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domingo, 28 de outubro de 2018

Recomendação de Filme #60

Mil Vezes Boa Noite - Erick Poppe (2013)

No meio de escombros, uma câmera fotográfica ensanguentada pelo chão. É com essa imagem que começa Mil Vezes Boa Noite (Tusen Ganger God Natt), do diretor norueguês Erik Poppe (Hawaii, Oslo / Águas Turvas). A cena infelizmente é quase rotina na vida de Rebecca (Juliette Binoche), uma fotógrafa de guerra que ganha a vida registrando momentos que poucos teriam coragem de registrar.



Casada e mãe de duas filhas, ela ama o que faz. A família por sua vez também sente orgulho da sua profissão, prova disso é a filha mais velha manter guardado um álbum com recortes de jornal contendo fotos tiradas pela mãe ao longo de todos os anos. Ao mesmo tempo, porém, todos sentem muito medo da insegurança e do que pode acontecer a Rebecca durante suas viagens de trabalho, e por isso o marido (Nikolaj Coster-Waldau) tenta a todo momento fazer com que ela desista da carreira.

Ela no entanto não larga a profissão por nada no mundo. Mais do que paixão pela fotografia, ela faz esse trabalho como uma tentativa desesperada de abrir os olhos do mundo para a maldade e a injustiça que existem em países onde conflitos são constantes. Os retratos que ela tira mostram a realidade nua e crua do que acontece nessas regiões, muitas vezes esquecidas pelo resto do mundo.



Aliás, o filme faz uma dura crítica justamente a esse pouco caso que os países desenvolvidos fazem a respeito do que acontece com os países de terceiro mundo. Quando a personagem diz que as pessoas estão mais preocupadas com a Paris Hilton saindo de um carro sem calcinha do que com as crianças morrendo na áfrica, não passa de um retrato cruel da realidade. No final, sentimos o mesmo que Rebecca: a sensação de revolta e impotência ao ver que as coisas irão continuar acontecendo e nós somos incapazes de mudar isso. 

O enredo, no entanto, foge da apelação, e encanta pela belíssima fotografia. A atuação de Binoche, como sempre, é excelente, mas todo o restante do elenco também está de parabéns. Mil Vezes Boa Noite é um filme que dói na alma, e confesso que fiquei em silêncio por um bom tempo após terminá-lo. Custou para digeri-lo. É triste ver quanta barbárie há longe das nossas vistas, e quanta maldade o ser-humano é capaz de fazer. Um filme que deveria ser visto por todos.

domingo, 2 de setembro de 2018

Recomendação de Filme #59

Quero Viver - Maciej Pieprzyca (2013)

Em todo sobre enfermidades existe uma linha bastante tênue que o separa de ser, de um lado dramaticamente apelativo, e de outro, uma verdadeira obra-prima. O polonês Quero Viver (Chce Sie Zyc), do diretor Maciej Pieprzyca, é um belo exemplo de um trabalho consistente e muito bem feito, e pode ser considerado um dos melhores filmes do cinema do leste europeu.



A trama acompanha a história real de Mateusz (Dawid Ogrodnik), que foi diagnosticado com uma forte paralisia cerebral desde criança. Sua infância foi extremamente difícil, principalmente por ele não compreender quase nada do que falavam e do que faziam ao redor, além de não conseguir fazer absolutamente nada sozinho, nem mesmo as coisas mais básicas.

Apesar de tudo, Mateusz teve a sorte de ter nascido em uma família unida e determinada a fazer com ele tivesse uma vida normal. Sua mãe super protetora e seu pai extremamente carinhoso foram a base para que ele conseguisse sobreviver às dificuldades. Além deles, ele ainda tinha um irmão mais velho bastante atencioso e uma irmã na fase difícil da adolescência, que talvez tenha sido a mais distante em termos de contato mas que ainda assim não deixava de amá-lo incondicionalmente.


Dentro da família, a relação de Mateusz com seu pai é com certeza a parte mais bela do longa. Aliás, que pai maravilhoso. O que ele fazia por Mateusz poderia servir de exemplo para todo e qualquer pai do mundo, e em qualquer situação. Seus ensinamentos ao garoto não vinham de forma didática, mas na prática, e através de suas próprias ações ele ensinou a Mateusz coisas que o menino levou para o resto da sua vida.

Ainda na infância, uma das coisas que Mateusz mais gostava de fazer era ficar olhando o movimento da rua pelo vidro da janela. Aliás, é interessante a observação que ele faz do cotidiano ao redor, e o modo como o diretor analisa alguns pontos da vida em sociedade sob a perspectiva dos olhos e sentimentos do menino. Desde a tristeza de ver crianças brincando e ele não podendo estar junto (ainda que ele não compreendesse muito bem isso) até a análise do casal de vizinhos que não conseguem mais nem se olhar depois de um tempo. Outro ponto interessante que o diretor traz é a divisão do filme em capítulos, com títulos e figuras "estranhas", que acabamos entendendo melhor na reta final.



Após a morte do pai, a vida de Mateusz muda significativamente. A tristeza do garoto é extrema, e de que forma não poderia ser? Com a tragédia, ele perdeu o seu maior elo de ligação com a vida, a pessoa que lhe dava tudo que ele precisava e que lhe fazia sentir especial e único. Se para nós uma perda já é difícil de aceitar, para Mateusz foi um sentimento de dor triplicado.

O filme pula então para sua adolescência, momento onde Mateusz se apaixona pela primeira vez. Anka, uma menina solitária que passa seus dias lendo para fugir do clima pesado de casa, acaba atraindo uma atenção diferenciada do menino, e a relação que eles criam entre si é extremamente forte. Quando são obrigados a se separar, ele sente novamente a mesma dor insuportável da morte de seu pai: a dor da despedida. O toque dos dedos que eles dão por baixo da porta se torna uma das cenas mais belas da história do cinema, e mais tristes também.

Após um tempo, com a doença da mãe, ele acaba sendo levado a um hospital psiquiátrico, onde passa seus próximos anos. Ele odeia o lugar, e odeia ainda mais a mãe por ela o ter deixado naquele lugar. Depois de muita resistência, Mateusz só consegue acostumar com a rotina quando chega uma nova voluntária, Magda, que passa a tratá-lo com carinho, ensinando coisas que até então ele nunca havia tido contado antes (como a beleza do corpo nu feminino, por exemplo). O relacionamento entre os dois causa a demissão de Magda, e ele se vê novamente sozinho no mundo, apesar das visitas da mãe.



Seu sonho sempre foi poder se comunicar com as pessoas ao redor, e dizer principalmente que ali tem uma cabeça pensante e não apenas um vegetal à espera da morte. E quando uma médica chega ao local com um novo método de comunicação através de piscadelas, ele consegue finalmente realizar esse desejo, passando a se comunicar com o mundo exterior da forma como sempre quis.

Em filmes como esse, o que se sobressai são as atuações. Não é fácil dar vida a personagens tão complexos como Mateusz, e Dawid Ogrodnik está realmente de parabéns, numa das melhores atuações que eu já vi na minha vida. Porém, deve-se elogiar também o menino que fez sua versão mirim, que foi tão espetacular quanto.

Na questão do roteiro, só há o que elogiar. A forma poética com que foi filmado dá um ar gracioso ao longa, e é impossível não se deixar levar. Infelizmente é um filme que não chegou aos cinemas daqui e posteriormente nem em plataformas de stream, sendo até mesmo difícil de encontrar para baixar na internet. Mas quem tiver a oportunidade de tê-lo em mãos para assistir, não deve pensar duas vezes.


domingo, 30 de agosto de 2015

Recomendação de Filme #58

A Excêntrica Família de Antônia - Marleen Gorris (1995)

Alguns filmes são verdadeiros achados na nossa vida. Até hoje não consigo descrever exatamente o que senti quando assisti pela primeira vez A Excêntrica Família de Antônia (Antônia), obra-prima da diretora holandesa Marleen Gorris e vencedor do Óscar de melhor filme estrangeiro em 1996. 

O filme é uma verdadeira celebração à vida e à passagem inexorável do tempo, e conseguiu me emocionar como poucos até hoje conseguiram. Famílias que se separam, laços de amizade que se desfazem, amores que se perdem e sonhos que não se realizam. A grande verdade é que o tempo não perdoa ninguém, e a ele nada escapa. Seja para o bem ou para o mal, seus efeitos são inevitáveis, e muitas vezes só percebemos isso quando dele não nos resta mais tanto quanto gostaríamos.


A trama do filme atravessa três gerações de uma mesma família que estabeleceu suas raízes em um pequeno vilarejo no interior da Holanda, e começa com Antônia (Willeke van Ammelrooy), já com seus 90 anos, acordando para aquele que será seu último dia de vida. Ela sente isso, e começa então a relembrar todos os melhores e piores momentos que já vivenciou.

O roteiro volta para 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, quando Antônia retornou à cidade natal para enterrar a mãe, depois de vinte anos distante. Não há nenhuma menção ao que ela teria feito nesse período em que ficou fora, e seu retorno é visto de diversas formas pela população, algumas positivas e outras negativas. A única coisa que ela traz consigo é sua filha pequena, Danielle (Els Dottermans), que poucos sabiam que existia até aquele momento.

A partir de então, começam a surgir todos os demais personagens da estória. Desde uma mulher que uiva para a lua até um casal de deficientes mentais que encontra o amor de uma forma improvável, cada um possui sua própria excentricidade. O que existe de comum entre eles é que todos foram muito bem acolhidos pela matriarca, que sempre fez de tudo para manter a união acima de tudo.


Outro ponto que os aproxima é que em qualquer outro lugar do planeta eles seriam excluídos da sociedade, mas no vilarejo todos se encontram em harmonia, como uma orquestra desafinada que consegue se completar entre os compassos. Entre os demais personagens, dois chamam bastante a atenção: a menina superdotada e o filósofo pessimista, que estuda as obras de Nietzsche e Schopenhauer. Os diálogos entre eles sobre religião são realmente fantásticos, e para mim é o ponto máximo do filme.

Diversas questões sociais também são abordadas magistralmente, como a violência sexual (presente na figura do irmão que estupra a própria irmã), o aborto, a homossexualidade, e a capacidade da mulher de buscar seu espaço em uma sociedade extremamente machista. Aliás, é importante frisar o cunho feminista que a obra possui, já que as ações dos homens da aldeia são geralmente impulsivas e irracionais, e são as mulheres que comandam tudo com pulso firme e independência.


Apesar dos temas densos o roteiro é levado com bom humor, mesclando bem o lado divertido com o lado trágico, e sua forma peculiar de narrar os acontecimentos me lembrou bastante o clássico Cem Anos de Solidão, do escritor Gabriel García Márquez. Por fim, fica a certeza de que é um filme único, em todos os sentidos, e que deveria ser amplamente conhecido. Uma obra onde o tempo é o personagem principal, e nós somos meros espectadores do que ele é capaz.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Recomendação de Filme #57

O Corpo - Oriol Paulo (2012)

O cinema espanhol sempre foi uma referência quando se fala em filmes de suspense, e dentre todos, O Corpo (El Cuerpo), do diretor Oriol Paulo (roteirista do também aclamado Os Olhos de Júlia), é o melhor que já tive a oportunidade de assistir. Com um enredo empolgante e cheio de reviravoltas, o filme cria um verdadeiro quebra-cabeça na mente do espectador, levando a um desfecho fascinante e completamente imprevisível.


A trama começa com o guarda noturno de um necrotério correndo desesperado mata adentro, aparentemente fugindo de algo que teria acontecido no local. Quando chega na auto-estrada para pedir ajuda ele acaba sendo atropelado, fato que o leva a entrar em coma no hospital, impossibilitando dessa forma que as autoridades chegassem a alguma explicação do ocorrido.

Na manhã seguinte, Alex Ulloa (Hugo Silva) recebe um telefonema avisando que o corpo de sua esposa recém falecida sumiu da gaveta do mesmo necrotério. Nas mãos do inspetor Jaime Peña (José Coronado), o misterioso acontecimento começa a ser investigado, voltando inclusive aos motivos da morte da mulher. É quando uma série de acontecimentos fazem com que surjam suspeitas sobre o próprio Alex de ter sido o responsável pela morte da esposa.


Durante uma longa noite de interrogatório, vamos adentrando na história conturbada do casal através de flashbacks narrados pelo próprio Alex, e nos fatos que supostamente levaram Mayka (Belén Rueda) à morte. Na manhã seguinte, os mistérios do óbito e do desaparecimento do corpo são finalmente revelados, deixando de queixo caído qualquer um que tenha imaginado ser capaz de prever o final.

Impecável tecnicamente, o filme chama a atenção pelas excelentes atuações de todos os envolvidos e pelo roteiro primoroso. Devo admitir que não sou um grande fã do gênero, mas tive que tirar o chapéu dessa vez. Aplausos de pé para Oriol Paulo, que tem em mãos uma verdadeira obra-prima do cinema contemporâneo, que infelizmente ainda é pouco conhecida e reconhecida pelo público em geral.


domingo, 10 de maio de 2015

Recomendação de Filme #56

Minha Vida Sem Minhas Mães - Klaus Haro (2005)

O cinema finlandês é conhecido por sua frieza na hora de contar histórias, e mesmo sendo o centro cinematográfico mais modesto entre os países nórdicos, é talvez o melhor dentre eles. Entre suas obras de maior qualidade uma se destaca em especial: Minha Vida Sem Minhas Mães (Aideista Parhain), de Klaus Haro, que num dia especial como hoje, dia das mães, é a oportuna recomendação da vez.


A narrativa aborda um episódio trágico que ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, e que até então era pouco conhecido. Durante a ocupação nazista, mais de 70 mil crianças finlandesas foram enviadas para um espaço neutro na Suécia, sendo acolhidas por famílias voluntárias que iriam adotá-las e ficar com elas até o fim dos conflitos. Entre essas crianças estava Eero (Topi Majaniemi), um menino de nove anos.

No novo país, Eero é recebido por um jovem casal. O novo ambiente e principalmente a nova rotina alteram drasticamente a vida do garoto, que no princípio não sabe nem falar a mesma língua que os donos da casa. Além disso, Signe (Maria Lundqvist), a sua "nova mãe", não aceita bem sua chegada pois estava esperando ansiosamente por uma menina.


A relação de Eero e Signe no começo é bastante conturbada. A mulher é uma verdadeira muralha de sentimentos e não consegue abrir mão disso para cuidar do menino. Ele por sua vez começa a tratá-la mal, nutrindo dentro de si uma mistura de saudade de casa com o sentimento de não ser bem vindo no lugar onde está. Com o tempo, no entanto, os dois vão se aproximando.

Ao longo do filme é possível criar uma forte empatia com a personagem de Signe, que no começo chega a ser odiável. O passado, mostrado em flashbacks, nos faz compreender melhor o motivo dela ser tão fechada em si mesma, e quando a verdade vem à tona, dói junto no espectador. Ao mesmo tempo, a história de Eero antes de sair de casa também é revelada, e enxergamos motivos suficientes para entendermos o porquê dele ser tão desconfiado e arredio.


O enredo do filme trata com primor, e sem ser apelativo, o doloroso impacto de uma guerra na vida das pessoas, principalmente das crianças. Mas acima de tudo mostra como o amor verdadeiro pode vir muitas vezes das pessoas que menos esperamos e nas situações mais adversas. O final é inesquecível, e deixa um nó na garganta difícil de desarmar. A trilha sonora também é épica, mas o mais impressionante de tudo ainda é ver o garoto Topi Majaniemi em cena, sem dúvida uma das maiores atuações infantis que já vi no cinema.

Delicado e singular, o filme de Klaus Haro é uma joia rara do cinema europeu, e merece ser mais conhecido. Recebeu 11 prêmios internacionais no ano do lançamento, e chegou a ser apresentado na Mostra de Cinema de São Paulo, mas jamais foi lançado comercialmente nos cinemas daqui, somente em DVD. Se tiverem a oportunidade de assistí-lo, não percam, pois vale cada segundo.


domingo, 28 de setembro de 2014

Recomendação de Filme #55

Vênus Negra - Abdellatif Kechiche (2010)

Do diretor Abdellatif Kechiche (de Azul é a Cor Mais Quente e O Segredo do Grão), Vênus Negra é um dos filmes mais dilacerantes que tive a oportunidade de assistir. Não é à toa que ele chocou o mundo ao ser lançado em 2010 no Festival de Cannes, onde muitos não conseguiram aguentar até o fim da sua exibição. Com cenas fortes e extremamente reais do que de mais grotesco existe no ser-humano, é um filme para quem tem estômago.


No início do século XIX, existia em Londres um bairro que era conhecido por apresentar diversos shows de horrores, com participação de anões, mulheres barbadas, pessoas deformadas, e outras atrações consideradas bizarras para a época. Dentre elas estava Saartjie Baartan, uma empregada doméstica africana que foi levada à Inglaterra pelo seu patrão, Hendrick Caesar, com a promessa de ganhar dinheiro se apresentando artisticamente nos palcos do país, mostrando as danças e a música de seu país natal.

Oriunda da tribo dos hotentotes, cuja característica predominante era o acúmulo de gordura nas nádegas e o "avental hotentote", uma anomalia nas regiões genitais, Saartjie passou a ser publicamente anunciada como a selvagem "Vênus Hotentote", muito diferente do que ela tinha em vista. Obrigada a utilizar uma coleira, o espetáculo com Saartjie consistia nela dentro de uma jaula, onde Hendrick, fingindo ser um explorador da vida selvagem, tentava "domá-la" diante de um público em fervorosa.



Diariamente humilhada, ela não tinha para onde ir, e em troca de pão e whisky, que ela bebia para esquecer todas as mágoas, teve que se submeter a isso durante anos. Quando as autoridades locais começaram a investigar a apresentação, Hendrick juntou seu grupo e fugiu para Paris, onde segundo seu parceiro ..., era um lugar onde tudo era permitido. Na capital francesa ela não era mais vista apenas como aberração. Para aradar a aristocracia deprava, ela era obrigada a participar de shows eróticos e até mesmo vender seu corpo para sobreviver.

A triste história choca ainda mais por ter sido real. O começo do filme, aliás, começa em uma conferência científica em Paris, no ano de 1815, onde pesquisadores usam a imagem de Saartjie para exemplificar as características da sua tribo, tentando de alguma forma estreitar a relação do homem com o macaco, e comprovar a inferioridade da raça negra perante a raça branca. Isso na época era comum, como forma de fazer com que o racismo fosse uma argumentação aceitável.



Exibida em um museu francês até a década de 1980, Saartjie virou um símbolo da luta pelos direitos humanos. Já no final do filme, acompanhamos o retorno dos seus restos mortais para sua terra natal, a África do Sul, em 2002, quase dois séculos depois. Recebida com homenagens, inclusive pelo chefe de Estado da época, Nelson Mandela, ela é hoje considerada um dos grandes heróis do país, o que infelizmente não faz com que toda sua dor diminua.

O grande destaque fica por conta da atriz cubana Yahima Torres, que aliás era estreante quando fez o papel. Seus olhares e suas feições contrastam com a situação e o ambiente em que ela é obrigada a viver. Apesar de todo o sofrimento, a personagem quase não chora, com exceção em duas cenas, que são realmente de cortar o coração.


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Mais do que tudo, a principal intenção de Kechiche talvez tenha sido nos questionar até onde vai a curiosidade e a exploração humana perante alguém considerado fora dos padrões, e o quanto isso é nocivo. Hoje não temos mais shows de horrores como antigamente, mas isso não impede que, diariamente, muitos ganhem em cima dos outros da mesma forma ou ainda pior, e isso é algo que infelizmente nunca vai mudar.

domingo, 29 de junho de 2014

Recomendação de Filme #54

Across The Universe - Julie Taymor (2007)

Por mais exagerado que isso possa parecer, me atrevo a dizer que Across The Universe é o melhor filme já feito dentre tantos que abordam a obra dos Beatles. Mesmo tratando-se de uma proposta extremamente simples (uma história de amor contada através das músicas do grupo), é surpreendente que ninguém jamais tivesse pensado em fazer isso anteriormente até a diretora Julie Taymor (de Frida) pôr a ideia em prática e nos presentear com essa verdadeira obra-prima.


Na história, Jude (Jim Strugess) é um jovem rapaz que mora em Liverpool. Sem espaço para mostrar o seu talento nas artes plásticas, ele ganha a vida trabalhando numa empresa naval, como a grande maioria dos homens da sua idade que vivem na cidade. Seu maior sonho no entanto é viajar para a América em busca de uma vida melhor, além de encontrar seu pai que vive lá e que ele nunca conheceu pessoalmente.

Quando ele tem a oportunidade de atravessar o Atlântico, agarra-se a ela com as duas mãos, e já em solo americano finalmente conhece o pai. O que muda definitivamente sua vida dali para a frente, porém, é a amizade que ele acaba fazendo com Max (Joe Anderson), um jovem cheio de ideologias e de personalidade forte. Quando eles viajam juntos para a casa da família de Max, Jude conhece a jovem Lucy (Evan Rachelk Wood), por quem se apaixona perdidamente, deixando de vez sua vida na Inglaterra.



Não que o enredo não seja cativante por si só, mas o que faz de Across the Universe um filme único é, de fato, a junção das músicas do quarteto de Liverpool com a história, que se encaixam de forma primorosa. Juntando temas como o amor, a guerra, a contracultura e o pensamento revolucionário muito presente naqueles anos 60, o filme consegue resgatar com perfeição a alma de todas as canções da banda, e o espírito de uma juventude inquieta e sedenta por liberdade. 

Outro ponto interessante é que exatamente tudo no filme lembra a banda, dos nomes dos personagens (Lucy, Jude, Prudence, etc.) aos cenários e diálogos. Acho genial a forma como as locações vão mudando conforme as fases da banda, e a parte que retrata a época "alucinógena" do grupo é certamente uma das mais memoráveis.

Agora falando do que interessa, a releitura das músicas são fantásticas, e deixa qualquer fã dos Beatles de pelos arrepiados. Afinal, como não se emocionar com os clássicos sendo cantados de forma tão emocionante e sincera? Algumas das versões musicais chegam a ser tão bem feitas, que por vezes parecem ser ainda melhor do que as originais (ainda que isso pareça uma blasfêmia).



A direção de Julie Taymor é bastante firme, e a ambientação da época é perfeita. As atuações são surpreendentes, sobretudo pelo fato de que todos realmente cantam nas cenas, sem usar playbacks ou gravações em estúdios musicais (passei a gostar ainda mais do filme depois que eu fiquei sabendo disso).

Por fim, Across the Universe tem as características que eu mais gosto em um filme: é simples, direto, envolvente, e instiga o espectador a pensar. E antes de mais nada, recomendo assisti-lo com a discografia dos Beatles por perto, porque você certamente vai sentir vontade de ouvir tudo de novo.


domingo, 27 de abril de 2014

Recomendação de Filme #53

O Vento Será Tua Herança (Stanley Kramer) - 1960

O Vento Será Tua Herança (Inherit the Wind) retrata um acontecimento real ocorrido em 1925 em uma cidade do Tennesse, onde um professor de biologia foi preso por ensinar aos seus alunos a Teoria Evolucionista de Charles Darwin, o que era proibido na época por ir contra as Sagradas Escrituras. O julgamento do caso acabou ficando conhecido mundialmente como "O Julgamento do Macaco de Scopes".


Boa parte da trama se passa dentro do tribunal, e as poucas cenas externas são as que mostram os protestos da população, em apoio ao promotor e contra o professor. Hillsboro (nome fictício da cidade, já que o nome original é Dayton) é uma cidade dominada pela religião, onde os moradores fanáticos são quase unanimidade e renegam qualquer opinião que vá contra a teoria "Criacionista".

O caso chamou a atenção de todo o país, não somente por causa da discussão, mas também pela participação de dois dos maiores advogados da época: do lado da acusação, o pastor Matthew Harrison Brady, candidato a presidência dos Estados Unidos e um dos teólogos mais influentes da geração; do lado a defesa, Henry Drummond, um forte militante dos Direitos Civis, conhecido por ganhar todos os seus casos.


Como era de se esperar, o ponto forte do filme são os diálogos, os discursos, e a forma argumentativa dos personagens. O principal argumento da acusação foi baseado no que diz a bíblia, e na ignorância de um fanatismo que visava ser intolerante com qualquer outro tipo de crença. A defesa, por sua vez, não queria defender a veracidade da teoria de Darwin (até porque o advogado também era cristão), mas sim, o direito de cada um escolher no que quer acreditar e ter liberdade de expressar suas opiniões.

Um dos pontos mais interessantes do debate ocorre quando o tribunal decide proibir o testemunho de cientistas, que poderiam comprovar se a teoria faz sentido ou não, mas permitem o uso da Bíblia pelo pastor. Ao questionar o porquê de um "perito em ciência" ser impedido de falar e um "perito na bíblia" ser aceito, o advogado da defesa chega a ser ameaçado de prisão por desacato, o que deixa os ânimos ainda mais exaltados.



A medida tomada pela defesa, como alternativa, é levar o promotor ao banco das testemunhas. Proibido de usar dados científicos, o advogado resolve usar a própria bíblia para questionar as verdades tidas como absolutas, e após algum tempo, o promotor acaba caindo em diversas contradições. Depois de um processo desgastante e interminável, no quarto dia o veredicto dos jurados acaba sendo unânime, decidindo pela culpa do professor, que é liberado da prisão mas é obrigado a pagar uma multa de cem dólares.

O final traz algumas cenas alegóricas, que só aumentam ainda mais o brilho da obra. A mais marcante para mim foi na hora em que o advogado de defesa foi arrumar suas coisas para ir embora e segurou debaixo do braço dois livros, a Bíblia e A Origem das Espécies de Darwin, numa demonstração de que é possível conviver com essas duas culturas ao mesmo tempo, com tolerância e respeito.


As atuações chamam a atenção, sobretudo de Spencer Tracy e de Fredric March. Ambos dão um verdadeiro espetáculo na pele do advogado de defesa e do promotor, respectivamente. O enredo é excelente, e tem como missão nos fazer pensar o quanto uma religião pode ser nociva para uma população quando usada de forma abusiva, e o quanto ela tira a liberdade de pensar das pessoas que seguem suas ideologias. Por fim, O Vento Será Tua Herança é um filme obrigatório na vida de qualquer cinéfilo, e merece ser visto e revisto incontáveis vezes.

domingo, 30 de março de 2014

Recomendação de Filme #52

O Piano (Jane Campion) - 1993


A diretora neo-zelandesa Jane Campion marcou seu nome na história do cinema em 1993, ao ser a primeira mulher a levar para casa a Palma de Ouro no Festival de Cannes. No ano seguinte ela ainda conquistaria o Óscar de melhor roteiro original, e só perderia o de melhor direção para Steven Spielberg, com seu A Lista de Schindler. A causa de tudo isso? O filme O Piano (The Piano), considerado um dos melhores filmes já feitos fora do solo americano.



Roteiros dramáticos estão fadados a ser apelativos. No entanto, quando o roteiro é bem construído, e as escolhas dos atores é feita a dedo, podemos ter um resultado surpreendentemente bom, com uma história crível e emocionante, como o visto nesse caso.

A trama gira em torno de Ada (Holly Hunter), uma mulher que é obrigada a se mudar junto com sua filha pequena para um vilarejo isolado na Nova Zelândia, após ter seu casamento arranjado pela família, que devia algo ao noivo. Sem falar desde os 6 anos, ela não tem muito o que fazer, e vai para o lugar com a missão de tentar se adaptar à situação.



Porém, logo na chegada, o marido Stewart (Sam Neill) não aceita que seus homens levem para casa o piano de Ada, que acaba abandonado no meio do nada. Apaixonada pelo instrumento, que serviu a vida toda como válvula de escape para os infortúnios da vida, Ada acaba desenvolvendo antipatia pelo marido após sua atitude.

Nesse ínterim, o comerciante local George (Harvey Keitel) resolve comprar o piano, instalando-o em sua própria casa. Interessado pela bela jovem, George pede a Stewart que ele a libere para lhe dar aulas de piano, e o que inicialmente era para ser uma relação de aluno e mestre, acaba se tornando uma relação de domínio e desejo.



Ada é chantageada por George, que promete devolver seu instrumento em troca de favores sexuais. No entanto, passados alguns dias, um sentimento verdadeiro passa a surgir entre eles. Mesmo temerosa quanto ao "pecado" que está cometendo, Ada se entrega de corpo e alma, da forma como nunca tinha tido oportunidade na vida.

Quando o marido descobre que as sessões de piano viraram na verdade encontros eróticos, acaba ficando enfurecido, e toma uma atitude extremamente violenta contra a jovem. Passado o surto, e recobrada a consciência, ele percebe que Ada nunca foi verdadeiramente sua, e numa atitude humana (ao contrário da anterior), ele deixa ela ir embora com George.



O final é dramático, quase um soco no estômago. A narrativa é primorosa, e a sofisticação visual encanta. Algumas imagens do filme ficarão marcadas para sempre na memória, como a cena em que George acaricia as pernas de Ada por um buraco em sua meia. Simples e lírico, o filme chama a atenção também pela excelência das atuações. A contradição que nos faz amar e odiar um personagem em poucos minutos, cria uma teia de emoções como poucas vezes vista, mostrando o quão mutável é a natureza humana e seus sentimentos.

Como era de se esperar em um filme que tem um piano como "personagem", a trilha sonora é fantástica. As melodias, quase todas tocadas no piano em cena, dão um toque especial. Impossível não se apaixonar e, até mesmo, se identificar com o filme. Um dos mais belos trabalhos feitos para o cinema, feito pelas mãos de quem conhece do assunto.


domingo, 2 de março de 2014

Recomendação de Filme #51

Meu Nome é Khan (Karan Johar) - 2010

Não é de hoje que sou fã do cinema indiano, e é um fato que os filmes feitos por lá dificilmente me decepcionam. Com Meu Nome é Khan (My Name is Khan) não poderia ser diferente. O longa, mesmo com seus abusos típicos, é uma obra-prima, e uma verdadeira lição de vida.



O personagem que dá nome ao filme é Rizwan Khan (Shahruck Khan) , um muçulmano da região de Mumbai, na Índia, que desde pequeno sofre com a síndrome de Aspenger, o que causa dificuldades de socialização. Na cena inicial do filme, Khan está peregrinando pelos Estados Unidos em busca de um encontro com o presidente na época, George W. Bush. Não conhecemos sua motivação, nem sua história de vida, enquanto ele profere uma única frase insistentemente: "Meu nome é Khan, e eu não sou um terrorista". Através de flashbacks, começam a vir as respostas.

Filho de um mecânico, desde pequeno Khan era um garoto incomum, de bom coração. Ensinado desde criança pelo pai a consertar as coisas, o ensinamento mais importante da sua vida foi, no entanto, o de sua mãe, que lhe disse que o mundo é dividido entre dois tipos de pessoas, as boas e as más, e que fora isso não existe diferenças.



Já adulto, ele vai viver junto com o irmão nos Estados Unidos após a morte da mãe. Lá, passa a trabalhar vendendo cosméticos de porta a porta. Numa dessas, ele conhece a cabeleireira Mandira (Kajol), uma indiana por quem se apaixona perdidamente. Seu coração é fantástico, e é incrível a forma sensível que o diretor utilizou para passar toda a história sob sua visão. A doçura da vida, e a percepção de que tudo tem um lado bom são motivadores.

Após muita insistência por parte de Khan, Mandira aceita se casar com ele, pegando assim seu nome. Há uma série de protestos entre os familiares, por conta dele ser muçulmano e ela hindu, e os dois tem que se esforçar para passar por cima disso. No entanto, após os atentados de 11 de setembro, a vida dos muçulmanos fica bastante perigosa no país. Indignados com a raça, numa generalização imbecil, todos começam a maltratar e julgar quem vem de fora. Para piorar, um forte acontecimento faz com que Andira e Khan se separem, e é também onde se explica o porque de sua busca incessante pelo presidente.


Inteiramente poético, é o tipo de filme que te restaura a fé na humanidade. Para quem conhece o cinema indiano, ele não foge muito daquele estilo "pra cima", cheio de músicas animadas e de letras revigorantes. Já as cenas dramáticas são bastante trabalhadas, e até mesmo exageradas em alguns momentos, o que pode incomodar quem não está acostumado.

As atuações são exemplares. O roteiro é tão triste quando belo, mas ainda tem espaço para o otimismo na hora de lidar com os problemas da vida. Com cenas inesquecíveis, e uma lição de humanidade poucas vezes vista, Meu Nome é Khan é um dos filmes mais belos que já tive a oportunidade de assistir.


domingo, 26 de janeiro de 2014

Recomendação de Filme #50

Réquiem Para um Sonho - Darren Aronofsky (2000)

Todo diretor possui pelo menos uma obra-prima, e na carreira de Darren Aronofsky não é difícil identificá-la. Apesar de ser mais reconhecido pelo recente Cisne Negro (que eu particularmente achei um porre), foi com Réquiem Para um Sonho (Requiem for a Dream), que o diretor entrou definitivamente na lista dos mais importantes da história de Hollywood, ganhando meu respeito e admiração.


A trama, dividida entre três estações do ano (verão, outono e inverno), começa mostrando Harry Goldfarb (Jared Leto), um viciado em heroína, que junto com seu amigo Tyrone (Marlon Wayons) está levando a televisão da sua mãe para revender em troca da droga. Fica bastante claro que não é a primeira vez, e que isso é recorrente. Sua mãe Sara Goldfarb (Ellen Burstyn), por sua vez, passa as noites vendo seu programa de auditório preferido na televisão, quase como um vício, e por isso mesmo acaba sempre indo atrás para recuperar o aparelho das mãos do traficante.

Após receber um convite por telefone para participar ao vivo do programa, Sara começa a tomar remédios para emagrecer, e assim, conseguir usar seu vestido vermelho que ela não usa há anos. Os remédios, porém, começam a causar alguns efeitos colaterais, principalmente quando ela passa a abusar da dose. Sara passa a delirar, a ter alucinações, e a perder peso descontroladamente, e a transformação da personagem ao longo do filme é algo que realmente impressiona.



Enquanto isso Harry, junto com a sua namorada Marion (Jennifer Connoly) e o seu amigo Tyrone, resolvem começar um novo projeto de venda de drogas, se envolvendo com o narcotráfico. O filme mostra bastante que por mais complicado que seja a vida, todos tem sonhos. O de Harry e Marion é conseguir uma grana para montar uma loja de roupas, enquanto o de Tyrone é escapar das ruas e deixar sua mãe orgulhosa. 

No entanto, eles acabam se metendo com gente da pesada, até Tyrone ir parar na cadeia. O dinheiro que eles conseguiram vai quase todo no pagamento da fiança, e desesperados por conta da abstinência, eles começam a fazer coisas absurdas. Marion, por exemplo, faz sexo com seu psiquiatra em troca de dinheiro.



O final é frenético, e extremamente angustiante. Sara fica tão insana, que tem que ser internada numa clínica, onde passa por duros tratamentos de choque. A cena é terrível, e qualquer ser-humano provido de sentimentos vai sentir um peso no peito. Harry, que por conta da droga vai tendo seu braço deteriorado, acaba tendo que amputá-lo no hospital. Tyrone é novamente preso, acusado de ser um viciado, e passa a ter de lidar sozinho contra a abstinência. Já Marion, se deteriora de vez em meio à orgias em troca de cocaína.

As atuações são impressionantes, principalmente a da atriz Elle Burstyn, que tem uma das melhores já vistas na história do cinema. Jared Leto e Jennifer Connoly também está impecáveis. O enredo arrebatador, com a crítica direta ao mundo dos psicofármacos, é realmente muito bem escrito e melhor ainda colocado em cena. É interessante ver a associação que Aronofsky faz entre as drogas ilegais e os remédios para emagrecimento, que são legais e receitados por médicos. Ambos são nocivos, e o segundo chega a ser até mais.



Requiém Para um Sonho é um dos filmes mais angustiantes que já tive a oportunidade de assistir, e o jeito que o diretor conta a estória é certamente diferente de tudo que você já viu. É o tipo de obra que deixa uma marca no subconsciente do espectador, que jamais vai esquecer o que viu e ouviu.