quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Crítica: Mapa para as Estrelas (2014)


Fazer uma crítica ao modo de vida repulsivo que muitas das celebridades de Hollywood levam. Essa talvez tenha sido a intenção principal do experiente diretor David Cronenberg em seu mais novo trabalho Mapa Para as Estrelas (Maps to the Stars), que estreou no Festival de Cannes desse ano. No entanto, com suas metáforas e excentricidades, o filme fica bem abaixo do que o esperado.


Agatha (Mia Wasikowska) acaba de chegar à Los Angeles, terra das estrelas de cinema e da cultura pop em geral, onde será entrevistada por Havana Segrand (Juliane Moore) para ser sua nova assistente. Havana, por sua vez, é uma atriz decadente, que busca recuperar sua carreira participando da refilmagem de um filme que sua mãe fez há 30 anos atrás mas perde a chance para uma atriz mais nova.

Nesse ínterim, o filme também acompanha Benjie (Evan Bird), um jovem ator arrogante de 13 anos que desde cedo já se acha o centro do mundo. Recém saído da clínica de reabilitação (sim, com essa idade), ele ficou conhecido por seu papel no sucesso "A Babá" e acabou de ser contratado para filmar a sequência do filme.



No meio disso tudo, somos apresentados à festas e badalações da vida das celebridades. Filmes que montam um mosaico da decadência de Hollywood vem sendo constantes, mas se esperava que a mão de Cronenberg trouxesse algo de novo para esse subgênero, o que não ocorreu. Os personagens tem que lhe dar com fantasmas do passado, literalmente, mas isso fica muito precário no enredo. 

Aos poucos os "segredos" vão sendo desvendados, mas de forma extremamente previsível, e o filme parece se perder completamente do meio para o final. Além da maioria dos personagens serem extremamente caricatos, alguns são extremamente desnecessários, como Stafford Weiss (John Cusack), uma espécie de guru das celebridades, sua esposa (Olivia Williams), além de um motorista e aspirante a ator (Robert Pattinson).


No fim, Cronenberg tenta fazer um traço de Hollywood com seus personagens vazios e pobres de espírito, mas o enredo é tão vazio quanto eles próprios. O único elogio é realmente para Juliane Moore, que levou o prêmio de melhor atriz em Cannes. O resto, pode ser considerado descartável.


Crítica: O Teorema Zero (2014)


Poucas mentes são tão férteis quanto a do diretor Terry Gilliam, com suas ideias mirabolantes e surreais. De volta à ficção científica após 20 anos do sucesso Os 12 Macacos, em O Teorema Zero (The Zero Theorem) ele não consegue transpôr para a tela o que pretendia, trazendo um filme confuso e abaixo da média.



Qohen Leth (Christoph Waltz) é um exemplar operador da empresa Mancon. Vivendo enclausurado em uma igreja abandonada, rodeado de computadores e fios, ele passa os dias esperando uma ligação que supostamente lhe dirá o sentido da sua vida, enquanto busca encontrar a fórmula do misterioso Teorema Zero.

Aqui Gilliam cria sua própria visão de um mundo futurista, com carros pequenos onde cabem apenas uma pessoa (que mostram a individualidade cada vez mais presente), vitrines coloridas que falam com os pedestres, e tecnologia ultra avançada. Além disso, todos são vigiados por uma espécie de "entidade suprema".


O personagem fala sempre na primeira pessoa do plural, como se tivesse uma personalidade dúbia. Apesar da sociedade parecer mais pacífica, Qohen diz que não consegue mais lembrar da última vez que foi feliz, e busca através de Bainsley (Melanie Thierry) alguns momentos de fuga da realidade.

Apesar da direção de arte impecável, não fica bem claro qual a verdadeira intenção do diretor, e o filme se perde em confusões e devaneios que só mesmo Gilliam parece entender. Mesmo com todos os defeitos, uma coisa há que se dizer sobre o filme: Christoph Waltz nos mostra mais uma atuação impecável, em um papel completamente diferente de tudo que ele já havia feito. Careca e pálido, ele personifica com perfeição o personagem anti-social e cheio de tiques nervosos.



Por fim, Gilliam é um diretor conhecido por seus altos e baixos, mas aqui ele chegou no mais fundo degrau. O clima de paranoia prende até o fim, mas mas não passa de uma alegoria para esconder a falta de coesão em tudo. É certamente um dos filmes mais decepcionantes de 2014.


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Estreias da Semana (16/10 a 22/10)

Cinco filmes estreiam nessa quinta-feira no Brasil, e o destaque fica para O Juiz, drama estrelado por Robert Downey Jr. Confira a lista completa abaixo.

O Juiz

Hank Palmer (Robert Downey Jr.), um advogado de enorme sucesso, retorna à cidade onde nasceu para o velório de sua mãe. No local, acaba descobrindo que seu pai, sempre ausente durante sua criação, é apontado pela polícia como um dos principais suspeitos pela assassinato. Apesar dessa distância que os separaram, ele decide defendê-lo no tribunal.

The Judge, Estados Unidos, 2014.
Direção: David Dobkin
Duração: 141 minutos
Classificação: 14 anos
Drama

Fúria

Paul Maguire (Nicolas Cage) esteve envolvido durante muito tempo com o mundo do crime, mas hoje ele tenta viver uma vida tranquila, protegendo sua filha. Um dia, no entanto, a garota desaparece e Paul decide reunir os amigos de antigamente para se vingar dos responsáveis, líderes da máfia russa.

Rage, Estados Unidos/França, 2014.
Direção: Paco Cabezas
Duração: 98 minutos
Classificação: 16 anos
Ação / Suspense

Festa no Céu

O jovem Manolo tem dúvidas entre cumprir as expectativas impostas por sua família de toureiros ou seguir a vontade de seu coração, a música. Tentando se decidir, ele embarca em uma viagem por três diferentes mundos: o dos vivos, o dos esquecidos e o dos eternizados.

The Book of Life, Estados Unidos, 2014.
Direção: Jorge R. Gutierrez
Duração: 95 minutos
Classificação: livre
Animação / Aventura / Comédia

Sobrevivente Urbano

Saindo do trabalho, Daniel (André Di Mauro) flagra o famoso jornalista Erick Mayer (Carlos Bonow) sendo ameaçado por um grupo de criminosos. Ele registra a cena em seu celular e, após ser surpreendido, torna-se alvo do líder da gangue, Tony (Toni Garrido) e do delegado Cesar Romero (Luciano Szafir). Perseguido, ele precisa encontrar uma forma de salvar a esposa, sequestrada pelos bandidos.

Sobrevivente Urbano, Brasil, 2014.
Direção: José Claudio Silva
Duração: 113 minutos
Classificação: 16 anos
Ação / Drama / Suspense

Na Quebrada

O filme segue a trajetória de um grupo de jovens de classe baixa, que entre histórias de perdas e violência, descobrem uma nova maneira de expressar as suas ideias e suas emoções: o cinema.

Na Quebrada, Brasil, 2014.
Direção: Fernando Grostein Andrade
Duração: 94 minutos
Classificação: 14 anos
Drama

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Crítica: Boyhood - Da Infância à Juventude (2014)


Assistir Boyhood - Da Infância à Juventude (Boyhood) é ter a certeza de que se está diante de algo histórico para o cinema. Não pelo enredo em si, que até parece relativamente simples, mas pela forma como ele foi filmado. As gravações do longa se estenderam por doze anos e acompanham, literalmente, a passagem da infância para a adolescência de Mason (Ellar Coltrane), dos 6 aos 18 anos, comprovando mais uma vez que o diretor Richard Linklater (da trilogia "Before") sabe brincar com o tempo como ninguém.



Mason e sua irmã Samantha (Lorelei Linklater) desde cedo foram obrigados a conviver com a desarmonia dentro de casa. Após inúmeras brigas, seus pais optaram por se separar, ficando os dois sob a guarda da mãe. A mãe (Patricia Arquette), por sua vez, não demora muito para se casar novamente, mas com o passar do tempo o novo marido se mostra um homem rígido e, para piorar, alcoólatra, que destrata ela e as crianças.

Enquanto isso, os dois crescem vendo o pai biológico (Ethan Hawke) esporadicamente. Mesmo quilômetros distante, ele tem um forte apego pelos filhos, e tenta fazer cada passeio junto deles ser inesquecível para ambos. Essa relação mostra bem o que estamos acostumados a ver ao nosso redor, de filhos que são obrigados a conviver com a separação dos pais, mesmo que não entendam direito o motivo e o que de fato está acontecendo.



Aliás, mudanças são constantes na vida dos dois. Prova disso é que durante os doze anos do filme eles moram em pelo menos 4 casas diferentes, pulando de colégio em colégio e, consequentemente, sendo obrigados a fazer novas amizades o tempo todo. O filme fala exatamente do tempo, da vida em família, das lembranças e recordações que ficam, do valor das amizades e sobretudo dessa inconstância da vida.

O que impressiona é que o diretor não puxa nem para o lado do drama emocional, nem para o lado da comédia, e consegue levar o enredo até o fim com simplicidade e sem parecer falso. Nem vemos o tempo passar, e é impossível não amar cada um dos personagens, principalmente Mason. É como se estivéssemos folheando o álbum de recordações de um garoto que faz coisas comuns como qualquer um de nós, mostrando momentos específicos que boa parte de nós já passou em algum momento.


O filme não tem um fim propriamente dito, deixando para nós imaginarmos o restante da vida de Mason da forma como quisermos. Após os créditos, fica um sentimento nostálgico, como se a vida de qualquer um de nós também pudesse dar um filme. A vida mostrada como ela é, com suas angustias, seus dramas, mas com seus momentos bons e únicos. As lembranças de amigos que se separam, das primeiras namoradas, dos colegas que marcaram, sempre acompanhados de diálogos marcantes e bem construídos.

É impactante a forma como os atores vão envelhecendo junto com a história. Todos os anos, o elenco se reencontrava para filmar novas cenas, que aparecem de forma cronológica no filme. O resultado final é primoroso na tela. Os quatro personagens principais parecem realmente estar vivendo aquele cotidiano, e não atuando, tamanha veracidade das atuações.


Uma das coisas que também impressiona é a trilha sonora. Começando com Yellow do Coldplay, e terminando com Arcade Fire, as músicas vão acompanhando a passagem do tempo de forma cronológica, sendo um diferencial a mais. Além da música, há menções sobre outros setores da cultura pop e até mesmo as campanhas presidenciais, sempre indicando implicitamente o ano em que estamos.


Por fim, não é à toa que o diretor prometeu devolver o dinheiro de quem não gostar da história, pois é realmente difícil imaginar que alguém não goste. Após sua exibição no último Festival de Berlim, o filme foi ovacionado como uma banda de rock, e desde já se mostra ser uma das principais apostas para as grandes premiações do ano, sendo um dos melhores filmes das últimas décadas.


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Crítica: Dois Dias, Uma Noite (2014)


O cinema na Bélgica vem em uma crescente, e isso se dá em grande parte pelo sucesso dos irmãos Dardenne nesses últimos anos. Depois de O Filho, A Criança e o Silêncio de Lorna, dessa vez eles nos presenteiam com o excelente Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit), um dos destaques no Festival de Cannes desse ano.




Sandra (Marion Cotillard) está vivendo um período conturbado em sua vida. Sofrendo de uma depressão profunda, ela acabou de perder o emprego após seus colegas votarem por um bônus ao invés de votarem pela sua permanência. Ao descobrir que eles podem ter sido persuadidos pelo chefe, ela implora por uma nova chance e ganha o direito de uma nova votação.

A partir de então começa o martírio de Sandra, que decide ir atrás de cada um deles para convencê-los a mudar de ideia. Contando com a ajuda do marido (Fabrizio Rongione), eles passam todo o fim de semana visitando cada um deles, em diferentes partes da cidade, sendo recebidos de todas as formas possíveis.



A tarefa não é nada fácil, afinal de contas, ninguém quer abrir mão de ganhar um bom dinheiro em troca de ajudar alguém que mal conhece. Mais do que isso, até mesmo quem se dizia amigo(a) de Sandra de repente não se prontifica a ajudá-la, mostrando uma verdade absoluta de que você só conhece as pessoas ao seu redor quando precisa delas.

No entanto, é interessante perceber que esses colegas de Sandra que se negam a votar a seu favor não podem e nem devem ser julgados como errados. Até porque é difícil imaginar o que cada um de nós faria na mesma situação. Cada um deles tem uma família para sustentar, e alguns já fizeram até planos para o uso do dinheiro extra.



Por conta disso, as reações são as mais diversas. Alguns aceitam votar ao favor de Sandra, inclusive com um certo sentimento de culpa por ter votado diferente na primeira vez. Outros são atenciosos e complacentes com sua dificuldade, mas mesmo que no fundo queiram muito ajudar, não conseguem abdicar da vantagem financeira. Há ainda os que são ríspidos, e nem sequer aceitam falar com ela. 

O enredo é preciosíssimo e consegue segurar a tensão até o final. Na medida em que o filme passa, o clima de suspense para o seu desfecho vai aumentando, criando um sentimento de torcida no espectador para com a jovem mulher. Afinal, todos querem ver o melhor para ela, sobretudo depois de tudo que ela fez.



Marion Cotillard, uma das atrizes mais respeitáveis da atualidade, está impecável no papel principal. Outro ponto que me chamou a atenção foi a trilha sonora. Situações corriqueiras, que podem acontecer a qualquer um, fazem o filme criar uma empatia ainda maior com o público. No mundo, para que alguém ganhe, outro tem que perder, e essa balança muitas vezes acaba sendo injusta.