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domingo, 29 de dezembro de 2013

Recomendação de Filme #49

Tempo de Despertar (Penny Marshall) - 1990



Qual deve ser a sensação de alguém que acorda de um estado vegetativo, depois de anos? A sensação de ver que tudo em volta mudou? Não saber a idade que tem, se seus parentes estão vivos, ou sequer onde está? Essas são algumas das indagações que devemos fazer antes de assistir Tempo de Despertar (Awakenings), filme do diretor  Penny Marshall, baseado no livro de Oliver Sacks.


Na trama, Malcolm Sayer (Robin Williams) é um neurologista sem experiência, que acaba de ser contratado por um hospital psiquiátrico. Chegando ao local, ele se depara com vários pacientes em estado catatônico, sem nenhuma esperança de um dia voltarem a acordar. Sayer passa aa acreditar que eles estão apenas "adormecidos", e que talvez o remédio certo pudesse ajudar.
Decidido a investigar a possível cura para a doença, após várias pesquisas, ele resolve testar uma nova droga para o Mal de Parkinson nos pacientes, a L-DOPA. O diretor da instituição o autoriza, com a condição de que ele teste em apenas um paciente primeiramente. Sayer escolhe então Leonard Lowe (Robert de Niro), um homem que está em estado vegetativo desde criança.
Apesar da falta de credibilidade dos outros funcionários do local, que o criticam e o ridicularizam, Sayer nunca perde a esperança de que tudo dê certo, e no fim, realmente dá. Leonard aos poucos vai acordando e recuperando os sentidos, para alegria do médico e surpresa geral. Acreditando que o resultado também será eficaz em outros pacientes, ele resolve implementar o mesmo tratamento em todos.
No entanto, depois de um tempo, Leonard passa a ter alguns efeitos colaterais preocupantes. Sayer se vê então obrigado a pesquisar qual seria a dose ideal do remédio para que se pudesse obter a cura permanente, mas quando vê, já é tarde demais.
Sayer não é um médico como os outros. Sua relação com os pacientes vai muito além do profissional, e a amizade que ele cria com Leonard enquanto esse está acordado é realmente cativante. O resultado final do tratamento não foi como o esperado, mas Sayer ainda assim se sentiu satisfeito, por ter dado pelo menos alguns dias de vida para aqueles que não tinham sequer visto a luz do sol.
Robin Williams e Robert de Niro estão impecáveis em seus papéis. Williams guardou no bolso sua veia humorística, e faz aqui um papel dramático bastante firme, mostrando todo o seu talento. Já De Niro, conhecido por sua versatilidade e seu perfeccionismo na criação dos personagens, interpreta com maestria e veracidade o paciente, com seus tiques e seus modos de falar e agir, que ele pesquisou durante meses para tentar fazer igual. Realmente um monstro, em uma das suas melhores atuações da carreira.
Indicado a três Óscars, Tempo de Despertar é sem dúvida um dos melhores dramas já feitos sobre enfermidades. Um bom roteiro, sem cenas desnecessárias e longas, onde tudo corre e você nem vê o tempo passar. Um filme interessantíssimo, baseado em uma história real, e que mexe até com os corações mais duros e impenetráveis.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Recomendação de Filme #48

O Oitavo Dia (Jaco Van Dormael) - 1996

Hoje em dia, quando se fala em cinema belga, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne são os primeiros a serem lembrados. No entanto, na mesma época em que os dois iniciaram a carreira, outro nome de sucesso e competência também surgia para o mundo, mudando de vez os rumos do cinema feito no país. O nome dele? Jaco Van Dormael.


Seu nome porém, não é tão conhecido do público em geral, principalmente por conta da sua minúscula filmografia. Enquanto os irmãos Dardenne possuem uma vasta lista de obras e ainda estão na ativa, Van Dormael tem apenas três filmes lançados até hoje. Entre eles, porém, está o magnífico O Oitavo Dia (L'Huitième Jour).

No início do filme, somos apresentados a George (Pascal Duquene), um jovem com Síndrome de Down que é internado num hospital especializado após a morte da mãe. Ele não acredita na morte da única pessoa que lhe dava amor na vida, e conversando com ela através dos sonhos, traça o objetivo de voltar para casa.


Quando ele foge do local, acaba sendo atropelado por Harry (Daniel Auteil), um executivo que vive uma crise existencial, tanto no trabalho como na vida pessoal. Preocupado com George, acaba recolhendo o garoto e levando-o para casa, para que ele se recupere. No entanto, com o tempo acaba surgindo uma amizade tão forte entre os dois, que Harry não consegue mais se desfazer do novo amigo, e juntos, eles partem em uma aventura de carro pelas estradas da Califórnia.

O garoto não tem ninguém após a morte da mãe, já que a irmã não o quer em casa e o renega por conta de sua condição. O executivo espera recuperar seu posto de marido e pai, visto que sua esposa quer deixá-lo por conta de seu vício no trabalho. Um acaba suprindo esse vazio sentimental no outro, e essa junção acaba criando uma série de situações diversas.


George é a imagem da ingenuidade, alegre quase todo o tempo, mas com graves alterações de humor. Dormael nos apresenta a história sobre seu ponto de vista, mostrando seus sonhos e desejos com uma simplicidade tocante. A relação que George mantém com a natureza, e a alegria que ele tem em estar vivo, faz a gente rever muitos dos nossos conceitos.

O roteiro não vai para o lado patético, e não tenta mostrar George como diferente. E é justamente nessa questão de igualdade que o filme tem seu principal acerto. Mesmo sendo cético, é impossível não se emocionar no final, quando seguindo uma leitura bíblica, George diz que "no Oitavo Dia deus criou George e viu que isso era bom". Lindo!


As atuações são marcantes, e a prova disso é que os dois dividiram o prêmio de melhor ator em Cannes, fato que aconteceu pela primeira vez na história do festival. Por fim, trata-se de um belíssimo filme. Leve e divertido, mostra a visão que a sociedade preconceituosa tem dos portadores de Down, o que muita vezes começa na própria família. 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Recomendação de Filme #47

Nascidos Para Matar (Stanley Kubrick) - 1987

Quando Stanley Kubrick teve a ideia de fazer um filme sobre a Guerra do Vietnã, quase ninguém tinha abordado o assunto nos cinemas, com exceção de Coppola no clássico Apocalypse Now. No entanto, por conta de seu perfeccionismo, a produção demorou tanto para ficar pronta que, quando pronta, já havia sido lançada outra verdadeira obra-prima sobre o confronto: Platoon, do diretor Oliver Stone. Isso, porém, não impediu que o filme se tornasse um clássico, respeitável até os dias de hoje.


Nascido Para Matar (Full Metal Jacket), baseado no livro de Gustav Hasford, ganhou seu espaço e chamou a atenção por ser diferente dos demais. Enquanto Apocalypse Now e Platoon se concentravam no drama vivido nos campos de batalha e na ação, esse mostrava tudo com bom humor e uma crítica ácida, não só sobre o conflito em específico, mas sobre toda e qualquer guerra.

Kubrick já havia filmado sobre a Primeira Guerra (Glória Feita de Sangue, 1957) e a Segunda Guerra (Dr. Fantástico, 1964), e com base nesse histórico, viu no conflito do Vietnã a oportunidade de, novamente, fazer um tratado anti-guerra. O filme se divide em duas partes, que apesar de distintas, não seriam a mesma coisa uma sem a outra.


Na primeira parte (a melhor do filme), que dura cerca de 45 minutos, acompanhamos um grupo de jovens que, após se alistarem no exército, passam por um duro treinamento antes de serem enviados ao Vietnã. Sem créditos iniciais, logo na primeira cena nos deparamos com a raspagem dos cabelos dos personagens que acompanharemos no restante do filme.

A seguir, conhecemos o sargento de artilharia Hartman (R. Lee Remey), que fica responsável pelo treinamento dos recrutas. Ameaçador e desprezível, o sargento literalmente tortura os jovens, tanto física como psicologicamente, gritando impropérios nos seus ouvidos e humilhando-os. O principal alvo dessas humilhações acaba sendo o jovem Pyle (Vincent D'Onofrio), que não consegue se adaptar às rotinas diárias de esforço exigidas pelo comandante.

 
Pyle acaba se tornando o carro chefe dessa primeira parte. Seu olhar, aparentemente inofensivo no início e até mesmo dando indícios de um distúrbio mental, acaba se tornando um olhar quase psicopata, numa desumanização do personagem após sofrer tantos abusos. Fechando a primeira parte, Kubrick nos traz uma cena trágica, de deixar qualquer um sem fôlego, onde nos deparamos com os limites que o ser-humano pode chegar ao viver sob pressão.

A segunda parte é mais visceral, e foca no cotidiano dos mesmos soldados, já formados, após serem enviados enfim ao Vietnã. Kubrick não nos priva de acompanhar de perto, com muita veracidade, todos os absurdos que acontecem numa guerra. Soldados que não tem a mínima vontade de estarem ali, e que matam inimigos simplesmente por obrigação. É a burrice da guerra que nos é jogada na cara, ficando claro o argumento anti-guerra que o diretor quis trazer.


As atuações são impressionantes, sobretudo a de R. Lee Remey. O ator, que interpretou o sargento Hartman, não constava nem no elenco de figurantes, tendo sido contratado apenas para ser conselheiro da produção. No entanto, após uma brincadeira do ator nos bastidores, Kubrick viu nele a verdadeira personificação do personagem, e logo o chamou para compor o elenco. Hoje, olhando o filme, fica impossível imaginar outro no seu lugar.

Em Nascidos Para Matar, o trágico e o cômico andam lado a lado. Um dos filmes de guerra mais inteligentes de todos os tempos, e uma crítica ácida às batalhas bélicas. O tipo de filme que fica marcado para sempre na cabeça de quem assiste.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Recomendação de Filme #46

Felicidade - Todd Solondz (1998)

Todo mundo vive em busca da felicidade, isso é um fato. Mas afinal, o que é a tal felicidade? Se formos parar para analisar, percebemos que cada um tem uma visão própria desse sentimento, de tão abstrato e individual que ele é. De forma natural, chocante e melancólica, o diretor Todd Solondz nos traz em Felicidade (Happiness), um estudo aprofundado do tema, abordando a vida de uma série de pessoas interligadas por laços familiares ou sociais.



Solondz já havia dissecado os sentimentos do ser-humano de forma sarcástica no excelente Bem-Vindo à Casa de Bonecas, e dessa vez não foi diferente. Não espere ver pessoas felizes e alegres com a vida, levando o nome do filme ao pé da letra. Pelo contrário, são personagens que vivem no desespero e na depressão, e que muitas vezes são levados a cometer atos imorais e até mesmo criminosos. Um verdadeiro e cruel retrato da humanidade, que se esconde cada vez mais atrás de mascaras e atitudes superficiais para tentar abafar os fatos tristes da vida.

Ambientado nos subúrbios de Nova Jersey, onde o diretor cresceu, a trama se concentra primeiramente nas irmãs Jordan. Trish (Cynthia Stevensson) é a verdadeira imagem dos comerciais de margarina: bem sucedida, vivendo numa bela casa, com filhos e um marido perfeito. No entanto, seu marido "perfeito" não passa de um pedófilo, que estupra o filho do melhor amigo e vive seus dias reprimido por não poder revelar sua preferência sexual a ninguém.



Helen (Lara Flynn Boyle) é uma bem-sucedida escritora que vive de futilidades, e que cansada das noites de sexo descomprometido com desconhecidos, acaba se interessando por Allen (Phillip Seymour Hoffman), um nerd reprimido que sente prazer em fazer ligações telefônicas obscenas. O personagem de Hoffman é degradante e patético, e tenta a todo momento esconder suas perversões enquanto se aproxima de Helen.

Por fim tem Joy (Jane Adams), uma operadora de tele-vendas solitária que sonha ser uma cantora folk de sucesso com sua música "Happiness". Ela só consegue atrair homens degenerados, e apesar da preocupação das duas primeiras irmãs com ela, cada uma vive na sua individualidade sem fazer nada para ajudar.



Nesse ínterim, tem os pais de Joy, Helen e Trish, que estão à beira do fim de um casamento de 40 anos, mas não fazem grande esforço para se separarem e continuam, acada dia, vivendo suas vidas no comodismo.

A profundidade de cada um dos personagens desse filme é impressionante. Na medida em que o espectador vai se familiarizando com eles, vai inevitavelmente se identificando com algo de cada um, o que cria um certo dilema na cabeça.



Masturbação explícita, linguagem suja e sobretudo a pedofilia foram fatores suficientes para chocar o público e a crítica no seu lançamento. Um filme de exceção, para poucos, que não segue nenhuma regra, principalmente a do politicamente correto, e que mesmo assim ganhou o prêmio da crítica do Festival de Cannes daquele mesmo ano.

O que fica claro é que felicidade é um artigo raro, e que procurá-la pode ser um exercício penoso. Sem caras conhecidas do público no elenco (Seymour Hoffman foi dentre eles o que conseguiu ter uma carreira mais rentável depois, mas na época ainda vivia no anonimato), o filme preza por excelentes diálogos e se dá bem na mescla entre humor e drama. Certamente um dos melhores que já tive a oportunidade de assistir.


domingo, 1 de dezembro de 2013

Recomendação de Filme #45

Festim Diabólico (Alfred Hitchcock) - 1948

Falar que Hitchcock é genial, é chover no molhado. Isso todos sabem, e essa sua fama não veio por acaso. Dono de enredos engenhosos, Hitchcock nos presentou com uma série de obras-primas, que se tornaram clássicos com o tempo. Entre essas obras está Festim Diabólico (Rope), pouco lembrado quando se fala na sua filmografia, mas com certeza um de seus melhores trabalhos.


Primeiramente, devo dizer que assistir Festim Diabólico pela primeira vez é uma experiência única. A trama no entanto é simples, e baseada em um fato real. Em Nova York, Brandon e Philip assassinam em seu apartamento o amigo David, simplesmente por se acharem superiores intelectualmente. O assassinato, com uma corda, é mostrado logo na primeira cena do longa.

Fugindo do enredo clichê de "quem matou quem?" ou "como foi que tudo aconteceu?", Hitch já nos joga tudo na cara de início. Aliás, apresentar um culpado no começo e ir dissecando tudo que envolve sua ação é uma das características principais do seu cinema, numa tentativa de mostrar que não há crimes perfeitos.

No entanto, para provar toda sua esperteza, os dois resolvem dar uma festa no próprio apartamento, onde planejam esconder o corpo no baú que servirá de mesa para os convidados. O mórbido plano fica ainda mais interessante quando percebemos que entre os convidados estão inclusive alguns parentes da vítima.
Com diálogos marcantes, o filme vai aumentando a tensão em cada cena, e tudo começa a ficar ainda mais perigoso quando Brandon, usando de toda sua arrogância, resolve soltar pistas aos convidados a respeito do ato que acabou de cometer. Aos poucos, o convidado Rupert (James Stewart) começa a desconfiar dessas pistas, sobretudo quando Philip começa e ficar misteriosamente temeroso de ser pego.

A ação se passa inteiramente dentro do apartamento (com exceção da cena inicial, onde Hitchcock faz sua aparição), o que de fato é uma das maiores experimentações do diretor. Os atores seguram o filme durante o tempo todo com atuações elogiáveis, e o estilo teatral fica bem evidenciado com os trejeitos dos personagens, que por sinal tem suas emoções bastante aprofundadas.

Por fim, Festim Diabólico não é citado na maioria das listas que vi de melhores filmes do diretor, e acho isso uma tremenda injustiça. Na época foi um fracasso crítica e comercialmente, mas não há como negar que com o tempo se tornou um clássico. Uma obra-prima obrigatória para os verdadeiros amantes da sétima arte.

domingo, 24 de novembro de 2013

Recomendação de Filme #44

Harry, O Amigo de Tonto - Paul Mazursky (1974)

No Óscar de 1975, três nomes eram cotados como favoritos para ganhar o prêmio de melhor ator: Al Pacino por O Poderoso Chefão - Parte II, Jack Nicholson por Chinatown e Dustin Hoffman por Lenny. No momento do anúncio porém, uma surpresa: Art Corney, por Harry, O Amigo de Tonto (Harry and Tonto), foi quem levou o troféu para casa. Só o fato em si já é relevante o suficiente para que se queira ver esse filme do diretor Paul Mazursky, e posso garantir que vale muito a pena.
Na trama, acompanhamos Harry Combes (Art Carney), um senhor solitário que vive em um apartamento na região pobre de Manhattan apenas na companhia de seu gato, Tonto. Seu dia-dia consiste em dar uma volta pelas ruas da vizinhança, sempre com Tonto a tiracolo, e encontrar velhos amigos na praça local. Ele viveu a vida toda no mesmo prédio, e em alguns diálogos nostálgicos, ressalta como tudo tem mudado de uns tempos para cá. Esse seu sentimento piora quando ele tem que deixar o local porque o prédio vai ser demolido para a construção de um estacionamento.
Obrigado a ir morar com o filho, a nora, e os netos, e acreditando ser um estorvo para a família, Harry resolve viajar em direção à Chicago para se reencontrar com alguns fatos do passado. No entanto, acontecem várias confusões pelo caminho: ele não consegue embarcar num avião por causa do gato, e quando viaja de ônibus, é largado no meio da estrada após incomodar o motorista para que ele parasse, só porque Tonto precisava urinar.
Após se estabelecer na nova cidade, ele compra um carro e dá início a uma viagem sem precedentes, onde encontra uma gama de personagens interessantes. Entre eles Ginger (Melanie Mayron), uma jovem de 16 anos que fugiu de casa, além de uma prostituta e de um vendedor de gatos.
A cena mais marcante do filme talvez seja quando Harry reencontra um antigo amor que não via há 50 anos. Internada em uma clínica, e com problemas de memória, Jessie (Geraldine Fritzgerald) não o reconhece, mas ainda assim, os dois dançam como se fossem duas crianças.
O enredo é conduzido de forma poética, e conta com uma trilha sonora fantástica. Art Corney está realmente impecável no papel de Harry, e mereceu com pompas o Óscar recebido. Todos os outros personagens que aparecem no decorrer da história também são incrivelmente bem explorados pelo diretor, e cada um tem algo de único.
Por fim, não se trata apenas de um filme sobre a amizade entre um homem e um gato. É errôneo achar isso de início. O longa aborda muito mais, principalmente os sentimentos humanos ao chegar no fim da vida, como saudade, nostalgia, medo do futuro e dor pelos sonhos não realizados. Uma pequena obra-prima pouquíssima conhecida, mas de grandioso valor.

domingo, 17 de novembro de 2013

Recomendação de Filme #43

Ratos e Homens (Gary Sinise) - 1992

Baseado no livro de John Steinbeck, Ratos e Homens (Of Mice and Men) se passa em 1929 durante a Grande Depressão nos Estados Unidos, período que já havia sido abordado pelo mesmo autor no outro sucesso As Vinhas da Ira, adaptado em 1940 por John Ford.

Sob direção de Gary Sinise, o longa conta a história dos amigos George e Lennie, dois caipiras que buscam emprego em um país devastado pela crise financeira. Ambos são homens simples, sem estudos, que trabalham em fazendas e sobrevivem com aquilo que tem à disposição (geralmente uma cama em um estábulo e uma comida).
Lennie, apesar da força e da estatura elevada, possui uma doença que o faz ter uma mentalidade de criança.  George por consequência tem que cuidar dele a todo momento, principalmente para evitar que ele se meta em confusão. Por conta da doença, Lennie possui uma sensibilidade extrema. Isso fica evidente no seu trato com os animais, tanto os cachorros da fazenda, quanto o rato morto que ele insiste em carregar no bolso.
Apesar do cenário indicar uma total falta de esperança, os dois nunca largam o sonho de sair dessa vida e ter sua própria terra, seu próprio lar. São tocantes os diálogos que eles mantém sobre isso, principalmente se pensarmos que o que eles queriam era tão pouco, e mesmo assim inatingível.
A dificuldade de Lennie em perceber o que é certo e o que é errado, além da falta de controle sobre suas ações, acaba resultando em confusões por onde passam, principalmente quando se trata de mulheres. Lennie acaba ficando encantado com a jovem esposa do filho do fazendeiro (Sherilyn Fenn), e mesmo que de forma inocente, acaba levando a um trágico final.

Por fim, Ratos e Homens é uma linda lição de amizade. George e Lennie se completam em quase tudo, precisando um do outro para se manterem vivos como nós precisamos de oxigênio. Sonhos, ambições, amizade e preconceito. Tudo tratado com maestria, que faz com que o filme seja uma verdadeira obra-prima.

domingo, 10 de novembro de 2013

Recomendação de Filme #42

Luzes da Ribalta (Charlie Chaplin) - 1952


Charlie Chaplin era um gênio do cinema, e isso ninguém pode negar. Criador do personagem mais querido da história do cinema, é reverenciado até hoje como o grande nome do humor na época do cinema mudo. Porém, não só de comédia viveu o cineasta. Lançado em 1952, Luzes da Ribalta (Limelight) é um dos seus últimos trabalhos da carreira, e talvez um dos menos conhecidos.


Na trama Chaplin é Calvero, um velho comediante que no passado fez sucesso em frente a enormes plateias, mas que agora vive esquecido e longe dos holofotes. Aos poucos fica evidente que Calvero traz muito dos sentimentos que Chaplin possuía naquela época fora das telas, como seus traumas, seus medos, sua insegurança quanto ao futuro e sua nostalgia do passado. Por isso mesmo é um filme de essência triste e melancólica, do início ao fim, onde o sorriso do palhaço dá lugar às lágrimas.

Com o advento dos filmes falados, ficou claro que seu personagem Carlitos perdeu muito do brilho que tinha adquirido nos anos áureos do cinema mudo. Isso acabou deixando Chaplin bastante depressivo na época, e todo esse processo de amargura pode ser visto no filme, em cada diálogo e em cada cena. Por tudo isso, o filme tem um significado especial para quem é fã do artista, como se fosse um tratado de toda sua obra.

Seguindo na estória, quando Calvero chega na pensão em que mora, percebe um cheiro de gás vindo de um dos apartamentos, e ao arrombar a porta encontra a jovem Thereza Ambrose (Claire Bloom) desacordada. Incumbido a ajudar a moça na recuperação, ele passa a cuidar dela em seu próprio apartamento até que melhore. Logo que ela desperta, o homem pergunta o porque dela ter tentado o suicídio, e Thereza explica que sempre teve o sonho de se tornar bailarina, mas agora que suas pernas ficaram paralisadas, seu sonho ficou muito distante de ser realizado.

Não demora muito para surgir uma forte amizade entre os dois. Calvero passa a incentivar Thereza a voltar a dançar, ainda que ela no começo se sinta insegura. Após seu retorno aos palcos, ela acaba atingindo um certo estrelato, enquanto Calvero continua no mesmo ostracismo de fim de carreira.


A relação dos dois é incrivelmente bem construída, com muita delicadeza. Apesar da diferença de idade ambos se completam, enquanto falam do gosto em comum pela arte. Calvero se sente realizado em ver Thereza alcançar o sucesso, mesmo que no fundo, ele sentisse o desejo de estar no lugar dela. Num misto de melancolia e otimismo, o filme passa a mensagem de que deve-se acreditar sempre na força do talento, seja qual for a situação, naquilo que pode ser visto como um testamento do artista.

Por fim, é um filme para guardar para o resto da vida. Lindo, sensível, triste e com um Chaplin como nunca visto antes. O típico trabalho que dá orgulho de ser um amante do cinema. Só resta agradecer a Chaplin por toda sua contribuição às artes cinematográficas.


domingo, 3 de novembro de 2013

Recomendação de Filme #41

Quando Só o Coração Vê (Guy Green) - 1965

O escritor Antoine de Saint-Exupéry estava certo quando disse em O Pequeno Príncipe "só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos". Partindo dessa máxima, a estória abordada em Quando Só o Coração Vê (A Patch of Blue) é uma das mais sensíveis da história do cinema.


Selina (Debi Storm) é uma jovem cega que mora com a mãe, uma mejera intragável, e o padrasto, que vive bêbado. Sem receber apoio de nenhum dos dois, seus dias consistem em ir a um velho parque da cidade para sentar na grama e fabricar bijuterias ao ar livre.

A personagem é um símbolo de pureza, e mesmo com sua cegueira, só "enxerga" bondade no ser-humano, sem nenhuma espécie de preconceito. Certo dia, Gordon Ralfe (Sidney Poitier), um homem negro e de bom coração, a conhece no local e começa a conversar com a garota.


Ele se sente protetor da garota, que viveu até então uma vida opressiva, e passa a lhe ensina a andar na rua e fazer coisas normais do dia-dia que ela havia deixado de fazer por conta da falta de visão. Desde pequena, Selina foi ensinada a não falar com pessoas negras pela mãe preconceituosa, o que de fato impediria a relação dos dois caso ela enxergasse.

Mesmo de mundos diferentes, a relação dos dois acaba tendo uma sintonia única. De forma sensível, o diretor nos mostra não só a relação de Gordon e Selina, como faz também uma crítica à sociedade das aparências e às dificuldades que os deficientes visuais enfrentam diariamente.



 
Shelley Winters levou o Oscar como a mãe megera, e foi muito merecido. Sua atuação é incrível. Sidney Poitnier, um dos melhores atores daquela geração, também está impecável no papel do bom moço, assim como Debi Storm, que usou lentes de contato foscas durante toda a gravação para que sua cegueira fosse mais real.

Por fim, um filme que pode parecer clichê a uma primeira vista, mas que vai muito além do que uma simples comédia romântica. Um filme necessário para qualquer cinéfilo que se preze, tamanha sua graça e sua simplicidade.

domingo, 27 de outubro de 2013

Recomendação de Filme #40

Lua de Papel (Peter Bogdanovich) - 1973


Junto com Robert Altman, Sam Peckinpah, Dennis Hooper, Arthur Penn, entre outros, Peter Bogdanovich é um dos grandes nomes da chamada "Nova Hollywood", movimento cinematográfico que surgiu no final da década de 60 no oeste dos Estados Unidos e que influenciou praticamente todas as gerações seguintes de cineastas famosos. Lua de Papel (Paper Moon) pode até não ser seu filme de maior destaque, mas com certeza é o mais tocante. O enredo se passa em 1936, e gira em torno da relação paternal que surge entre Addie Loggins (Tatum O'Neal) e Moses Pray (Ryan O'Neal).



Após a morte da sua mãe, a menina de nove anos fica sob os cuidados do vendedor de bíblias Moses, que na verdade não passa de um exímio vigarista. Isso até ele conseguir entregá-la a uma tia que mora no interior. No entanto, existe a suspeita de que Moses seja o pai biológico da garota, o que não é confirmado até o final da estória mesmo com ele negando veemente.

Os dois partem juntos de carro em direção à casa da família da menina, e durante o trajeto, ela começa a mostrar uma desenvoltura sem igual para ajudá-lo nas suas trapaças, que consiste em enganar senhoras viúvas para lhes vender bíblias. A garota Addie é precoce até demais, e em algumas cenas chega inclusive a aparecer fumando (o que de fato deve ter feito um barulho enorme por parte dos conservadores naquela época). Nesse ínterim, a relação do homem com a menina vai ficando cada vez mais próxima.



Mais do que uma comédia super agradável de assistir, o filme tem todas as características de um road-movie, e é a estrada que vai nos conduzindo profundamente no crescimento desse sentimento de pai e filha que á entre os personagens. Os dois vivem discutindo, seja por conta de dinheiro, seja pelo modo de se vestir da menina (que lembra a de um menino). Ou simplesmente pelas personalidades fortes de ambos.

Por fim, chama a atenção que mesmo nos anos 70, onde o cinema colorido já era uma maioria absoluta, o filme foi filmado inteiramente em preto-e-branco. As atuações são espetaculares, e a jovem Tatum O'Neal se consagrou como a atriz mais nova a levar o Óscar para casa.