter visto mais uma grande atuação na carreira de Tom Hanks e de conhecer, através dele, um pouco mais dessa figura extremamente humana que era Fred Rogers.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Crítica: O Caso Richard Jewell (2020)


Em 1996, um atentado a bomba no Centennial Olympic Park, em Atlanta, durante as Olimpíadas de verão, matou uma pessoa e feriu mais de cem. Esse episódio é trazido às telas pela primeira vez nas mãos do cineasta Clint Eastwood, tendo como foco o segurança Richard Jewell, que logo após o acontecimento se transformou em herói nacional por evitar que a tragédia fosse ainda pior.



Richard Jewell (Paul Walter Hauser) é um homem de meia idade que ainda mora com a mãe (Kathy Bates) e vive de empregos mesquinhos. Seu sonho sempre foi ingressar na polícia, e ele vê uma grande oportunidade de chegar próximo disso ao aceitar trabalhar como vigia no maior evento esportivo do mundo, as Olimpíadas. Durante um show musical de festejo ao evento, no parque olímpico da cidade, Jewell desconfia de uma mochila deixada embaixo de um banco e alerta todas as autoridades, que logo iniciam a evacuação do perímetro. O artefato, no entanto, explode antes de conseguirem afastar toda a multidão, e muitas pessoas acabam se ferindo.

Depois da análise preliminar na cena do crime, o segurança ganha status de herói, pois fica evidente que muito mais pessoas teriam se ferido, ou até mesmo morrido, caso ele não tivesse descoberto o explosivo a tempo. Seu nome passa a estampar capas de jornais e aparece na televisão, deixando extremamente orgulhosa sua mãe coruja. Não demora muito, porém, para que tudo vire do avesso na vida de Jewell. De herói, ele passa a ser acusado pelo agente do FBI Tom Shaw (Jon Hamm) de ter implantado a bomba propositalmente, com o intuito de ganhar fama em cima disso e subir na carreira.



O filme faz uma excelente crítica ao setor de investigação de crimes nos Estados Unidos, que já acusou injustamente milhares de pessoas. Mostra muito bem como é um sistema passível de erros, sobretudo quando está agindo sob pressão. Mais do que isso, critica também a forma como a mídia sensacionalista lida com esse tipo de situação. Chega um determinado momento do filme que você realmente pára e pensa "mas será mesmo que não foi ele que pôs a bomba?", porque eles são tão cínicos e convincentes em seus argumentos que chega a confundir nossa cabeça.

O roteiro é muito consistente, e o trabalho de direção de Eastwood une muito bem a dramaticidade com o senso de humor sarcástico. Gostei muito da forma como são apresentados os personagens, principalmente o protagonista, mostrando suas ações detalhadamente e construindo pouco a pouco sua personalidade. Preciso falar da força da atuação de Paul Walter Hauser, que está impecável no papel e que infelizmente foi ignorado por todas as premiações do ano. Kathy Bates, que acaba de ser indicada ao Óscar de melhor atriz coadjuvante por esse papel, também está muito bem na figura da mãe doce, ingênua e super protetora, e é responsável pelos momentos mais engraçados da trama. O elenco ainda conta com um excelente Sam Rockwell, na pele do advogado de Jewell, que entrega mais uma vez uma atuação competentíssima.



Por fim, O Caso Richard Jewell se junta a tantos outros longas e séries lançados ultimamente sobre erros de perspectiva dos investigadores e suas acusações infundadas. Acima de tudo, é um filme sobre não baixar a cabeça, nem mesmo em situações desesperadoras, como é o caso de uma injustiça. Trata-se do melhor filme de Clint Easwtood desde Gran Torino.


Crítica: Retrato de Uma Jovem em Chamas (2020)


Poucas vezes eu saí tão abalado de uma sala de cinema como saí após a sessão de Retrato de Uma Jovem em Chamas (Portrait de la Jeune Fille en Feu). Eu simplesmente não conseguia falar, tamanho o impacto que essa obra me causou. A experiência e a imersão que a diretora Céline Sciamma propõe é uma das mais impressionantes que se poderia ter em uma tela grande. 



O enredo se passa no século XIII e começa com a chegada de Marianne (Noémie Merlant) a um vilarejo litorâneo da França. Ela foi chamada ao local com a tarefa de pintar um retrato de casamento de Heloise (Adèle Haenel), uma jovem que acabou de sair de um convento e está prometida a um homem que mora na Itália. A pintura, quando finalizada, será enviada justamente ao futuro marido para que se oficialize o casamento, e por isso a importância dela ser o mais fiel possível.

Heloise, no entanto, não aceita essa imposição e rejeita se casar, e por esse motivo a mãe (Valeria Golino) decide pedir para que Marianne pinte a imagem da sua filha sem que ela saiba. E é assim, às escondidas em um quarto da casa, que a pintora vai fazendo sua obra, usando apenas a memória fotográfica do que viu e reparou na jovem durante os passeios pela praia a tarde.



A relação das duas vai ficando gradativamente mais íntima, e isso vai influenciando diretamente no trabalho da pintora. A retraída Heloise vai se soltando aos poucos, e quanto mais Marianne conhece sua personalidade, mais sua pintura fica realista. O filme mostra essa relação entre a artista e a modelo muito bem, e os diálogos fascinantes das duas personagens, versando sobre suas ideias de vida, é um dos fatores que mais engrandecem o filme. E isso não seria possível, claro, sem as grandes atuações de Adèle Haenel e Noémie Merlant.

Outro fator que eleva o filme a um nível de exuberância plena é a sua fotografia. Não lembro, sinceramente, de ter visto algo tão belo e bem feito nesse sentido nos últimos anos. Com uma utilização magnífica das cores e tons, unido às belas imagens, o filme parece, o tempo inteiro, uma verdadeira pintura em movimento.



O roteiro é maravilhoso, delicado, e cheio de detalhes. Não há absolutamente nada corrido, nada forçado, e a trama vai fluindo de forma extremamente leve. Gostei muito da construção dos personagens, principalmente de Heloise, que no começo é um mistério a ser desvendado. Por alguns minutos os demais personagens apenas falam sobre ela, criando uma expectativa para quando ela finalmente aparecesse, e quando aparece a primeira vez está com rosto coberto, que vai se desnudando aos poucos, assim como sua personalidade durante todo o filme. É de uma singeleza sem tamanho. Há espaço ainda para uma terceira personagem, a empregada da família (Luana Bajrami), que ganha uma importância muito maior na segunda metade.

Como não há quase trilha sonora, o som ganha destaque nas simplicidades do cotidiano, como a respiração dos personagens, as pinceladas, as ondas do mar, e o fogo das lareiras. Fogo esse que, aliás, está presente em quase todas as cenas, quase como um personagem coadjuvante da estória. Mesmo aparecendo em pouquíssimos momentos, a música também é muito bem utilizada. São apenas três cenas, mas todas realmente espetaculares, desde um toque ao piano até um grupo cantando a capella em volta de uma fogueira, para chegar finalmente à sublime cena final que é uma das coisas mais belas que meus olhos já viram.



Por mais que eu teça elogios ao filme, ainda parece raso para o tamanho que essa obra tem. Um filme que me fez chorar no final, não pelo seu peso emocional, mas simplesmente pelo prazer e a alegria de poder estar presenciando tudo aquilo na tela. Uma verdadeira aula de cinema da diretora Céline Sciamma.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Crítica: Adoráveis Mulheres (2020)


Segundo filme dirigido pela promissora Greta Gerwig (que estreou em 2017 com Lady Bird), Adoráveis Mulheres (Little Women) é a oitava adaptação para os cinemas do clássico livro "Mulherzinhas", de Louisa May Alcott, que acompanha o dia dia de quatro irmãs destemidas e cheias de sonhos numa época em que mulheres não tinham voz.


Jo (Saoirse Ronan), Amy (Florence Pugh), Meg (Emma Watson) e Beth (Eliza Scanlen) são quatro irmãs que vivem com a mãe no interior de Massachusetts enquanto o pai está servindo na Guerra Civil. Cada uma delas tem seus próprios sonhos, sua própria visão de mundo, e as diferenças entre elas é o que torna a experiência do filme tão rica. A maioria delas sonha em seguir uma carreira artística, mas nenhuma é levada verdadeiramente a sério, já que estamos falando de uma época em que as mulheres não tinham muito espaço para sonhar e casar com um homem rico era a única forma de ter uma vida boa.

O que mais me encantou durante todo o filme foram os seus diálogos. O texto é primoroso, e isso fica ainda mais evidente graças às belas atuações. Das jovens, o destaque é Saoirse Ronan, uma das melhores atrizes da atualidade, que entrega o melhor de si na pele de uma menina extremamente forte. Quem também está muito bem é Florence Pugh, no papel da irmã "rebelde", que assim como Ronan também deverá estar no Óscar deste ano. Emma Watson ganha menos espaço que as duas, talvez pelo seu potencial realmente ser menor, mas também entrega uma atuação firme, assim como Eliza Scanlen, que é a que menos aparece das quatro mas é responsável por uma das cenas mais emocionantes do longa.


Junto às personagens jovens temos duas veteranas que roubam a cena, mesmo com menos tempo em tela. Meryl Streep, como a tia rica e excêntrica, e Laura Dern, a mãe protetora que, mesmo cheia de problemas, sempre está pronta para dar toda a atenção que as filhas merecem. Curioso analisar que se trata de um filme extremamente feminino, onde os personagens masculinos, até mesmo Laurie (Timothéé Chalamet), que aparece por bastante tempo, são meros coadjuvantes. Até mesmo quando o pai delas (Bob Odenkirk) volta para casa depois de muito tempo, ele não assume seu papel como patriarca, pois ali já temos uma mulher forte que carrega muito bem esse papel.

Duas coisas pontuais me incomodaram no filme e eu preciso falar sobre elas. Primeiramente o começo dele, que achei um pouco apressado demais, com os personagens sendo apresentados de forma um tanto quanto superficial durante uma grande festa. E a outra foram os excessos de flashbacks, que em alguns momentos deixaram o filme arrastado. Entendo que foi uma maneira de Gerwig dar um ar autoral para a obra, fugindo daquela narrativa linear clássica das outras adaptações, mas com o tempo esse excesso se tornou cansativo.


Com um design de produção belíssimo e uma trilha sonora envolvente, Adoráveis Mulheres é um filme poderosíssimo na importante questão do feminismo. Ao mesmo tempo em que tem mulheres que sonham alto e não se deixam vencer pelas convenções sociais, também tem mulheres que sonham com o básico, ter um vida padrão, casar e ter filhos, e o mais legal nessa abordagem é justamente mostrar que a ideia do feminismo é exatamente essa, a de ter liberdade de ser aquilo que você quiser ser, sem julgamento de certo ou errado.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Crítica: Dois Papas (2019)


O novo trabalho do brasileiro Fernando Meirelles (de Cidade de Deus e Ensaio Sobre a Cegueira) mostra os encontros que ocorreram entre Joseph Ratzinger, o Papa Bento XXI, e o cardeal argentino Jorge Bergoglio, que posteriormente veio a se tornar o Papa Francisco, e o quanto isso foi decisivo para os rumos que a igreja católica tomou nesses últimos anos.



O filme começa com a morte do Papa João Paulo II, em 2005, e o conclave que escolheu Ratzinger (Anthony Hopkins) como o novo papa. O segundo mais votado foi Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce), que por não concordar com as ideias conservadoras de Ratzinger resolve pedir sua aposentadoria do cargo de cardeal, aposentadoria essa que só pode ser aceita pelo próprio Papa. E para isso, ele precisa tentar convencê-lo a aceitar.

Interessante acompanhar como desde o início o filme traz um antagonismo entre as ideias que cada um tem para o futuro da igreja. Enquanto Ratzinger defende essa linha mais fiel aos desígnios que vem de séculos, Bergoglio defende uma igreja mais liberal, progressista e com mudanças no comportamento, e todo o desenrolar do enredo é baseado nesse debate. Além dos diálogos fantásticos travados entre os dois, o filme também mostra como foi o passado de Bergoglio na Argentina, principalmente na época em que era pároco durante o violento período da ditadura militar no país. 

Não dá para deixar de analisar a forma como ambos carregam um certo peso na consciência por atos do passado e vão se abrindo sobre isso pouco a pouco. Bergoglio se sente culpado por não ter feito mais para defender inocentes na ditadura, enquanto Ratzinger se culpa por ter deixado passar alguns casos de abuso de padres contra crianças.



Dois Papas é um filme poderoso por dois motivos: as atuações impecáveis de Hopkins e Pryce e a direção competente de Meirelles, que não deixa o filme perder o ritmo em momento algum. Aliás, duas das principais características de Meirelles estão bastante presentes, como os close nos personagens e a câmera dinâmica, que nos coloca como espectadores onipresentes em tudo que está acontecendo. Trata-se de uma grande surpresa de final de ano da Netflix, e é importantíssimo terminar dizendo que não, não é preciso ser religioso para apreciá-lo.