sexta-feira, 23 de maio de 2014

Crítica: 7 Caixas (2014)


Maior bilheteria da história do cinema Paraguaio e vencedor de diversos prêmios internacionais, 7 Caixas (7 Cajas), do diretor Juan Carlos Maneglia, é o exemplo mais recente de que o cinema latino-americano vem numa crescente de qualidade como nunca visto antes, mesmo utilizando poucos recursos.


A trama acompanha Victor (Celso Franco), um jovem que trabalha carregando compras dos clientes no seu carrinho em um grande mercado público na cidade de Assunção. O local é conhecido por ter diariamente uma grande concentração de pessoas, misturando feira livre com camelódromo, e ocupa vários quarteirões da cidade.

Apesar da pobreza, Victor não deixa de ser um sonhador. Numa televisão do local ele assiste a filmes americanos de ação e se imagina aparecendo um dia na telinha. Quando sua irmã mostra a ele um novo celular com câmera filmadora embutida (em 2005 isso era uma grande novidade tecnológica) seus olhos brilham, e ele deseja ter um para poder gravar seus próprios vídeos.


Durante um dia normal de trabalho, Victor recebe uma proposta inusitada: carregar sete caixas sem saber do conteúdo que existe dentro delas. As caixas estavam no fundo de um açougue, e a sua missão é dar uma volta com elas até que a polícia desocupe o local, que está sendo investigado. Em troca, lhe é prometida uma nota de 100 dólares. O que ele não esperava é que a partir de então sua vida iria se transformar num verdadeiro filme policial, assim com aqueles que ele adorava assistir.

Assim como o protagonista, nós espectadores também não sabemos o que há nas tais caixas, e quando descobrimos, percebemos junto com ele que o caso é muito mais sério do que se poderia imaginar. Por causa dessas caixas, ele e sua amiga Liz passam a correr perigo, sendo perseguidos por três grupos diferentes: pela polícia, que suspeita do conteúdo da caixa, por um grupo de carreteiros rivais, que acreditam que dentro delas há uma enorme quantia em dinheiro, e pelos contratantes do transporte (o dono e os funcionários do açougue), que as querem de volta pelo conteúdo real.


Mesmo sendo um filme duro e inquietante, ele tem espaço para o bom humor, utilizado em algumas cenas de forma inteligente. A posição da câmera e a trilha sonora frenética faz o filme ter um ritmo alucinante, criando um clima de tensão que sobrevive até o minuto final. O enredo por si é muito bem construído, dando espaço para as excelentes atuações vindas principalmente de atores semi-profissionais e amadores.

Ao meu ver, a única coisa que não se encaixou foi a história das mulheres que trabalham quase como escravas em um restaurante de orientais. A intenção do diretor talvez tenha sido mostrar o quanto as pessoas são capazes de se submeter em troca de dinheiro para o sustento, mas achei meio deslocado, mesmo tendo algumas cenas aproveitáveis.



Apesar de possuir clichês americanos, não dá para dizer que não se trata de um filme inovador. Podemos enxergar essas semelhanças com o cinema do norte como uma espécie de sátira aos filmes feitos por lá, mas com toques regionais e uma ironia própria. Com tamanha originalidade, ainda há quem ouse dizer que do Paraguai só saem coisas falsificadas.


quinta-feira, 22 de maio de 2014

Estreias da Semana (22/05 a 28/05)

A grande estreia dessa semana nos cinemas do país é X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, o sétimo filme da saga baseada nos quadrinhos da Marvel. Com um elenco de peso, o longa promete ser um dos grande campeões de bilheteria desse primeiro semestre do ano. Outro filme que se destacam são A Grande Escolha, protagonizada pelo oscarizado Kevin Costner, e Uma Longa Queda, com o veterano Pierce Brosnan.

Fora do circuito popular, os destaques ficam por conta do mexicano Heli, concorrente do país ao Óscar de melhor filme estrangeiro desse ano, e do espanhol O Que os Homens Falam, com o argentino Ricardo Darín.

A lista completa das estreias vocês conferem abaixo.

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

No futuro, os mutantes foram dizimados pelos Sentinelas, gigantescos robôs criados por Bolívar Trask (Peter Dinklage). Os poucos sobreviventes precisam viver escondidos, caso contrário serão mortos. Numa tentativa de reverter a situação, eles resolvem enviar Wolverine (Hugh Jackman) ao passado.

X-Men: Days of Future Past, Estados Unidos, 2014.
Direção: Bryan Singer
Duração: 132 minutos
Classificação: 12 anos
Ação / Ficção Científica

A Grande Escolha

A equipe de futebol americano Cleveland Browns está tendo uma péssima temporada, e o gerente do time Sonny Weaver Jr. (Kevin Costner) está ameaçado de demissão. No tradicional dia de contratação de novos talentos, Sonny deve provar ao mundo dos esportes que é capaz de trazer os melhores nomes para a sua equipe.

Draft Day, Estados Unidos, 2014.
Direção: Ivan Reitman
Duração: 109 minutos
Classificação: 10 anos
Comédia / Drama

Uma Longa Queda

Na noite de ano novo, quatro pessoas solitárias se encontram no topo de um prédio. Curiosamente, todos têm o mesmo plano: cometer suicídio. Diante da ironia da situação, eles se tornam amigos e fazem um pacto: nenhum deles se matará até o dia dos namorados, em fevereiro.

A Long Way Down, Alemanha/Reino Unido, 2013.
Direção: Pascal Chaumeil
Duração: 96 minutos
Classificação: 10 anos
Comédia / Drama

Heli

Estela (Andrea Vergara) é uma garota de 12 anos que está namorando às escondidas com Beto (Juan Eduardo Palácios), um jovem recruta. Um dia Beto esconde na casa de Estela alguns pacotes com cocaína, que deveriam ter sido queimados pelo exército, mas foram desviados. Os planos de ganhar dinheiro com a droga para deixar a cidade e se casar com Estela vão por água abaixo quando ele passa a ser perseguido pelos militares.

Heli, México, 2013.
Direção: Amat Escalante
Duração: 105 minutos
Classificação:
Drama

Uma Relação Delicada

Após um derrame, a cineasta Maud (Isabell Huppert) precisa enfrentar as limitações físicas do corpo e, ao mesmo tempo, a inevitável solidão da sua vida. Ela recebe em sua casa o artista Vilko (Kool Shen), com quem começa uma inesperada amizade. Cada vez mais envolvida, Maud irá bancar as aventuras comerciais de Vilko.

Abus de Faiblesse, França, 2014.
Direção: Catherine Breillat
Duração: 104 minutos
Classificação: 12 anos
Drama

O Que os Homens Falam

Oito homens enfrentam a crise de meia-idade e passam a questionar a sua identidade masculina, assim como as escolhas da vida e suas consequências.

Una Pistola En Cada Mano, Espanha, 2013.
Direção: Cesc Gay
Duração: 95 minutos
Classificação: 12 anos
Comédia

Crítica: Zulu (2014)


O Apartheid, que dividiu a África do Sul em um dos mais brutais regimes raciais vistos na história, já foi tema de inúmeros filmes e livros, que costumam geralmente mostrar a herança histórica e cultural que aquele período deixou em seus habitantes até os dias de hoje. Zulu, do diretor Jerôme Salle, traz mais uma história original sobre o assunto, e chama a atenção principalmente pelo bom enredo e pelo elenco afiado.


Quando garoto, Ali (Forrest Whitaker) viu seu pai ser brutalmente assassinado durante o regime do Apartheid, além de ter sido violentado pelos policiais enquanto fugia da cena. Essa é uma imagem que jamais saiu de sua cabeça, mesmo agora, anos depois. Ele agora é comandante da polícia na Cidade do Cabo, e lidera um grupo de detetives na investigação de um crime violento contra uma jovem mulher. 

A jovem era filha de um famoso treinador da equipe nacional de Rugby, e seu corpo é encontrado na praia local. Ao investigar mais a fundo os indícios encontrados na cena, os policiais acabam tendo que lidar com gente cada vez mais da pesada e sem nenhum tipo de escrúpulos, descobrindo fatos absurdos do passado.


O filme possui cenas pesadíssimas de violência e tortura, e algumas são realmente difíceis de suportar. O diretor consegue recriar com veracidade o clima de tensão existente nas ruas sul-africanas, onde a violência (assim como no Brasil) parece crescer a cada dia. A situação piora quando uma outra jovem é encontrada morta quase no mesmo local e da mesma forma, criando a hipótese de crimes em série.

Do meio para o final algumas surpresas acabam deixando o filme um pouco confuso. Os crimes foram praticados por um grupo que, no passado, estava envolvido em um projeto de limpeza étnica. A droga Tick, que foi utilizada como arma pelo antigo projeto, voltou às ruas, e dessa vez muito mais mortal, e é por intermédio dela que os crimes acabam ocorrendo.


Os personagens são muito bem construídos, tendo cada um sua própria característica. Entre os policiais responsáveis pela investigação está Brian (Orlando Bloom), dono de uma personalidade bastante problemática. Envolvido com o abuso de álcool e mulheres, ele tem que lidar com uma separação conturbada, com a repugnância do filho para consigo mesmo, e com o dia dia pesado do trabalho.

Já Forrest Whitaker, que é para mim um dos melhores atores do cinema americano, comprova mais uma vez que sabe o que faz. Seu personagem traz no rosto marcas de uma vida sofrida, sobretudo pelo que lhe aconteceu na infância, e mesmo assim mostra ter forças para lutar pela segurança do país. Por fim, Zulu não chega a ser um filme para reverenciar, mas também não é filme para se jogar fora. Não à toa, o filme foi escolhido para encerrar o festival de Cannes de 2013, sendo bastante elogiado pela crítica presente no final da exibição.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

Crítica: The Railway Man (2014)


Você perdoaria alguém que lhe fez passar pelos piores momentos da sua vida? Questões como vingança e perdão são levantadas com bastante sensibilidade pelo diretor Jonathan Teplitzky em The Railway Man, que já entra fácil pra a lista dos melhores filmes do ano.



Eric Lomax (Colin Firth) sempre foi aficionado por trens e um verdadeiro entusiasta de ferrovias. Foi inclusive durante uma viagem de trem que ele conheceu o grande amor da sua vida, Patti (Nicole Kidman). No entanto, o meio de transporte nem sempre foi motivo de alegria para o homem, que traz no rosto e na alma cicatrizes de um período negro da sua vida, que aos poucos vamos descobrindo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Eric foi capturado junto de seus companheiros pelos Japoneses e transportado em trens de carga para um local isolado, onde passou por momentos traumáticos. Obrigado a trabalhar pesado e torturado com veemência enquanto esteve em cativeiro, Eric vive até hoje com as duras sequelas daquele período.


Preocupada com os surtos do marido, Patti vai atrás de um velho amigo seu, que também serviu no exército e presenciou junto dele todos os horrores da Guerra. Através das conversas com Finlay (Stellan Skarsgard), ela começa a descobrir todo o passado do marido, que até então ela desconhecia.

Com apoio de Finlay e de Patti, Eric resolve voltar ao local onde foi torturado para reencontrar um antigo carrasco, após descobrir que ele ainda está vivo, buscando pôr de vez um fim na sua guerra interna. Nagase (Hiroyuki Sanada) ainda vive no mesmo local, e trabalha agora comandando grupos de turistas que vão até lá para visitar um antigo museu de guerra.



A cena do reencontro entre eles é uma das melhores que vi nos últimos tempos. Construída nos mínimos detalhes, ela transmite uma emoção pura, principalmente pela atuação fantástica dos atores envolvidos. Poucos teriam o sangue frio que Eric teve ao ficar frente a frente com um personagem que lhe infringiu tanto sofrimento. Mais do que isso, poucos teriam a força de perdoá-lo e ainda por cima virar amigo.

A história verídica de Eric Lomax é apenas uma entre tantas outras daquele período que nunca foram contadas. O enredo é muito bem feito, e conta com a ajuda de uma trilha sonora belíssima. O começo é confuso, mas as peças vão se juntando com o tempo, formando um quebra-cabeças que nos prende até o final.

No entanto, o que mais chama a atenção é mesmo o elenco. Colin Firth está impecável no papel de Eric já velho, mas quem também merece elogios é Jeremy Irvine, que faz o papel de Eric jovem. Nicole Kidman também tem uma forte presença na pele de Piatti, assim como Stellan Skarsgard no papel de Finlay.



Por fim, The Railway Man tem tudo que um bom filme precisa: elenco afiado, enredo bem construído e trilha sonora marcante. O filme que deverá ganhar o nome de "Uma Grande Viagem" no Brasil, ainda não tem lançamento previsto por aqui, mas deve ser bastante aguardado. Se tiver a chance de assistir, não perca.


quinta-feira, 15 de maio de 2014

Crítica: The Lunchbox (2014)


Na cidade de Mumbai, na Índia, é bastante comum o uso dos "Dabbawallahs", homens que trabalham entregando marmitas para os trabalhadores no horário do almoço. Apesar do grande número de entregas diárias, eles são conhecidos por nunca errarem, sendo um exemplo de organização e competência para o mundo todo. O enredo do filme, no entanto, cria uma situação hipotética onde o grupo comete um grave erro, que por sua vez acaba criando uma situação bastante inusitada.




Na trama, Fernandes (Irrfan Khan) é um viúvo que está prestes a se aposentar. Homem sério, ele vive sozinho, e tem como costume encomendar almoço todo os dias de um precário restaurante da cidade. Do outro lado da cidade vive Ila (Nimrat Kaur), uma dona de casa que aparece no início do filme preparando uma marmita com todo o carinho para o marido antes de deixar nas mãos do entregador.

No caminho, por algum motivo, as marmitas acabam sendo trocadas e quem recebe a comida feita por Ila é Fernandes. Ele estranha a qualidade superior da comida em comparação com os outros dias, mas acredita que o restaurante é que mudou alguma receita ou até mesmo o cozinheiro, sem imaginar a verdadeira origem.




Quando descobre que seu marido não está recebendo sua comida, Ila resolve enviar um bilhete junto com a encomenda para explicar o ocorrido. A partir de então, isso vira uma constante, e os dois passam a se corresponder através dos papeizinhos entregues dentro das embalagens. Mesmo sem nunca terem se visto, e sem conhecerem direito a história um ao outro, eles iniciam uma troca de confidências, e as reflexões sobre a inconstância da vida passam a ser o grande trunfo do filme. 


Ambos buscam na verdade algum sentido para suas existências, principalmente para os dias que virão. Ila se sente desanimada pela falta de atenção do marido, sobretudo quando descobre que ele a está traindo. No entanto, precisa de submeter a tudo por não ter onde ir. Já Fernandes se ressente por se achar velho demais, e acreditar que não viveu a vida como deveria ter vivido.



Ainda que nunca tenham se visto, dá para dizer que o relacionamento entre eles mudou sensivelmente cada um, principalmente Fernandes. Antes sério e descontente com a vida, Fernandes agora consegue até mesmo sorrir, além de ter se tornado menos egoísta e solitário.  
Além da relação com Ila, ele forma uma forte amizade com Shaikh (Nawazuddin Siddiqui), o homem que vai substitui-lo no emprego, e é através dessas duas relações que vamos acompanhando o crescimento interno do personagem.

O enredo foge um pouco daquele estilo "Bollywoodyano", cheio de músicas e clima festivo, e por isso trata-se de uma boa surpresa para quem vai assistir. As atuações são boas, e quem mais chama a atenção é Irrfan Khan, conhecido do público por filmes como Quem Quer Ser Um Milionário e As Aventuras de Pi. O
 diretor estreante Ritesh Batra nos traz um filme complexo e de uma qualidade invejável para qualquer iniciante, que encanta justamente pela simplicidade.