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sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Crítica: Bingo - O Rei das Manhãs (2017)


Aclamado pela crítica e pelo público, Bingo - O Rei das Manhãs é mais um exemplar do excelente momento atual do cinema brasileiro. Apesar de não usar os nomes verdadeiros, por questões contratuais, o filme conta a história de Arlindo Barreto, que se tornou um ícone da televisão brasileira nos anos 1980 ao dar vida ao palhaço Bozo, sucesso de audiência no SBT.




No enredo, escrito por Luiz Bolognesi, Arlindo virou Augusto (Vladimir Brichta), um ator em busca de espaço que ganha a vida atuando em filmes de pornochanchada. Ao chegar na TVP (o SBT de Sílvio Santos na vida real) para uma audição em um papel de novela, Augusto acaba mudando de ideia e resolve fazer audição para o palhaço Bingo, que é fenômeno nos Estados Unidos e agora ganhará seu programa próprio na televisão brasileira.

Sem nenhuma experiência no ramo, mas com bom humor e criatividade de improvisação, Augusto acaba conquistando a produção do programa e conquista a vaga para o programa, dirigido por Lucia (Leandra Leal). No início, Bingo tenta improvisar o roteiro mas a produção deixa claro que ele precisa seguir o roteiro igual ao do Bingo americano, o que o irrita, já que grande parte das piadas de lá não fazem sentido algum no Brasil. Não demora para ele convencer os diretores que o programa precisa ser mais dinâmico do que o original, e Bingo consegue "abrasileirar" a atração, colocando até mesmo Gretchen, ícone da época, para dançar seminua na tela para milhares de crianças.


São mais de 5 horas ao vivo no ar por dia e para dar conta do personagem Augusto precisa abrir mão de muitas coisas na vida, e isso inclui o filho pequeno, Gabriel (Cauã Martins), que antes era o maior companheiro do pai e acaba ficando deixado de lado. Apesar de alcançar um sucesso como jamais visto na TVP, liderando a audiência em todo o Brasil, Augusto não pode ser reconhecido por isso, já que uma cláusula do contrato o proíbe de se revelar. Ou seja, não estando vestido de Bingo, Augusto não é nada, ninguém o conhece. Esse fato, aliado a outros acontecimentos em sua vida, fazem Augusto se afogar no vício, de bebida e cocaína, o que põe fim a carreira promissora de forma prematura.

Primeiramente, o maior acerto do filme foi escalar Vladimir Brichta no papel principal. O ator, que há tempos demonstra ter uma qualidade ímpar em filmes de menos expressão, finalmente ganha um papel de destaque em uma grande produção, e cumpre seu papel brilhantemente. Sua atuação é de aplaudir de pé, e uma das melhores do cinema nacional em anos.



Outro pronto positivo é a trilha sonora, feita de músicas que fizeram sucesso no Brasil nos anos 1980, além de imagens que fizeram parte da história do país. Quem viveu essa época, certamente sentirá uma grande nostalgia durante o desenrolar da trama. A direção competente de Daniel Rezende faz o filme ser empolgante do início ao fim, sem se perder em nenhum momento. Por fim, Bingo é, certamente, um dos melhores filmes do ano e um dos melhores filmes nacionais da década.


sábado, 7 de outubro de 2017

Crítica: It - A Coisa (2017)


Quem acompanha meu blog talvez já tenha percebido que não sou muito fã de filmes de terror. O gênero, que um dia foi sucesso, ficou defasado com o tempo devido aos enredos fraquíssimos que repetem inúmeras vezes as mesmas histórias. Mas então, o que me fez sair de casa para assistir It - A Coisa no cinema? Primeiramente a curiosidade de ver o que fizeram com um clássico dos anos 90, e em segundo lugar, os comentários favoráveis da crítica.


O filme é baseado no livro homônimo do escritor americano Stephen King e se passa na pacata cidade de Derry. Misteriosamente, crianças começam a desaparecer durante o dia, entre elas George, irmão mais novo de Bill (Jaeden Lieberher), que aparece logo na primeira cena do filme sendo atacado pelo palhaço Pennywise (Bill Skarsgard), uma forma sobrenatural que aparece de 27 em 27 anos para aterrorizar as crianças da cidade.

George não é a primeira vítima do palhaço, mas é a primeira que aparece no filme. Logo, seu irmão Bill e seus amigos Richie (Finn Wolfhard), Beverly (Sophia Lillis), Eddie (Jack Dylan Grace), Stanley (Wyatt Oleff) e Mike (Chosen Jacobs) também começam a ser aterrorizados pela figura e decidem unir forças para tentar combate-la.

O filme tem cenas marcantes e tecnicamente é muito bem feito. Sua estética é impecável, e chama a atenção por trazer cenas bastante realistas sem, no entanto, abusar dos efeitos. Isso, aliás, contribui muito para que o filme seja levado ainda mais a sério. Ao longo de suas mais de duas horas, o filme traz tanto momentos de puro suspense como cômicos, e há até mesmo espaço para momentos dramáticos, criando desta forma uma atmosfera bem interessante.

Um dos pontos altos são as atuações mirins na trama. O elenco foi muito bem escolhido, e todas as crianças dão show de interpretação. Estamos acompanhando o surgimento de uma geração muito talentosa, e isso é muito bom. Sobre o palhaço Pennywise, a escolha de Bill Skarsgard parece ter sido perfeita. O ator deixa o personagem ainda mais amedrontador com seus trejeitos e sua maneira de falar.

Por fim, It possui sim alguns deslizes e pontas soltas no enredo, com momentos que carecem de um melhor aproveitamento. No entanto, isso não chega a atrapalhar seu resultado final nas telas, que é realmente surpreendente e encanta mesmo aqueles que, como eu, não são grandes admiradores do gênero. Agora resta esperar pela segunda parte, que está prevista para estrear em 2019.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Crítica: Como Nossos Pais (2017)


Consagrado no Festival de Gramado de 2017, Como Nossos Pais, da diretora Laís Bodanzky, cativa o espectador pela sutileza em abordar assuntos aparentemente simples, porém extremamente complexos, como a relação familiar, o autoconhecimento, e o papel da mulher na sociedade moderna. 



Meio-dia de domingo, família reunida, almoço especial. Tinha tudo para ser um dia animado, mas na família de Rosa (Maria Ribeiro) isso é complicado. Em meio às discussões banais e trocas de farpas já tão comuns, uma revelação é feita pela mãe de Rosa, Clarisse (Clarisse Abujamra), de forma fria e direta: seu pai, Homero (Jorge Mautner), não é seu pai de verdade. E é a partir desta descoberta que ela começa a reavaliar todas as suas escolhas e a procurar um verdadeiro sentida pra vida.

Rosa é um exemplo do cotidiano de uma mulher urbana, casada, e beirando os quarenta. Mãe de duas filhas pequenas, ela se vira do jeito que pode para fazer tudo por elas, contando com pouca ajuda do pai, o antropólogo Dado (Paulo Vilhena), que mesmo sendo presente com as filhas se mostra desligado e pouco prestativo nas tarefas diárias. Esse descompromisso de Dado com a vida de casado acaba desgastando a relação, criando brechas para infidelidades e brigas contantes entre os dois.




Entre as diversas questões abordadas pelo filme está a necessidade que temos, diante das diversidades e surpresas da vida, de abrir mão de algo por um bem maior. Quanto cada um de nós está disposto a perder para se estabelecer de alguma forma? E num casamento, quanto cada um está disposto abrir mão para fazer dar certo no final?  Sempre citando a peça Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, o filme traça um paralelo entre a vida de Rosa e a da personagem principal da peça, que largou tudo que tinha para recomeçar a vida do zero. Quantas vezes Rosa pensou em fazer o mesmo? E quantas Rosas existem por aí?

Ainda sobre Rosa e sua mãe, no começo elas parecem mais inimigas do que mãe e filha, mas a relação evolui ao longo do filme e mostra que, no fim, Elis Regina estava certa ao cantar que "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais". Só aprendemos a entender as atitudes dos nossos pais quando também nos tornamos pais e repetimos os mesmos erros.



Focando nas relações humanas e suas nuances, Como Nossos Pais pode ser considerado, possivelmente, o melhor filme nacional do ano. A naturalidade com que as coisas transcorrem em cena se dá não só pela direção competente de Bodanzky mas também pelas atuações de todo o elenco. Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra estão impecáveis nos papéis de duas mulheres incrivelmente fortes, enquanto Paulo Vilhena demonstra mais uma vez o porque de ser um dos melhores atores do cinema brasileiro.


domingo, 10 de setembro de 2017

Crítica: Uma Mulher Fantástica (2017)


Vencedor do Urso de Prata de melhor roteiro no Festival de Berlim 2017 e escolhido para representar o Chile no próximo Óscar, Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantastica), do diretor Sebastian Lélio (Glória, 2013), aborda de forma primorosa as dificuldades que os transsexuais enfrentam nessa sociedade preconceituosa em que vivemos.




A trama conta a história de Marina (Daniela Vega), uma mulher trans que trabalha de garçonete e sonha seguir carreira como cantora lírica. Estável e bem resolvida, ela vive em um apartamento de Santiago com Orlando (Francisco Reyes Morandé), um homem mais velho que a ama como ninguém nunca jamais havia amado.

Tudo ia bem com os dois, que planejavam um futuro juntos como qualquer casal, mas bem no dia do aniversário de Marina, Orlando acaba falecendo, vítima de um aneurisma. A partir deste momento, a vida de Marina muda de cabeça para baixo. Por causa de seu gênero, todos a tratam com preconceito, como se a dor de perder alguém que amava já não fosse suficiente. Como Orlando caiu da escada enquanto passava mal, o corpo acabou ficando com diversos hematomas, e todos, principalmente a família de Orlando, que nunca aceitou a relação dos dois, acaba acusando Marina de ter tido responsabilidade na sua morte. 



Além de ter que provar sua inocência, a maior luta de Marina ao longo do filme, no entanto, é para se despedir do corpo de Orlando. A família não quer de forma alguma que ela chegue perto do velório, e quando ela tenta fazer isto, é escorraçada violentamente. É triste analisar que este tratamento se deu apenas por ela ser transsexual, o que fica claro nos xingamentos dos familiares. Sua condição os impede de enxergá-la como um ser-humano provido de sentimentos, e infelizmente isso é uma realidade que Marinas espalhadas pelo mundo vivenciam diariamente.

O filme possui momentos belíssimos, como quando Marina aparece nua, deitada em uma cama, com um espelho entre as pernas onde aparece apenas seu rosto. O simbolismo nesta cena é impressionante, e traz uma reflexão contundente sobre identidade de gênero. Uma Mulher Fantástica se sobressai ainda por trazer uma atriz que é transsexual, e que possivelmente, em algum momento de sua vida, deve ter passado por preconceitos parecidos com a da personagem. Isso dá ainda mais vida à história contada.


sábado, 19 de agosto de 2017

Crítica: Onde Está Segunda? (2017)


A trama de Onde Está Segunda?, mais um filme original da Netflix, é ambientada em um futuro não muito distante, mais precisamente na década de 2070, onde o mundo sofre com o aumento cada vez mais expressivo da população mundial. Desta forma, a bióloga Nicolette Cayman (Glenn Close), através do Departamento de Alocação de Crianças, cria uma medida drástica para evitar um possível colapso: a limitação de apenas um filho por casal. Desta forma, toda criança que vier após a primeira deverá ser mandada a instituição chefiada por Cayman, para que seja, na teoria, congelada para um futuro incerto.



Neste cenário, o filme inicia com uma mãe dando a luz à sete gêmeas. Ela acaba não resistindo ao parto, e para defender as crianças recém-nascidas, o avô (Willem Defoe) resolve levá-las para casa e criar elas escondidas do mundo. Os anos passam, e as meninas começam a se sentir sufocadas de viver a vida toda entre quatro paredes, e como alternativa, o avô cria um sistema para que elas assumam a identidade de apenas uma e que passem a sair de casa intercalando os dias.

Nomeadas com os nomes dos dias da semana, cada uma delas só pode sair de casa no dia de seu nome, sempre vestidas da mesma forma e com os mesmos hábitos uma da outra. Além disso, toda noite devem fazer um encontro para contar tudo que ocorreu no dia e evitar inconsistências em caso de serem interrogadas por algum motivo.



Décadas se passaram, e já adultas, as irmãs continuam o mesmo ritual diariamente até que uma delas, a segunda-feira, some sem deixar vestígios. A partir deste acontecimento, a vida das irmãs vira de ponta cabeça, já que o segredo parece ter sido descoberto e a vida delas corre um grande perigo.

O enredo é bastante interessante e empolgante. As duas horas te prendem, e muito disso se deve a atuação da sueca Noomi Rapace, que já havia conquistado o mundo na trilogia "Millennium" e volta a encantar desta vez ao conseguir fazer as sete personagens com competência. Apesar de alguns deslizes narrativos, Onde Está Segunda? chama a atenção por trazer novamente à tona o tema da superlotação da terra. É óbvio que a solução vista no filme não é o caminho, mas há de se pensar em alguma alternativa antes que realmente seja tarde demais.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Crítica: Monsieur & Madame Adelman (2017)


Existe sentimento mais belo que o amor? Essa frase parece piegas, e talvez até mesmo seja, mas é a mais pura verdade. O amor, quando verdadeiro, vence barreiras, transpõe diferenças, e mesmo passando os anos ainda continua vivo, independente do que aconteça. É baseado nessa máxima que Monsieur & Madame Adelman se estabelece, contando uma história de amor que durou mais de quatro décadas.



A trama começa no velório do escritor Victor Adelman (Nicolas Bedos), que acaba de falecer para tristeza de familiares e admiradores da sua obra. Entre eles está um jovem escritor, que está escrevendo um livro sobre a vida e a carreira de Adelman. Ele aproveita a oportunidade para entrevistar Sarah (Doria Tillier), a esposa de Victor, que abre o coração e começa a contar toda a história de amor dos dois, desde 1971, quando se conheceram por acaso em um bar.

Dividido em capítulos, o filme vai passando de ano em ano e mostra a evolução deste romance, enquanto aborda aspectos políticos da conturbada França em uma época de mudanças. Victor e Sarah viveram mais de 40 anos juntos, e história é o que não falta. Entre altos e baixos, o casal vai levando a vida, sempre buscando aproveitar os bons momentos que a vida reserva mesmo diante das dificuldades.



O diretor acerta em abordar o romance com toques cômicos, apesar do filme não ser necessariamente uma comédia. Se o casal Adelman viveu momentos de felicidade, viveu também tristezas e desavenças, como acontece na vida de todos nós. As atuações são exemplares, e o amadurecimento dos dois, tanto fisica como psicologicamente, é mostrado com competência. Monsieur & Madame Adelman é um filme de personagens fortes, sobretudo Sarah, que é para mim o grande nome dessa história.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Crítica: Era o Hotel Cambridge (2017)


Centenas de famílias desabrigadas vivem no prédio onde um dia existiu o Hotel Cambridge, bem no centro de São Paulo. Abandonado há anos, o prédio foi ocupado por integrantes do MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro), que apesar de todas as diferenças, vivem unidos diante de uma dificuldade única: a falta de moradia.


No prédio vivem brasileiros de todos os lugares, mas principalmente estrangeiros, que migraram ao Brasil fugidos de seus países por diversos motivos, sobretudo guerras. Poucos personagens são fictícios e interpretados por atores, já que a maior parte do elenco é de pessoas que realmente vivem no local, e a mistura de drama com documentário ajuda a mostrar a realidade de vida dessas pessoas de forma mais realista. 

Dentro destas paredes são ouvidas muitas histórias tristes e pesadas, como a dos africanos que se obrigaram a sair dos seus países por causa dos genocídios recorrentes de disputas étnicas, reflexos de um mundo hostil. Basta sair na rua em qualquer dia da semana para se deparar, por exemplo, com os mesmos vendendo suas mercadorias pelas calçadas, único meio que encontram de sobreviver honestamente longe de suas terras natais.


De um dia para o outro chega ao conhecimento de todos os ocupantes que foi estipulada a reintegração de posse do prédio, e que em breve todos deverão ser despejados. Para onde? Ninguém sabe. Os preparativos iniciam, e volta aquela angústia de não saberem quais serão seus próximos passos nesta vida sofrida. Adultos, crianças, todos com futuro incerto, numa situação que só piora com a falta de ações sociais por parte das autoridades. 

Era o Hotel Cambridge é um verdadeiro choque de realidade para aqueles que são contra políticas de assistencialismo, mas mais do que isso, é um tapa na cara de quem é contrário à migração de imigrantes ao país. Concordo que deve haver uma integração adequada dessas pessoas à nossa sociedade, mas baní-los inteiramente é extremamente desumano. Em uma cena do filme, um dos ocupantes lê em um blog os comentários feitos pela população, que nada mais é do que a triste realidade que a gente vê nas caixas de comentários de sites de notícias, onde pessoas de caráter duvidoso usam o anonimato para chamarem os imigrantes das piores atrocidades possíveis.


sexta-feira, 16 de junho de 2017

Crítica: Clash (2017)


Candidato egípcio ao Óscar de filme estrangeiro em 2017, Clash, do diretor Mohamed Diab narra de forma peculiar o caos que tomou conta do Egito em 2013, logo após o exército derrubar o governo de Mohamed Morsi, representante da Irmandade Muçulmana. A partir deste acontecimento, membros do partido muçulmano e manifestantes pró-exército passaram a se enfrentar pelas ruas do país, numa desordem como jamais vista naquela região.



Durante os protestos, a polícia vai prendendo membros dos dois lados da disputa em um camburão, o que cria uma situação conflitante à medida em que o veículo vai recebendo cada vez mais gente. Ali dentro daquele espaço está o retrato do país naquele momento, onde todos estava perdidos. Homens, mulheres, crianças, todos de classes e opiniões políticas diferentes, que brigam sem nem saber bem pelo que.

O mais interessante do filme é que ele se passa inteiramente dentro deste camburão da polícia. Isso mesmo que você leu! Toda a ação acontece dentro desse pequeno espaço, e tudo que acontece fora é mostrado apenas através de suas janelas, como se a câmera fosse mais um personagem preso dentro de toda aquela confusão. Isso ajuda a criar um clima de caos total ainda mais palpável a nós espectadores.


Num país dividido política e religiosamente, Diab evita pender para um lado. Ou pelo menos não faz isso de forma explícita. Filmar em apenas um local não é fácil, e necessita muita atenção aos detalhes, o que não falta aqui, tanto por parte da direção, que não deixa nada passar despercebido, quanto da parte dos atores, que cumprem muito bem os seus papéis.

Por fim, depois do excelente Cairo 678, que fala sobre o abuso diário que as mulheres sofrem ao sair na rua, Diab demonstra mais uma vez ter extrema competência em mostrar o dia-dia de uma Egito da qual pouco se conhece pelos lados de cá, sobretudo de um momento tão importante quanto foi este retratado.

domingo, 30 de abril de 2017

Crítica: Brimstone (2017)


Situado no século XIX, Brimstone (Brimstone) é, possivelmente, o filme mais surpreendente deste ano. Com um enredo enigmático, contado de forma não-linear, o filme do holandês Martin Koolhoven discorre sobre o desejo de vingança em meio a um clima de faroeste bastante perturbador.

 



Dividido em quatro capítulos, o filme começa de trás para a frente e mostra a vida de Liz (Dakota Fanning), uma mulher muda que vive com o marido mais velho e o filho dele em um vilarejo. A vida dessa família vai bem até a chegada de um novo reverendo na cidade, um fanático religioso (Guy Pearce) que a persegue a todo custo. Mas qual é a história por trás desse homem e sua relação com Liz, que parece já vir do passado? É o que descobrimos no decorrer dos próximos capítulos.

A forma de contar essa história confunde o espectador no começo, mas quando tudo é posto em pratos limpos, nada fica sem explicação. O roteiro do diretor Martin Koolhoven é um dos mais pesados e intensos que já tive a oportunidade de assistir, e traz um final arrebatador, que foge de todo e qualquer clichê.




Outro destaque do filme são as atuações de Fanning e Pearce. A primeira dá vida a uma personagem que, na aparência, parece ser frágil, mas nas atitudes demonstra ser uma mulher extremamente forte. Já Pearce interpreta uma espécie de "vilão sádico", como há muito não se via no cinema. Quem ainda faz uma ponta no filme é Kit Harington (o Jon Snow da série Game of Thrones), mas infelizmente seu personagem não é tão bem aproveitado como poderia.

Por fim, Brimstone é um filme chocante, imprevisível e diferenciado, daqueles que dá gosto de ver o cinema produzir numa época que a criatividade está em falta. Infelizmente não deve chegar aos cinemas daqui, talvez apenas em serviços de stream, mas se tiver a oportunidade de vê-lo você não deve perder.


sexta-feira, 7 de abril de 2017

Crítica: Colossal (2017)


Depois de Crimes Temporais (2007), o espanhol Nacho Vigalondo nunca mais conseguiu emplacar um longa, e de lá para cá foram vários desastres. Porém, em 2017, ele volta a chamar a atenção com Colossal, o filme mais ousado de sua carreira até então e com certeza uma das maiores surpresas do ano em um gênero que já está saturado e carente de ideias.

Desempregada e saindo de um relacionamento, Glória (Anne Hathaway) busca achar um novo sentido para a sua vida voltando para sua cidade natal. Lá reencontra um antigo colega, Oscar (Jason Sudeikis), e passa a trabalhar para ele em um bar. De lá ela acompanha no noticiário televisivo um ataque de um monstro gigante que está acontecendo Seul, na Coréia do Sul, que deixa o mundo sob alerta.

Com o passar dos dias, o monstro vai voltando a aparecer, todos os dias no mesmo horário, e por coincidência Glória acaba descobrindo ser parte disto, já que por um misterioso fenômeno ela é quem dá vida ao monstro. Ela tenta se livrar disso mas acaba contando para Oscar, e a coisa sai completamente do controle quando ele descobre que também pode fazer parte desse estranho acontecimento.


O enredo é maluco assim mesmo, e não há como negar sua originalidade. Eu, que não sou fã do gênero, fiquei bastante preso à tela durante todo o filme, pois o mote central é realmente interessante. Hathaway está muito bem no papel despretensioso, e Jason Sudeikis ajuda a dar um alívio cômico à trama. Vale a pena fugir do comum e assistir esse longa, que entra fácil na lista dos mais bacanas lançados neste ano. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

Crítica: Vida (2017)


A ida ao espaço e os segredos do nosso imenso universo são temas que não saem nunca de moda no cinema, e todo ano há uma nova abordagem do assunto. Desta vez quem resolveu beber desta fonte foi o diretor Daniel Espinosa, que traz em Vida (Life) uma estória que empolga, mesmo sendo mais do mesmo.


Na trama, um grupo de astronautas está na estação espacial internacional e vive a expectativa do retorno de uma cápsula que foi a Marte e está trazendo amostras do solo do planeta vermelho com o objetivo de desvendar mais pistas do eterno mistério a respeito da vida além da terra. Eles conseguem identificar uma célula microscópica com vida que vai se degenerando e crescendo com estímulos, o que é comemorado com entusiasmo. Porém, as coisas saem do controle quando o estranho organismo ganha vida própria e passa a atacar os tripulantes da nave.

É evidente que Vida bebe da mesma fonte que outros filmes do gênero, ou seja, possui uma grande influência de Alien. Mas não dá para negar sua originalidade em alguns pontos. A fotografia e o design de produção do filme são impecáveis. As cenas dentro da nave são quase inteiramente filmadas por câmeras em movimento, atravessando os ambientes como se tivessem flutuando pela gravidade, o que deixa um clima interessante.


O elenco tem como destaque Jake Gyllhenhal, Ryan Reynolds e Rebecca Ferguson, que são os membros mais experientes do grupo, mas ainda conta com Hiroyuki Sanada, Olga Dihovichnaya e Aryion Bakare. Todos juntos cumprem seus papéis, sem grande brilhantismo mas de forma convincente. Por fim, para quem gosta de ficção científica, Vida é um bom entretenimento, e mesmo previsível consegue trazer bons momentos.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Crítica: Frantz (2017)


François Ozon é um dos diretores franceses mais badalados dos últimos anos, e sua sensibilidade em contar histórias conquistou muitos admiradores. Particularmente sempre procuro ver seus filmes, pois por mais que eu não goste, é inevitável ficar indiferente. Foi assim com Jovem e Bela e Dentro da Casa, que não me conquistaram como eu gostaria mas ainda assim eu jamais os esqueci. No entanto, Frantz, seu novo trabalho, pode ser considerada uma obra-prima, e o melhor trabalho de sua carreira até o momento.
 

Numa pequena cidade alemã, logo após o término da Primeira Guerra Mundial, vive Anna (Paula Beer), uma mulher forte que visita todos os dias o túmulo do seu noivo, Frantz, morto em um combate na França. Certo dia ela percebe um homem misterioso, que ela jamais havia visto na cidade, deixando flores na lápide.

Indo atrás do homem, ela descobre se tratar de Adrian (Pierre Niney), um francês que logo revela ter sido amigo de Frantz em Paris antes da guerra começar. É interessante a forma como, a partir de então, Ozon mostra o ódio latente entre as nações naquele período. Adrien é rechaçado na cidade apenas por ser francês, e até mesmo o pai de Frantz se nega, num primeiro momento, a falar com ele pois para ele todos os franceses são assassinos.

Pouco a pouco, Adrien vai ganhando a confiança da família de Frantz, que ele conquista contando histórias sobre a amizade dos dois, principalmente como eles se conheceram, como Frantz ficou encantado com as obras no Louvre e como o soldado alemão era um entusiasta da vida. Entre Adrien e Anna surge até mesmo um sentimento de paixão, no entanto, um segredo põe tudo a perder

O roteiro é muito bem construído, com diálogos magníficos e poéticos. A fotografia em preto e branco dá um ar diferenciado e único para a história contada, que ganha ainda mais força nas atuações poderosíssimas dos atores. A ambientação da época e dos seus costumes também é feita com capricho.

Mostrando uma população alemã dilacerada após a derrota na guerra, e fazendo uma reflexão sobre a verdadeira motivação dos conflitos armados, Frantz ganhou a notoriedade merecida após ser indicado em várias categorias no César 2017 e já entra para a lista dos melhores filmes do ano.