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domingo, 19 de maio de 2013

Recomendação de Filme #17

                               A Língua das Mariposas (José Luis Cuerda) - 1999

A guerra vista sob a perspectiva e o olhar de uma criança. A Língua das Mariposas (La Lengua de Las Mariposas), filme espanhol de 1999, é um dos mais belos e tocantes que tive o prazer de assistir até então.



A trama conta a estória de Monzo, um garoto tímido de 7 anos que vive a expectativa de estar indo para a escola pela primeira vez. Ansioso para o primeiro dia, depois das coisas amedrontadoras que o irmão mais velho contou a ele para assustá-lo, o garoto não consegue nem dormir na véspera.

Porém, ao adentrar na sala de aula, Monzo cria logo no início uma enorme admiração pelo experiente professor Don Gregório, que resulta em uma forte amizade entre o mestre e a criança. Graças a essa amizade, a escola se torna para Monzo um ambiente de prazer, e o garoto começa a frequentar as aulas com entusiasmo e sem o medo que tinha no primeiro momento.


São nas aulas de Don Gregório que Monzo aprende um mundo novo, completamente desconhecido. O professor leva os alunos para fora da sala de aula, ensinando-os a admirar a natureza e a explorar seus segredos. Além disso, é também pelas mãos do mestre que Moncho descobre a magia da literatura, ao receber de presente o romance "A Ilha do Tesouro", de Robert Louis Stevenson.

Essa é a principal marca do filme no seu começo: a tentativa de mostrar que a aprendizagem pode sim se tornar uma fonte de prazer, sendo ela feita com liberdade e boa convivência. A partir de então, porém, vemos uma mudança de foco e o filme passa a mostrar o quadro social e político de uma Espanha às vésperas da ascensão do fascismo de Franco. Com invasões do governo fascista e a perseguição violenta contra comunistas e simpatizantes da esquerda, o garoto vê o mundo em contradição com os ideais de liberdade que seu mestre sempre lhe ensinou.


A Língua das Mariposas é um filme de guerra, mas sem armas, exércitos ou tanques. Fala de algo muito mais devastador em um conflito, que é a falta de confiança entre amigos de lados opostos, a perda da inocência, e os sentimentos que são envolvidos em um conflito.

domingo, 12 de maio de 2013

Recomendação de Filme #16

Disque M Para Matar (Alfred Hitchcock) - 1954

Terceiro longa-metragem a cores filmado pelo diretor Alfred Hitchcock, Disque M Para Matar (Dial M for Murder) está para mim entre os três melhores filmes da sua carreira, junto de Janela Indiscreta e Psicose.


Na trama, baseada em uma peça da Broadway, o ex-jogador de tênis Tony (Ray Milland) resolve executar um plano calculado nos mínimos detalhes para matar a esposa (Grace Kelly). Através do uso de chantagens, ele manda Lesgate (Anthony Dawson) ao seu apartamento, em um dia que sua esposa está sozinha em casa, com a tarefa de realizar a "missão".

Porém, o plano dá errado e Lesgate acaba tendo um final trágico. Para evitar ser descoberto, Tony faz de tudo para forjar um álibi e pôr a culpa no falecido "colega". O filme é rodado em apenas um cenário, o que deixa o clima claustrofóbico e aumenta o nível de tensão ao redor da estória.



Dois elementos clássicos dos filmes de Hitchcock podem ser vistos logo no começo do filme. Em primeiro lugar temos a tentativa de um crime perfeito que acaba sendo frustrada, graças aos erros sutis do assassino. Já havíamos visto algo parecido em Festim Diabólico.

Também como em Festim Diabólico, a apresentação do resultado final acontece já no início do filme, fato que nas mãos de um diretor sem experiências certamente faria o filme perder totalmente a graça. Mesmo sabendo o final, acompanhamos com atenção todo o desenrolar da estória e a luta de Tony para tentar não ser descoberto pelo seu plano, o que torna o suspense delicioso.



Enfim, Disque M para Matar é um dos filmes de Hitchcock que mais entretém o espectador, e é perfeito para quem quer começar a conhecer a obra do Mestre do suspense. Um divertido passatempo que vale cada segundo.

domingo, 5 de maio de 2013

Recomendação de Filme #15

                                 Cães de Aluguel (Quentin Tarantino) - 1992


No começo de 1992, ninguém nunca tinha ouvido falar no nome de Quentin Tarantino, mas no final daquele mesmo ano seu nome era citado como a salvação do cinema americano, que vivia uma das suas piores carências criativas da história. O motivo dessa ascensão repentina? Cães de Aluguel (Reservoir Dogs), o primeiro longa metragem da sua carreira. 




A trama inicia no melhor estilo do diretor, com uma discussão vulgar e indecente de oito sujeitos em uma mesa de bar sobre a música "Like a Virgin" da Madonna. Aparentemente parece não estar acontecendo nada de anormal entre eles, mas a cena nos revela uma série de informações vitais para o desenvolvimento dos personagens em questão.

Abruptamente a cena é cortada para dois deles em um carro, um deles com ferimentos de arma de fogo. É assim mesmo, de forma não-linear, que começamos a conhecer o grupo de gângsters liderado pelo chefão do crime, Joe Cabot, e seu filho. O bando é formado pelos oito homens da cena inicial, que foram recrutados para um serviço especial e receberam codinomes de cores (Mr. White, Mr. Brown, Mr. Pink...) para evitar que viessem a se conhecer fora do "trabalho".




A ação pela qual eles foram contratados (o roubo de um diamante em uma loja de Los Angeles) dá errado, e apenas quatro deles sobrevivem. Esses quatro se reúnem em um galpão, após o fracasso, e começam a matutar sobre uma possível armação de um dos membros do grupo, que teria avisado a polícia antes de tudo começar.

Tarantino sempre deixou explícito que adora usar violência nos seus filmes, e é nesse ínterim que tem início um banho de sangue poucas vezes visto no cinema americano, com direito a uma cena de tortura física de 10 minutos, filmada em tempo real, que choca quem assiste o filme pela primeira vez. 




Muitos criticam o diretor por acharem a violência de seus filmes gratuita, o que eu discordo veemente. Nada é gratuito nos filmes de Tarantino. Nenhum tiro é dado sem um propósito, nenhuma morte é em vão. O diretor faz uso constante de flash-backs no roteiro, misturando cenas da reunião do grupo após o fracasso, em um plano do presente, com a preparação e o recrutamento de todos antes da ação acontecer.


A textura visual de Cães de Aluguel é algo que se deve chamar atenção. Cada ângulo e cada quadro é concebido pelo diretor de forma impecável, em um filme que beira a perfeição nesse quesito. Mas não é só isso que é digno de elogios na obra. Os diálogos, ponto forte em todos os filmes do diretor, aparecem mais uma vez afiados, repletos de gírias urbanas e elementos da cultura pop. Além do mais, um grande destaque vale também para as atuações, onde os atores parecem (e provavelmente foram) escolhidos a dedo.


Em um mundo onde você assiste filmes de ação já sabendo exatamente o que vai acontecer nos próximos 10 segundos, Tarantino rompeu com isso e fez um filme absurdamente improvável. E é por isso que ele hoje já é considerado um clássico, mesmo sendo relativamente recente.

Não considero a melhor obra do diretor, já que ele ainda estava engatinhando na carreira, mas é impossível olhar o filme sem perceber todos os elementos que vieram a consagrar seu nome no cinema mundial.  Um filme que te faz dar boas risadas, enquanto o sangue escorre pela tela. Um filme que só poderia ter sido feito pelo sacana do Tarantino.


domingo, 28 de abril de 2013

Recomendação de Filme #14

                                         OldBoy (Chan-wook Park) - 2003


O cinema oriental é conhecido por ser seus filmes viscerais, perturbadores, e originais. E se eu tivesse que fazer uma lista dos melhores filmes vindos do outro lado do mundo, certamente OldBoy (Oldboy) estaria no topo.




O filme do sul-coreano Chan-wook Park é o segundo de uma trilogia, que aborda um tema recorrente no cinema de lá: a vingança. O longa conta o drama de Oh Daesu, sequestrado por um desafeto sem um motivo aparente e aprisionado em uma cela que parece um pequeno quarto de hotel, onde seu único contato com o mundo exterior passa a ser uma pequena televisão.

Em um dado momento, Daesu se desespera ao ver no noticiário que sua mulher foi assassinada, e sem conseguir fugir (apesar de inúmeras tentativas), nutre com o passar dos dias um terrível desejo de se vingar.



Alguns anos se passam e ele acorda misteriosamente fora da cela. Sim, isso mesmo. Não há uma explicação plausível, e ele simplesmente está livre. É então que ele começa uma caçada para descobrir quem fez aquilo e o porque. Aos poucos, ele vai encontrando pelo caminho pessoas chaves que o auxiliam na resolução desse mistério, o que vai intrigando o espectador a cada nova cena.

O estilo narrativo de OldBoy é pouco convencional, e feito com extrema criatividade pelo diretor, que cria sequências antológicas como a famosa cena da luta em um corredor ou a cena em que o protagonista come um polvo. Tudo isso aliado a uma excelente fotografia, e um aspecto visual impressionante. O final é surpreendente e chocante, com uma mudança de foco drástica que faz com que o filme seja ainda mais memorável.


É um filme controverso, tanto é que os espectadores se dividem entre os que o amam (como o júri do festival de Cannes que o premiou como melhor filme de 2003), e os que o odeiam (com o argumento de que a violência do filme é usada de forma gratuita, o que eu não concordo).

Mas uma coisa é unânime: OldBoy é um verdadeiro soco no estômago, capaz de despertar sentimentos únicos em que o assiste. Como disse um crítico americano, "é um filme poderoso, não devido ao que retrata, mas devido às profundezas do coração humano que ele desnuda". 




De fato, é uma obra não recomendada para pessoas sensíveis, devido ao seu conteúdo violento, grotesco e as vezes escatológico. Uma obra que nos leva ao pior do ser-humano, e para assistir, primeiramente você deve se despir de qualquer conceito do que é correto e do que não é.

domingo, 21 de abril de 2013

Recomendação de Filme #13

O Sétimo Selo (Ingmar Bergman) - 1957

O cinema surgiu no final do século 19 como uma forma de entretenimento, mas com o passar do tempo virou uma forma de expressar os sentimentos mais ocultos, tornando-se assim a forma de expressão artística mais importante da modernidade. Ingmar Bergman soube aproveitar bem essa onda para mostrar seus ensaios filosóficos e introspectivos na tela, e com esse filme devo dizer que ele atingiu seu auge.




O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet) conta a história de um cavaleiro chamado Block (Max Von Sydel), que após dez anos retorna das cruzadas e se depara com sua cidade devastada pela peste. Com tamanha tristeza, sua fé em deus é terrivelmente abalada e ele passa a refletir sobre o real significado da vida.

Nesse ínterim, a morte (tipicamente personificada, com um rosto cadavérico e vestida de preto) aparece para levá-lo embora. Com o objetivo de ganhar tempo de vida, o cavaleiro convida a morte para um jogo de xadrez, que decidirá sobre seu futuro. A morte, é claro, aceita o desafio, pois é soberana e mesmo perdendo, sabe que pode leva-lo quando bem entender.


A parte do jogo de xadrez é uma das melhores metáforas existentes na história do cinema. A vida é retratada como uma partida, em que você mexe do jeito que quer, e não importa o que aconteça, um dia ela chega ao fim. Enquanto o jogo desenrola, Block para a pensar no sentido que temos em estar nessa vida, e principalmente em como ela é frágil. Há também uma forte discussão sobre a existência de deus, do diabo e da vida após a morte, em diálogos espirituosos e marcantes.

Existem poucos filmes que podem ser considerados uma obra-prima, e O Sétimo Selo é um deles. É impossível ficar indiferente ao que passa na sua frente em uma hora e meia de filme. Uma alegoria em preto e branco sobre a busca do homem por um sentido da vida em um mundo caótico e desigual. Um filme obrigatório a todos que possuem sensibilidade e espírito livre.

domingo, 14 de abril de 2013

Recomendação de Filme #12

                                 O Grande Golpe (Stanley Kubrick) - 1956

É sempre interessante analisar os primeiros trabalhos de um cineasta como Stanley Kubrick, que posteriormente veio provar toda a genialidade que se é conhecida. Mesmo filmado quando sua carreira ainda estava engatinhando (embora já possuísse traços do seu estilo marcante), me atrevo a dizer que O Grande Golpe (The Killing) é um dos melhores filmes de vigaristas já produzido na história.




Baseado em um livro do escritor Lionel White, o longa conta a estória de um grupo que planeja um grandioso roubo, exatamente no dia em que ocorreria uma importante corrida de cavalos. O "grande golpe" renderia cerca de 2 milhões de dólares aos bandidos, mas como todo bom filme do gênero, é óbvio que as coisas sairiam do controle e nada seria tão fácil quanto parecia.


Kubrick cria um ambiente angustiante, onde cada cena parece preceder um acontecimento importante ou revelador. Com uma bela montagem de imagens (típico dos seus filmes seguintes), o diretor cria uma atmosfera tensa, mostrando o lado "sujo" e "podre" do ser-humano.




No começo, o filme é um tanto confuso, já que inicia no meio dos acontecimentos, sem explicações e muito menos apresentações. Porém, a partir de um dado momento, o filme passa a ficar claro, e toda a ação prende o espectador até o fim. Kubrick, que ficaria famoso por sua obra ser quase toda preenchida de adaptações, mostrava um futuro promissor no seu modo de contar estórias.

É importante frisar que ele é contado em uma estrutura não-linear, que na época não era tão comum quanto hoje. O diretor começa do meio da estória, mostra o antes e o depois sem uma estrutura reta, mas o filme em momento algum fica incompleto. Pelo contrário.



De 1956 para cá, foram feitos incontáveis filmes sobre roubos, mas mesmo depois de tantos anos, O Grande Golpe não se tornou ultrapassado. Pelo contrário, ainda serve de referência, e é uma obra obrigatório no currículo de todo amante de cinema que se preze.

domingo, 7 de abril de 2013

Recomendação de Filme #11

                               Dançando no Escuro (Lars von Trier) - 2000

O dinamarquês Lars von Trier não está na lista dos meus diretores favoritos por mero acaso. Esse fato se deve muito ao que ele fez nesse filme, antecessor do clássico Dogville, que mudou completamente os parâmetros que eu tinha a respeito da sua arte.




Dançando no Escuro (Dancer in the Dark) se passa em 1964 e conta a estória de Selma, vivida pela cantora Björk, uma imigrante do leste europeu que vai para os Estados Unidos acompanhada de seu filho pequeno. Selma possui uma doença hereditária que a deixará cega em pouco tempo, e trabalha incansavelmente, dia e noite, com apenas um objetivo: guardar dinheiro para pagar uma cirurgia para o filho, que sofre do mesmo mal.

A crítica do diretor aos Estados Unidos se faz presente o tempo inteiro. Por ser uma imigrante, Selma acaba sendo explorada no território americano, até chegar a um fim trágico. É impossível ficar indiferente ao que acontece com a personagem, em um dos filmes mais dramáticos e fortes que já tive a oportunidade de assistir.




Intercalando o enredo normal com passagens musicais (que aparecem em devaneios da personagem), Lars von Trier nos traz um filme soberbo, para não dizer perfeito. É nessas visões que a personagem encontra uma válvula de escape para a vida sofrida, principalmente por ter crescido assistindo musicais no cinema.

Um ponto forte do filme é a protagonista. Björk provou que além de cantar, sabe atuar muito bem. Sua personagem é difícil, e ela conseguiu transparecer com veracidade cada sentimento proposto pelo diretor. Realmente, pode-se dizer que ela mereceu todos os prêmios que ganhou por sua atuação.

Outro ponto interessante da trama, é que Von Trier não faz uso de nenhuma espécie de tecnologia, e filma o longa inteiro com sua câmera digital. O que poderia ser um trabalho nas mãos de um diretor qualquer, se tornou uma bela sacada nas mãos dele. O filme possui uma bela fotografia, principalmente nos momentos musicais. Enfim, no melhor estilo Lars von Trier, é uma estória crua, dura e que deixa um nó na garganta ao terminar. Uma bela obra cinematográfica, que merece ser vista por todos.

domingo, 31 de março de 2013

Recomendação de Filme #10

                          O Escafandro e a Borboleta (Julian Schnabel) - 2007


Em O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon), o diretor Julian Schnabel volta a tratar de um tema recorrente em seus filmes: a luta pela vida e a ajuda da arte para superar as dificuldades.



A trama se baseia na história real de Jean-Dominique Bauby, redator chefe da revista francesa Elle, que sofre um derrame aos 42 anos de idade enquanto andava de carro na companhia do seu filho. Após três semanas em coma, ele desperta cercado de médicos e enfermeiros, que logo detectam que ele perdeu para sempre os movimentos de todo o corpo, com exceção do olho esquerdo.

Nos primeiros minutos do filme, nos vemos dentro da cabeça de Bauby. A câmera nos dá a visão dele, em um artifício poucas vezes visto no cinema. Ele passa a viver no quarto do hospital, e seu mundo passa a ser apenas aquele ambiente. Seus dias são obviamente monótonos, e dividem-se entre momentos de descanso e as visitas de sua ex-esposa Celine e alguns amigos. Porém, não há nenhuma espécie de comunicação entre eles.




Uma fonoaudióloga é contratada para tentar uma comunicação com o paciente, e acaba inventando um esquema simples, mas eficiente. Usando um quadro com as letras do alfabeto francês, ela diz cada uma delas em voz alta e o paciente fica na tarefa de piscar na escolhida, formando assim palavras e consequentemente frases. Dessa maneira, Bauby e sua médica conseguem suavizar um pouco o sentimento de prisão criada devido a sua incapacidade motora.

Na segunda parte do longa, temos as primeiras cenas fora do hospital, com a aparição de flash-backs da vida do paciente. Percebemos que ele não era nenhum santo, mas apesar disso, sofremos e torcemos juntos pela sua recuperação. Além da visão, Bauby também não perdeu seu espírito criativo e sua memória, e com ajuda do sistema criado, acabou escrevendo um livro relatando suas memórias, que foi um sucesso de vendas quando lançado e após sua morte.



O diretor tratou do assunto com brilhantismo, sem apelações, fazendo com que o filme não caísse em momento algum no comum. Destaque também para a atuação de Mathieu Amalric, que teve a dura missão de dar vida a um personagem imóvel, e conseguiu transmitir com perfeição todo o drama de alguém na situação mostrada. Outro ponto que preocupava o diretor, além da imobilidade do personagem, era a sequência de cenas em que a fonoaudióloga dita as letras. Ele tentou ao máximo fazer com que não ficasse repetitivo e desgastante, e ao meu ver, o efeito deu certo.

Considero a escolha do nome genial. Em uma analogia, podemos dizer que ele acabou tendo de viver em um escafandro, mas com a ajuda da médica, ele conseguiu sair e ver o mundo, literalmente com outros olhos. Por fim, devo dizer que O Escafandro e a Borboleta é uma das mais belas estórias que já tive a oportunidade de acompanhar nas telas. É um desses filmes que terminam e você se sente feliz de estar vivo e poder assisti-lo. Uma verdadeira lição!


domingo, 24 de março de 2013

Recomendação de Filme #09

Irreversível (Gaspar Noé) - 2002


Incômodo, chocante, e diferente de tudo que você talvez já tenha visto algum dia. É assim que começo descrevendo Irreversível (Irréversible), do polêmico Gaspar Noé, conhecido pelo uso de violência extrema e de narrativas propositalmente perturbadoras.




O enredo da estória é incrivelmente simples: um namorado descobre que sua namorada foi estuprada e parte em busca de vingança. Mas quem conhece os filmes do Gaspar Noé sabe que nas mãos dele nada é tão simples quanto parece.

O filme começa bastante estranho, o que talvez afaste algumas pessoas. Já nos créditos iniciais, temos a primeira peculiaridade: os nomes aparecem de trás para frente, como se você estivesse de frente a um espelho. Logo depois, Noé começa a primeira cena fazendo uso de câmeras inquietas, que não param de girar, enquanto ao fundo você ouve uma trilha sonora perturbadora. De fato, muitas pessoas acabam largando o filme antes da metade por conta desses detalhes, o que é um grande erro.



Um ponto que ressalto, é que Noé não economizou no nível de realidade ao mostrar as cenas mais violentas do filme. A primeira acontece logo na segunda sequência do filme, enquanto os dois amigos Pierre e Marcus estão à procura do estuprador em uma boate gay. Para defender o amigo de um ataque, Pierre faz um enorme estrago na face de um homem com um extintor de incêndio. A câmera mostra toda a degradação do rosto enquanto são efetuados os golpes, e mesmo usando de efeitos visuais para tal, é difícil digerir o que se vê, já que é incrivelmente real.

A segunda cena marcante do filme é a do estupro da personagem vivida pela atriz Monica Bellucci, o verdadeiro centro de todo o enredo. É impossível ficar indiferente ao que ocorre nos 11 minutos da cena (que aliás, foi gravada em apenas uma tomada, fato que merece todos os elogios). É uma cena perturbadora, que fica na cabeça do espectador por dias, talvez pra sempre.



Noé merece os elogios pela sua edição, que certamente é um dos pontos fortes do filme, que não foi bem recebido pela crítica, que julgou que o diretor teria usado de violência extrema para promover um filme de roteiro pobre. Eu sinceramente não concordo.

Sobre as atuações, posso dizer que não deixaram a desejar. Vincent Cassel, Albert Dupontel e Monica Bellucci estão redondinhos, sem nada a ser criticado. Aliás, esse é outro ponto importante do filme: a desconstrução dos personagens ao longo do tempo. Você começa o filme com Marcus e Pierre mostrando todo seu lado violento em busca de vingança, e nas cenas finais (o início da estória na verdade) eles parecem tão serenos e pacíficos, que nos dá a impressão de que não seriam capazes de tudo o que vieram a fazer depois.



Enfim, um dos filmes mais perturbadores que já tive a oportunidade de assistir. Por ser polêmico e difícil de digerir, Irreversível é um filme que divide opiniões. Alguns amam e outros odeiam, mas uma coisa é fato: ninguém sai o mesmo depois de assisti-lo. Veja e comprove.

domingo, 17 de março de 2013

Recomendação de Filme #08

12 Homens e Uma Sentença (Sidney Lunet) - 1957 

É possível que um filme rodado inteiramente dentro de um único cenário consiga prender a atenção do espectador do começo ao fim sem ser cansativo, repetitivo e desinteressante? Em 12 Homens e uma Sentença (12 Angry Men), o lendário diretor Sidney Lumet nos comprova que tal façanha é possível, sim.


A premissa do filme é super simples. Doze jurados são designados perante um tribunal para decidir se um jovem, acusado de matar o próprio pai a facadas, é culpado ou inocente. No princípio, onze deles têm a certeza de sua culpa, e apenas um cogita a possibilidade da inocência.

Como a jurisdição americana diz que o réu só pode ser acusado de fato quando houver unanimidade entre o júri, e como todos os onze que votaram pela culpabilidade estão loucos para ir para casa e acabar com a "chatice", acaba tendo início um conflito contra o jurado número 8 (Henry Fonda), que não muda de jeito nenhum sua opinião. Todos vão para uma sala reservada e começam então a debater sobre o caso.


Com discussões de alto nível, pouco a pouco o personagem de Henry Fonda vai convencendo os outros de que o réu pode ser inocente, e que o caso merece ser analisado com atenção, já que o que está em jogo é uma vida humana e não um objeto. Aos poucos, o espectador também se vê na mesma dúvida dos jurados, e têm de escolher no que acreditar, já que o que realmente aconteceu com o jovem não é divulgado.

O interessante disso tudo é que o ambiente jamais fica cansativo, o que facilmente poderia ocorrer por não haver troca de locação, fazendo-se assemelhar quase a uma peça teatral. Os ângulos que o diretor busca para trazer dramaticidade são sensacionais. Os olhares e os gestos são valorizados ao extremo, assim como as falas de cada um parecem ser milimetricamente planejadas. Aliás, é impossível ficar indiferente aos diálogos super bem escritos e à forma perfeita que Lumet usou para transcrever a história. Se fosse escolher um filme para mostrar o quão importante essa junção perfeita é para o cinema, certamente seria esse.


O filme acabou não sendo tão bem sucedido nas bilheterias, mas com o passar do tempo ganhou uma legião de adoradores que conseguiram captar a verdadeira mensagem que ele quis passar. É impressionante como um filme tão modesto tenha se tornado um clássico, graças a força de seus diálogos e suas atuações. 

domingo, 10 de março de 2013

Recomendação de Filme #07

                                 Frango com Ameixas (Marjane Satrapi) - 2011


Ao adaptar novamente uma HQ sua para o cinema (a primeira vez foi com o também excelente Persépolis), pode-se dizer que a diretora Marjane Satrapi acertou novamente em cheio. Contando com a colaboração de Vincent Paronnaud na direção, a história é contada de forma divertida (apesar de ser um assunto delicado) e diferente do seu primeiro filme, é filmada com atores reais e não em formato de animação.



Frango com Ameixas (Poulet Aux Prunes) conta a trágica história do violinista Nasser Ali Khan (Mathieu Amalric), que entra em desgosto depois que seu "Tar" (instrumento musical Iraniano) quebra, após uma discussão com a esposa. Nasser corre atrás de outro, mas não encontra para vender em lugar nenhum. Desesperado, resolve se suicidar.

Oito dias depois da ameaça, ele acaba enfim tirando sua própria vida. A trama narra então a última semana do violinista, e abusa dos efeitos de flashback. Só aí vamos percebendo, pouco a pouco, o verdadeiro motivo dessa sua escolha e a profundidade que o levou a cometer tal ato.


Depois de desvendar todo seu passado, percebemos que a quebra do instrumento é apenas um acontecimento que enfraquece mais ainda o já deprimido Nasser. É apenas a "gota d'agua" que o leva a tomar decisão tão radical. Seu sofrimento vai muito além disso.

É excitante o fato de que, ao mesmo tempo em que trata de um assunto triste e melacólico, o filme consiga ser puramente inocente, e ainda reunir boas cenas de humor. O enredo possui muitos momentos fantasiosos (ao mostrar os sonhos do protagonista, por exemplo), que de tão bem feitos, o faz ser literalmente uma poesia visual.


Combinando drama com comédia, e realidade com fantasia, o longa é bastante fiel ao comic original. Satrapi consegue nos transportar ao mundo dos quadrinhos de forma realista, apesar de exageradamente caricata em algumas cenas, o que não caracteriza necessariamente um defeito. Mais um belo filme advindo do cinema Francês.

domingo, 3 de março de 2013

Recomendação de Filme #06

                                    Fahrenheit 451 (François Truffaut) - 1966


Apesar de fazer parte de um dos principais movimentos da história do cinema, a Nouvelle Vague francesa, o diretor François Truffaut nunca escondeu seu desejo de filmar um filme em solo americano. Após algumas tentativas frustradas, ele finalmente conseguiu lançar o audacioso Fahrenheit 451, adaptação do livro homônimo de Ray Bradbury.



Numa sociedade futurista e opressora, qualquer espécie de leitura é considerada crime e seus leitores passíveis de serem executados à queima-roupa caso resistam a entregar seus livros. Os bombeiros, ironicamente, são os responsáveis por queimar qualquer tipo de obra que encontrem,e por punir os "transgressores". 451 graus é considerada a temperatura ideal para a queima dos livros, e por isso o nome bastante peculiar. 

O filme gira em torno de Montag (Oskar Werner), um bombeiro Londrino cuja principal responsabilidade é investigar os possíveis leitores e encontrar suas obras para, enfim, incinerá-las, representando um fim à liberdade intelectual de cada um. Conforme o governo, livros são nocivos para a saúde, causando depressão e fazendo as pessoas se tornarem pessimistas. Seguindo a lógica, a literatura abre horizontes e faz as pessoas pensarem, e no ato de pensar, enxergam tudo que há de errado no mundo. Portanto, para que ler se existe a televisão para mostrar que a vida é "bela" e "feliz"?


Montag possui um faro excepcional para o que faz, e é capaz de encontrar livros escondidos em qualquer canto de qualquer ambiente. Isso faz com que se torne um destaque da corporação. Certo dia, prestes a ser promovido, Montag acaba conhecendo a professora infantil Clarisse (Julie Christie), passando a encontrá-la com frequência enquanto a ajuda com alguns problemas pessoais, como a sua demissão da escola onde dava aulas.

Aos poucos, Clarisse começa a incitar Montag a experimentar ler, e lhe apresenta "David Copperfield". Curioso, o oficial resolve ler a obra do escritor Charles Dickens de cabo a rabo, e ao gostar, passa a se tornar um leitor assíduo. O fato muda completamente sua vida, e passa a pôr em risco sua carreira e até mesmo sua segurança.



Primeiro filme à cores de Truffaut, e também seu único trabalho falado em inglês, o filme já surpreende o espectador logo nos seus primeiros minutos. O diretor cria um mundo desolado, onde mal se vêem seres humanos andando nas ruas, mas em contrapartida, faz uso de cores fortes e de elementos típicos de ficção científica, como trens cujos trilhos se localizam na parte de cima dos vagões. 

Ainda que tenha mudado de país, fortes elementos da Nouvelle Vague são presentes no longa, como o uso de zooms, diálogos fortes e uma estonteante beleza estética.A ideia do enredo, que é bastante fiel ao livro, tenta mostrar como seria uma humanidade sem literatura, ou melhor, uma humanidade onde não há personalidade própria nem sentimentos, e onde qualquer espécie de emoção é considerada nociva.



O final, com a aparição dos homens-livro (quem assistir o filme ou ler o livro vai entender a expressão, da qual eu não falarei mais para evitar spoilers) é para mim um dos momentos mais originais do cinema mundial. Por fim, um filme que, visto uma vez, jamais será esquecido.