Mostrando postagens com marcador Críticas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Críticas. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Crítica: Entre Facas e Segredos (2019)


O diretor Rian Johnson, que dividiu opiniões com Star Wars: O Último Jedi, voltou ao cinema tentando agradar um outro tipo de público, o ávido por suspense, de preferência naquele velho estilo dos livros da escritora Agatha Christie. Prometendo um jogo de adivinhações no melhor estilo "jogo de detetive", Entre Facas e Segredos (Knives Out) até prende o espectador, mas deixa um pouco a desejar na sua falta de ousadia.


A promessa do "jogo de adivinhações" pode até funcionar nos primeiros minutos da trama, mas se torna desinteressante muito rapidamente quando o diretor opta por trazer uma abordagem fora do convencional. Resumidamente, a história de baseia na investigação da morte de um milionário, no dia do seu aniversário de 85 anos. A família toda estava reunida, seus filhos, seus netos, e até mesmo sua mãe, de idade desconhecida, e logo, todos se tornam suspeitos. A polícia, no entanto, trata o caso primeiramente como suicídio.

Contando com a ajuda do detetive Benoit Blanc (Daniel Craig), no melhor estilo Hercule Poirot, a investigação vai seguindo pistas para encontrar a verdade por trás do acontecimento trágico. A previsibilidade do desfecho de filmes filmes de suspense é algo sempre subjetivo, eu mesmo confesso que muitos filmes que o pessoal falava ser previsível eu demorei para pescar o final, mas dessa vez estava fácil demais, óbvio demais, e isso me incomodou bastante.


O elenco cumpre bem com seu papel, com exceção de Daniel Craig, que segue não me convencendo como ator e entrega uma atuação no seu nível, sem nenhum carisma. Apesar dos bons atores envolvidos, achei que poucos personagens ganharam o espaço que mereciam, sendo a maioria deles pouco aproveitados e tornando-os até mesmo descartáveis no rumo da estória. Entre Facas e Segredos não chega a ser um filme todo ruim, já que possui seus bons momentos, mas falhou como o grande suspense que prometia ser.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Crítica: História de um Casamento (2019)


Sete anos depois do sucesso de Frances Ha, Noah Baumbach volta a trazer uma proposta de explorar o que há de mais íntimo em seus personagens, conseguindo mais uma vez nos aproximar de cada um deles de uma forma extremamente humana. História de um Casamento (Marriage Story), produzido pela Netflix, utiliza como pano de fundo um divórcio para versar sobre o amor, e apesar disto soar um pouco estranho, o resultado final ficou realmente impressionante.



O enredo conta a história de Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson), um diretor de teatro e uma atriz, respectivamente, que estão iniciando o processo de divórcio e disputam, além de bens materiais, a guarda do filho pequeno. Na primeira cena do filme, os dois aparecem escrevendo uma carta onde descrevem as qualidades que mais gostam um no outro. Esse argumento serve para criarmos uma certa empatia pelo casal, e até mesmo para torcermos que eles fiquem bem e juntos, antes que comecem a vir a tona os motivos reais da separação. É também o único momento do filme onde são mostrados flashbacks desta relação, a partir de então o enredo se torna linear e vamos apenas acompanhando o decorrer dessa separação com a maior naturalidade.

Ainda sobre a cena das cartas, achei uma artimanha muito interessante do diretor para mostrar como que, mesmo num fim, é importante perceber o que teve de belo. "Vou amá-lo para sempre, mesmo que não faça mais sentido" diz Nicole. É a prova máxima que uma separação não significa necessariamente o fim de um sentimento, mas uma transformação. É engraçado perceber também como as qualidades descritas nas cartas, de ambos os personagens, vão sendo dissecadas cena após cena, de modo bem sutil, mostrando apenas o cotidiano de cada um.



Noah também nos mostra como as coisas podem fugir do controle mesmo que não seja a intenção de ambas as partes. Eles só queriam fazer o processo, que já é doloroso por si só, ser menos insuportável, mas a entrada dos advogados na história vai tornando isso cada vez mais difícil. Aliás, muito boas as participações de Ray Liotta e Laura Dern, nos papéis dos advogados, possivelmente indicados em categorias coadjuvantes nas premiações.

O diretor evita o uso de cortes nas cenas, dando à elas um realismo muito maior, e isso é também um grande mérito dos atores envolvidos. Scarlett Johansson e Adam Driver possivelmente tem aqui as melhores atuações de suas carreiras até o momento. Há uma cena em específico em que é possível ver os personagens em seus limites, botando para fora toda a angústia que seguravam dentro de si por muito tempo, e só por ela já valeria vê-los indicados aos Óscar do ano que vem.


História de Casamento é um filme feito nos detalhes, cheio de nuances, e bastante minimalista nos trejeitos e atitudes dos seus personagens. Uma abordagem diferente do amor e do respeito entre dois seres humanos, com seus defeitos e qualidades, que viram a parceria existente entre eles se esvaindo pelos dedos com o passar do tempo.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Crítica: O Irlandês (2019)


Se existe no mundo um diretor que sabe trabalhar a violência nos cinemas, esse diretor é Martin Scorsese. O homem por trás das obras-primas Os Bons Companheiros e Cassino volta a abordar o tema máfia/gângster de forma primorosa em O Irlandês (The Irishman), numa verdadeira aula de como fazer cinema.



O filme conta a história de Frank Sheeran (Robert DeNiro), um veterano de guerra que trabalha como motorista em um sindicato de caminhoneiros. Sua vida muda quando ele conhece a família Bufalino, principalmente Russell (Joe Pesci), e passa a cumprir tarefas para os membros da máfia. Pouco a pouco Frank vai adentrando no mundo do crime organizado, criando contatos e crescendo dentro dele, até se tornar um assassino a sangue frio capaz de fazer qualquer serviço.

Já idoso, sem forças e vivendo em um asilo, Frank rememora toda a sua vida, sua carreira e sua relação com os chefões do crime através de uma narração em off. O longa, dessa forma, se passa em três períodos diferentes: quando ele ainda era novo e entrou para a máfia, quando ele já está mais velho e fazendo uma viagem com Russel pelas estradas dos Estados Unidos, e quando ele está vivendo debilitado na casa de repouso nos seus últimos dias de vida.



O enredo passa de um período ao outro com muita naturalidade, numa montagem perfeita. O ritmo cadenciado pode até cansar em alguns momentos, mas serve para dar uma realidade muito maior às cenas, além de nos apresentar com mais detalhes as personalidades de cada um dos personagens em cena. Fica evidente que não se trata de um filme para entretenimento, mas sim, de um filme que tem como única intenção te colocar dentro daquele mundo durante suas três horas e meia de duração. Achei muito inteligente e original o fato do filme apresentar os personagens secundários mostrando sempre a data e o motivo da morte de cada um escrito embaixo. Na vida do crime, todos tem um prazo de validade.

Se Scorsese sozinho já seria capaz de nos apresentar uma grande história, imagina com um elenco composto de Al Pacino, Robert DeNiro, Joe Pesci, Harvey Keitel, Anna Pacquin, entre outros. Foi realmente uma sensação única ver Pesci, Pacino e DeNiro trabalhando juntos pela última vez. Digo pela última vez porque Pesci já estava aposentado há anos e foi convencido a voltar à ativa apenas para viver este personagem tão simbólico. Diferente de seus personagens extravagantes e inconsequentes nos outros trabalhos de Scorsese, Pesci dá vida aqui a um homem contido, inteligente, e que se mantém equilibrado mesmo nas situações mais adversas, quase como uma voz da sabedoria. Um papel merecido a um ator que ficou marcado na história do cinema e que dificilmente fará algo novo.



O ator que mais contracena com Pesci no filme é Robert DeNiro, seu parceiro de longa data. Os personagens dos dois se conhecem por um acaso, e se tornam extremamente leais um com o outro para o resto de suas vidas. DeNiro para variar está impecável, numa atuação de gala. O bom trabalho de rejuvenescimento da equipe técnica nos transporta para uma época de ouro da carreira do ator, onde ele fez filmes que marcaram sua carreira como O Poderoso Chefão, Era Uma Vez na América, e o próprio Os Bons Companheiros de Scorsese. Disciplinado em seguir regras, não demorou para seu personagem subir no mundo do crime, mas no final do filme, em uma espécie de prólogo melancólico, ele mesmo se questiona se tudo o que ele fez valeu a pena, principalmente por suas atitudes terem afastado a própria família.


Por último falo aqui de Al Pacino, que interpreta o sindicalista Jimmy Hoffa, o chefão de tudo. Completamente desequilibrado, o personagem de Pacino rouba a cena e é responsável por alguns dos momentos mais cômicos da trama. Hoffa é um homem extremamente orgulhoso e teimoso que sempre tenta impôr seu poder na base do grito, além de se achar intocável e não dar a mínima para as convenções da máfia. Suas atitudes sempre geram consequências, não só para ele, mas para todos os demais membros. Longe de fazer grandes papéis há anos, Al Pacino ganhou de Scorsese um grande presente ao interpretar um personagem que é a sua cara.


Por fim, se essa for mesmo a despedida de Scorsese do gênero, esse ciclo não poderia ter se encerrado de um jeito melhor. O Irlandês é um filme sobre lealdade, envelhecimento e arrependimentos, mas sobretudo, sobre as consequências que decisões erradas podem trazer à vida de um homem. É Scorsese na sua melhor forma.


quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Crítica: A Odisseia dos Tontos (2019)


Sou um grande fã do cinema argentino e da sua maneira bem-humorada de lidar com os problemas do país. O diretor Sebastián Borensztein, que já havia me conquistado com Um Conto Chinês (2011), volta a trabalhar com Ricardo Darín em A Odisseia dos Tontos (La Odisea de los Giles), uma estória de superação e sobretudo de amizade.



O enredo nos coloca dentro da Argentina de 2001, no auge da crise que assolou o país na época. Em uma cidade pequena do interior, um grupo de pessoas decide formar uma cooperativa para juntar dinheiro e comprar uma fábrica abandonada, afim de reaquecer os negócios na região. Porém, logo que fazem o investimento, eles acabam caindo no golpe de um banqueiro e de seu advogado, e ficam sem absolutamente nada. A partir desse acontecimento, começam a planejar uma forma de recuperar tudo o que perderam, e vão até o limite para conseguir.

O filme segue a cartilha dos filmes de assalto norte-americanos, mas sabe se adaptar muito bem a cultura Argentina e às suas características. Todos os personagens são bem trabalhados e ganham seus momentos. O protagonista Ricardo Darin apresenta mais uma vez uma atuação segura e convincente, e e o único que apresenta momentos de dramaticidade em meio aos demais. Quem também está muito bem é Luis Brandini com seu jeito sério e debochado.



Representa da Argentina no Oscar de 2020, A Odisseia dos Tontos é um filme sobre não se deixar vencer tão fácil, sobre ir atrás de justiça, mas sobretudo sobre como a união das pessoas é capaz de corrigir injustiças (mesmo que parece fácil na ficção). Na sessão onde assisti o filme foi aplaudido no final da exibição, tamanho seu carisma com o espectador. Mais um grande trabalho do cinema argentino para a conta.


segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Crítica: A Vida Invisível (2019)


Vencedor do prêmio principal da mostra Um Certo Olhar em Cannes e representante do Brasil no Óscar 2020, A Vida Invisível, de Karim Ainouz (Madame Satã e O Céu de Suely) é um dos filmes mais poderosos do nosso cinema nos últimos anos, e ao mesmo tempo que encanta com cenas belíssimas, também incomoda ao tocar em assuntos extremamente necessários nos dias de hoje.



O enredo acompanha a história de Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), duas irmãs que cresceram juntas em uma família de portugueses no Rio de Janeiro dos anos 1940 e 1950. As duas possuem personalidades distintas; enquanto Eurídice é introvertida, inocente e tenta seguir as regras impostas pela sociedade, Guida é espontânea, inquieta e efusiva, e não baixa a cabeça para as convenções sociais da época. Um dia Guida resolve fugir de casa para viver um amor escondido, sem fazer a mínima ideia de que essa sua atitude mudaria para sempre a vida das duas. 

Apaixonada pela música e sonhando em se tornar uma pianista de sucesso, Eurídice se apega a isso para sobreviver aos dias que se seguiram sem a irmã, até se casar com Antenor (Gregorio Duvivier) e sair definitivamente de casa. O casamento, no entanto, é muito longe do que ela buscava para sua vida, e o diretor utiliza essa união para evidenciar o machismo na sua pior forma, com direito a cenas bem pesadas de violência doméstica, tanto verbal como sexual. Aliás, é interessante analisar como o sexo é utilizado pelo diretor em cena, sempre como um elemento opressor do sexo masculino, e não como algo prazeroso e confortável para os dois lados. Nota-se no olhar das mulheres nessas cenas o desconforto que elas carregam de serem vistas apenas como objetos.



O filme é sobre um grande desencontro das duas irmãs, mas também de novos encontros. Quando Guida volta para casa e não é aceita pelo pai por estar grávida, ela precisa encontrar uma forma de sobreviver e recomeçar a vida na companhia de uma "nova" família, onde é acolhida com muito carinho. Interessante analisar que o título do livro, do qual deriva o filme, é A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, e essa segunda parte do nome foi surrupiada para o cinema por um propósito: aqui não é somente Eurídice que se torna uma personagem apagada pelas nuances da vida, mas é um filme sobre todas as mulheres que viviam na época e enfrentaram as mesmas dificuldades de tentar ser alguém.

O filme tem um ótimo elenco, e ganha um toque ainda mais especial com a participação de Fernanda Montenegro. Uma atuação breve, por cerca de 20 minutos, mas avassaladora, provando mais uma vez o porque dela ser o maior patrimônio do cinema brasileiro. O enredo intercala a história das duas irmãs sem se tornar cansativo, e é legal perceber como, mesmo distantes, elas sempre tiveram uma ligação de alma inquebrável.



Por fim, A Visa Invisível é uma obra sobre famílias partidas, afastamentos, e principalmente saudade. É a maturidade do cinema de Karim Ainouz, que tem aqui o melhor filme de sua carreira até então. Viva o cinema nacional.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Crítica: Coringa (2019)


O icônico personagem do Coringa já apareceu em diversos filmes ao longo da história do cinema, tendo sido o primeiro deles ainda na década de 1960, mas somente agora em 2019 que, pela primeira vez, ele ganha um filme próprio, só dele. Em grande parte das aparições anteriores ele era apenas o temido vilão de Batman, sendo sempre um personagem secundário, ainda que tenha roubado a cena algumas vezes (como nas antológicas atuações de Heath Ledger, em 2008, e Jack Nicholson, em 1989). Bom, tendo um filme apenas seu, era grande a responsabilidade de Todd Phillips em criar a complexa personalidade do Coringa e mostrar como ele se tornou quem ele é. E foi um trabalho impecável, desses que revigoram o cinema e nos fazem lembrar como é bom amar e acompanhar a sétima arte.



Primeiramente, vamos falar sobre Gotham City, local onde tudo acontece, e que lembra muito (e propositalmente) a Nova Iorque dos anos 1980, já retratada em diversos filmes, como no clássico Táxi Driver de Martin Scorsese. Assim como na Nova Iorque de Scorsese, Gotham é uma cidade suja e desleixada, e a situação piora ainda mais com a greve dos lixeiros (fato que realmente aconteceu na cidade americana), que culmina em lixos acumulados por todo o canto e uma epidemia de ratos, ambiente que combina com a frieza e a falta de empatia de todos os seus habitantes.

É nesse local hostil que vive Arthur Fleck (Joaquim Phoenix), um homem que trabalha para uma empresa de palhaços e mora com a mãe em um prédio precário da cidade. Na primeira cena do filme, Fleck aparece em frente ao espelho, tentando com os dedos forçar um sorriso e uma aparente expressão de felicidade, que não condiz em nada com o seu verdadeiro sentimento. Logo ele volta para seu estado natural, o de descontentamento com a vida e com tudo que o rodeia, e rola até mesmo uma lágrima. Esse "sorriso forçado" aparece inúmeras vezes ao longo da trama, como demonstração de alguém que está desesperado para ser feliz numa realidade que não o permite ser.



Arthur possui um distúrbio que faz ele gargalhar em situações de nervosismo, sem querer. Este é um ponto muito bem utilizado pelo autor, onde é possível sentir toda a agonia do personagem. Por isso mesmo não se trata de uma risada engraçada, muito pelo contrário, pois se você entende o que ele está sentindo se torna angustiante vê-lo nessa situação. No começo do filme ele chega a utilizar um cartãozinho que entrega para as pessoas explicando o motivo das suas risadas incontroláveis, mas depois ele mesmo deixa de usá-los pois percebe que não adianta nada, já que as pessoas continuam debochando e tratando-o mal de qualquer forma.

O filme tem a audácia de nos faz sentir empatia por Arthur, fazendo até com que esqueçamos, por alguns momentos, de que se trata de um vilão. Isso fica evidente em uma cena onde ele é agredido e reage, e fica ainda mais forte quando descobrimos um pouco mais sobre seu passado, cheio de abusos e violência. Obviamente não dá para se apegar a isso para justificar seus atos, sobretudo no final do filme, mas de alguma forma você o compreende, e isso é um tanto quanto perturbador.



Esse exercício de construção do personagem é o mais impressionante da obra num todo. Um homem comum, de fala mansa e olhos perdidos, que tinha sonhos e ambições mas viu tudo evaporar com os sentimentos de abandono e solidão. Mais do que isso, um homem que no começo da estória ainda acreditava no ser-humano, mas que passou a enxergar todos como potenciais ameaças numa sociedade calejada. 

Tudo isso não seria possível sem um grande ator por trás, e é aí que entra a atuação impressionante de Joaquim Phoenix, que perdeu 24 quilos para dar vida ao personagem. Simplesmente não há palavras para expressar o que o ator consegue fazer em cena. O sentimento que ele transmite através de uma excelente linguagem corporal, poucas vezes eu vi igual, e com certeza deve lhe render muitas conquistas na temporada de premiações, incluindo o Óscar, no qual ele já foi indicado três vezes.

O filme também é impecável tecnicamente. Sua fotografia melancólica e a excelente utilização das cores (mais escuras em momentos sombrios e depressivos do personagem e mais claras quando ele encontra algo que o faz sentir-se bem consigo mesmo) são uma verdadeira aula de cinematografia. Tudo finalizado com uma bela ambientação da época e uma excepcional trilha sonora. Para um filme baseado em um personagem dos quadrinhos, é surpreendente analisar também que não há, em momento algum, a utilização de efeitos especiais, e isso engrandece o trabalho ainda mais, visto que teve um orçamento baixíssimo comparado com outros filmes do mesmo estúdio.



Por fim, Coringa é um filme extremamente corajoso, como há tempos não se via no cinema feito nos Estados Unidos. E é exatamente isso que o cinema precisa, ousadia. A direção não teve receio do que o público iria ou não pensar, e entregou aquele que é o grande filme americano do ano. Você sai da sala de cinema atordoado, tentando a todo custo digerir o que acabou de ver, e digo pra vocês que isso demora a passar. Uma verdadeira obra de arte, e um filme para entrar para a história.


sábado, 21 de setembro de 2019

Crítica: Yesterday (2019)


Se você, como eu, é fã dos Beatles, sabe que qualquer filme que prometa falar sobre a banda e as suas músicas logo chama a atenção e nos dá aquela vontadezinha de assistir, não é mesmo? E considerar a inexistência deles na Terra então seria algo inimaginável para qualquer um. Não para Danny Boyle (Trainspotting e Quem Quer Ser um Milionário?), que volta aos cinemas com essa "dramédia" recheada de boa música (afinal, estamos falando de Beatles).



O filme acompanha Jack Malik (Himash Patel), um bom músico mas que vive frustrado por não conseguir subir na carreira e viver apenas de pequenas apresentações em bares. Certo dia, voltando para casa, acontece um apagão misterioso que faz com que, de um dia para o outro, toda e qualquer referência aos Beatles suma da face da terra. Ninguém mais reconhece as músicas do grupo e muito menos ouvir falar de quatro caras de Liverpool chamados John, Paul, George e Ringo.

Confesso que achei o acontecimento que marca essa virada no filme um tanto quanto mal feito, mas entendo que era necessário algo do tipo para o andamento da história. O que eu não entendo são outros acontecimentos que permeiam o filme, como o sumiço de marcas famosas como a Coca Cola, ou o fato de nunca terem existido cigarros, por exemplo. Considero esses fatos pouco explicados durante a trama e isso me incomodou.



Voltando à trama, Jack é o único ser-humano que lembra dos Beatles, e sente a necessidade de levar as músicas do grupo para o restante do mundo, quase como um tributo. As composições começam a chamar a atenção de todos e sua carreira explode a nível mundial. O mundo inteiro fica curioso para saber quem é esse homem que, de uma hora para outra, surgiu com letras tão bonitas e arranjos tão bem trabalhados.

Um ponto interessante do filme é analisar como as composições do quarteto seriam recepcionadas nos dias de hoje, uma realidade totalmente diferente daquela vivida nos anos 1960. O maior pecado do filme, no entanto, é ter se voltado à comédia romântica, focando demais na relação de Jack com sua namorada e deixando de lado o que realmente importava, a música.



O filme, enfim, diverte e prende a atenção, e mesmo possuindo seus defeitos não deixa de ser uma bela homenagem àquela que para muitos é a maior banda de todos os tempos. As referências, como por exemplo a cena em que ele canta em cima de um terraço (lembrando a última e inesquecível apresentação do grupo), são uma diversão a parte, e é por momentos assim que o filme, no fim, vale a pena.


quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Crítica: Parasita (2019)


Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o novo filme de Joon-ho Bong (dos excelentes Expresso do Amanhã e Okja) volta a tocar na ferida da luta de classes, tema que o diretor sabe abordar como poucos na atualidade, e mostra ao mundo um lado da Coreia do Sul que habitualmente não é mostrada na televisão; o lado da pobreza, da sujeira, e da falta de perspectiva em um futuro melhor.



O enredo começa acompanhando uma família suburbana que vive de dobrar caixas de papelão para uma pizzaria local e mal consegue ter dinheiro para se alimentar. Esmagados em um pequeno apartamento subterrâneo, eles "sugam" o wi-fi dos vizinhos, usam a fumigação das ruas para dedetizar o apartamento e vão se virando da maneira como podem em meio à miséria. Porém, após uma surpresa do destino, Ki-woo (Choi Woo-sik), o filho mais velho da família, consegue emprego numa mansão onde mora o empresário Park (Lee Sun-kyun), sua esposa e seu mimado filho pequeno, e esse fato muda o panorama de todos dessa família.

Aos poucos, através de pequenos golpes e trapaças, todos os integrantes da família passam a trabalhar na mesma mansão, sem que os donos saibam do verdadeiro grau parentesco entre eles. A mãe vira governanta, o pai motorista, e até a filha ganha espaço como cuidadora da criança. A primeira parte é bem humorada, mostrando a "ascensão" um tanto quanto desconjuntada dessa família, mas que no final dá certo. Como "parasitas", eles se instalam na residência e passam a viver uma realidade que eles jamais imaginavam que um dia poderiam usufruir. A partir da segunda metade, e de um determinado acontecimento, é que filme ganha contornos de suspense, beirando por vezes até mesmo o terror.



A crítica social está presente ao longo de toda a trama. Assim como em Expresso do Amanhã, aqui o diretor também explora as diferentes camadas sociais, mas de forma mais "visceral". O contraste entre dois mundos já pode ser analisado no começo, quando partimos do apartamento claustrofóbico da família Kim para a exuberante e espaçosa mansão dos Park. É uma mudança drástica no padrão de vida familiar e apesar de eles sempre terem sonhado almejar tal lugar, eles não parecem se sentir tão a vontade quando estão inseridos nele.

Há uma crítica também na cena em que mostra um amontoado de doações de agasalhos em um ginásio, e logo é mostrado o guarda roupas cheio da Sra. Park. Por fim, ainda há espaço para uma alegoria que, de alguma forma, lamenta o fato de sempre serem os pobres e desassistidos a sofrerem com tragédias como enchentes e deslizamentos. É interessante perceber que o diretor não tenta tratar os ricos como "maus", mesmo que suas atitudes sejam por vezes lamentáveis. São boas pessoas, mas os preconceitos velados e sutis se tornam impossíveis de se ignorar, como quando Park critica o cheiro ruim na casa como "cheiro de quem utiliza o metrô". Assim como também não trata as atitudes dos "pobres" como errada, já que, no mundo de desigualdades, não dá para julgar a tentativa de "se dar bem", quase como se fosse um "instinto de sobrevivência"



Candidatíssimo ao prêmio de melhor filme estrangeiro no Óscar do ano que vem, Parasita é, sem dúvidas, um dos grandes filmes do ano, e mais uma obra impressionante desse diretor que parece não errar nunca. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Crítica: Bacurau (2019)


Considerado um dos nomes mais fortes do cinema brasileiro atual, não somente no país mas no mundo todo, o pernambucano Kléber Mendonça Filho (de O Som ao Redor e Aquarius) se juntou ao também pernambucano Juliano Dornelles para nos apresentar um dos filmes mais provocadores do ano, que finalmente chega aos nossos cinemas depois de rodar o mundo e colecionar prêmios por onde passou. Bacurau não é um filme de fácil absorção, muito pelo contrário, mas é uma obra instigante, daquelas que vão ficando melhor cada vez que você pára para analisá-la novamente. Um faroeste tipicamente tupiniquim, ainda que fuja de qualquer tipo de rotulação.


A primeira cena (um close em câmera lenta do globo terrestre) já indica onde estamos chegando para acompanhar a trama: sertão nordestino, mais precisamente em Bacurau, vilarejo fictício no interior de Pernambuco. Pouco a pouco, sem pressa e sem pretensão, e em meio ao velório de alguém que foi muito importante para a cidade, a direção vai nos colocando na vida e no cotidiano de seus habitantes, todos com características bastante fortes. Isso se arrasta por toda a primeira parte do filme, e serve para que o espectador se sinta parte desse amontoado de vidas e histórias.

A partir do meio do filme é que a "ação" começa de fato a acontecer, quando a vila passa a ter que enfrentar uma ameaça externa bastante peculiar. E é então que aparece, para mim, uma das grandes mensagens que os diretores quiseram passar, que é a importância do coletivo em tempos difíceis. Sozinha Bacurau não seria nada, cada um na sua individualidade não seria páreo para o que estava por acontecer, mas quando todos resolvem resistir juntos, a situação muda de lado.


O filme possui críticas políticas bem pontuais começando pela figura do prefeito, que não vive na cidade e só faz visitas esporádicas. A cena em que ele doa livros para a biblioteca da cidade é bastante marcante pelo fato do desleixo (derrubados de cima de um caminhão como se fossem lixo), uma crítica ao valor que nossos governantes dão para a nossa cultura. Outra cena pertinente é quando ele doa, junto com comida vencida, alguns medicamentos psicotrópicos, numa tentativa clara de sedar a população para que ela aceite fazer o que ele quiser. O pior ainda fica para o final, mas sobre isso não irei me alongar demais para que não haja spoilers, digo apenas que é revoltante e super atual.

Outra crítica oportuna do filme é a respeito da cisão que existe entre nordestinos e alguns sulistas, que pensam ser europeus e carregam consigo o velho "complexo de vira-latas" onde acham tudo que os estrangeiros fazem legal e tentam de alguma forma ser um deles. É um retrato fidedigno do "brasileiro classe média" do sul e sudeste do país, que muitas vezes subjuga o povo nordestino e não os trata como seus conterrâneos. Na realidade, americanos nos tratam e nos vêem como verdadeiros animais, sem distinções de região, e a analogia que o filme faz disso é brilhante.

A tecnologia também tem um papel interessante na trama. Sabemos, desde o início, que o filme se passa daqui alguns anos, e isso vai ficando mais evidente a cada cena. Um momento muito inteligente do enredo acontece quando um dos habitantes mais velhos da cidade está andando de bicicleta e é perseguido por um drone em formato de disco voador. Em qualquer outro filme filmado na região, ele provavelmente acharia se tratar de algo de outro mundo, ou mal assombrado, mas aqui não, aqui ele sabe se tratar de um drone porque não existe mais aquele estereótipo do sertão ignorante, no sentido mais puro da palavra.


Numa realidade em que morrem todo dia inocentes na política pública de combate ao crime no Rio de Janeiro, uma cena específica é bastante contundente. Um menino, morto com uma lanterna na mão, e seu algoz, declarando que o matou pois achava que ele era mais velho e estava armado. Esses "enganos" ocorrem todos os dias nas ruas, principalmente pelas mãos de quem deveria estar ali para proteger o cidadão. 

Em um dado momento do filme, aparece em um dos televisores uma manchete (a lá programa do Datena) mostrando o agendamento de mais uma execução pública coordenada pelo governo no centro de São Paulo. Parece absurdo hoje pensar que isso um dia poderia virar realidade, mas no momento em que escrevo essa crítica me deparo com uma notícia de um jovem negro despido, amordaçado e amarrado que foi chicoteado por seguranças dentro de um supermercado, também em São Paulo, acompanhada de muitos comentários de pessoas apoiando e dizendo que ele merecia mais. Não preciso dizer mais nada.


Por fim, Bacurau é uma obra aberta a inúmeras interpretações, e faz você sair da sala de cinema cheio de conflitos internos. Tem filmes que quanto mais a gente pensa sobre, menos a gente vai gostando, mas Bacurau é o oposto, quanto mais eu penso nele e destrincho suas diversas camadas, mais eu consigo captar sua grandeza. Uma pena que quem precisa entender a mensagem que ele passa, nunca irá entender de verdade. Em tempos de obscuridade, o cinema nacional tem um dos seus respiros mais profundos.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Crítica: Era Uma Vez em... Hollywood (2019)


Nono e penúltimo filme da carreira de Quentin Tarantino, Era Uma Vez em... Hollywood (Once Upon a Time in... Hollywood) é a obra que mais se difere do estilo que o consagrou, pelo menos desde Death Proof (2007). O longa é uma ode à formação cinematográfica dele próprio e uma espécie de homenagem sua a tudo que serviu de inspiração até hoje na carreiraPorém, para entendê-lo como se deve é imprescindível conhecer as referências (e são muitas durante suas 2 horas e 45 minutos de duração) e principalmente os fatos reais citados, e essa aposta do diretor acaba apresentando um filme um tanto quanto desconjuntado, ainda que imperdível e cheio de bons momentos.


A trama se passa na Hollywood do final dos anos 1960, em plena era de ouro da indústria cinematográfica norte-americana, e acompanha Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um ator que busca seu espaço fazendo participações em séries de faroeste para a televisão. Junto dele está seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt), um amigo inseparável que é também uma espécie de "faz-tudo" na sua vida. O filme ainda possui uma terceira protagonista, Sharon Tate (Margot Robbie), a atriz que, junto com Roman Polanski, formou um dos casais mais badalados da época, e que foi brutalmente assassinada pela seita de Charles Manson em 1969.

A estória dos três se desenrola por meio de diversas intromissões e cortes abruptos, além de cenas recriadas de programas antigos de televisão e muito, muito flashback (inclusive, flashback dentro de outro flashback). O roteiro, no entanto, não tem uma trama concisa, com começo, meio e fim, e não se preocupa em entregar tudo amarrado no final, como acontece em Pulp Fiction por exemplo, e ainda que todas as estórias conversem entre si, elas acabam ficando meio a par uma das outras. 

Diferentemente do que eu imaginava durante toda a expectativa pelo filme, ele não foca na história de Charles Manson e sua seita, mas sim, no que acontece em volta, no cotidiano da cidade. Não existe uma estória propriamente dita sendo contada, é como se Tarantino pegasse sua mão e te levasse a acompanhar o dia-dia dos personagens, apenas isso. Isso fica ainda mais evidente na personagem de Margot Robbie, que de certo modo parece sem propósito na estória, aparecendo volta e meia sem fazer nada relevante. Aliás, existem muitas cenas que parecem desnecessárias ao longo da trama (nunca pensei que diria isso sobre um filme de Tarantino), e a cena em que Cliff conhece o rancho de Manson é para mim um dos exemplos mais evidentes. 



Como já era de se esperar, o filme é construído em cima de excelentes diálogos, marca registrada do diretor, além de muito bom humor e, é claro, violência em excesso, ainda que dessa vez ela tenha ficado reservada apenas para os minutos finais. É curioso como Tarantino leva o uso da violência de forma desconstruída em suas obras e utiliza isso como algo cômico, nitidamente exagerado, como se não fosse mesmo para ser levado a sério.

Se temos um "filme homenagem" do diretor ao cinema, é claro que não poderia faltar inúmeras referências aos filmes de faroeste, sua maior paixão declarada. Enquanto Rick grava cenas do gênero, ficamos imersos juntos na história, como se fosse um filme dentro de outro filme, e isso foi um argumento muito interessante. Só nos damos conta que não estamos assistindo um verdadeiro spaghetti western quando o personagem de DiCaprio erra uma fala e o diretor precisa cortar a cena para refazê-la. Inclusive, essa é mais uma das partes que ajudam na construção excepcional deste personagem, que já virou icônico.



Assim como em Bastardos Inglórios, mais uma vez Tarantino brinca de mudar um acontecimento histórico no final, quando resolve nos contar, da sua maneira peculiar, o que ocorreu na noite em que os seguidores de Manson subiram as ruas do bairro nobre de Bel Air para matar Sharon Tate e todos que estivessem dentro de sua residência. O final não poderia ser mais "Tarantinesco", e quem é fã vai se deliciar demais.

Sobre as atuações, não tem nem o que falar de Leonardo DiCaprio a não ser que, novamente, ele entrega uma das melhores atuações do século. Em sua terceira parceria com o diretor, ele é mais uma vez um dos pontos altos do filme e com certeza estará nas principais premiações no começo do ano que vem. Brad Pitt, mesmo com seu jeito fanfarrão que passa a impressão de "eu já vi esse personagem antes" consegue também entregar uma atuação digna de premiações. Lamentei um pouco a curta participação de Margot Robbie, mas todas as vezes em que aparece, é impossível não ficar vidrado. O elenco ainda conta com a participação de nomes conhecidos como Al Pacino, Kurt Russel, Emile Hirsch, Bruce Dern e Dakota Fanning.



Por fim, Era Uma Vez em... Hollywood é tecnicamente impecável, desde sua trilha sonora apaixonante até sua excepcional direção de arte, que recriou com perfeição toda Los Angeles da época. Mesmo não sendo "o melhor Tarantino",  é um filme que vale muito a pena, por ser mais um marco na carreira do diretor, que o viu como uma verdadeira realização pessoal.