domingo, 31 de dezembro de 2017

Os 20 Melhores Filmes Lançados no Brasil em 2017

Mais um ano chegou ao fim e é hora de fazer a famigerada lista dos melhores filmes lançados no Brasil neste período. Curiosamente, desde que comecei a fazer as listas de fim de ano, esta é a primeira vez que praticamente nenhum diretor consagrado está presente, o que mostra que há um mercado muito bom de jovens cineastas surgindo e fazendo seu nome, com ótimas histórias. Sem delongas, vamos à lista com os 20 melhores filmes que estrearam nos nossos cinemas em 2017:


20. Clash, de Mohamed Diab (Egito)


Conhecido pelo fantástico Cairo 678, o diretor Mohamed Diab volta a mostrar as ruas de Cairo, desta vez durante um dos momentos mais tensos do país nos últimos anos. Em 2013, logo após assumir o governo democraticamente, o presidente eleito pelo povo Mohamed Morsi foi derrubado pelo exército, o que causou uma série de protestos e atentados que literalmente botaram fogo na capital do Egito. Durante um destes protestos, algumas pessoas, de lados diferentes do conflito, acabam ficando presas dentro do camburão da polícia. A partir de então, toda a ação do filme acontece dentro deste espaço pequeno e claustrofóbico, mostrando um retrato nu e cru da população egípcia contemporânea e seus ideais.

19. Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi (EUA)

Em plena Guerra Fria, enquanto Estados Unidos e União Soviética travavam uma batalha pela supremacia na corrida espacial, dentro do território americano ocorria outra batalha: a pelos direitos civis, numa sociedade que ainda dividia negros e brancos em lugares públicos. Isso era refletido inclusive na NASA, onde um grupo de mulheres negras era obrigado a trabalhar em separado dos demais. Juntas, essas mulheres conseguiram vencer o preconceito e liderar um dos momentos mais importantes da era espacial americana, quando o país começou a enviar os primeiros homens em direção à lua.

18. Extraordinário, de Stephen Chbosky (EUA)

O que um filme precisa para tocar o meu coração? Simplicidade. E isso não falta em Extraordinário, filme baseado no best-seller de R. J. Palacio. Quem leu o livro sabe como é emocionante e ao mesmo tempo otimista a história de Auggie, um menino que nasceu com uma deformação facial, e o diretor conseguiu transferir ao filme esse mesmo sentimento. Interpretado brilhantemente por Jacob Tremblay (de O Quarto de Jack), Auggie precisa enfrentar o maior desafio de sua vida: entrar para a escola e ter que encarar os olhares de reprovação das outras crianças por conta de sua aparência.

17. The Discovery, de Charlie McDowell (EUA)

Algumas perguntas existenciais nunca abandonam o ser-humano. Até hoje ninguém foi capaz de responder de onde viemos, ou para onde vamos, por exemplo. O filme de Charlie McDowell foca na segunda pergunta, e mais polêmica de todas, e nos faz refletir sobre o que aconteceria se hoje fosse comprovado que existe vida após a morte. Logo que um cientista anuncia a descoberta, cresce exorbitantemente o número de suicídios pelo mundo, já que as pessoas começam a crer que suas "pós-vidas" serão muito melhores do que as vidas que levam na Terra. Como era de se esperar, o filme é pura filosofia, e talvez por isso tenha desagradado o público geral que o rejeitou fortemente. Mas uma coisa é certa: acreditando ou não no que o filme mostra, é impossível ficar indiferente ao que é abordado e não querer refletir sobre isso.

16. Era o Hotel Cambridge, de Eliane Cafféé (Brasil)

Centenas de famílias desabrigadas vivem no prédio abandonado onde um dia existiu o Hotel Cambridge, no centro de São Paulo. No local vivem brasileiros e estrangeiros vindos de todos os lugares, muitos fugindo de guerras e genocídios em seus países de origem. Misturando ficção com realidade, atores com moradores de verdade, o filme mostra o dia dia dessas pessoas, além de contar um pouco da história de cada um. São crianças e adultos, que juntos vivem um futuro incerto, principalmente quando chega uma ordem de reintegração de posse dando um prazo para eles saírem do local.

15. La Ragazza del Mondo, de Marco Danieli (Itália)

Em La Ragazza del Mondo, acompanhamos a vida da jovem Giulia (Sara Serraioco), uma jovem italiana que vive uma fase de descobertas, como é comum da idade, mas se sente presa pelo conservadorismo dos pais, testemunhas de jeová. Quando conhece um outro jovem da escola, completamente oposto a ela, Giulia começa a se soltar das amarras da família, mas nem tudo é como parece ser, já que o relacionamento se torna abusivo.


14. Star Wars: Os Últimos Jedi, de Rian Johnson (EUA)


40 anos depois do lançamento do primeiro filme, Star Wars voltou mais uma vez às telas para alegria de milhares e milhares de fãs espalhados pelo mundo. Na trama de Os Últimos Jedi, oitavo filme da saga, a resistência liderada pela princesa Leia vive dias difíceis. Obrigados a abandonar sua base principal após ataque da Primeira Ordem, eles vagam pelas galáxias fugindo dos caças do líder supremo Snoke, e a única forma de escapar é entrar dentro da nave inimiga para desativar seu dispositivo de rastreamento. Ao mesmo tempo, a jovem Rey passa a receber os ensinamentos do mestre Jedi Luke Skywalker em uma ilha isolada, enquanto descobre os poderes da força.


13. Mulheres Divinas, de Petra Biondina Volpe (Suíça)


Mulheres Divinas se passa nos anos 1970 e mostra a luta das mulheres pelo direito ao voto na Suíça, um dos últimos países do mundo a aceitar isso. Baseado em fatos reais, ele conta a história sob a perspectiva de Nora (Marie Leuenberg), uma dona de casa que mora com o marido e dois filhos em uma pequena aldeia. Por ser um local isolado, as mudanças que ocorreram no mundo nos últimos anos não chegou por aqui ainda, e os moradores vivem numa sociedade ainda machista e patriarcal, onde mulheres não tem direito a nada. Depois de ter contato com as ideias feministas, Nora passa a tentar trazer as outras mulheres da vila para unirem forças e mudar essa realidade.

12. Minha Vida de Abobrinha, de Claude Barras (França/Suíça)

Em plena era das animações ultrarrealistas, é lindo de ver um filme como Minha Vida de Abobrinha, todo feito com bonecos em Stop Motion e extremamente sensível. O filme acompanha o menino Icare, que prefere ser chamado de Abobrinha. Órfão de pai, ele vivia com a mãe alcóolotra até a morte dela, quando o menino vai parar em um orfanato. O filme acompanha a partir de então o cotidiano dele em meio às outras crianças com o mesmo destino, cada um com sua individualidade e sua forma de lidar com as rejeições da vida. O enredo é muito bonito, misturando momentos de graça com momentos de drama, sem deixar de ter um fundo de reflexão social.

11. Brimstone, de Martin Koolhoven (Holanda)

Com um enredo enigmático e muito bem escrito, o filme do holandês Martin Koolhoven se passa no século XIX e discorre sobre o desejo de vingança em meio a um clima de faroeste perturbador. Dividido em quatro capítulos, o filme conta de trás para a frente a história da jovem Liz (Dakota Fanning), uma mulher muda que vive com o marido e o filho dele. Tudo ia normal até a chegada na cidade de um novo reverendo (Guy Pearce), que tem uma história passada com Liz que vai sendo descoberta na medida em que os capítulos passam. Chocante, imprevisível e diferenciado, Brimstone é daqueles filmes que dá gosto de ver o cinema produzir em uma época em que a criatividade está em falta.

10. Bingo - O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende (Brasil)

Aclamado pela crítica, Bingo - O Rei das Manhãs é mais um exemplar do excelente momento atual do cinema brasileiro. O filme conta a história de Arlindo Barreto, que se tornou ícone da televisão brasileira ao dar vida ao palhaço Bozo, sucesso de audiência nos anos 1980 no SBT. Arlindo (que no filme virou Augusto por questões contratuais) ganhava a vida participando de pornochanchadas até, sem querer, ir parar na audição para fazer o papel do palhaço, que já era sucesso nos Estados Unidos. Sua criatividade conquistou a equipe de produção e lhe rendeu o papel, mas apesar de conquistar o país inteiro, ninguém o conhecia, já que ele era obrigado a esconder seu rosto a todo custo. Esse fato, aliado ao uso cada vez mais constante de drogas, pôs fim a uma carreira que tinha tudo para durar décadas.

9. Okja, de Joon-Ho Bong (Coréia do Sul/EUA)

Após o sucesso do excelente Expresso do Amanhã, o sul-coreano Joon-Ho Bong volta mais uma vez aos holofotes com um filme extremamente humano. Lançado diretamente na Netflix, Okja logo encanta pela bonita amizade criada entre Mija e seu "superporco", um porco fêmea gigantesco que foi modificado em laboratório pela empresa da megalomaníaca Lucy (Tilda Swinton). Os problemas começam quando a empresa quer de volta o animal, e Mija começa a fazer de tudo para não se separar da melhor amiga.

8. Frantz, de François Ozon (França)

O francês François Ozon é um dos diretores mais badalados dos últimos anos, e sua sensibilidade em contar histórias conquistou muitos admiradores. Com diálogos marcantes e poéticos, Frantz é sem dúvida o melhor filme até então de sua carreira, ou pelo menos o que mais mexeu comigo. O longa se passa após o fim da Primeira Guerra Mundial e acompanha Anna (Paula Beer), uma mulher que visita todos os dias o túmulo do marido morto em combate. Tudo normal até que um dia ela avista um homem desconhecido deixando flores na lápide. Indo atrás do homem, ela descobre se tratar de Adrian (Pierre Niney), um francês que logo revela ter se tornado amigo de Frantz em Paris antes da guerra começar. Aos poucos a figura de Adrian vai sendo desmistificada e segredos da vida na guerra começam a surgir.

7. Até o Último Homem, de Mel Gibson (EUA)

Depois de 10 anos sem lançar um filme, Mel Gibson voltou com essa obra-prima que se passa na Segunda Guerra Mundial. A trama acompanha Desmond Ross (Andrew Garfield), filho de um militar aposentado que é assumidamente contra todo e qualquer tipo de guerra. No entanto, com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, milhares de jovens se alistaram para lutar e Desmond se sentiu culpado por não estar lutando ao lado deles. Mas como um homem que se nega a pegar em armas pode ir para um campo de batalhas? Essa é a grande questão do filme.

6. Contratiempo, de Oriol Paulo (Espanha)

Quem assistiu El Cuerpo e ficou extasiado com o plot twist fantástico no final, vai se encantar novamente com mais uma obra do diretor Oriol Paulo. Contratiempo, lançado diretamente na plataforma da Netflix, é talvez o melhor filme de suspense do ano. A vida de Adrian ia bem, com dinheiro, fama e uma bela família, mas tudo muda quando ele acorda num quarto de hotel e se depara com sua mulher morta no banheiro. Sem lembrar de nada do que aconteceu, a polícia o transforma no principal suspeito, e ele precisa contratar uma advogada para fazer sua defesa. É aí que começam as revelações.

5. Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky (Brasil)


Como Nossos Pais cativa o espectador pela sutileza em abordar assuntos aparentemente simples, porém extremamente complexos, como a relação familiar, o autoconhecimento, e o papel da mulher na sociedade moderna. Durante um almoço de família, a mãe de Rosa (Maria Ribeiro) conta a ela que seu pai não é seu pai de verdade. A partir desta descoberta, Rosa começa a reavaliar todas as suas escolhas e a procurar um verdadeiro sentido pra vida. Entre as diversas questões abordadas pelo filme, está a necessidade que temos, diante das adversidades e surpresas da vida, de abrir mão de algo por um bem maior. Focando nas relações humanas e suas nuances, o longa de Laís Bodansky é o melhor filme nacional do ano.

4. Eu, Daniel Blake, de Ken Loach (Irlanda)

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2016, o britânico Ken Loach prova que, aos 80 anos de idade, ainda sabe abordar os problemas sociais contemporâneos como poucos. Com um enredo devastador que versa, sobretudo, a respeito da dignidade humana, Eu, Daniel Blake faz uma crítica contundente aos sistemas governamentais e suas burocracias. Daniel Blake (Dave Johns) é um carpinteiro de 59 anos que acaba de sofrer um ataque cardíaco. Impedido pela sua médica de trabalhar, ele busca conseguir um benefício financeiro ao qual tem direito, mas é aí que os problemas começam, já que o sistema é falho e demorado.No mundo de hoje, quem vive de auxílios, mesmo necessitando de verdade, é taxado de aproveitador e preguiçoso, e o filme tenta desmistificar isso. Eu, Daniel Blake é um filme para se refletir, independente de sua posição política. Pelo menos é o que se espera. Com uso do bom humor, Loach consegue trazer uma linguagem de fácil compreensão e nenhum didatismo. É a vida como ela é, a realidade crua de uma sociedade onde, quem pouco tem, não recebe o merecido respeito

3. Um Homem Chamado Ove, de Hannes Holm (Suécia)

Ove (Rolf Lassgard) à primeira vista é o típico rabugento da terceira idade. Morando em um pequeno condomínio de casas, ele se irrita com todos os atos dos vizinhos, que segundo ele, não fazem nada certo. No entanto, tudo começa a mudar quando um casal com filhos passa a morar na casa da frente. Ao mesmo tempo em que mostra o presente, o enredo, através da narração do próprio Ove, mostra também seu passado, passando por momentos bons e ruins de sua vida, que explicam muito sobre sua personalidade. Os pontos fortes são os diálogos, munidos de um humor bastante peculiar, e claro, a atuação de Lassgard que é sensacional.

2. Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan (EUA)

Cinco anos após o seu último trabalho, o diretor Kenneth Lonergan voltou às telas com um dos filmes mais poderosos do ano. Centrado no silêncio e abordando sentimentos como a perda e o remorso, Manchester à Beira-Mar (Manchester By The Sea) foge do comum trazendo uma trama simples mas muito bem trabalhada. Lee Chandler (Casey Affleck) precisa voltar à Manchester onde viveu por anos para o enterro do irmão. Muitos segredos fazem parte do passado de Lee nessa cidade, e pouco a pouco, através de flashbacks, vamos descobrindo o que de fato aconteceu. Singular e devastador, o filme foi meu favorito para ganhar o Óscar deste ano.


1. Lion - Uma Jornada Para Casa, de Garth Davis (Reino Unido)
Baseado em uma história real, o filme acompanha o menino Saroo (Sunny Pawar), que vive com a mãe e os dois irmãos em um pequeno vilarejo da Índia. Um dia Saroo se perde do irmão mais velho e acaba viajando milhares de quilômetros até Calcutá, uma megalópole onde vivem mais de 4 milhões de pessoas. O menino usa toda sua esperteza para sobreviver nas ruas dessa cidade caótica até ser resgatado por um orfanato, que logo consegue sua adoção para uma família australiana. O filme então pula para 20 anos após o ocorrido, onde Sarro (agora vivido por Dev Patel) é um estudante universitário na Austrália. Apesar do tempo, ele jamais esqueceu suas origens, e sonha com o dia em que poderá reencontrar sua mãe biológica. Com grandes atuações, o filme traz um conceito interessante de família, e aborda com simplicidade o assunto da adoção e do amor entre mãe e filho, seja de sangue ou não. É um filme incrivelmente humano.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Crítica: Bingo - O Rei das Manhãs (2017)


Aclamado pela crítica e pelo público, Bingo - O Rei das Manhãs é mais um exemplar do excelente momento atual do cinema brasileiro. Apesar de não usar os nomes verdadeiros, por questões contratuais, o filme conta a história de Arlindo Barreto, que se tornou um ícone da televisão brasileira nos anos 1980 ao dar vida ao palhaço Bozo, sucesso de audiência no SBT.




No enredo, escrito por Luiz Bolognesi, Arlindo virou Augusto (Vladimir Brichta), um ator em busca de espaço que ganha a vida atuando em filmes de pornochanchada. Ao chegar na TVP (o SBT de Sílvio Santos na vida real) para uma audição em um papel de novela, Augusto acaba mudando de ideia e resolve fazer audição para o palhaço Bingo, que é fenômeno nos Estados Unidos e agora ganhará seu programa próprio na televisão brasileira.

Sem nenhuma experiência no ramo, mas com bom humor e criatividade de improvisação, Augusto acaba conquistando a produção do programa e conquista a vaga para o programa, dirigido por Lucia (Leandra Leal). No início, Bingo tenta improvisar o roteiro mas a produção deixa claro que ele precisa seguir o roteiro igual ao do Bingo americano, o que o irrita, já que grande parte das piadas de lá não fazem sentido algum no Brasil. Não demora para ele convencer os diretores que o programa precisa ser mais dinâmico do que o original, e Bingo consegue "abrasileirar" a atração, colocando até mesmo Gretchen, ícone da época, para dançar seminua na tela para milhares de crianças.


São mais de 5 horas ao vivo no ar por dia e para dar conta do personagem Augusto precisa abrir mão de muitas coisas na vida, e isso inclui o filho pequeno, Gabriel (Cauã Martins), que antes era o maior companheiro do pai e acaba ficando deixado de lado. Apesar de alcançar um sucesso como jamais visto na TVP, liderando a audiência em todo o Brasil, Augusto não pode ser reconhecido por isso, já que uma cláusula do contrato o proíbe de se revelar. Ou seja, não estando vestido de Bingo, Augusto não é nada, ninguém o conhece. Esse fato, aliado a outros acontecimentos em sua vida, fazem Augusto se afogar no vício, de bebida e cocaína, o que põe fim a carreira promissora de forma prematura.

Primeiramente, o maior acerto do filme foi escalar Vladimir Brichta no papel principal. O ator, que há tempos demonstra ter uma qualidade ímpar em filmes de menos expressão, finalmente ganha um papel de destaque em uma grande produção, e cumpre seu papel brilhantemente. Sua atuação é de aplaudir de pé, e uma das melhores do cinema nacional em anos.



Outro pronto positivo é a trilha sonora, feita de músicas que fizeram sucesso no Brasil nos anos 1980, além de imagens que fizeram parte da história do país. Quem viveu essa época, certamente sentirá uma grande nostalgia durante o desenrolar da trama. A direção competente de Daniel Rezende faz o filme ser empolgante do início ao fim, sem se perder em nenhum momento. Por fim, Bingo é, certamente, um dos melhores filmes do ano e um dos melhores filmes nacionais da década.


sábado, 7 de outubro de 2017

Crítica: It - A Coisa (2017)


Quem acompanha meu blog talvez já tenha percebido que não sou muito fã de filmes de terror. O gênero, que um dia foi sucesso, ficou defasado com o tempo devido aos enredos fraquíssimos que repetem inúmeras vezes as mesmas histórias. Mas então, o que me fez sair de casa para assistir It - A Coisa no cinema? Primeiramente a curiosidade de ver o que fizeram com um clássico dos anos 90, e em segundo lugar, os comentários favoráveis da crítica.


O filme é baseado no livro homônimo do escritor americano Stephen King e se passa na pacata cidade de Derry. Misteriosamente, crianças começam a desaparecer durante o dia, entre elas George, irmão mais novo de Bill (Jaeden Lieberher), que aparece logo na primeira cena do filme sendo atacado pelo palhaço Pennywise (Bill Skarsgard), uma forma sobrenatural que aparece de 27 em 27 anos para aterrorizar as crianças da cidade.

George não é a primeira vítima do palhaço, mas é a primeira que aparece no filme. Logo, seu irmão Bill e seus amigos Richie (Finn Wolfhard), Beverly (Sophia Lillis), Eddie (Jack Dylan Grace), Stanley (Wyatt Oleff) e Mike (Chosen Jacobs) também começam a ser aterrorizados pela figura e decidem unir forças para tentar combate-la.

O filme tem cenas marcantes e tecnicamente é muito bem feito. Sua estética é impecável, e chama a atenção por trazer cenas bastante realistas sem, no entanto, abusar dos efeitos. Isso, aliás, contribui muito para que o filme seja levado ainda mais a sério. Ao longo de suas mais de duas horas, o filme traz tanto momentos de puro suspense como cômicos, e há até mesmo espaço para momentos dramáticos, criando desta forma uma atmosfera bem interessante.

Um dos pontos altos são as atuações mirins na trama. O elenco foi muito bem escolhido, e todas as crianças dão show de interpretação. Estamos acompanhando o surgimento de uma geração muito talentosa, e isso é muito bom. Sobre o palhaço Pennywise, a escolha de Bill Skarsgard parece ter sido perfeita. O ator deixa o personagem ainda mais amedrontador com seus trejeitos e sua maneira de falar.

Por fim, It possui sim alguns deslizes e pontas soltas no enredo, com momentos que carecem de um melhor aproveitamento. No entanto, isso não chega a atrapalhar seu resultado final nas telas, que é realmente surpreendente e encanta mesmo aqueles que, como eu, não são grandes admiradores do gênero. Agora resta esperar pela segunda parte, que está prevista para estrear em 2019.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Crítica: Como Nossos Pais (2017)


Consagrado no Festival de Gramado de 2017, Como Nossos Pais, da diretora Laís Bodanzky, cativa o espectador pela sutileza em abordar assuntos aparentemente simples, porém extremamente complexos, como a relação familiar, o autoconhecimento, e o papel da mulher na sociedade moderna. 



Meio-dia de domingo, família reunida, almoço especial. Tinha tudo para ser um dia animado, mas na família de Rosa (Maria Ribeiro) isso é complicado. Em meio às discussões banais e trocas de farpas já tão comuns, uma revelação é feita pela mãe de Rosa, Clarisse (Clarisse Abujamra), de forma fria e direta: seu pai, Homero (Jorge Mautner), não é seu pai de verdade. E é a partir desta descoberta que ela começa a reavaliar todas as suas escolhas e a procurar um verdadeiro sentida pra vida.

Rosa é um exemplo do cotidiano de uma mulher urbana, casada, e beirando os quarenta. Mãe de duas filhas pequenas, ela se vira do jeito que pode para fazer tudo por elas, contando com pouca ajuda do pai, o antropólogo Dado (Paulo Vilhena), que mesmo sendo presente com as filhas se mostra desligado e pouco prestativo nas tarefas diárias. Esse descompromisso de Dado com a vida de casado acaba desgastando a relação, criando brechas para infidelidades e brigas contantes entre os dois.




Entre as diversas questões abordadas pelo filme está a necessidade que temos, diante das diversidades e surpresas da vida, de abrir mão de algo por um bem maior. Quanto cada um de nós está disposto a perder para se estabelecer de alguma forma? E num casamento, quanto cada um está disposto abrir mão para fazer dar certo no final?  Sempre citando a peça Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, o filme traça um paralelo entre a vida de Rosa e a da personagem principal da peça, que largou tudo que tinha para recomeçar a vida do zero. Quantas vezes Rosa pensou em fazer o mesmo? E quantas Rosas existem por aí?

Ainda sobre Rosa e sua mãe, no começo elas parecem mais inimigas do que mãe e filha, mas a relação evolui ao longo do filme e mostra que, no fim, Elis Regina estava certa ao cantar que "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais". Só aprendemos a entender as atitudes dos nossos pais quando também nos tornamos pais e repetimos os mesmos erros.



Focando nas relações humanas e suas nuances, Como Nossos Pais pode ser considerado, possivelmente, o melhor filme nacional do ano. A naturalidade com que as coisas transcorrem em cena se dá não só pela direção competente de Bodanzky mas também pelas atuações de todo o elenco. Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra estão impecáveis nos papéis de duas mulheres incrivelmente fortes, enquanto Paulo Vilhena demonstra mais uma vez o porque de ser um dos melhores atores do cinema brasileiro.


domingo, 10 de setembro de 2017

Crítica: Uma Mulher Fantástica (2017)


Vencedor do Urso de Prata de melhor roteiro no Festival de Berlim 2017 e escolhido para representar o Chile no próximo Óscar, Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantastica), do diretor Sebastian Lélio (Glória, 2013), aborda de forma primorosa as dificuldades que os transsexuais enfrentam nessa sociedade preconceituosa em que vivemos.




A trama conta a história de Marina (Daniela Vega), uma mulher trans que trabalha de garçonete e sonha seguir carreira como cantora lírica. Estável e bem resolvida, ela vive em um apartamento de Santiago com Orlando (Francisco Reyes Morandé), um homem mais velho que a ama como ninguém nunca jamais havia amado.

Tudo ia bem com os dois, que planejavam um futuro juntos como qualquer casal, mas bem no dia do aniversário de Marina, Orlando acaba falecendo, vítima de um aneurisma. A partir deste momento, a vida de Marina muda de cabeça para baixo. Por causa de seu gênero, todos a tratam com preconceito, como se a dor de perder alguém que amava já não fosse suficiente. Como Orlando caiu da escada enquanto passava mal, o corpo acabou ficando com diversos hematomas, e todos, principalmente a família de Orlando, que nunca aceitou a relação dos dois, acaba acusando Marina de ter tido responsabilidade na sua morte. 



Além de ter que provar sua inocência, a maior luta de Marina ao longo do filme, no entanto, é para se despedir do corpo de Orlando. A família não quer de forma alguma que ela chegue perto do velório, e quando ela tenta fazer isto, é escorraçada violentamente. É triste analisar que este tratamento se deu apenas por ela ser transsexual, o que fica claro nos xingamentos dos familiares. Sua condição os impede de enxergá-la como um ser-humano provido de sentimentos, e infelizmente isso é uma realidade que Marinas espalhadas pelo mundo vivenciam diariamente.

O filme possui momentos belíssimos, como quando Marina aparece nua, deitada em uma cama, com um espelho entre as pernas onde aparece apenas seu rosto. O simbolismo nesta cena é impressionante, e traz uma reflexão contundente sobre identidade de gênero. Uma Mulher Fantástica se sobressai ainda por trazer uma atriz que é transsexual, e que possivelmente, em algum momento de sua vida, deve ter passado por preconceitos parecidos com a da personagem. Isso dá ainda mais vida à história contada.