domingo, 20 de abril de 2014

Festival de Cannes anuncia os selecionados para a mostra competitiva de 2014.

Cartaz oficial do festival desse ano, com o ilustre Marcelo Mastroianni.
Foram anunciados nessa quinta-feira (17), entre 1700 pré-indicados, os 18 filmes que irão concorrer à Palma de Ouro do festival de Cannes desse ano.

Começo destacando a presença do veterano Jean-Luc Godard na lista, com seu mais novo trabalho Goodbye to Language. Com 83 anos de idade, Godard é considerado um dos cineastas mais importantes de toda a história do cinema francês, além de ter sido precursor do movimento Nouvelle Vague, que influenciou praticamente todo o cinema feito no país a partir da década de 60.

Outros veteranos que marcam presença são o americano David Cronenberg, com seu Maps to the Stars, e os britânicos Ken Loach e Mike Leigh, com Jimmy's Hall e Mr. Turner, respectivamente. Além disso, a listagem ainda traz nomes conhecidos que vem chamando a atenção da crítica nos últimos anos como Xavier Dolan, Michel Hazanavicius e os irmãos Dardenne. A grande surpresa talvez tenha sido The Homesman, dirigida pelo veterano ator Tommy Lee Jones, nessa que é apenas sua segunda investida como diretor. 

O Festival de Cannes inicia dia 14 de maio e termina no dia 25 do mesmo mês, e terá como presidente do júri a diretora neozelandesa Jane Campion (de O Piano). Grace de Mônaco, dirigido por Olivier Dahan e protagonizado com Nicole Kidman, será o filme de abertura. A lista completa dos indicados ao prêmio principal vocês conferem abaixo.

Clouds of Sils Maria, de Olivier Assayas
Foxcatcher, de Bennett Miller
Goodbye to Language, de Jean-Luc Godard
Jimmy's Hall, de Ken Loach
La Meraviglie, de Alice Rohrwacher
Leviathan, de Andrei Zvyagintsev
Maps to the Stars, de David Cronenberg
Mommy, de Xavier Dolan
Mr. Turner, de Mike Leigh
Saint Laurent, de Bertrand Bonello
Still the Water, de Naomi Kawase
The Captive, de Atom Egoyan
The Homesman, de Tommy Lee Jones
The Search, de Michel Hazanavicius
Timbuktu, de Abderrahmane Sissako
Two Days, One Night, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
Wild Tales, de Damian Szifron
Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Crítica: O Homem Duplicado (2014)


"O Caos é uma ordem ainda Indecifrável". É com essa frase de José Saramago que se inicia mais uma adaptação de uma obra sua para o cinema, O Homem Duplicado (Enemy). Depois do excelente Ensaio Sobre a Cegueira, do brasileiro Fernando Meirelles, a missão de levar às telas mais um romance do escritor lusitano caiu dessa vez nas mãos do canadense Denis Villeneuve (Incêndios / Os Suspeitos), mas o resultado final, porém, ficou muito abaixo do que eu esperava.


A trama começa mostrando o dia-dia do professor universitário Adam (Jake Gyllenhaal), que faz as mesmas coisas todos os dias, em uma rotina cansativa, do momento em que acorda até o momento em que vai dormir. Certo dia, um colega de Adam pergunta a ele se ele gosta de cinema e recomenda que ele assista "Onde há vontade, há caminho".

Após pegar o filme numa locadora, à primeira vista ele não percebe nada de mais na obra, e tem até um sentimento de indiferença para com ela. Porém, após uma noite de sonhos inquietos, ele resolve rever o filme em uma cena especifica (que aparece no seu sonho), onde se depara com uma situação que ele não havia percebido anteriormente: um dos atores que aparece na tela é exatamente igual a ele, como se fosse uma cópia fiel e perfeita da sua aparência.



Intrigado com a situação, ele anota todos os nomes do letreiro final na tentativa de saber o nome do ator, e após pesquisar na internet, descobre que ele se chama Daniel Saint Claire e que ele já trabalhou em diversos filmes. A partir de então, Adam resolve assistir todos os seus trabalhos, ficando cada vez mais obcecado por esse estranho "sósia".

Como se não bastasse o susto de saber que existe alguém igual a ele no mundo, as pessoas ao redor passam a chamá-lo com o nome do ator, e até a mulher de Daniel confunde sua voz no telefone com a dele. Após diversas tentativas de contato, Adam consegue marcar um encontro entre os dois em um hotel às escondidas, mas não imagina que a conversa entre eles vai mudar pra sempre as suas vidas. Inicia-se um joguinho de interesses entre eles, com um querendo ter a vida do outro, o que acaba levando a um final trágico e inesperado.

Aliás, sobre o final faço aqui um adendo: o filme é feito de diversas metáforas, que podem confundir a cabeça de muitos, assim como confundiu a minha. O diretor não se preocupa em responder algumas questões, e eu particularmente não gosto de filmes assim, onde aparentemente só o diretor entende e cada um tem sua própria versão. Por isso, confesso que o final me deixou bastante desanimado (e pensando "mas que porra é essa?), sobretudo por tentar passar alguma espécie de significado que eu não consegui compreender.



O enredo no entanto tem um bom ritmo. O clima é bastante sufocante, como se algo fosse acontecer a qualquer momento no meio das cenas, e isso serve para prender o espectador do início ao fim. Villeneuve vai tecendo aos poucos uma teia vasta de acontecimentos e detalhes, que por mais atenção que lhe sejam prestados, acabam deixando pontas soltas e até mesmo indecifráveis. As atuações de Jake Gyllenhaal e Melanie Laurent são concisas. Aliás, Gyllenhaal parece finalmente ter conquistado um status de respeito após seus últimos trabalhos, em um amadurecimento explícito e bem-vindo da carreira. 

Por fim, O Homem Duplicado é o tipo de filme que é preciso ser visto mais de uma vez (talvez duas, três, quatro...) para que possamos compreender sua magnitude, pois é complexo e extremamente subjetivo. Salvo alguns pontos positivos já descritos acima, o longa é para mim uma verdadeira decepção, e já pode ser descrito como um dos filmes mais controversos de 2014.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Estreias da Semana (17/04 a 23/04)

O grande destaque dessa semana fica por conta da ficção científica Divergente (Divergent), baseado no Best-seller de Veronica Roth, que mostra uma Chicago distópica em um futuro distante (mas nem tão distante assim). Quem também chama a atenção é O Grande Mestre, sobre o mestre das artes marciais que treinou Bruce Lee. O filme chegou a concorrer ao Óscar de melhor filme estrangeiro desse ano, que ficou com o italiano A Grande Beleza.

Da Europa, tem O Palácio Francês, que lembra bastante Os Sabores do Palácio, lançado ano passado. A diferença é que dessa vez não é uma cozinheira que passa a trabalhar no palácio do governo, descobrindo as falcatruas por debaixo dos panos, mas sim, um estagiário que vira braço direito do ministro das Relações Internacionais.

Do cinema brasileiro, são destaques as comédias Copa de Elite e Julio Sumiu, ambos da Globo Filmes. Enfim,confira a lista completa abaixo, com os dados de cada um.


Divergente


Numa Chicago futurista, Beatrice (Shailene Woodley) tem que escolher entre as diferentes facções que a cidade está dividida ao completar 16 anos. Cada uma delas representa um valor diferente, como honestidade, generosidade, coragem e outros. Ela surpreende a todos quando escolhe a facção dos destemidos, tendo que abandonar dessa forma a família para enfrentar uma longa jornada de descobertas.

Divergent, Estados Unidos, 2013.
Direção: Neil Burger
Duração: 139 minutos
Classificação: 14 anos
Ação / Ficção Científica

O Grande Mestre

Esse drama de ação mostra a história de um dos maiores mestres em artes marciais da história, Ip Man (Tony Leung), o homem que treinou Bruce Lee.

Yut doi jung si, Hong Kong, 2013.
Direção: Wong Kar-Wai
Duração: 123 minutos
Classificação: 12 anos
Ação / Biografia

O Palácio Francês

Recém formado na Escola Nacional de Administração, Arthur Vlaminck (Raphael Personnaz) é chamado para trabalhar no Ministério das Relações Exteriores a serviço do ambicioso ministro Alexandre Taillard (Thierry Lhermitte). Ele será responsável por elaborar o discurso do ministro, mas logo percebe que em meio a golpes políticos e vaidades pessoais, essa tarefa não sera nada fácil.

Quai d'Orsay, França, 2014.
Direção: Bertrand Tavernier
Duração: 113 minutos
Classificação: 12 anos
Comédia


O Filho de Deus

Vindo de uma pescaria fracassada, Pedro (Darwin Shaw) encontra Jesus Cristo (Diogo Morgado), que o convence a segui-lo. Logo, Cristo reunirá 12 apóstolos que tem por missão espalhar seus ideais pela terra. Entretanto, por mais que pregue o amor ao próximo e a compaixão, sua popularidade desperta a ira de pessoas importantes de Jerusalém.

Son of God, Estados Unidos, 2013.
Direção: Christopher Spencer
Duração: 138 minutos
Classificação: 14 anos
Drama

Marina

Após o final da Segunda Guerra Mundial, um pai se muda com a família para trabalhar em uma mina de carvão na Bélgica. A nova realidade é um choque para um dos filhos, e ele passa a procurar refúgio na música e principalmente no amor.

Marina, Bélgica/Itália, 2013.
Direção: Stijn Coninx
Duração: 118 minutos
Classificação: 14 anos
Drama


Pelo Malo


Junior, um menino de nove anos de idade, sonha em alisar o cabelo para ficar mais parecido com sua imagem fantasiosa de um cantor famoso. Enquanto tenta evitar o jeito "diferente" do filho, sua mãe luta para sustentar a família após a morte do marido.

Pelo Malo, Venezuela, 2013.
Direção: Mariana Rondón
Duração: 93 minutos
Classificação: 12 anos
Drama

Copa de Elite

O policial Jorge Capitão (Marcos Veras) é um competente capitão do BOPE e um ídolo brasileiro. Só que depois dele salvar de um sequestro o maior craque argentino, às vésperas da Copa, acaba virando inimigo público número 1 danação. Expulso e desacreditado pelo povo, ele precisa reaprender a trabalhar em equipe para evitar um atentado contra o Papa no final do torneio.

Copa de Elite, Brasil, 2013.
Direção: Vitor Brandt
Duração: 99 minutos
Classificação: 14 anos
Comédia


Julio Sumiu


Edna (Lilia Cabral) acorda um dia desesperada ao perceber que seu filho Silvio (Fiuk) sumiu de casa sem deixar pistas. Após ouvir na secretária eletrônica que o filho está com Tião Demônio (Leandro Firmino), o chefe do tráfico do morro ao lado, ela decide ir até lá para negociar, e acaba fazendo um negócio arriscado em troca da liberdade do filho.

Julio Sumiu, Brasil, 2013.
Direção: Roberto Berliner
Duração: 100 minutos
Classificação: 16 anos
Comédia

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Crítica: Era Uma Vez em Nova York (2014)



Estamos em Nova York, ano 1921. As irmãs Ewa e Magda tentam entrar nos Estados Unidos vindas da Polônia de navio, mas logo na chegada, durante um exame de rotina, Magda é diagnosticada com problemas no pulmão e acaba recolhida em uma prisão para quarentena. Ewa, por sua vez, tem a entrada no país barrada por ser acusada de atitudes imorais durante a viagem, e por estar desacompanhada de um homem, o que era proibido na época.




Perdida e sem saber o que fazer, ela acaba encontrando Bruno (Joaquim Phoenix), um homem misterioso, dono de um teatro voltado para o público masculino, onde mulheres danças seminuas e fazem performances ousadas. Decidido a ajudá-la, ele a leva para morar no local onde todas as suas "mulheres" vivem, e onde ele é tratado como um líder.

Para que passe a ganhar seu próprio dinheiro, ele incentiva que ela treine e comece a fazer parte das apresentações junto com as outras meninas. Logo de início, porém, ela já chama a atenção dos homens da plateia, recebendo convites para algo além de uma simples dança. Um desses convites acaba sendo irrecusável para o ambicioso Bruno, que sem querer perder a oportunidade, faz chantagem emocional com a jovem para que ela ceda.



Passado um tempo, ela encontra uma tia pela qual procurava ao chegar no país, e vive a esperança de dias melhores. Mas após um mal entendido, o marido de sua tia chama a polícia acusando-a de ser uma prostituta, e ela acaba indo parar na prisão. Bruno, novamente a salva, mas agora obriga ela a trabalhar como prostituta.

Nesse meio tempo, os dois criam uma relação curiosa. Mesmo envergonhada da maneira como está levando a vida, ela inicia um romance com o mágico Ellis (Jeremy Renner), que passou a fazer apresentações diárias no teatro de Bruno. Com a promessa de livrar sua irmã e se ver livre de tudo, ela acaba se apegando a ele, o que causa um ciúme doentio em Bruno, e leva a uma situação trágica.


O enredo é arrastado em partes, mas ainda consegue prender o espectador. Senti que faltou um pouco de carisma e aprofundamento nos personagens, que não conseguiram criar uma empatia com o público. Porém, mesmo assim, as atuações conseguem ser elogiáveis. O personagem de Bruno faz a gente alternar entre amor e ódio em pouco segundos, em mais uma brilhante participação do ator Joaquim Phoenix nas telas. A excelente Marion Cotillard também atua bem, mas não está entre suas personagens mais inspiradas da carreira.

Por fim, não é o tipo de filme que cativa e que será lembrado daqui alguns anos, mas ainda assim não deixa de ser um bom passatempo. James Gray ainda não conquistou o espaço que tanto almeja entre os melhores diretores da década, mas está no caminho. Quem sabe no próximo.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Crítica: Metro Manila (2014)


Viver nesse mundo cão não é tarefa fácil, sobretudo quando você é quase miserável e mora em um país de "quarto mundo". Metro Manila, filme indicado pela Indonésia ao Óscar de melhor filme estrangeiro desse ano, é um verdadeiro soco no estômago, mostrando a luta diária pela sobrevivência e, ao mesmo tempo, o lado mais sujo do ser-humano.


O filme foca em Óscar Ramirez (Jake Macapagal), um agricultor que vive com a mulher e duas filhas em uma planície arrozeira, sendo explorado pelos negociantes do local que pagam cada vez menos pelo produto que ele planta e colhe. Cansado disso, ele resolve pegar as economias e partir para Manila, a capital da Indonésia, junto com a família.

Logo que chegam na metrópole, encontram problemas. Enganados por um homem que lhes cobrava aluguel de um lugar que nem era dele, a família acaba ficando na rua, sem ter para onde ir. Não bastassem as dificuldades, eles ainda tem que lidar com o pior da raça humana, que tenta a qualquer custo ganhar algum lucro em cima da desgraça dos outros.


O longa possui cenas realmente tristes, e alguns dos locais mostrados fazem com que boa parte das favelas brasileiras pareçam condomínios de luxo. É bem interessante como o diretor consegue mesclar imagens do cotidiano de forma bela e sensível, mas ao mesmo tempo de forma crua e realista.

Seguindo a história, acompanhamos a luta de Oscar para sustentar a família, buscando emprego em longas filas com outros homens desesperados por uma vaga. Depois de muita procura sem sucesso, e vendo a situação financeira cada vez pior, a mulher de Óscar (Althea Vega) acaba aceitando uma proposta para trabalhar como dançarina em uma boate, vendo nisso a única chance de dar o que comer aos filhos.


Por sorte, Óscar consegue um emprego como motorista de carro-forte, o que também vai mudar para sempre sua vida. Com o tempo, ele cria amizade com o companheiro Ong (John Arcilla), e durante as viagens dentro do veículo, eles passam a conversar sobre diversas trivialidades. Aliás, alguns diálogos entre eles são impactantes, e nos fazem pensar em como a vida pode ser frágil e imprevisível.

Ong consegue até uma moradia para Oscar ao descobrir que ele mora mal, e o homem experimenta pela primeira vez em anos um sentimento de felicidade junto à família no novo lar. Porém, isso não dura muito tempo. Logo ele se vê numa situação difícil, onde tem que escolher entre derrubar seus ideais éticos ou sofrer consequências por querer continuar sendo honesto.


Apesar de todas as atitudes erráticas tomadas ao longo do filme, o diretor não julga os personagens. Afinal, eles estão apenas tentando sobreviver do jeito que podem, e às vezes, isso pode ser mais difícil do que se imagina. Falar que no final Oscar foi corrompido pelo sistema seria exagero, mas o fato é que o homem que vivia no campo não é mais o mesmo depois de tudo que presenciou.

Por fim, é um filme que fica ainda mais triste se pensarmos que milhares de pessoas vivem a mesma situação todos os dias. E o pior: que isso nunca vai mudar. A excelente crítica que o diretor Sean Ellis faz à natureza humana é elogiável, e certamente é um filme que merece ser visto e lembrado.