segunda-feira, 31 de março de 2014

5 bons filmes sobre a Ditadura Militar no Brasil

Nesse dia 31 de março de 2014, completa-se 50 anos do golpe militar que mudou o cenário do país e perdurou por duas décadas. Repressão, medo, e falta de liberdade individual marcaram esse período negro na história do Brasil, que a maioria esmagadora da população não deseja reviver nunca mais.

Assim como acontece em todos os países que tiveram alguma espécie de ditadura, o cinema brasileiro também aborda insistentemente o assunto, tentando de alguma forma mostrar o horror que era viver na época, onde você era taxado de criminoso apenas por ser contrário a qualquer medida tomada pelo governo. Em lembrança à data, criei uma lista com 5 bons filmes que retratam o período. Confira abaixo e comente.

1. Pra Frente Brasil (1982)

Em 1970, enquanto o povo vibrava com a seleção brasileira na copa do mundo do México, a repressão comia solta por aqui. Nesse ínterim, um homem pacato de classe média (Reginaldo Faria) acaba sendo confundido com um ativista político, sendo capturado e torturado na prisão, enquanto sua família procura por notícias. O filme, que retrata o auge da repressão, foi lançado em 1983 quando a ditadura ainda estava em vigor, mas os protestos nas ruas já se faziam numerosos.

2. O Que É Isso Companheiro? (1997)

Em 1969, o grupo terrorista MR-8 elaborou um plano para sequestrar o embaixador americano Charles Burkie Elbrick (Alan Arkin), com a intenção de trocá-lo por presos políticos, que eram torturados nos porões da ditadura. Baseado no livro de Fernando Gabeira, o filme de Bruno Barreto concorreu ao Óscar de melhor filme estrangeiro em 1998.

3. Batismo de Sangue (2007)

No final dos anos 60, um convento de frades tornou-se um local de resistência contra a ditadura. Movidos pelos ideais cristãos, cinco freis passaram a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertária Nacional, comandada por Carlos Marighella. Isso fez com que ficassem na mira das autoridades, que os prenderam e os torturaram em busca de informações, acusando-os de traidores da pátria.

4. Zuzu Angel (2006)

A estilista Zuleika Angel Jones (Patrícia Pillar) ganhou projeção internacional ao travar uma árdua batalha contra as autoridades nos anos 70, em busca do filho Stuart Angel Jones (Daniel de Oliveira), um ativista político que participava de movimentos estudantis e acabou sendo torturado e morto. O filme é um excelente registro da época, e mostra apenas uma das tantas história parecidas que ainda hoje trazem cicatrizes.

5. O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006)

Um casal de militantes deixa o filho pequeno com o avô, para se esconderem da repressão. No entanto, eles dizem para o garoto que estão tirando umas férias, e prometem retornar até o fim da copa do mundo de 1970. Nesse tempo, porém, o avô acaba morrendo, e o garoto passa a ser cuidado por um judeu, vizinho do avô. Ele divide então seu tempo entre o medo do que vê em volta e a alegria de vibrar com a seleção de Pelé e cia.

domingo, 30 de março de 2014

Recomendação de Filme #52

O Piano (Jane Campion) - 1993


A diretora neo-zelandesa Jane Campion marcou seu nome na história do cinema em 1993, ao ser a primeira mulher a levar para casa a Palma de Ouro no Festival de Cannes. No ano seguinte ela ainda conquistaria o Óscar de melhor roteiro original, e só perderia o de melhor direção para Steven Spielberg, com seu A Lista de Schindler. A causa de tudo isso? O filme O Piano (The Piano), considerado um dos melhores filmes já feitos fora do solo americano.



Roteiros dramáticos estão fadados a ser apelativos. No entanto, quando o roteiro é bem construído, e as escolhas dos atores é feita a dedo, podemos ter um resultado surpreendentemente bom, com uma história crível e emocionante, como o visto nesse caso.

A trama gira em torno de Ada (Holly Hunter), uma mulher que é obrigada a se mudar junto com sua filha pequena para um vilarejo isolado na Nova Zelândia, após ter seu casamento arranjado pela família, que devia algo ao noivo. Sem falar desde os 6 anos, ela não tem muito o que fazer, e vai para o lugar com a missão de tentar se adaptar à situação.



Porém, logo na chegada, o marido Stewart (Sam Neill) não aceita que seus homens levem para casa o piano de Ada, que acaba abandonado no meio do nada. Apaixonada pelo instrumento, que serviu a vida toda como válvula de escape para os infortúnios da vida, Ada acaba desenvolvendo antipatia pelo marido após sua atitude.

Nesse ínterim, o comerciante local George (Harvey Keitel) resolve comprar o piano, instalando-o em sua própria casa. Interessado pela bela jovem, George pede a Stewart que ele a libere para lhe dar aulas de piano, e o que inicialmente era para ser uma relação de aluno e mestre, acaba se tornando uma relação de domínio e desejo.



Ada é chantageada por George, que promete devolver seu instrumento em troca de favores sexuais. No entanto, passados alguns dias, um sentimento verdadeiro passa a surgir entre eles. Mesmo temerosa quanto ao "pecado" que está cometendo, Ada se entrega de corpo e alma, da forma como nunca tinha tido oportunidade na vida.

Quando o marido descobre que as sessões de piano viraram na verdade encontros eróticos, acaba ficando enfurecido, e toma uma atitude extremamente violenta contra a jovem. Passado o surto, e recobrada a consciência, ele percebe que Ada nunca foi verdadeiramente sua, e numa atitude humana (ao contrário da anterior), ele deixa ela ir embora com George.



O final é dramático, quase um soco no estômago. A narrativa é primorosa, e a sofisticação visual encanta. Algumas imagens do filme ficarão marcadas para sempre na memória, como a cena em que George acaricia as pernas de Ada por um buraco em sua meia. Simples e lírico, o filme chama a atenção também pela excelência das atuações. A contradição que nos faz amar e odiar um personagem em poucos minutos, cria uma teia de emoções como poucas vezes vista, mostrando o quão mutável é a natureza humana e seus sentimentos.

Como era de se esperar em um filme que tem um piano como "personagem", a trilha sonora é fantástica. As melodias, quase todas tocadas no piano em cena, dão um toque especial. Impossível não se apaixonar e, até mesmo, se identificar com o filme. Um dos mais belos trabalhos feitos para o cinema, feito pelas mãos de quem conhece do assunto.


sábado, 29 de março de 2014

Crítica: Os Filhos do Padre (2014)


Qual a melhor forma de criticar dogmas e abordar temas polêmicos de forma leve e despretensiosa? O uso do bom humor é um excelente caminho. Com um roteiro original, Os Filhos do Padre (Svecenikova Djeca) chama a atenção para o cinema croata, pouco conhecido do público em geral.



A história do longa se passa na Dalmácia, uma bela região da Croácia, banhada pelo mar Adriático. O padre Fabijan (Kresimir Mikic) acaba de sair de um seminário para substituir o pároco local, e logo na sua primeira ação, ouve a confissão de um fiel que se sente culpado por vender preservativos para os moradores locais em sua banca. Segundo o homem, ele está sendo hostilizado pela mulher que afirma que ele está "matando pessoas antes mesmo delas viverem", para eles um pecado monstruoso.

Enquanto a natalidade da cidade chega a quase zero após começarem a ser comercializadas as camisinhas, o número de óbitos continua estável, tendo uma diminuição significante no número de habitantes. Preocupado com a situação, o padre resolve tomar uma atitude desesperada: furar todas os preservativos antes mesmo deles irem à venda, para que as crianças voltem a nascer e a população volte a crescer.



O tom de comédia é muito bem aplicado, com algumas cenas emblemáticas. Fica evidente que a intenção do diretor e roteirista Vinko Bresan era criticar algumas visões ultrapassadas da igreja por meio do bom humor, abordando temas polêmicos de forma leve e engraçada. Impossível conferir o longa sem lembrar do largo debate em torno do uso das camisinhas pela comunidade católica.

Indo contra as estatísticas do restante do país, a ilha alcança uma taxa de natalidade expressiva depois das medidas do padre. O fato acaba dando fama ao local, atraindo milhares de turistas que desejam ter filhos e veem na cidade a grande chance. Aos poucos, porém, a atitude de Fabijan vai sendo descoberta, trazendo uma série de mal entendidos e consequências inesperadas.



A narrativa é, por vezes, sonolenta, ainda que esteja longe de ser um filme ruim. A parte mais interessante é certamente o diálogo entre os párocos, e a crítica acerca de suas atitudes. Como por exemplo a cena em que o bispo do país chega na ilha, a bordo de uma lancha milionária (seria uma crítica ao bispo alemão Franz-Peter Tebartz-van Elst?), e Fabijan o compara a um mafioso.

Sobre as atuações, elas são simples mas não deixam a desejar. É um filme diferente, fora do comum, e você tem que entender isso logo de cara para poder gostar. A imprensa croata exagerou ao dizer que é o melhor filme deles em anos (e talvez seja, já que pouco se conhece de lá), mas é um bom filme para assistir e dar algumas risadas.


quinta-feira, 27 de março de 2014

Estreias da Semana (27/03 a 02/04)

O grande destaque dessa semana é a animação Rio 2, que assim como no primeiro, se passa em solo brasileiro. Dessa vez o pássaro Blu parte com a família numa aventura pela Amazônia, em busca de seus donos que estão no local para fazer mais pesquisas.

Dos Estados Unidos, estreia Tudo por Justiça (Out of the Furnance), protagonizado por Christian Bale. A história dramática trata de uma família desestruturada pela prisão de um dos irmãos, após um acidente de carro.

Da Europa, estreiam dois filmes interessantes. O primeiro é a animação O Congresso Futurista (The Congress), colaboração de vários países e dirigido pelo israelense Ari Folman (do excelente Valsa com Bashir). O outro é Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho (Epizoda u Zivotu Beraca Zeljeza), parceria entre Bósnia e Eslovênia, que deve contar a história de uma família de ciganos sustentada pelo trabalho de catador do patriarca.

Fechando a lista tem o colombiano La Playa, e os nacionais Entre Nós e Em Busca de Iara. Confira abaixo a lista completa com os dados de cada um.

Rio 2


Blu vive feliz no Rio de Janeiro ao lado da companheira Jade e seus três filhotes. Seus donos estão na floresta amazônica fazendo novas pesquisas, e após vê-los aparecer em um programa de tv, a família resolve partir para a Amazônia. Porém, eles não imaginavam que chegando lá iriam se deparar com um velho inimigo: Nigel.

Rio 2, Estados Unidos, 2013.
Direção: Carlos Saldanha
Duração: 102 minutos
Classificação: livre
Animação
Assista o trailer aqui.


Tudo por Justiça


Russell Baze (Christian Bale) trabalha em uma usina e mora com o pai, que enfrenta sérios problemas de saúde, e o irmão mais novo, que lutou na Guerra do Iraque. Um dia, Russell se envolve em um acidente de carro, onde uma criança acaba falecendo, e por isso ele acaba indo preso. Enquanto estava preso, o irmão acabou se envolvendo com um homem violento, que traz perigo para a família após a soltura de Russell.

Out of the Furnace, Estados Unidos/Reino Unido, 2013.
Direção: Scott Cooper
Duração: 117 minutos
Classificação: 16 anos
Drama / Suspense
Assista o trailer aqui.


O Congresso Futurista

Uma atriz em fim de carreira decide aceitar uma proposta ousada, mas muito bem paga, para ter condições de pagar um tratamento para seu filho deficiente. Segundo o acordo, ela deve colaborar com uma empresa, que vai fazer uma versão digital de sua imagem, criando uma atriz idêntica à ela. Enquanto a empresa utilizar sua imagem, ela está proibida de de atuar, e aos poucos ela começa a perceber as consequências catastróficas da atitude que tomou.

The Congress, Alemanha/Bélgica/França/Israel/Luxemburgo/Polônia, 2013.
Direção: Ari Folman
Duração: 123 minutos
Classificação: 12 anos
Animação / Drama /Ficção Científica
Assista o trailer aqui.


Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho

Nazif (Nazif Munjic) sustenta a família com seu trabalho de catador de ferro-velho. Todo dia, sai para trabalhar e deixa a parceira, que está grávida, com duas crianças. Após um longo dia, ele chega em casa e encontra a mulher com muita dor. Ao levá-la para o hospital, descobrem que a mulher necessita de um tratamento urgente, mas ao mesmo tempo, ficam sabendo que o plano de saúde não comporta, e precisam arcar com uma despesa que não possuem.

Epizoda u Zivotu Beraca Zeljeza, Bósnia/Eslovênia, 2013.
Direção: Danis Tanovic
Duração: 75 minutos
Classificação: 10 anos


Entre Nós

Sete jovens amigos viajam para uma casa de campo para celebrar a publicação do primeiro livro do grupo. Lá, escrevem cartas para serem abertas dez anos depois. A viagem acaba em tragédia, mas mesmo assim, eles se reúnem após esse período para lerem as cartas.

Entre Nós, Brasil, 2013.
Direção: Paulo Morelli
Duração: 100 minutos
Classificação: 14 anos
Drama
Assista o trailer aqui.


La Playa

Tomás é um jovem colombiano que teve que fugir de sua aldeia, no litoral do país, por causa da guerra, e agora vive em Bogotá. Quando Jairo, seu irmão mais novo e viciado em drogas desaparece, ele sai de casa para procurá-lo, contando com a ajuda de outro irmão, Chaco. Através de sua jornada pelas ruas da capital, Tomás irá fazer de tudo para reencontrar o irmão, enquanto luta para conquistar seu espaço na metrópole hostil.

La Playa D.C., Colômbia, 2013.
Direção: Juan Andrés Arango Garcia
Duração: 90 minutos
Classificação: 14 anos
Drama

Em Busca de Iara

O documentário relata a trajetória excepcional de Iara Iavelberg. Apesar de ter uma situação financeira estável, ela decidiu abandonar a família e investir na luta armada durante a ditadura militar.

Em Busca de Iara, Brasil, 2014.
Direção: Flavio Frederico
Duração: 91 minutos
Classificação: 12 anos
Documentário

quarta-feira, 26 de março de 2014

Crítica: A Pele de Vênus (2014)


Alguns diretores se destacam dos outros por seu estilo próprio, e um ótimo exemplo disso é Roman Polanski. Os clássicos Repulsa ao Sexo (Repulsion), O Bebê de Rosemary (Rosemary Baby's) e O Inquilino (The Tenant), além do mais recente Deus da Carnificina (Carnage), possuem todos uma característica em comum: se passam em um mesmo ambiente, dando um clima bastante claustrofóbico à história.



A Pele de Vênus (Venus in Fur) não foge desse estilo, e se passa inteiramente dentro de um teatro envolvendo apenas dois atores durante toda a trama. O que poderia ser um verdadeiro fracasso resultou em mais um filme sublime de Polanski, graças a mão firme na direção e às atuações fantásticas.

Na trama, Thomas (Mathieu Amalric) está fazendo audições para sua peça estreante, A Pele de Vênus, adaptação do clássico de Sacher Masoch. Obcecada pelo papel principal, a atriz Vanda (Emmanuelle Seigner) usa de todo seu jeito excêntrico e dominador para convencer ele a ouvir sua encenação e escolhe-la.


Ao iniciarem o teste, Thomas logo percebe que ela está mais preparada do que ele imaginava. A atriz sabe todas as falas de cor, e com desenvoltura, toma para si a personagem como ninguém, palpitando sobre o enredo e as principais cenas. Com o tempo, ambos vão misturando ficção com realidade, iniciando um jogo perigoso entre eles.

Na peça, um homem pede à mulher que ama para que ela o torne seu escravo, infringindo todas as torturas que quiser. Aliás, é do nome do autor (Masoch) que vem a origem da palavra masoquista. Ao contracenar as cenas do roteiro, ambos passam a viver suas perversões. A personalidade provocante e dominadora de Vanda se sobressai, e aos poucos ela vai comandando a mente de Thomas, levando ele a fazer coisas estranhas.



Em um filme de dois personagens, é óbvio que as atuações e os diálogos teriam que ser magistrais para segurar o público até o fim. E absolutamente são. Mathieu Amalric (de O Escafandro e a Borboleta e Frango com Ameixas) prova mais uma vez porque é um dos melhores atores franceses dessa geração. Já Seigner (mulher de Polanski na vida real) chama a atenção não só por sua sensualidade, mas sua destreza.

O roteiro bem construído rendeu o Prêmio César (o Óscar francês) de melhor diretor para Polanski, além da indicação em outras diversas categorias. Por fim, há de se elogiar o diretor, que mesmo após cinco décadas, ainda não perdeu sua veia original. É sem dúvida um dos filmes mais interessantes do ano.