domingo, 20 de outubro de 2013

Recomendação de Filme #39

Filhos do Paraíso (Majid Majidi) - 1997


Tenho uma paixão enorme por filmes iranianos, e posso dizer que isso começou graças a (Filhos do Paraíso (Bacheha-Ye Aseman) do conceituado diretor Majid Mijidi. O cinema feito no oriente médio é pouquíssimo divulgado por aqui, e só pesquisando a fundo para encontrar algo vindo de lá, e apesar da precariedade de recursos, eles provam cada vez mais que com uma boa ideia na cabeça tudo é possível.



A trama começa de forma simples. Após o pequeno Ali perder os sapatos da sua irmã Zahra, ambos tem medo de contar aos pais. A mãe doente e o pai trabalhador formam a típica família pobre, mas que jamais perde as esperanças de ver os filhos serem alguém na vida. A pobreza é tratada de forma realista, o que toca o coração de nós espectadores logo de cara.

As duas crianças passam a revezar os sapatos para evitar que os pais se preocupem com mais isso na vida, e tenham de gastar para comprar outro novo. Porém, a dificuldade é grande, já que os dois estudam em turnos diferentes. Isso acaba resultando no atraso do garoto na escola, o que dificulta seu aprendizado. O companheirismo desses dois irmãos traz uma emoção ímpar à história. São um  verdadeiro exemplo, ensinando valores de família e união.

Majid Majidi é famoso por trazer enredos tocantes e simples, conduzindo de forma dosada e poética, sem apelar para sentimentalismos baratos. Além da crítica social, há ainda a crítica da autoridade escolar, e ao apelo das propagandas de televisão, que influenciam o imaginário infantil mostrando aquilo que eles não podem ter.

O filme foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1998,  e concorreu junto com o brasileiro Central do Brasil e o vencedor A Vida é Bela. Simples e emocionante, é o tipo de filme que tez faz ver o mundo com outros olhos assim que termina.

sábado, 19 de outubro de 2013

Crítica: Kick-Ass 2 (2013)


Não sou fã de filmes com super-heróis. Nem um pouco, para ser sincero. Mas em 2010, quando foi lançado Kick-Ass: Quebrando Tudo, resolvi assistir pelo simples fato de trazer super-heróis incomuns, meros cidadãos do dia-dia que resolveram vestir roupas coloridas e sair combatendo a criminalidade. Lembro que na época gostei bastante do que vi, e por isso mesmo fiquei bastante decepcionado com essa sequência de 2013.


Primeiramente, para quem não viu a primeira parte, ou nunca leu as HQ's, vou situar rapidamente. Por influência das estórias em quadrinhos, e cansado de ver a polícia não dar conta da criminalidade que tomava conta das ruas, o jovem Dave Lizeewski (Aaron Taylor-Johnson) resolveu se juntar à jovem Mindy (Chloe Grace Moretz) e ao seu pai Damon Macready (Nicholas Cage) no combate ao crime, provando que para ser um super-herói de verdade não é preciso ter super poderes, basta boa vontade. Juntos, eles formaram um grupo denominado-se Kick-Ass, Hit Girl e Big Daddy, respectivamente.

Não sei se foi a troca da direção ou a inserção de muitos novos personagens, mas o fato é que o longa tenta usar os mesmos moldes que fez o primeiro obter sucesso, mas acaba errando feio no resultado final. Nesse segundo longa, acompanhamos o que aconteceu com Kick-Ass e Hit Girl depois de algum tempo. Ele resolveu se "aposentar" e vive uma vida de tédio, enquanto ela segue combatendo o crime às escondidas de seu tutor Marcus, após a morte de seu pai em uma missão.


Ao ver um número grande de pessoas que começaram a seguir seus passos, Kick-Ass decidi voltar à ativa, juntando-se novamente a Hit Girl e mais outros personagens excêntricos, formando um grupo que tinha como lema a frase "Justice Forever". Nesse ínterim, o playboy Chris D'Amico resolve assumir a vida criminosa do falecido pai, se tornando o primeiro super-vilão do mundo.

O primeiro filme continha algumas cenas clichês e bobas, mas não tanto como visto dessa vez. Tudo é previsível no enredo, as cenas de lutas são mal feitas, e as atuações bastante caricatas e bem mal conduzidas. A história por si também deixa a desejar, apesar de seguir à risca a história do segundo volume dos quadrinhos originais. Infelizmente, a dupla protagonista também parece não ter mais o carisma que tinha no primeiro, até porque daquela vez eram uma novidade. 


O longa chega ao fim com uma verdade óbvia e gritante: o primeiro foi incrivelmente superior ao segundo. E não é difícil chegar a essa conclusão. O começo até consegue entreter, mas do meio pro fim fica complicado continuar assistindo. Uma pena, pois tinha potencial.


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Crítica: Alabama Monroe (2013)


Escolhido para representar a Bélgica no Óscar de melhor filme estrangeiro em 2014, The Broken Circle Breakdown (em português ainda não tem nome definido) é um filme emocionante e pesado, que apesar de ser uma bela obra, peca por abordar muitos assuntos sem deixar exatamente claro qual sua verdadeira intenção.


Logo de cara, percebemos que não se trata de um filme leve. Na primeira cena nos deparamos com a menininha Maybelle (Nell Cattrysse), de apenas 6 anos, deitada em uma cama de hospital recebendo uma injeção no braço. Com um pouco de aprofundamento na história descobrimos que ela tem leucemia, e vive a vida entre tratamentos ineficazes.

O início do filme aborda também o começo da relação entre seus pais, Elise (Veerle Baetens) e Didier (Johan Heldenbergh). Fazendeiro e músico, Didier logo se apaixona pela tatuadora Elise, e os dois por sua vez acabam formando um casal quente e apaixonado. Essa aparente felicidade é abalada 7 anos depois, quando a menina do casal é diagnosticada com a doença.


A dor dos pais e da menina duram até o momento em que seu frágil corpo não aguenta mais. A partir de então, tem início uma relação de culpa pela trágica perda. Didier, um ateu convicto, e Elise uma religiosa pé no chão, mostram diferentes formas de reagir à morte da filha. Para ele, a filha simplesmente morreu e não existe mais, enquanto ela guarda esperanças de reencontrá-la numa vida pós-morte.

A forma não linear da narrativa, ora no passado, ora no presente, é editada brilhantemente, e ajuda a mostrar mais a fundo a personalidade de cada personagem. A fotografia também é belíssima, e a trilha sonora é super gostosa, recheada de números musicais da banda country em que o casal tocava durante as noites.


Já para o final da trama, Didier enlouquece ao ver o presidente George Bush anunciar seu veto contra as pesquisas de células-tronco, que poderiam salvar muitas vidas, inclusive a da menina. Com isso, ele passa a militar duramente contra a religião, e seu ateísmo fica ainda mais crítico e radical. É talvez nesse momento que o filme se perde um pouco. O diretor acaba optando por um recurso barato para enfatizar que a visão religiosa/metafísica da mãe é a correta, e isso acaba sendo imparcialmente mal colocado. Ainda assim, o longa é denso o suficiente para superar esse tipo de equívoco, sendo o tipo de trabalho que não se esquece nunca mais.

Estreias da Semana (18/10 a 24/10)

Seis filmes entram em cartaz no Brasil nessa sexta-feira. Entre eles,  grandes nomes como Kick-Ass 2 e Diana. O primeiro, é a continuação do primeiro longa de 2010 sobre um grupo de jovens que, sem possuir poder algum, resolvem se vestir de super-heróis e sair pelas ruas aplicando a justiça. Já o segundo, conta um período importante na vida da princesa britânica Diana, morta em um acidente de carro em 1997.

Para quem gosta de ação e suspense, estreia Conexão Perigosa (Paranoia), que traz nomes como Gary Oldman e Harrison Ford no elenco, e Os Suspeitos, protagonizado pelo excelente Hugh Jackman e dirigido pelo canadense Denis Villeneuve (de Incêndios).

Da Europa, estreia Bastardos (Les Salauds), um suspense dramático francês com Vincent Lindon (de Algumas Horas de Primavera). Para fechar a lista, tem uma das estreias brasileiras mais esperadas de 2013, Serra Pelada, com Wagner Moura.

Confira a lista abaixo.

Kick-Ass 2


O ato de Dave Lizewski (Aaron Taylor-Johnson) de se vestir como super-herói e ir para as ruas combater o crime, mesmo sem tem qualquer tipo de superpoder, serviu de inspiração para outras dezenas de pessoas, que resolveram seguir o mesmo caminho.

Kick-Ass 2, Estados Unidos, 2013.
Direção: Jeff Wadlow
Duração: 103 minutos
Classificação: 16 anos
Ação/Comédia
Assista o trailer aqui.


Diana


O longa irá abordar o relacionamento de Lady Di com o cirurgião paquistanês Hasnat Khan, que é considerado o grande amor da vida dela. Os dois se conheceram em 1995, e terminaram o relacionamento poucos meses antes do acidente de carro que vitimou fatalmente a princesa de Gales, em agosto de 1997.

Diana, Reino Unido, 2013.
Direção: Oliver Hirschbiegel
Duração: 113 minutos
Classificação: 12 anos
Biografia/Drama
Assista o trailer aqui.


Conexão Perigosa


Adam Cassidy (Liam Hemsworth) é um ambicioso funcionário que não vê a hora de subir de posição dentro da empresa que trabalha, a gigantesca Wyatt Corporation. Entretanto, após cometer um erro gravíssimo, ele entra na lista negra de Nicholas Wyatt (Gary Oldman), o chefão da corporação. Para compensar o prejuízo, Nicholas o chantageia para que ele trabalhe infiltrado na maior concorrente, liderada por Jock Goddard (Harrison Ford).

Paranoia, Estados Unidos, 2013.
Direção: Robert Luketic
Duração: 106 minutos
Classificação: 12 anos
Suspense
Assista o trailer aqui.


Os Suspeitos


Keller Dover (Hugh Jackman) deve lidar com o desaparecimento de sua filha e de um amigo dela. Quando suspeita que o detetive encarregado já desistiu de procurar pelo culpado, ele passa a desconfiar de todas as pessoas ao redor. Fazendo sua própria investigação, ele encontra o principal suspeito, e decide sequestrá-lo.

Prisioners, Estados Unidos, 2013
Direção: Denis Villeneuve
Duração: 153 minutos
Classificação: 14 anos
Suspense
Assista o trailer aqui.

Bastardos


Marco Silvestri (Vincent Lindon) trabalha como capitão de um navio de contêineres. Em alto-mar, é obrigado a retornar urgentemente à Paris, quando recebe a notícia de que seu cunhado cometeu suicídio. Suspeitando de que o ato foi motivado por uma conspiração empresarial, ele se aproxima da misteriosa Raphaelle (Chiara Mastroianni), descobrindo segredos inclusive sobre a própria irmã.

Les Salauds, França, 2013.
Direção: Claire Denis
Duração: 100 minutos
Classificação: 18 anos
Drama
Assista o trailer aqui.


Serra Pelada


Juliano (Juliana Cazarré) e Joaquim (Júlio Andrade) são grandes amigos queficam empolgados ao tomar conhecimento de Serra Pelada, o maior garimpo a céu aberto do mundo, localizado no estado do Pará. A dupla deixa São Paulo e parte para o local sonhando com a riqueza, mas ao chegar na região, tudo muda na vida deles.

Serra Pelada, Brasil, 2013.
Direção: Heitor Dhalia
Duração: 100 minutos
Classificação: 14 anos
Drama
Assista o trailer aqui.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Crítica: O Tempo e o Vento (2013)


Transcrever para as telas uma obra literária não é fácil, e fica ainda mais difícil quando se trata de um épico histórico como O Tempo e o Vento, que aborda nada menos do que cinco gerações de uma mesma família e as inúmeras guerras que ocorreram durante o longo período. Érico Veríssimo talvez tenha sido o melhor escritor nascido em terras gaúchas. Porém, fora das fronteiras gaúchas o seu nome não é tão reconhecido como merece. E para trazer esse reconhecimento, nada melhor do que uma obra poética, concisa e muito bem dirigida como essa, onde o tempo é o personagem principal.


Confesso que estava receoso de assisti-lo antes de me direcionar ao cinema. Quando vi o nome de Jayme Monjardim na direção, logo pensei que seria um novelão feito para o cinema. Pois bem, se tem algo que me satisfaz nessa vida é ser enganado dessa forma com respeito a filmes. A verdade é que em nenhum momento me senti assistindo a uma novela, muito pelo contrário, o filme possui uma essência própria e original. Subestimei-o e fui surpreendido.

A trama inicia com Bibiana (Fernanda Montenegro) já idosa, à beira da morte, relembrando a história de sua família, junto da aparição de seu falecido marido, o Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda). Sua avó Ana Terra (Cléo Pires) vivia em uma pequena aldeia com seus pais, onde conheceu Pedro, um índio que apareceu pela região ferido de uma batalha. Da relação secreta nasceu um menino, que também foi chamado Pedro, que serviu como desonra para a família e levou a morte do pai da criança. 

Isso foi apenas o começo de uma odisseia pela família Terra, que depois de muitas desgraças acabou se tornando Terra-Cambará, quando Bibiana (filha de Pedro e neta de Ana) se casou com o Capitão Rodrigo Cambará. Aliás, o diretor acertou em cheio ao mostrar toda a gama de personagens através dessa história de amor. Era mesmo preciso centralizar tudo, ou do contrário, não teria como prender o espectador depois de tantas mudanças de rostos.

O que dizer da fotografia? O Rio Grande do Sul é lindo por natureza, e Monjardim soube aproveitar nossas paisagens como ninguém. O cenário é impressionante, e um dos mais incríveis já vistos no cinema nacional. A trilha sonora também é impecável, e fica bastante explícita a influência de outro filme com nome parecido, "E O Vento Levou...". Sim, alguns podem achar loucura, mas as semelhanças entre ambos não pára por aí. E é por tudo isso que o longa poderá ser considerado o clássico definitivo do cinema gaúcho.


Outro ponto interessante são as atuações. Me surpreendeu muito em todos os aspectos, e não vi nenhuma atuação que não mereça elogios. Cléo Pires, Thiago Lacerda e Marjorie Estiano mostram que sabem atuar bem também fora da televisão. Sem falar, é claro, de Fernanda Montenegro, a dama do cinema nacional e a melhor atriz brasileira de todos os tempos.

A única crítica que tenho a fazer é o fato de ser pouca aprofundada a questão das batalhas, e o motivo pelo qual elas existiram. Porém, também penso que se houvesse isso na história, o filme precisaria ter no mínimo 5 horas de duração. Então, a forma compacta caiu bem, e foi de fato muito bem editada.


Por fim, terminou o filme e fiquei com a sensação de ter visto algo único, e com uma única pergunta na ponta da língua: "Por que o Brasil não investe em mais filmes como esse?". Em tempos de filmes vazios de conteúdo, foi uma experiente gratificante ver o cinema lotado e o público satisfeito no final com algo de tamanha qualidade.