quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Crítica: Trapaça (2013)


Nem sempre um bom elenco é garantia de um bom filme, isso é um fato. É comum acontecerem desastres, como os exemplos recentes Caça aos Gângesteres e Conselheiro do Crime, ambos de 2013, que traziam um elenco sensacional mas um resultado nas telas decepcionante. Porém, em Trapaça (American Hustle), o elenco de peso é só mais um ingrediente que faz do filme ser um dos melhores do ano, e o melhor até então da curta carreira do diretor David O. Russell.


Logo na primeira cena, sabemos que será um filme diferenciado. Irving Rosenfeld (Christian Bale) está num quarto de hotel, colando cabelos na cabeça para tampar sua careca enquanto se prepara junto de Sydney Posser (Amy Adams) e Richie Dimaso (Bradley Cooper) para dar um golpe. Só não se sabe ainda sobre quem e nem o porque.

Logo, voltamos no tempo, onde o roteiro faz um apanhado da história de vida de Irving. Sua veia vigarista começou logo cedo, quando ele ajudava o pai, um vidraceiro conhecido, a quebrar janelas para lucrar com a troca delas. Já adulto, virou dono de uma lavanderia, até conhecer Sydney, que além de virar sua parceira em fraudes bancárias, acabou se tornando sua amante.


Entre fraudes, trapaças, e golpes, eles acabam caindo nas mãos de Richie, um agente do FBI, que em troca da liberdade de ambos, pede que eles entreguem pelo menos quatro nomes de pessoas importantes que vivem de picaretagens. O primeiro deles é Carmine Polito (Jeremy Renner), que faz o intermédio entre donos de cassinos e seus "sócios empreendedores". Através dele, outros começam a surgir, rendendo uma lista enorme de prisões e uma boa história para os jornais.

O enredo é uma teia, e por ser bastante complicado, parece propositalmente ficar em segundo plano. A personalidade forte e única de cada personagem é que acaba sendo o ponto alto da trama. O elenco é sensacional, com destaque para Christian Bale. Conhecido por suas transformações detalhistas na hora de viver os personagens, Bale encarna o vigarista com perfeição, em seu traje anos 70 e óculos de aviador.


Quem também brilha é Amy Adams, que há tempos vem mostrando ser uma das melhores atrizes da atualidade. Aliás, por falar em atrizes que vem conquistando espaço, Jennifer Lawrence (vencedora do último Óscar por um filme do próprio David O. Russell) parece estar cada vez mais madura em seus papéis, dando vida a Rosalyn Rosenfeld, a descontrolada ex-esposa de Irving. O filme ainda tem as excelentes atuações de Bradley Cooper, no papel do agente Richie, e de Jeremy Renner, como Carmine. Destaco ainda a aparição de Robert De Niro como um mafioso chefe de cassino (que saudade que deu das suas parcerias com Scorsese nos anos 80 e 90).

A trilha sonora também merece todos os elogios. Ela é quase uma personagem do filme, entrando no momento certo e com músicas pop conhecidas, como Live and Let Die do Paul McCartney. Os figurinos também são impecáveis, e nos transportam fielmente à época em que o filme se passa. Mais do que isso, os diálogos também impressionam, por vezes engraçados e por outras vezes sérios.


Com uma leve pitada de humor, Trapaça me ganhou desde o início, e já se tornou um dos meus preferidos ao Óscar de 2014. Não é à toa que o filme vem sendo elogiado, e escolhido por muitos críticos como o melhor de 2013. Vamos ver se na premiação em março ele também contará com a mesma sorte.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Crítica: 12 Anos de Escravidão (2013)


Todo ano é a mesma coisa: pelo menos uma grande obra cinematográfica tem de ser lançada nos Estados Unidos sobre o período da escravidão. Depois de ser tantas vezes utilizada, a temática até pode ter ficado um pouco desgastada com o tempo, mas o fato é que ainda gera boas e tristes histórias. Dessa vez, a missão de levar o tema às telas ficou com Steve McQueen e o seu drama 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave), muito cotado para ser um dos favoritos ao Óscar de 2014.


Baseado numa história real, o filme se passa em 1841, quando uma boa parte dos escravos negros já viviam livres, e a nova luta passou a ser a sobrevivência em meio a uma sociedade extremamente racista. Logo conhecemos Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um desses escravos libertos, que vive tranquilo com sua família em Nova Iorque, e está no meio da alta sociedade por ser um exímio tocador de violino.

Levado para a cidade grande com a proposta de fazer uma apresentação, ele acaba sendo sequestrado por dois capatazes. Junto com outros negros, também libertos, Solomon é levado de barco a um mercado de escravos, onde é espancado e vendido a uma fazenda do sul do país, comandada por William Ford (Benedict Cumberbatch).


Trabalhando na plantação local, ele é bastante humilhado pelos capatazes, principalmente por John Tibeats (Pau Dano), com quem cria uma desavença de morte. Para poupar Solomon, Ford resolve enviá-lo para outra fazenda, sob o comando do sanguinário Edwin Epps (Michael Fassbender).

Na fazenda de Epps, os escravos são maltratados por pura maldade. O personagem de Fassbender é um verdadeiro monstro, tanto quanto sua mulher Mary (Sarah Poulson), que o incentiva a fazer tudo de macabro que se possa imaginar com seus comandados. McQueen não poupa na violência para mostrar todas as maldades que eram feitas na época, com uma realidade poucas vezes vista nos filmes sobre o tema. Nem mesmo o Django Livre de Tarantino conseguiu ser tão angustiante.


Navalhadas na cara, queimaduras pelo corpo, mãos cortadas, chibatadas que parecem não acabar mais. Tudo isso acaba fazendo o filme ser quase de terror, com a diferença de que isso tudo foi real. No final, após 12 anos nessa vida desumana, Solomon recebe ajuda de Bass (Brad Pitt) para reencontrar o homem que lhe deu a liberdade, e ao voltar para casa, reencontrar sua família, em uma cena emocionalmente bela.

Confesso que o estilo narrativo de McQueen foi algo me incomodou boa parte do tempo, e por isso não consigo considerá-lo melhor do que outros que abordaram o mesmo tema. As atuações são muito boas, mas algumas me pareceram forçadas, como a de Paul Dano e a de Brad Pitt. O segundo aparece no final, fala meia dúzia de palavras, e desaparece, em um das sua atuações mais desnecessárias de sua carreira.


Por fim, 12 Anos de Escravidão é um bom filme mas não é nada fácil, e o público certamente vai sair do cinema quieto, talvez até chorando, por conta da tamanha brutalidade vista em cena. Principalmente por saber que isso realmente ocorreu, e até mesmo pior do que tudo que foi mostrado.


Divulgados os indicados ao WGA.


Um dia após a divulgação dos candidatos ao prêmio do Sindicato de Produtores, quem lançou seus indicados do ano é o Sindicato dos Roteiristas, para o Winters Guild Awards (WGA), considerado outra prévia do Óscar.

Na cerimônia, que ocorre anualmente em Los Angeles, três categorias são premiadas: melhor roteiro original, melhor roteiro adaptado e melhor roteiro de documentário.

Confira a relação abaixo:

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Blue Jasmine - Woody Allen
Dallas Buyers Club - Jean Marc-Valée
Ela - Spike Jonze
Nebraska - Alexander Payne
Trapaça - David O. Russell

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO:
Antes da Meia-Noite - Richard Linklater
Álbum de Família - John Wells
Capitão Phillips - Paul Greengrass
O Grande Herói - Peter Berg
O Lobo de Wall Street - Martin Scorsese

MELHOR ROTEIRO DE DOCUMENTÁRIO:
Guerras Sujas - Rick Rowley
Herblock: the Black & the White - Michael Stevens
Histórias que Contamos: Minha Família - Sarah Polley
No Place on Earth - Janet Tobias
Roubamos Segredos: A História do Wikileaks - Alex Gibney

sábado, 4 de janeiro de 2014

Crítica: Good Ol' Freda (2013)


Por trás de toda história de sucesso há sempre alguém que fica longe dos holofotes, mas que é tão importante quanto os que brilham. Freda Kelly, a mulher que trabalhou durante onze anos como secretária do fã-clube oficial dos Beatles, pode ser um ótimo exemplo disso. Quarenta anos depois, ela finalmente abre o jogo, e conta com detalhes coisas até então inéditas sobre os quatro rapazes de Liverpool.



Contando com o apoio dos dois Beatles ainda vivos, Paul McCartney e Ringo Starr, o documentário Good Ol' Freda (no brasil seria algo como "Boa e Velha Freda"), mostra com primor todos os momentos marcantes que a jovem viveu junto ao grupo, do início até o final dessa relação, que acabou sendo muito além do profissional.

Ela se tornou fã e amiga dos integrantes ainda no The Cavern (o bar de onde eles surgiram), depois de ir pela primeira vez no local com uns colegas do trabalho. Logo de cara, ficou apaixonada por aqueles quatro rapazes que, segundo ela, faziam um som diferente de tudo que se tinha ouvido até então. Mal sabia ela que aquele seria o primeiro de mais de 190 shows da banda que ela assistiria.



Em forma de entrevista direta com a própria Freda, o longa aborda primeiramente o momento em que ela os conheceu, mostrando a personalidade única de cada um deles. John era bastante amigável, mas mudava de humor como quem mudava de camiseta. Paul era o brincalhão da turma, e fazia todos rirem a todo momento. George por sua vez era o mais quieto e centrado, mas com quem ela tinha as melhores conversas. Na época, Ringo Starr ainda não era o baterista da banda, mas quando entrou, logo se tornou um grande amigo seu também.

O filme chama a atenção por trazer fotos exclusivas e inéditas, além de uma gama de histórias que só quem trabalhou tão próxima do grupo poderia contar. Com sua história confundida com a dos Beatles, Freda vai revisitando alguns lugares marcantes dessa parceria, contando um pouco do que cada lugar a traz de lembranças.



Quando o grupo partiu em turnê para os EUA, foi ela quem serviu como elo de ligação entre os membros da banda e seus familiares, já que ela não pode viajar junto. Isso que fez com que ela ficasse ainda mais íntima de todos, e em um pedaço do documentário, ela comenta algumas particularidades de cada uma das famílias.

Outra função importante que Freda tinha, era a de responder as cartas das fãs, que as vezes chegavam a mais de 800 em uma só remessa. Ela ainda foi responsável pela tiragem da revista dos beatles, que mensalmente contava tudo o que a banda fazia, dentro e fora dos palcos. Numa época onde não existia internet, isso serviu como informativo para os fãs que na época queriam saber tudo o que seus "queridinhos" faziam.


Por tudo isso, fica evidente que Freda teve um papel importantíssimo na história da banda. No entanto, ela nunca fez questão de aparecer, e mesmo depois de todos esses anos, muita gente que a conhece nem sabia desse seu passado.

Para finalizar da melhor forma, no meio dos créditos finais aparece Ringo Starr, já na atualidade, agradecendo Freda por tudo que ela fez pela banda. A declaração é bastante singela, e é emocionante ver o carinho que eles ainda tem com ela mesmo depois de tanto tempo. Com certeza muita gente gostaria de ter estado em seu lugar, mas somente ela conseguiu. E mereceu!



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Crítica: Até o Fim (2013)


O experiente Robert Redford, que resolveu se empenhar na carreira de diretor de uns anos para cá, voltou aos cinemas como ator em um filme ousado do diretor J. C. Chandor (Margin Call - O Dia Antes do Fim), mas que infelizmente não possui nenhum conteúdo ou sequer algo a passar.


Em Até o Fim (All is Lost), Redford aparece navegando pelo Oceano Pacífico sozinho, a bordo do seu veleiro. Certo dia ele acorda e percebe que não pára de entrar água para dentro da embarcação. Ao subir a bordo para verificar, descobre que o motivo foi um choque contra um contêiner solto pelo mar, que abriu um buraco na lateral.

Mesmo com dificuldade, ele vai conseguindo manter o barco de pé. Porém, após uma tempestade, ele perde de vez o controle do seu barco, e ao naufragar, tem que passar a navegar em um bote salva vidas. Tem início então sua odisseia pelo pacífico, numa luta pela sobrevivência, principalmente contra as forças da natureza.


O filme é composto de apenas um personagem, que não pronuncia uma única palavra além de murmúrios. Isso nem sempre é ruim, mas no caso acaba sendo bastante enfadonho, e deixa o filme extremamente arrastado. Com perdão do trocadilho com o nome em português, é bastante difícil de se chegar até o fim.

Não saber nada sobre a vida do homem, nem sequer seu nome ou o que está fazendo ali, impossibilita que o público crie um vínculo com o mesmo. Uma simples introdução já ajudaria nesse sentido, e talvez ficasse mais fácil aguentar a longa jornada solitária e entediante em alto mar, mas não houve nenhuma preocupação da direção quanto a isso.


Para mim, Redford não passa de um canastrão, e sua atuação é ainda mais triste do que o enredo em si. Fraca e pouco convincente, alternou entre medo e tensão, mas sempre com a mesma expressão. Apesar de alguns elogios da crítica, e até de uma possível indicação ao Óscar, o fato é que o filme decepciona e deixa muito a desejar.