quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A vida e a obra de Martin Scorsese.


Para muitos críticos de cinema, Martin Scorsese é considerado o "melhor diretor americano vivo". E de fato, não é para menos. A cada novo filme lançado por ele, minha admiração só aumenta, e dentre os cineastas que surgiram na mesma geração (De Palma, Spielberg, Coppola, entre outros), ele é certamente o que mais me agrada.

Dono de uma carreira brilhante, ele possui vários dos seus filmes em posições de destaque na lista dos melhores de todos os tempos, feita pela "American Film Institute". Apesar desse feito, ele ficou marcado por ter sido, durante quase três décadas, completamente ignorado pelo Óscar, em mais uma das injustiças históricas da Academia. No entanto, a premiação sutilmente lhe pediu desculpas premiando-o por Os Infiltrados (The Departed), em 2007.


Martin Marcantonio Luciano Scorsese nasceu na cidade de Nova York, no dia 17 de novembro de 1942. Vindo de uma família de descendente italianos, cresceu nas ruas do modesto bairro Little Italy (Pequena Itália). Por conta de suas fortes crises de asma, Scorsese era impossibilitado de praticar esportes, e para passar o tempo, seu pai o levava seguidamente ao cinema. Pelos menos duas vezes por semana, alegou o diretor, que declarou também que foi nessa época que ele começou a desenhar suas primeiras histórias imaginárias.

Aos 14 anos, se dedicou ao sacerdócio, ingressando num seminário local. Sim, Scorsese queria ser padre! Porém, sua paixão pela sétima arte o impediu de seguir a carreira religiosa, impulsionando sua trajetória no mundo cinematográfico. Para nossa sorte, e principalmente para o bem do cinema.

Essa sua veia católica acabou influenciando boa parte dos seus primeiros curtas, ainda nos anos 50. Sua principal influência no entanto foi o neo-realismo italiano, de quem ele era fã, sobretudo de Fellini, De Sica e Rosselini. Outro cineasta que foi bastante importante para sua formação foi o brasileiro Gláuber Rocha, principal nome do Cinema Novo. Scorsese chegou inclusive a ajudar na recuperação de alguns filmes perdidos do diretor nessas últimas décadas.

Alguns anos depois, em 1963, matriculou-se na Universidade de Nova York para estudar cinema, onde rodou mais alguns curtas de pouca expressão. Dois anos depois, após se graduar no curso, passou a trabalhar no mesmo local como professor adjunto, onde deu aulas para alunos que viriam se tornam ilustres colegas, como Oliver Stone e Spike Lee.


Seu nome apareceu mundialmente pela primeira vez em 1967 com o curta The Big Shave, que fazia uma crítica à Guerra do Vietnã, e foi sensação no Festival de Cinema Experimental de Knokkele-Zoute, na Bélgica. Esforçado, Scorsese trabalhou nessa época como montador em Hollywood até conseguir dirigir seu primeiro longa, o drama autobiográfico Quem Bate à Minha Porta? (I Call First). Protagonizado por Zina Bethune e Harvey Keitel, o filme é ambientado na comunidade Ítalo-Americana, mostrando a violência que havia nas ruas daquele bairro na época.

Em 1972, a convite do famoso produtor Roger Corman, Scorsese dirigiu Sexy e Marginal (Boxcar Bertha), onde trabalhou com o casal David Carradine e Barbara Hershey. Nesse período, seu amigo pessoal Brian De Palma o apresentou a um jovem ator que estava em ascensão e que ainda era pouco conhecido no ramo: Robert De Niro. Não demorou para que Scorsese e De Niro virassem amigos íntimos, firmando uma das parcerias mais marcantes e rentáveis da história do cinema.


O primeiro filme da parceria foi o aclamado Caminhos Perigosos (Mean Streets), lançado em 1973, e novamente ambientado no bairro de imigrantes italianos. Antes dos dois voltarem a trabalhar juntos, Scorsese dirigiu o sensível Alice Não Mora Mais Aqui (Alice Doesn't Live Here Anymore), com a excelente Ellen Burstyn, que levou para casa o Óscar de melhor atriz daquele ano.

Em 1976, Scorsese deixou o público de boca aberta com Táxi Driver, um filme violento e visceral que mostrava uma Nova York bem diferente do glamour visto até então no cinema. Protagonizado por Robert De Niro e Jodie Foster, o longa pode ser considerado um marco na história do cinema americano, e é considerado até hoje um dos melhores filmes já feitos por lá. Cinco anos depois do seu lançamento, o filme ainda causava polêmica, depois que um jovem quase tirou a vida do presidente Reagan e justificou o ato com a obsessão que tinha pela história.



Depois de receber quatro indicações aos Óscar, Scorsese ficou encorajado de lançar mais um projeto arrojado, New York, New York, um tributo musical à sua cidade natal. No entanto, o filme foi um fracasso de bilheteria, levando o diretor a uma forte depressão. Ele se reergueu um ano depois, da melhor forma possível, com O Último Concerto de Rock (The Last Waltz). O longa documenta o último show dos "The Band" em 1978, e conta com a participação de Bob Dylan, Eric Clapton, Neil Young, entre outros artistas da cena.

Em 1980, com medo de ter que encerrar a carreira por conta da saúde precária, ele colocou todas as suas energias na produção de Touro Indomável (Raging Bull), e o resultado foi melhor do que o esperado. Tido como uma obra-prima, o filme estrelado novamente por Robert De Niro foi amplamente elogiado, e recebeu oito indicações ao Óscar, incluindo a de melhor filme, melhor ator, e pela primeira vez, de melhor diretor. Scorsese não ganhou, mas a indicação serviu para que seu nome entrasse de vez no hall dos melhores cineastas de todos os tempos.



Depois do sucesso de Touro Indomável, Scorsese filmou três filmes de menor expressão até a metade da década de 80, mas ainda assim muito bons. O primeiro foi O Rei da Comédia (The King of Comedy), que trazia Robert De Niro novamente como protagonista, no papel de um comediante que tinha o sonho de aparecer na televisão, e que para isso, seria capaz de qualquer coisa.

Logo após veio Depois de Horas (After Hours), uma comédia maluca sobre um homem que vive, em apenas uma noite, diversas situações fora do comum. O último foi A Cor do Dinheiro (The Color of Money), que dentre os três foi o que mais arrecadou bilheteria, principalmente por conta da participação dos astros Paul Newman e Tom Cruise.

Em 1988, Scorsese pôr em prática um projeto que há tempos sonhava realizar: A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ), adaptação do livro homônimo escrito pelo grego Nikos Kazantzákis e lançado em 1951. Para filmar o longa, o diretor utilizou de um orçamento bastante baixo, principalmente por não levar fé que o filme lhe traria algum retorno comercial.



No entanto, o filme não apenas bateu recordes de bilheteria, como causou comoção nacional, gerando uma onda de protestos como nunca visto antes ao redor de um filme. A tentativa de mostrar Jesus Cristo como uma pessoa comum, que se casa com Maria Madalena e constitui uma família, levou os religiosos mais fanáticos a ameaçarem o diretor de morte. Porém, o apoio que ele recebeu, inclusive de importantes figuras políticas, impediu que sua carreira decaísse, e abriu espaço para ele lançar aquele que viria a ser o filme mais popular da sua carreira.

Com Os Bons Companheiros (Goodfellas), Scorsese retornou à cidade de Nova York, além de retomar sua parceria com Robert De Niro. Considerado um dos melhores filmes sobre gângsters já feito para o cinema, o longa chega a dividir alguns fãs do gênero, que o comparam ao clássico de Coppola, O Poderoso Chefão. Com cenas memoráveis, Os Bons Companheiros aborda a vida de três poderosos mafiosos, desde sua ascendência ao crime até sua queda. Mais uma vez nomeado ao Óscar, o diretor voltou para casa de mãos vazias.



Seu próximo filme foi Cabo do Medo (Cape Fear), remake do filme Círculo do Medo, de 1963. Outra vez trabalhando com De Niro, o filme foi um sucesso de bilheteria, e concorreu a dois óscares. Em 1993, o diretor lançou o drama A Época da Inocência (The Age of Innocence), com Michelle Pfeiffer, Winona Ryder e Daniel Day-Lewis, que apesar do bom elenco e da boa estória, foi um fracasso de bilheteria.

Com Cassino (Casino), lançado em 1995, Scorsese voltou a falar novamente de máfia, mas dessa vez sobre os grupos que comandavam (e ainda comandam) os grandes cassinos de Las Vegas. O longa foi um sucesso, e ficou marcado principalmente por ser o último filme da sua parceria de anos com De Niro.



Finalizando a década de 90, ele lançou pequenos filmes como Kundun (sobre o exílio de Dalai Lama, que tornou Scorsese persona non grata na China), o documentário autobiográfico Minha Viagem à Itália, e o drama psicológico Vivendo no Limite, com Nicolas Cage.



ANOS 2000

A virada do século trouxe uma repaginada total na carreira do diretor. Gangues de Nova York (Gangs of New York), lançado em 2002, foi o filme mais arriscado e grandioso da sua carreira. Com uma produção detalhista, e um orçamento de mais de 100 milhões de dólares, foi até hoje o seu trabalho mais impressionante, recebendo 10 indicações ao Óscar (ainda que não tenha ganho em nenhuma, um absurdo).

Ele conseguiu, através de um ótimo trabalho em conjunto com a direção de arte, transcrever com perfeição a Nova York do século 19, e a guerra que havia entre as duas gangues que dominavam a cidade na época. Foi também seu primeiro filme com o ator Leonardo DiCaprio, que veio assumir o lugar de De Niro como "xodó" do diretor.



Sua segunda parceria com DiCaprio veio dois anos depois, no excelente O Aviador (The Aviator). O longa, que aborda a vida do excêntrico milionário Howard Hughes, foi até então o seu filme mais bem sucedido em premiações, levando para casa 5 Óscares (menos o de diretor, mais uma vez).

Exatos dois anos depois, DiCaprio seria protagonista de mais um filme seu: Os Infiltrados (The Departed). Considerado por muitos como o seu melhor trabalho desde Os Bons Companheiros (o que eu não concordo), foi com ele que Scorsese finalmente levantou o Óscar de melhor diretor, após anos de tentativas frustradas. O prêmio foi entregue pelas mãos dos amigos Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg, em um claro pedido de desculpas da Academia depois de tantos anos sendo deixado de lado.


Nesse período, ele deu uma pausa nos seus filmes para lançar três documentários musicais. No Direction Home, lançado em 2005, aborda a vida do músico Bod Dylan, e o impacto que ele teve na cultura americana nos anos 60. Outro que teve sua vida mostrada nas telas foi o beatle George Harrison, em George Harrison: Living in the Material World.The Rolling Stones: Shine a Light foi realizado com o intuito de mostrar duas gigantescas apresentações dos Rolling Stones em Nova York, de quem Scorsese é fã declarado.

Em 2010, ele voltou a trabalhar com DiCaprio em um dos seus melhores trabalhos da década, o drama psicológico Ilha do Medo (Shutter Island). Contando também com Mark Ruffaloe Ben Kingsley, o filme é bastante obscuro, sombrio, e traz uma estória repleta de reviravoltas.

Seu nome voltou à mídia em 2011, após o lançamento de A Invenção de Hugo Cabret (Hugo). Diferente de tudo que o diretor tinha feito até então, ele declarou abertamente que adorou fazê-lo, mas que só começou o projeto porque seu filho pequeno pediu para que ele fizesse um filme que ele "pudesse assistir". Apesar do tom juvenil na hora de contar a estória, o filme é espetacular, e faz uma homenagem emocionante ao mestre francês George Meliès, um dos precursores do cinema.



Scorsese volta aos cinemas em 2013 com O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street), que aqui no Brasil tem estreia programada para janeiro de 2014. Pela quinta vez trabalhando com DiCaprio, o filme aborda a vida do corretor da bolsa de valores Jordan Belfort, que entrou em decadência nos anos 90 por conta do abuso de drogas e dos crimes de colarinho branco. 

Pensando no futuro, Scorsese já está em fase de produção de Silence, que deverá ser seu próximo filme, e será ambientado no Japão do século 16. Ainda há boatos de que o diretor pensa reunir novamente De Niro e Al Pacino em um filme de máfia, antes de se aposentar. Se isso realmente acontecer, servirá para finalizar com chave de ouro a carreira.

Por tudo isso, posso dizer que Scorsese faz parte do pequeno e seleto grupo de gênios do cinema. Não é preciso muito para concordar que ele é um mestre na arte de fazer filmes. Sua filmografia fala por si!

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Crítica: Clube de Compras Dallas (2014)


O diretor canadense Jean Marc-Valée ganhou meu respeito e minha admiração após ter lançado, em 2005, o maravilhoso C.R.A.Z.Y. -Loucos de Amor, sobre um rapaz homossexual que tinha que lidar com o preconceito de todos, principalmente da própria família. De lá para cá, ele lançou dois filmes de baixa divulgação (A Jovem Rainha Vitória e Café de Flore), mas agora em 2013 voltou com tudo, filmando o excelente Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club), forte candidato ao Óscar de 2014.


A trama se passa nos anos 80, e é baseada na história real de Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um homem que ganhava a vida comandando apostas num circuito de rodeios no Texas. Machista, extremamente preconceituoso (sobretudo contra homossexuais), e usuário incontrolável de drogas e álcool, Woodroof é um personagem repugnante, com pensamentos retrógrados, que desperta nosso desprezo logo de cara.

Enquanto ele arrecada dinheiro numa roda de apostas, ele lê o jornal e faz uma brincadeira com a situação do ator Rock Hudson, que está internado num hospital com AIDS. Para ele, todas as pessoas que adquirem a doença são gays, e ele acredita inclusive que pode ser um castigo para a maneira de vida que eles levam. O diretor não se exime de mostrar o quanto era comum e aceitável esse tipo de pensamento nessa época, onde ninguém conhecia direito a doença e saía falando o que bem entendia.


Após tossir sangue, sentir tonturas e desmaiar do nada, Woodroof é levado ao hospital onde o Dr. Sevard (Denis O'Hare) lhe dá o diagnóstico: ele está com o vírus HIV. Enfurecido, ele sai do hospital xingando o médico e sua assistente, afinal, como ousam dar a entender que ele teve alguma relação homossexual? Sim, é somente isso que passa pela sua cabeça.

Após uns dias, Woodproof finalmente deixa a ignorância de lado e vai pesquisar melhor sobre a doença na biblioteca da cidade. É quando ele descobre que a AIDS pode ser transmitida por sexo com mulheres também, ou até mesmo através de drogas injetáveis. É quando ele lembra que há poucos dias transou com uma mulher sem proteção alguma, e que ela tinha diversas picadas pelo braço. Ele então entra em desespero.


Através da pesquisa, ele também fica sabendo que um grande laboratório americano está fazendo testes com uma nova droga, a AZT. Ele decide voltar ao hospital e pedir para a Dra. Eve Saks (Jennifer Garner) que ela o use como cobaia nos testes. Ela, porém, não tem o que fazer, já que a decisão não é sua. A partir de então, começamos a mergulhar junto com o personagem no mundo sujo das indústrias farmacêuticas.

Deve ser realmente desesperador saber que existe no mercado um novo remédio que pode lhe fazer melhorar, mas que você não está nem no grupo de testes. Com um "jeitinho", ele consegue a droga de forma clandestina, através de um enfermeiro do local. No entanto quando o estoque chega ao fim, ele acaba sendo novamente internado, ainda pior do que na primeira vez.


No hospital, ele conhece Rayon (Jared Leto), um travesti que está internado na cama ao lado, pelo mesmo motivo. De início, Woodroof repugna o colega de quarto pela sua opção sexual, mas aos poucos, ele também vai sofrendo preconceito por parte das pessoas que antes o viam como amigo, que acham que ele adquiriu a doença tendo relações com outro homem. Por conta disso, ele acaba percebendo que Rayon é tão vítima de tudo quanto ele, e que pensar dessa forma é pura ignorância.

Após ir ao México, onde é tratado pelo Dr. Vass (Griffin Dunne), ele volta para os Estados Unidos com uma nova visão sobre tudo, e com uma ideia para fazer dinheiro: importar ilegalmente a droga para o país, e vender para as pessoas com a doença. Porém, não é mais o AZT, e sim, um coquetel criado pelo doutor, que parece mais eficaz do que a droga legal testada pelos laboratórios.


Novamente entra em questão a sujeira da indústria de remédios, e isso é talvez o ponto forte do enredo. Afinal, tratamentos para doenças mais graves parecem ser exclusivos para quem tem dinheiro, e se você não tem como pagar, que morra silenciosamente. Indo contra esse pensamento mesquinho, Woodroof cria o Clube de Compras Dallas, onde passa a cobrar apenas uma mensalidade em troca dos remédios ilimitados, criando uma clientela fiel e esperançosa a respeito dos avanços na enfermidade. Porém, é óbvio que isso iria causar atritos com a FPA (instituto responsável por aprovar todo medicamento e alimento vendido nos Estados Unidos), que viraria numa verdadeira caça de gato e rato.

A humanização do personagem é realmente impressionante. Ele não muda seu estilo de vida, e alguns dos seus pensamentos, mas a convivência com pessoas de todos os tipos, principalmente homossexuais, acaba fazendo com que ele perceba algo que todos deveriam saber: que não importa a cor de pele, a classe social ou a opção sexual, no final somos todos iguais. Ele acaba virando uma espécie de herói, ainda que muitos não aceitem essa alcunha num homem com um estilo de vida como o seu. Porém, muitos doentes tiveram um tempo a mais de vida graças à sua atitude, mostrando que não é necessário ser um "santo" para fazer algo bom pelas pessoas.


O roteiro é certamente um dos mais bem escritos dos últimos anos. Mais do que a redenção do personagem ou sua luta contra os gigantes dos remédios, um dos pontos mais interessantes e positivos é que ele mostra como nenhum outro o surgimento da doença em meio ao público, e o quanto ela era mal interpretada. A fotografia, a ambientação e o figurino da época, e a trilha sonora são realmente de tirar o chapéu. Mas com certeza, o melhor do filme está mesmo nas atuações.

Primeiramente, McConaughey está impecável no papel de Woodroof, nessa que pode ser a sua melhor atuação da carreira. O ator, que perdeu 21 quilos para viver o personagem, dá simplesmente um show, convencendo do início ao fim. No entanto, devo dizer que o que mais me impressionou foi mesmo a participação de Jared Leto. Há poucos dias, fiz um post por aqui com as transformações do ator ao longo da carreira, e aqui ele simplesmente se superou. Leto está irreconhecível, e como McConaughey, também perdeu dezenas de quilos para viver o travesti Rayon. Não é à toa que os dois são favoritos para fazer uma dobradinha no Óscar, como melhor ator e melhor ator coadjuvante.


Por fim, Clube de Compras Dallas é realmente primoroso, tanto que virou meu favorito para receber a estatueta em Los Angeles. A ótima direção, o ótimo elenco e o ótimo roteiro são elementos que, juntos, fazem dele um dos melhores filmes de 2013. É um filme sobre uma enfermidade, mas completamente diferente do que visto até então, até porque vai muito além disso. Não há milagres, não há otimismo. Apenas a história de vida de pessoas que, além de ter de lutar diariamente contra uma doença terminal, ainda tem que sofrer com o preconceito e a ignorância dos outros.


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Crítica: Ela (2014)


Escolhido por alguns críticos americanos como o melhor filme de 2013, Ela (Her) traz uma curiosa história de amor entre um homem e um... sistema operacional. Calma, calma, eu sei que isso soa estranho, mas ao longo da crítica vocês irão entender melhor do que eu estou falando.


Na trama, Theodore Twombley (Joaquin Phoenix) é um rapaz melancólico, que trabalha escrevendo cartas bastante pessoais e poéticas para outras pessoas enviarem em nome delas. Antissocial e recluso, todo dia ele faz apenas o trajeto de casa para o trabalho, e sua única diversão é jogar o videogame ultra moderno que ele tem na sala de casa.

Aliás, basta olhar para o tal videogame, de alta dimensão, para percebemos que estamos num mundo futurista, mas um futuro não muito distante assim, se analisarmos o que nossa tecnologia de hoje já é capaz de fazer. Além do videogame, Theodore usa diariamente um sistema em seu smartphone que faz tudo que ele quer, usando apenas com comandos de voz. Notícias ou e-mails, tudo é lido em seu ouvido por uma voz.


Certo dia, uma gigante das comunicações cria um sistema operacional chamado de OS1, que possui inteligência artificial suficiente para se comunicar com os seres-humanos de forma interativa. Logo, Theodore compra o programa, e sua primeira escolha é que a voz de seu sistema seja feminina. É então que surge Samantha (Scarlett Johansson), cuja voz passa a acompanhá-lo aonde ele vai.

Com ela, ele desabafa e conversa sobre tudo que se possa imaginar. Fala bastante sobre sua vida passada, onde era feliz com sua ex-mulher, e o quanto o tempo foi corrosivo para a relação. O diretor Spike Jonze (de Quero Ser John Malkovith) utiliza também alguns flashbacks desse momentos em que ele viveu com Katherine, para salientar a nostalgia que o personagem se vê afundado. No entanto, é perceptível o fato dele parecer bem mais alegre com a vida depois dessa nova mudança.


Aos poucos, a inteligência artificial de Samantha vai aumentando, e ele consequentemente vai se apaixonando por ela. Principalmente por ela ser a única "pessoa" que lhe ouve, e que lhe faz rir. É interessante esse paralelo que Jonze faz com o que acontece hoje em dia. Basta paramos em um lugar público hoje, para vermos milhões de pessoas conectadas aos seus próprios "OS1". Pessoas que saem de casa e não desgrudam os olhos do seu smartphone nem para ir ao banheiro ou atravessar a rua.

Outra coisa interessante é o fato de Theodore escrever as tais cartas. Ele põe emoção no que escreve, e com ajuda do computador, imita perfeitamente a caligrafia do verdadeiro remetente. Uma crítica ácida de Jonze a respeito do uso cada vez menos constante da escrita, querendo dar a entender que no futuro, ninguém mais saberá escrever bem, e precisará da ajuda de outros para tanto.


Dá para se dizer que é um filme de um homem só. Apesar de outros personagens também aparecerem, ainda que esporadicamente, Theodore é a cara do filme. Joaquin Phoenix se saí muito bem no papel desse homem misterioso, cujo único desejo era ter alguém para dividir a cama, e a vida.

Com ares de filme independente, Ela é um misto de drama, comédia e ficção científica, em um filme cheio de diálogos reflexivos. Achei curiosíssima a escolha dos figurinos, e impecável todo o seu visual. No entanto, apesar de todas essas qualidades, achei o filme um pouco arrastado demais, o que pra mim, comprometeu um pouco o resultado final.


Crítica: Gloria (2013)


Escolhido pelo Chile para representar o país no Óscar de melhor filme estrangeiro deste ano, Gloria (Gloria), do diretor Sebástian Lelio, é um filme extremamente sensível, e uma verdadeira lição de que, por mais que a vida não lhe dê motivos para sorrir, ela ainda vale a pena ser vivida.


A personagem que dá nome ao filme, interpretada brilhantemente pela atriz Paulina Garcia, é divorciada, tem 58 anos de idade, e acompanha seus filhos adultos se afastarem cada dia mais ao irem viver naturalmente com seus filhos e maridos/esposas. Porém, ela não quer envelhecer em casa, sozinha, e por isso passa seus dias indo a bailes da terceira idade, buscando neles uma nova chance de ser feliz.

Numa dessas festinhas, sempre regadas a música brega e dançante, ela conhece Rodolfo (Sergio Hernández), um senhor recém separado, com quem cria um forte vínculo desde o começo. Após o primeiro encontro, os dois começam a se ver constantemente, de onde surge uma história de amor pueril e quase adolescente. Juntos, eles se divertem, conversam sobre diversos assuntos, recitam poemas, e criam planos para o futuro.


Achei bacana mostrar também, sem ser nem um pouco apelativo, o sexo entre os dois. É tudo filmado com muita naturalidade, mostrando que não é porque as pessoas envelhecem que elas perdem o desejo. Pelo contrário, inclusive.

Após um período de extrema felicidade onde parece que nada pode dar errado, as coisas começam a sair dos eixos. A crise tem início em uma festa da família de Gloria, onde seu ex-marido está presente. Por estar no meio dos familiares, Gloria acaba deixando Rodolfo de lado, e ele foge do local sem dar nenhuma explicação. 

Outro ponto que estraga a relação, é o fato dele ser ainda muito apegado à família, se preocupando mais do que deveria com a ex-mulher e a filha. Após uma briga, Rodolfo convida Gloria para uma viagem paradisíaca, numa tentativa de reatar as coisas. Porém, é justamente onde as coisas pioram.


O filme faz um apanhado dos sentimentos típicos dessa idade, onde as pessoas passam a analisar suas vidas com cautela, fazendo um levantamento do que foi bom e do que não foi. Aquela velha percepção de que o tempo passou rápido pelos olhos, deixando apenas lembranças boas, unida às mudanças e as reviravoltas que ocorrem na vida. No meio de tudo, porém, o amor ainda sobrevive, e pode ser tão forte quanto em qualquer outra idade.

O filme traz também uma inteligente crítica social sobre a situação do Chile. Uma discussão sociológica na mesa de jantar expõe todas as ideias do diretor, numa mensagem direta ao espectador. O enredo é brilhante, e tem espaço até para algumas cenas engraçadas. A trilha sonora também é fantástica, com direito a Tom Jobim cantado em Espanhol e Rita Lee.



Agora, que personagem maravilhosa essa Gloria. Poucas vezes simpatizei tanto com uma atriz em cena quanto com Paulina Garcia. Dá para dizer que o filme é dela! Ela ri, chora, se emociona, goza, se irrita, tudo apenas com o olhar, ou com pequenos gestos. Ela personifica com maestria essa personagem enigmática, chega de dúvidas, mas com disposição e vontade de viver. Seu prêmio de melhor atriz no último Festival de Berlim foi mais que merecido.

Por fim, mais uma vez o cinema latino mostrando sua força e sua qualidade, e foi realmente uma pena o fato do filme não ter ficado entre os finalistas do Óscar. Que a indicação tenha servido, pelo menos, para que ele seja mais conhecido do público, pois merece.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Estreias da Semana (17/01 a 23/01)

O fim de semana será marcado pela estreia de duas grandes animações nos cinemas. A primeira é Caminhando com Dinossauros (Walking with Dinossaurs), que promete recriar com perfeição a época onde os gigantes viviam na Terra. A segunda, traz uma nova abordagem sobre a história de Tarzan, o rei da selva. Em Tarzan - A Evolução da Lenda (Tarzan), temos a mesma história que já foi contada milhares de vezes, mas pela primeira vez em formato de animação e em 3D.

Outro destaque é a estreia do drama Alabama Monroe (The Broken Circle Breakdown), que foi o indicado da Bélgica para concorrer ao Óscar desse ano de melhor filme estrangeiro. No cinema nacional, estreia a comédia Muita Calma Nessa Hora 2, além da animação O Menino e o Mundo.

Confira a lista completa abaixo.

Caminhando com Dinossauros


Em plena era dos dinossauros, quando eles dominavam a Terra, um pequeno filhote luta para sobreviver em meio às ameaças da natureza. Já crescido, ele é separado dos pais e obrigado a confrontar uma dura realidade.

Walking With Dinossaurs, Estados Unidos, 2013.
Direção: Barry Cook
Duração: 87 minutos
Classificação: livre
Animação / Aventura
Assista o trailer aqui.

Tarzan - A Evolução da Lenda

Após a morte dos pais, um bebê é criado por uma gorila, que o trata como se fosse um filho. Ao crescer, ele precisa enfrentar um exército de mercenários enviados à floresta por um malvado executivo. Para enfrentá-los, ele conta com a ajuda de Jane, uma jovem que aparece na floresta após um acidente no avião que estava.

Tarzan, Estados Unidos, 2013.
Direção: Reinhard Kloos
Duração: 94 minutos
Classificação: 
Animação / Aventura

Alabama Monroe

Elise (Veerle Baetens), dona de um estúdio de tatuagem, e Didier (Johan Heldenbergh), um músico romântico, se apaixonam à primeira vista. Apesar das diferenças, o relacionamento dá certo e eles tem uma filha, Maybelle (Nell Cattrysse). Porém, aos seis anos de idade, ela fica gravemente doente, e isso acaba desestabilizando a família.

The Broken Circle Breakdown, Bélgica, 2013.
Direção: Felix Van Groeningen
Duração: 109 minutos
Classificação: 16 anos

Muita Calma Nessa Hora 2

Três anos após a viagem de Búzios, as quatro amigas se reencontram no Rio de Janeiro. Estrella (Débora Lamm) acaba de voltar da Argentina, Aninha (Fernanda Souza) está indecisa coma  consulta de uma vidente, Tita (Andréia Horta) voltou da Europa em busca de um trabalho como fotógrafa e Mari (Gianne Albertoni) está trabalhando na produção de um festival de música. Juntas, elas partem em uma nova aventura.

Muita Calma Nessa Hora 2, Brasil, 2013.
Direção: Felipe Joffily
Duração: 90 minutos
Classificação: 12 anos
Comédia
O Menino e o Mundo

Cuca é um menino que vive em um mundo distante, numa pequena aldeia no interior de seu mítico país.Certo dia, ele vê seu pai partir em busca de trabalho, embarcando em um trem rumo à desconhecida capital. As semanas que se passam são de angústia e lembranças, até que numa determinada noite, uma lufada de vento entra pela janela do seu quarto e o carrega para um lugar distante e mágico.

O Menino e o Mundo, Brasil, 2013.
Direção: Alê Abreu
Duração: 80 minutos
Classificação: livre