quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Crítica: Chef (2014)


Conhecido principalmente por ter dirigido as duas primeiras sequências do sucesso de bilheterias O Homem de Ferro, o ator e diretor Jon Favreau está de volta às telas, dessa vez com um filme bastante pessoal que celebra a paixão pela culinária e o valor da amizade e do amor em família.


No longa, o próprio diretor é quem interpreta Carl, um renomado chef que comanda a cozinha de um importante restaurante de Los Angeles ao lado de seus amigos Martin e Tony, que no dia-dia aprendem com ele várias dicas de receitas. Buscando inovar, ele acaba sempre sendo reprimido pelo dono do local, Riva (Dustin Hoffman), que exige que ele siga o menu clássico.

Certa noite, um famoso crítico de culinária vai visitar o restaurante para avaliar o trabalho do cozinheiro, e no outro dia, quando a crítica é lançada, acaba não sendo bem o que Carl esperava. Extremamente negativa, a crítica de Ramsey Michael (Oliver Platt) acaba afetando a cabeça de Carl, que descontrolado, xinga o desafeto publicamente na internet causando furor nas redes sociais, sobretudo no twitter.


A repercussão do caso aumenta ainda mais quando ele pede demissão do emprego e um vídeo seu brigando com Ramsey cai na internet. Desempregado e mal quisto por todos os demais restaurantes da cidade, ele recebe a proposta da ex-mulher Inez (Sofia Vergara) de ir para Miami, onde consegue um trailer e passa a vender lanches rápidos na rua.

A partir de então, começa uma nova etapa na vida de Carl, onde ele reencontra a felicidade profissional e pessoal. Até então pouco atencioso com o filho, ele acaba se aproximando do menino, que o ajuda diretamente na nova empreitada. Trabalhando em família, o trailer faz um enorme sucesso. Longe de qualquer clichê, o filme encanta pela simplicidade, e pela mensagem implícita que passa. Carl poderia buscar vingança, poderia se fechar em casa, mas resolveu dar a volta por cima e começar tudo do zero, sem nunca deixar o sonho de ganhar a vida com seus talentos.


O enredo é bem construído, com destaque para as cenas de preparação das comidas, mostradas com primor de detalhes. Fraveau também parece ter escolhido a dedo seus atores, contando com participações especiais de nomes famosos como Dustin Hoffmann, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, John Leguizamo e Sofia Vergara. Por fim, Chef é um filme para ser literalmente apreciado. Com um clima bem família, vai agradar públicos de todas as idades, além de deixar o espectador com água na boca.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Crítica: Amantes Eternos (2013)


De filmes de terror intimistas a filmes adolescentes, o "vampirismo" sempre foi tratado nas telonas, desde os tempos do cinema mudo como no clássico Nosferatu (F. W. Murnau, 1922). Apesar de já parecer saturado, ainda há espaço para novas visões sobre o tema, e dessa vez quem resolveu se aventurar nisso foi o experiente Jim Jarmusch, conhecido por filmes como Dead Man e Flores Partidas.



Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton) são duas criaturas da noite, que vivem separados por um oceano, mas que se encontram assim que podem. Solitários e descolados do mundo em que vivem, ambos buscam nas artes humanas e no amor um sentido para as suas existências eternas.

Adam tem fortes tendências suicidas, e seu único consolo parece vir de Eve e de suas músicas, que ele compõe para si mesmo. Eve já aparenta ser mais centrada, e se encanta pelas pequenas coisas do dia-dia. Um dos pontos positivos da abordagem de Jarmusch é justamente mostrar um lado diferente dos vampiros, o lado de alguém que já viveu milhares de anos e aparentemente tem muita história para contar. 



Não espere ver cenas de ação, mas sim, uma profunda análise da experiência de vida de cada um, fazendo-nos pensar em quanta cultura alguém pode adquirir e quantas pessoas pode conhecer se viver o período em que eles viveram. Aqui, os personagens não possuem aquele instinto violento que se tornou clássico nos filmes de vampiros, mas ao invés disso, são gentis e até mesmo bastante humanos.

A personalidade sombria dos dois se contrasta com a personalidade de Eva (Mia Wasikowska), a irmã mais nova de Eve, que parece estar muito mais integrada ao século 21 do que seus parentes. Alheia aos conhecimentos científicos e intelectuais dos dois, ela pode ser considerada um símbolo da juventude de hoje, cuja cultura está cada vez mais decadente.



Por fim, Amantes Eternos é um filme bastante artístico, cuja lentidão do enredo nos transporta pouco a pouco para dentro da história, ainda que o final deixe um pouco a desejar. De positivo, vale ressaltar a excelente caracterização dos personagens e suas atuações (Tilda e Tom estão impecáveis), assim como a trilha sonora marcante. Um bom entretenimento, que vai além do que a sinopse propõe. 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Crítica: Frank (2014)


Divertido e corajoso, Frank, do diretor estreante Leonard Abrahamson, é um dos filmes mais bacanas desse ano, e vem chamando positivamente a atenção de boa parte da crítica especializada, graças a sua atmosfera inebriante e seus personagens complexos e peculiares.



Jon Burroughs (Domhnall Gleeson) é um jovem garoto inglês, que divide seu tempo entre navegar na internet, trabalhar em um escritório, e compôr suas próprias músicas no teclado. Certo dia, por um mero acaso, ele acaba sendo chamado para substituir o tecladista da exótica Soronprfbs, uma banda com som completamente esquisito e incomum.

No entanto, não é só o som da banda que é estranho, mas também todos os seus integrantes. A começar pelo vocalista, Frank (Michael Fassbender), um homem que vive com uma cabeça gigante acoplada, e que não a tira nem para dormir. Sua performance extravagante conquista admiradores por onde passam, mas o comportamento dos outros membros acaba botando sempre tudo a perder, com brigas acirradas em cima do palco, diante de todos.



Para gravar um disco, a banda decide se isolar por um tempo, para segundos eles, encontrar a essência que a música precisa. Nesse ínterim, vamos conhecendo bem mais a fundo a personalidade por trás da cabeçorra de Frank. Quem ele é? O que houve com ele? Por que ele não deixa que ninguém veja seu rosto?

Apesar de ser considerada uma comédia, é notório que a partir desse ponto o diretor começa a dar um ar dramático à trama. Ao mostrar o passado de Frank, e suas internações em clínicas psiquiátricas, vamos adentrando em uma história densa, com cenas profundas, mas sem deixar o carisma do enredo de lado.



Os personagens são criativos, emocionais, e nada caricatos. O destaque fica por canta da atuação do promissor Domnhall Gleeson, da sempre bela Maggie Gyllenhaal e de Michael Fassbender, cuja participação brilhante consiste apenas em gestos e voz, dando uma aura única a um dos personagens mais queridos e emblemáticos dos últimos anos.

Com um clima indie, inclusive na trilha sonora e na fotografia, Frank é sem dúvida um dos filmes mais interessantes de 2014. Elogiado no festival de Sundance, é pouco provável que seja lançado comercialmente por aqui. No entanto, para quem quiser ver algo inovador e diferente, o download do filme não é difícil de encontrar.


Crítica: Sin City - A Dama Fatal (2014)


É apenas mais uma noite em Sin City, mas quem assistiu ao primeiro filme e conhece as histórias em quadrinhos criadas por Frank Miller, sabe que isso pode querer dizer absolutamente qualquer coisa. Nessa sequência, Robert Rodríguez repete a mesma fórmula que fez de Sin City - A Cidade do Pecado um sucesso em 2005. A única diferença é a qualidade dos efeitos, que já haviam sido impressionantes há nove anos atrás, e que melhoraram ainda mais com o avanço da tecnologia.



Assim como no primeiro filme, o longa reúne pequenas histórias paralelas, que se cruzam ou não pelas sombrias ruas da cidade, contadas de forma não cronológica. Logo de início somos reapresentados a Marv (Michael Rourke), personagem emblemático do primeiro filme, que acorda no meio de escombros sem lembrar direito o que aconteceu, tentando buscar a todo custo as memórias da última noite.

De súbito, somos apresentados à história de Johnny (Joseph Gordon-Levitt), um exímio jogador de pôquer que vai até a boate Kadie's para desafiar o invencível senador Roark (Powers Boothe). De todas, essa é a única estória que foi escrita exclusivamente para as telas, mas infelizmente parece não ter seguido uma linha de raciocínio, nos fazendo perguntar o porque de sua existência. Até começa bem, mas desanda e termina numa repetição sem sentido.



Outro personagem que retorna do primeiro filme é Nancy (Jessica Alba), uma das dançarinas da boate do senador. Diferente do primeiro filme, onde ela tem destaque, dessa vez ela busca o tempo todo (e somente isso) vingar a morte de John (Bruce Willis), e isso parece não ter sido desenvolvido como deveria. Quem também volta e muito bem é Dwight, interpretado dessa vez por Josh Brolin e não mais por Clive Owen.

Por último tem a história que dá nome ao filme, da "dama fatal" Ava Lord (Eva Green), uma mulher que usa todo seu sex-appeal para conseguir o que quer dos outros, principalmente de Dwight. O que estraga o ritmo do filme, no entanto, é que o clímax dessa história, que teoricamente seria a principal, nos chega cedo demais, fazendo com que o que vem depois seja uma espécie de prólogo deprimente.



Como entretenimento vale a pena, mas é bastante inferior ao primeiro, e não é algo relevante para se lembrar futuramente. Pelo contrário, o filme carece de um propósito, e o enredo apesar de entreter, parece não levar a lugar algum.  No entanto, deixo claro que nem tudo nele é ruim. Os diálogos divertidos, a trilha sonora frenética e a fotografia chamam a atenção.


domingo, 28 de setembro de 2014

Recomendação de Filme #55

Vênus Negra - Abdellatif Kechiche (2010)

Do diretor Abdellatif Kechiche (de Azul é a Cor Mais Quente e O Segredo do Grão), Vênus Negra é um dos filmes mais dilacerantes que tive a oportunidade de assistir. Não é à toa que ele chocou o mundo ao ser lançado em 2010 no Festival de Cannes, onde muitos não conseguiram aguentar até o fim da sua exibição. Com cenas fortes e extremamente reais do que de mais grotesco existe no ser-humano, é um filme para quem tem estômago.


No início do século XIX, existia em Londres um bairro que era conhecido por apresentar diversos shows de horrores, com participação de anões, mulheres barbadas, pessoas deformadas, e outras atrações consideradas bizarras para a época. Dentre elas estava Saartjie Baartan, uma empregada doméstica africana que foi levada à Inglaterra pelo seu patrão, Hendrick Caesar, com a promessa de ganhar dinheiro se apresentando artisticamente nos palcos do país, mostrando as danças e a música de seu país natal.

Oriunda da tribo dos hotentotes, cuja característica predominante era o acúmulo de gordura nas nádegas e o "avental hotentote", uma anomalia nas regiões genitais, Saartjie passou a ser publicamente anunciada como a selvagem "Vênus Hotentote", muito diferente do que ela tinha em vista. Obrigada a utilizar uma coleira, o espetáculo com Saartjie consistia nela dentro de uma jaula, onde Hendrick, fingindo ser um explorador da vida selvagem, tentava "domá-la" diante de um público em fervorosa.



Diariamente humilhada, ela não tinha para onde ir, e em troca de pão e whisky, que ela bebia para esquecer todas as mágoas, teve que se submeter a isso durante anos. Quando as autoridades locais começaram a investigar a apresentação, Hendrick juntou seu grupo e fugiu para Paris, onde segundo seu parceiro ..., era um lugar onde tudo era permitido. Na capital francesa ela não era mais vista apenas como aberração. Para aradar a aristocracia deprava, ela era obrigada a participar de shows eróticos e até mesmo vender seu corpo para sobreviver.

A triste história choca ainda mais por ter sido real. O começo do filme, aliás, começa em uma conferência científica em Paris, no ano de 1815, onde pesquisadores usam a imagem de Saartjie para exemplificar as características da sua tribo, tentando de alguma forma estreitar a relação do homem com o macaco, e comprovar a inferioridade da raça negra perante a raça branca. Isso na época era comum, como forma de fazer com que o racismo fosse uma argumentação aceitável.



Exibida em um museu francês até a década de 1980, Saartjie virou um símbolo da luta pelos direitos humanos. Já no final do filme, acompanhamos o retorno dos seus restos mortais para sua terra natal, a África do Sul, em 2002, quase dois séculos depois. Recebida com homenagens, inclusive pelo chefe de Estado da época, Nelson Mandela, ela é hoje considerada um dos grandes heróis do país, o que infelizmente não faz com que toda sua dor diminua.

O grande destaque fica por conta da atriz cubana Yahima Torres, que aliás era estreante quando fez o papel. Seus olhares e suas feições contrastam com a situação e o ambiente em que ela é obrigada a viver. Apesar de todo o sofrimento, a personagem quase não chora, com exceção em duas cenas, que são realmente de cortar o coração.


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Mais do que tudo, a principal intenção de Kechiche talvez tenha sido nos questionar até onde vai a curiosidade e a exploração humana perante alguém considerado fora dos padrões, e o quanto isso é nocivo. Hoje não temos mais shows de horrores como antigamente, mas isso não impede que, diariamente, muitos ganhem em cima dos outros da mesma forma ou ainda pior, e isso é algo que infelizmente nunca vai mudar.