quinta-feira, 8 de maio de 2014

Estreias da Semana (08/05 a 14/05)

Seis novos filmes entram em cartaz nessa quinta-feira em todo o Brasil. Dos Estados Unidos tem a comédia Mulheres ao Ataque, estrelada por Cameron Diaz, e o drama Jogada de Rei, protagonizado por Cuba Gooding Jr. 

Destaco porém a produção franco-iraniana O Passado, representante do Irã no último Óscar de melhor filme estrangeiro. Dirigido pelo experiente Asghar Fahradi, o longa é um drama pesado e intenso, e finalmente estreia por aqui depois de quase um ano. A crítica dele vocês conferem aqui. Outro destaque europeu é a comédia Eu, Mamãe e os Meninos, grande vencedor do Prêmio César desse ano.

Do cinema nacional, estreiam os dramas A Grande Vitória, estrelado por Caio Castro e Sabrina Sato, e Entre Vales, com Ângelo Antônio. A lista completa vocês conferem abaixo.

Mulheres ao Ataque

Quando uma jovem descobre que seu namorado é casado com outra mulher, ela entra em contato com a esposa dele propondo que as duas se vinguem juntas. Uma estranha amizade começa a nascer entre as duas, mas a situação fica pior quando elas descobrem a existência de uma terceira mulher envolvida.

The Other Woman, Estados Unidos, 2013.
Direção: Nick Cassavetes
Duração: 109 minutos
Classificação: 12 anos
Comédia

Jogada de Rei

Após 17 anos na cadeia, Eugene Brown (Cuba Gooding Jr.) tenta recomeçar a vida trabalhando como faxineiro de uma escola pública. Encarregado de tomar conta de alunos problemáticos, ele tem uma ideia: criar um clube de xadrez, de forma que possa ensiná-los a pensar antes de agir. No entanto, a iniciativa não agrada o chefão do tráfico local, que vê o faturamento cair devido ao sucesso do grupo.

Life of a King, Estados Unidos, 2014.
Direção: Jake Goldberger
Duração: 100 minutos
Classificação: 14 anos
Drama

O Passado

O drama mostra a conturbada relação entre um marido iraniano e sua esposa francesa, que vivem na Europa. Após muitas disputas, ele resolve abandonar a mulher e os dois filhos e retornar ao seu país de origem. Porém, quando ela pede oficialmente o divórcio, ele descobre que o pedido é motivado pelo fato dela ter conhecido outro homem, e ele retorna ao lar para confrontar a esposa e o novo pretendente.

Le Passé, França/Irã, 2013.
Direção: Asghar Fahradi
Duração: 130 minutos
Classificação: 12 anos
Drama

Eu, Mamãe e os Meninos

Guillaume (Guillaume Galienne) tem uma história de vida curiosa: quando criança, sua mãe autoritária pensou que ele fosse diferente dos outros irmãos e decidiu criá-lo como uma garota. Já adulto, ele relata a relação complicada que tinha com o pai, os maus-tratos dos colegas de escola e os seus primeiros amores.

Les Garçons et Guillaume, à Table, França, 2014.
Direção: Guillaume Galienne
Duração: 85 minutos
Classificação: 14 anos
Comédia

A Grande Vitória

Max Trombini (Caio Castro) teve uma infância humilde e conturbada, depois de ser abandonado pelo pai e criado pela mãe e pelo avô. Revoltado com a vida, ele se envolveu em diversas confusões, e foi através dos ensinamentos das artes marciais, principalmente do Judô, que ele conseguiu se estabelecer e construir uma carreira de sucesso.

A Grande Vitória, Brasil, 2014.
Direção: Stefano Capuzzi
Duração: 88 minutos
Classificação: 10 anos
Drama

Entre Vales

O economista Vicente (Ângelo Antônio) é casado com a dentista Marina (Melissa Vettore) e pai do jovem Caio (Daniel Hendler). Ele leva uma rotina normal no trabalho e em casa, até sua vida passar por uma drástica transformação. Após algumas perdas, ele tem que aprender a descobrir novas emoções e tentar redescobrir seu espaço no mundo.

Entre Vales, Brasil, 2013.
Direção: Philippe Barcinski
Duração: 80 minutos
Classificação: 12 anos
Drama

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Crítica: Caçadores de Obras-Primas (2014)


Com um elenco invejável e uma história interessantíssima, Caçadores de Obras-Primas (Monuments Men), novo filme de George Clooney, tinha tudo para deslanchar de vez a sua carreira como diretor. No entanto, o resultado final foi decepcionante e não conseguiu cativar nem o público e nem a crítica, sendo um dos maiores fracassos do ano.


Baseado no livro homônimo de Robert M. Edsel, o filme conta a história de um grupo de americanos que se reuniu para recuperar e defender obras de artes roubadas pelo exército nazista durante a Segunda Guerra Mundial. O chefe do grupo é o professor Stoker (Clooney), um exímio conhecedor de arte, que reúne mais 12 conhecedores do assunto para irem rumo à Europa na tentativa de obter sucesso na missão.

Uma dos grandes desejos de Hitler era construir um enorme museu na sua cidade natal, Linz, onde exporia todas as principais obras de arte do mundo, de pinturas e esculturas a monumentos e edificações históricas. Para tanto, a tarefa dos soldados nazistas era a de roubar as obras e escondê-las em um lugar seguro até o fim da guerra. Em contrapartida, a difícil missão dos "Caçadores" era encontrar esses locais.



Em 1944, em um momento de declínio de Hitler onde os aliados se aproximavam de todos os lados, ele pôs em prática o "Decreto Nero", que anunciava que em caso de sua morte todas as obras de arte seriam queimadas e destruídas. Sabendo que a guerra está por um fio, começa então a luta dos homens para encontrar essas obras antes que seja tarde demais.

Quase nenhum dos membros do grupo tinha experiência militar, e muitos não estavam preparados para enfrentar o clima que os esperavam. Mesmo com algumas perdas, eles seguiram em frente, e ficou a dúvida no ar infringida pelo diretor: eles eram tão soldados quantos os que foram para lá de armas em punho? Afinal, preservar a história da humanidade é mais importante do que preservar as vidas que estão em perigo?



O enredo arrastado acaba deixando a obra bem aquém do esperado. No meio da trama, a história dos caçadores se confunde com a história de Viktor Stahl, um homem que trabalha para os nazistas escondendo as obras, e sua secretária Claire Simone (Cate Blanchett). Algumas cenas também parecem não fazer sentido, enquanto outras são absurdamente mal feitas.

As atuações são muito fracas, não trazendo nenhuma espécie de envolvimento com quem assiste do outro lado da tela. George Clooney e Matt Damon até estão bem, mas ainda assim não convencem. Bill Murray parece não saber o que está fazendo ali, e mesmo as presenças de Cate Blanchett, Jean Dujardin e John Goodman não são suficientes para salvar o filme, mostrando mais uma vez que uma boa obra não se faz apenas com bons nomes.


A única coisa positiva que eu ressaltaria é o fato do filme trazer à tona uma história pouco conhecida do público, e que merecia ser mostrada (ainda que de uma forma mais convincente). No mais, é um longa "esquecível", e que não contribui muito aos olhos de quem vê.


Crítica: Tom na Fazenda (2014)


Com apenas 24 anos e quatro filmes na carreira (todos aclamados pela crítica), o ator e diretor Xavier Dolan já deixou de ser uma promessa para se tornar um dos diretores mais respeitados da atualidade. Assumidamente gay, praticamente todas as suas obras abordam a temática homossexual, porém sem os exageros estéticos ou situações apelativas típicos de muitos dos filmes do gênero e sim de forma adulta e madura.


Com Tom na Fazenda (Tom à la Ferme) não é diferente. Baseado na peça de Michel Marc Bouchard, a trama acompanha o jovem Tom (interpretado pelo próprio Dolan), um publicitário que vive em Montreal e que acabou de perder o seu companheiro em um acidente. O enredo se desenvolve através da viagem que ele faz à fazenda da família do ex-companheiro para o seu funeral, e o quanto ela muda para sempre a sua vida.

Ao chegar no local, ele conhece Agathe (Lise Roy), a mãe de Guillaume (o jovem morto), e seu irmão Francis (Pierre-Yves Cardinal), que ele nem sabia da existência. Logo percebe que Agathe desconhecia a verdadeira opção sexual do filho, e que estava esperando na verdade uma namorada mulher. Francis no entanto sabia, e passa a ameaçar Tom caso ele conte a verdadeira história do seu irmão.


No início não sabemos qual a verdadeira relação de Tom com Guillaume. A princípio, eles eram apenas colegas e amigos de trabalho, e em nenhum momento, nem mesmo no final, o diretor deixa explícito que houve uma relação amorosa entre os dois. Pelo contrário, fica tudo implícito nas palavras, nos olhares e nas ações.

Sob pressão, Tom logo se vê obrigado a mentir sobre uma falsa namorada, chamada Sarah, e é interessante como ele passa a colocar todos os seus sentimentos na figura dessa pessoa inexistente, enquanto fala para para Agathe o quanto ela amava e desejava seu filho. Outro ponto interessante é que o diretor não foca a história na relação de Tom com Guillaume, mas sim na forma como Tom precisa lidar com o desfecho de tudo.


O desfecho, por sinal, culmina em uma nova relação de dependência de Tom junto à família, quando esse se aproxima do irmão e ambos passam a ter uma relação forte que pode ser vista tanto como amizade como atração sexual. Impossível não fazer um paralelo com a frase inicial do filme: "Hoje uma parte de mim morreu e eu não posso chorar, pois esqueci todos os sinônimos para tristeza. Agora, tudo o que posso fazer sem você é substituí-lo". É simplesmente brilhante!

A personalidade dúbia de Francis dá ao personagem uma cara enigmática e misteriosa. Ele se ressente de ter 30 anos e ainda morar com a mãe, mas não vai embora porque sabe que ela não sobreviveria sozinha. No entanto quando Tom aparece no local, há uma grande mudança em sua cabeça, e vemos uma explosão de sexualidade nele que aparentemente estava enrustida.

As atuações são excelentes, e se encaixam com o clima de suspense sufocante. O final é subjetivo, e acaba deixando uma incógnita na cabeça do espectador, principalmente pela mudança constante de foco (uma hora é em Tom, outra hora é em Francis, outra hora é no passado de ambos). A fotografia também chama a atenção, misturando belas locações em um clima bastante claustrofóbico.


Por fim, Dolan mostra que cresceu muito, e traz o melhor filme da sua carreira até então. Dessa vez ele não só agradou aos fãs, como também o público em geral. Numa visão fria sobre a história, ele tenta mostrar a dificuldade que ainda existe de homossexuais se assumirem perante a família, mas depois de assistir o filme, a gente percebe que vai muito além disso.


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Crítica: Joe (2014)


Depois de receber muitos elogios da crítica especializada, Joe parecia ser o trabalho que faria o ator Nicolas Cage finalmente sair de uma sequência de filmes ruins, que o tornaram uma incógnita no mundo do cinema. Porém não foi dessa vez, e o irregular diretor David Gordon Green novamente decepciona com um resultado precário e sem qualidade.


A trama conta a história de Joe (Nicolas Cage), um ex-presidiário que comanda um grupo de homens que "envenenam" árvores antes delas serem cortadas por madeireiros. Instável, o personagem leva uma vida errática, dividindo seu tempo entre álcool, prostitutas, e o trabalho na selva.

Durante um dia de trabalho rotineiro, Joe conhece Gary (Tye Sheridan), um garoto de 15 anos que traz no rosto cicatrizes de uma vida desumana. Filho de um pai alcoólatra, e vivendo no meio da miséria, o jovem está desesperado por uma chance de emprego, e após muita insistência do mesmo Joe acaba aceitando-o no grupo.


Na medida em que os dois começam a criar uma forte relação de amizade, principalmente por Joe se tornar a figura paterna que Gary sempre desejou, a mesma começa a ser ameaçada pelo inconstante comportamento do pai do garoto. Além disso, Willie (Ronnie Gene Blevins), um antigo desafeto de Joe, retorna à cidade e passa a ameaça-lo, pondo em risco a vida de todos em volta.

Os personagens são bem trabalhados, mas as atuações não ajudam. Quem chama mesmo a atenção é Gary Poulter, que interpretou o pai de Gary. Sua escolha foi curiosa: ele nunca trabalhou como ator e viveu a vida toda como sem-teto, sendo convidado por Green porque o diretor queria alguém que vivesse a realidade dura do personagem. O fato triste é que Gary morreu dois meses após as filmagens, na rua.


Longe de cativar o público, Joe não peca pela lentidão, mas sim pelo fraco desenvolvimento do enredo. Não dá para dizer que ele é todo ruim, pois possui alguns momentos inspirados. Mas ainda assim é um filme que pode passar batido na vida de qualquer cinéfilo, sem que se perca nada.


Crítica: Omar (2014)


Ovacionado no Festival de Cannes, vencedor do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e finalista do Óscar de 2014 na mesma categoria (o primeiro filme palestino a conseguir tal façanha), o novo filme do diretor Hany Abu Assad (de Paradise Now) já fez história, mostrando com muita sensibilidade toda a tensão que existe na fronteira entre Israel e Palestina.


O filme tem sua história centralizada em Omar (Adam Bakri), um padeiro palestino que mora em Israel e se arrisca a atravessar o muro que separa os dois países para se encontrar com dois amigos de infância, Tarek (Eyad Hourani) e Amjad (Samer Bisharat), além de sua namorada Nadia (Leem Lubany), irmã de um deles.

Tarek comanda um grupo de resistência contra a ocupação, e juntos os três planejam um ataque a um quartel do serviço secreto israelense. Na ação, eles acabam atirando em um soldado, e após investigação da polícia, Omar acaba sendo preso e torturado na prisão para que entregue seus companheiros.


A vida do jovem muda completamente após a passagem pela prisão. Obrigado pelo agente Rami (Waleed Zuaiter) a trabalhar como agente duplo, ele se vê numa encruzilhada. Omar é ofertado com a liberdade de todas as acusações, mas em troca deve entregar Tarek para os agentes. É claro que a sua índole impede que ele traia o amigo, e por conta disso acaba tendo sua vida e sua liberdade ameaçadas a todo momento a partir de então. Além disso, por ter sido liberado da prisão, os vizinhos e amigos começam a achar que ele os traiu de fato, criando uma situação bastante desesperadora para ele.

O enredo é simples mas ao mesmo tempo complexo, e acerta em cheio ao focar na história do jovem sonhador que acaba levando um baque da vida. A cena de tortura na prisão é realmente dura de acompanhar, tamanho o realismo. As atuações são realmente impressionantes, sendo todos os personagens muito bem trabalhados, e algumas referências "americanas" na história caíram como um brinde aos espectadores, como a imitação que Amjad faz de Don Vito Corleone no começo do filme.


Cheio de perseguições e muita ação, algo poucas vezes visto nos filmes de lá, o filme prende a atenção do público do início ao fim, com muitas reviravoltas e cenas memoráveis. O silêncio durante os letreiros finais serve para digerirmos melhor o que acabamos de ver, e como o público do festival de Cannes, aplaudir de pé. 

Omar é de fato um filme marcante, e por isso mesmo merece todos os elogios que recebeu da crítica no último ano. O cinema da região voltou a chamar a atenção e, principalmente, voltou a unir os dois países em um mesmo projeto, o que já é por si uma grande vitória da sétima arte.