terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Crítica: 120 Batimentos por Minuto (2018)


Durante o auge da AIDS, nos anos 1980 e 1990, era quase um tabu discutir o tema na mídia, sobretudo por conta da desinformação e do preconceito vindo de boa parcela da população, que acreditava que a doença só atingia os gays, os drogados e as prostitutas. Desta forma, os próprios governos não se empenhavam em dialogar sobre essa questão, e os tratamentos acabavam ficando sempre em segundo plano.


O filme do marroquino Robin Campello apresenta a história do ACT UP, um grupo francês, liderado por ativistas homossexuais (quase todos soropositivos) que surgiu nos anos 1990 e fez uma série de protestos não-violentos afim de alertar as autoridades e a população dos riscos da AIDS e principalmente sobre suas maneiras de prevenção. Mais do que isso, o grupo criticava veementemente a inércia do governo em relação à questão, que não priorizava a busca por tratamentos enquanto milhares morriam todos os dias nas camas dos hospitais.

Bastante didático em relação ao modo de funcionamento do grupo, o enredo vai além e foca também na vida pessoal de alguns dos integrantes. Apesar de ser um assunto pesado, o filme não se torna deprimente, pelo menos não até sua segunda metade, e tenta o tempo todo mostrar que sempre existe uma ponta de otimismo, mesmo nos casos que parecem irreversíveis na vida.


Confesso que achei um pouco cansativo o filme do meio para o final, quando muda um pouco o foco da história. O final também deixou um pouco a desejar, mas ainda assim, não deixa de ser um filme importante por todas as questões que aborda. Com boas atuações, 120 Batimentos por Minuto certamente é um filme necessário para se entender um pouco mais da doença (já que usa alguns termos e dados técnicos).

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Os Vencedores do Globo de Ouro 2018


Foi realizada na noite de ontem a 75ª edição do Globo de Ouro, uma das premiações mais cobiçadas do cinema mundial. Na parte de filmes, o grande vencedor foi Três Anúncios Para um Crime, que além de melhor filme de drama, ainda ganhou os prêmios de melhor atriz, melhor ator coadjuvante e melhor roteiro.

A cerimônia deste ano ficou marcada pelos discursos inflamados na questão de igualdade de gênero e contra os abusos sexuais que vem vindo a tona no mundo cinematográfico. Um dos discursos mais impactantes foi a de Oprah Winfrey, que recebeu o prêmio Cecil B. DeMille por sua contribuição ao mundo do cinema. Enfim, confira abaixo a lista de vencedores do Globo de Ouro 2018, que abriu a temporada de premiações americanas.


Melhor Filme - Drama
- A Forma da Água
- Dunkirk
- Me Chame pelo seu Nome
- The Post: A Guerra Secreta
- Três Anúncios para um Crime

Melhor Filme - Comédia/Musical
- Artista do Desastre
- Corra!
- I, Tonya
- Lady Bird: É Hora de Voar
- O Rei do Show

Melhor Diretor
- Christopher Nolan, de Dunkirk
- Guillermo del Toro, de A Forma da Água
- Martin McDonagh, de Três Anúncios para um Crime
- Ridley Scott, de Todo o Dinheiro do Mundo
- Steven Spielberg, de The Post: A Guerra Secreta

Melhor Atriz - Drama
- Frances McDormand, por Três Anúncios para um Crime
- Jessica Chastain, por A Grande Jogada
- Meryl Streep, por The Post: A Guerra Secreta
- Michelle Williams, por Todo o Dinheiro do Mundo
- Sally Hawkins, por A Forma da Água

Melhor Atriz - Comédia/Musical
- Emma Stone, por A Guerra dos Sexos
- Helen Mirren, por The Leisure Seeker
- Judi Dench, por Victoria e Abdul
- Margot Robbie, por I, Tonya
- Saoirse Ronan, por Lady Bird: É Hora de Voar

Melhor Ator - Drama
- Daniel Day-Lewis, por Trama Fantasma
- Denzel Washington, por Roman J. Israel, Esq.
- Gary Oldman, por O Destino de uma Nação
- Timothée Chalamet, por Me Chame pelo seu Nome
- Tom Hanks, por The Post: A Guerra Secreta

Melhor Ator - Comédia/Musical
- Ansel Elgort, por Em Ritmo de Fuga
- Daniel Kaluuya, por Corra!
- Hugh Jackman, por O Rei do Show
- James Franco, por Artista do Desastre
- Steve Carell, por A Guerra dos Sexos

 Melhor Ator Coadjuvante
- Armie Hammer, por Me Chame pelo seu Nome
- Christopher Plummer, por Todo o Dinheiro do Mundo
- Richard Jenkins, por A Forma da Água
- Sam Rockwell, por Três Anúncios para um Crime
- Willem Defoe, por Projeto Flórida

Melhor Atriz Coadjuvante
- Allison Janney, por I, Tonya
- Hong Chau, por Pequena Grande Vida
- Laurie Metcalf, por Lady Bird: É Hora de Voar
- Mary J. Blige, por Mudbound - Lágrimas Sobre o Mississipi
- Octavia Spencer, por A Forma da Água

Melhor Roteiro
- A Forma da Água
- A Grande Jogada
- Lady Bird: É Hora de Voar
- The Post: A Guerra Secreta
- Três Anúncios para um Crime

Melhor Animação
- Com Amor, Van Gogh
- O Poderoso Chefinho
- O Touro Ferdinando
- The Breadwinner
- Viva: A Vida é uma Festa

Melhor Filme Estrangeiro
- Em Pedaços (Alemanha)
- First They Killed My Father (Camboja)
- Nelyubov (Rússia)
- The Square (Suécia)
- Uma Mulher Fantástica (Chile)

Crítica: Roda-Gigante (2018)


Na vida só existem apenas duas certezas: a morte, e o lançamento de um filme do Woody Allen todo ano. Desde 1982 é assim, e sua cabeça criativa não para nunca de criar novas histórias. Entre altos e baixos, há sempre espaço para tramas originais, e Allen tem a sorte de sempre poder contar com mulheres poderosas no elenco. Desde Cate Blanchett, em Blue Jasmine, o diretor não tinha um nome de peso, e Kate Winslet caiu como uma luva para levar o filme nas costas e se consagrar com uma das atuações mais impressionantes do ano e de sua carreira.

Ginny (Winslet) foi por anos uma aspirante a atriz, mas agora aos 40 anos de idade só o que lhe restou foi o trabalho como garçonete e um casamento infeliz com o mecânico Humpty (Jim Beluschi), que apesar de ter um bom coração, é um homem bruto e de zero afinidade com ela. Na casa ainda vive o menino Richie (Jack Gore), fruto de seu primeiro casamento, que se torna um personagem marcante na trama graças a sua mania de incendiar coisas.

Para fugir da rotina sem graça, Ginny começou a manter uma relação extraconjugal com o salva-vidas Mickey (Justin Timberlake), um estudante apaixonado por poesia e bem mais novo que ela. Certo dia surge na cidade a adorável Carolina (June Temple), filha de Humpty de um antigo casamento, que está fugindo do ex-marido, um gângster italiano. Ela começa a estudar e acaba ficando na cidade, e não demora para ela conhecer e se afeiçoar a Mickey. A partir de então, o salva-vidas se vê dividido entre as duas mulheres.

Woody Allen segue o mesmo modelo narrativo de seus filmes anteriores: trilha sonora embalada por muito jazz, diálogos cômicos e inteligentes, e situações que, mesmo bizarras, podem fazer parte do cotidiano de qualquer um. O roteiro aparentemente simples vai trazendo várias reviravoltas ao longo de sua duração, e mesmo que boa parte dos acontecimentos acabe sendo previsível, é legal ver como tudo vai se desenrolando. O triângulo amoroso que se cria entre Ginny, Carolina e Mickey é uma deixa e tanto para Allen explorar os sentimentos humanos em seus personagens. 

Pode não ser o melhor filme de Allen nos últimos anos, mas é um filme cativante, e muito disso se dá pelas atuações. Kate Winslet está espetacular e não me surpreenderia se a visse forte nas premiações deste ano. Jim Beluschi também entrega um personagem marcante. Timberlake e Temple também cumprem seus papéis com competência. Quanto a questão técnica, Allen capricha mais uma vez na fotografia e na discrição da época, características que ele prioriza muito em suas obras.


domingo, 7 de janeiro de 2018

Crítica: The Square - A Arte da Discórdia (2018)


Grande vencedor do último Festival de Cannes e candidato sueco ao Óscar 2018, The Square - A Arte da Discórdia finalmente estreou no Brasil, quase um ano após o seu lançamento, e a experiência de assisti-lo na tela do cinema foi fascinante. Provocativo, intenso e com um humor diferenciado, o filme de Ruben Ostlund impressiona desde as primeiras cenas com sequências extremamente originais.

Na trama, Christian (Claes Bang) é o curador de um conceituado museu de arte moderna de Estocolmo. O local está prestes a receber uma nova exposição, chamada de The Square (o quadrado), que segundo a autora, tem a intenção de sensibilizar o público sobre a importância da empatia, a importância de sermos solidários mesmo com quem não conhecemos.

Ao mesmo tempo em que Christian apoia e acha brilhante a ideia dessa conscientização, o mesmo age de forma mesquinha com pessoas de classes mais baixas, e aí está a primeira reflexão que o enredo nos trás. Uma reflexão sobre o egoísmo e a hipocrisia do ser-humano, cada vez mais fechado em si mesmo e cego de não enxergar isso como um problema sério. A segunda reflexão que o filme faz diz respeito à arte em si, e é muito pertinente nos dias de hoje, sobretudo no Brasil, onde 90% das pessoas não frequentam exposições artísticas mas se acham capazes de dissertar sobre o que é arte e o que não é.

Assim como em seu primeiro filme, Força Maior (2014), Ostlund traz novamente a questão da ética e da moral de um homem de meia idade em situações conflitantes. Se no filme anterior a causa do "caos" foi uma avalanche em meio às montanhas dos Alpes, neste caso a história ganha contornos interessantes quando Christian tem seu celular roubado e decide se vingar do ocorrido de forma peculiar, mas pouco madura.

Com cenas emblemáticas, The Square é impecável tecnicamente. O movimento da câmera em alguns momentos me deixou em êxtase. Ostlund possui uma visão magnífica de posicionamento e enquadramento, e o mais surpreendente disso tudo é que se trata apenas de seu segundo filme na carreira, e que ele ainda tem muito pela frente. Além do mais, as atuações também são sublimes, com destaque para o protagonista, Claes Bang, e para Elizabeth Moss, que se torna responsável por algumas das cenas mais engraçadas do longa.


Por fim, saí do cinema com uma sensação gostosa ao fim do filme, como não sentia há algum tempo. Ainda que instigue nosso lado crítico, ele não se torna enfadonho e sua longa duração nem é sentida, porque dá vontade de ver mais. Não é um filme fácil, não é um filme comum, mas quando você consegue pescar sua essência e entrar na história, a experiência se torna única.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Os 20 Melhores Filmes Lançados no Brasil em 2017

Mais um ano chegou ao fim e é hora de fazer a famigerada lista dos melhores filmes lançados no Brasil neste período. Curiosamente, desde que comecei a fazer as listas de fim de ano, esta é a primeira vez que praticamente nenhum diretor consagrado está presente, o que mostra que há um mercado muito bom de jovens cineastas surgindo e fazendo seu nome, com ótimas histórias. Sem delongas, vamos à lista com os 20 melhores filmes que estrearam nos nossos cinemas em 2017:


20. Clash, de Mohamed Diab (Egito)


Conhecido pelo fantástico Cairo 678, o diretor Mohamed Diab volta a mostrar as ruas de Cairo, desta vez durante um dos momentos mais tensos do país nos últimos anos. Em 2013, logo após assumir o governo democraticamente, o presidente eleito pelo povo Mohamed Morsi foi derrubado pelo exército, o que causou uma série de protestos e atentados que literalmente botaram fogo na capital do Egito. Durante um destes protestos, algumas pessoas, de lados diferentes do conflito, acabam ficando presas dentro do camburão da polícia. A partir de então, toda a ação do filme acontece dentro deste espaço pequeno e claustrofóbico, mostrando um retrato nu e cru da população egípcia contemporânea e seus ideais.

19. Estrelas Além do Tempo, de Theodore Melfi (EUA)

Em plena Guerra Fria, enquanto Estados Unidos e União Soviética travavam uma batalha pela supremacia na corrida espacial, dentro do território americano ocorria outra batalha: a pelos direitos civis, numa sociedade que ainda dividia negros e brancos em lugares públicos. Isso era refletido inclusive na NASA, onde um grupo de mulheres negras era obrigado a trabalhar em separado dos demais. Juntas, essas mulheres conseguiram vencer o preconceito e liderar um dos momentos mais importantes da era espacial americana, quando o país começou a enviar os primeiros homens em direção à lua.

18. Extraordinário, de Stephen Chbosky (EUA)

O que um filme precisa para tocar o meu coração? Simplicidade. E isso não falta em Extraordinário, filme baseado no best-seller de R. J. Palacio. Quem leu o livro sabe como é emocionante e ao mesmo tempo otimista a história de Auggie, um menino que nasceu com uma deformação facial, e o diretor conseguiu transferir ao filme esse mesmo sentimento. Interpretado brilhantemente por Jacob Tremblay (de O Quarto de Jack), Auggie precisa enfrentar o maior desafio de sua vida: entrar para a escola e ter que encarar os olhares de reprovação das outras crianças por conta de sua aparência.

17. The Discovery, de Charlie McDowell (EUA)

Algumas perguntas existenciais nunca abandonam o ser-humano. Até hoje ninguém foi capaz de responder de onde viemos, ou para onde vamos, por exemplo. O filme de Charlie McDowell foca na segunda pergunta, e mais polêmica de todas, e nos faz refletir sobre o que aconteceria se hoje fosse comprovado que existe vida após a morte. Logo que um cientista anuncia a descoberta, cresce exorbitantemente o número de suicídios pelo mundo, já que as pessoas começam a crer que suas "pós-vidas" serão muito melhores do que as vidas que levam na Terra. Como era de se esperar, o filme é pura filosofia, e talvez por isso tenha desagradado o público geral que o rejeitou fortemente. Mas uma coisa é certa: acreditando ou não no que o filme mostra, é impossível ficar indiferente ao que é abordado e não querer refletir sobre isso.

16. Era o Hotel Cambridge, de Eliane Cafféé (Brasil)

Centenas de famílias desabrigadas vivem no prédio abandonado onde um dia existiu o Hotel Cambridge, no centro de São Paulo. No local vivem brasileiros e estrangeiros vindos de todos os lugares, muitos fugindo de guerras e genocídios em seus países de origem. Misturando ficção com realidade, atores com moradores de verdade, o filme mostra o dia dia dessas pessoas, além de contar um pouco da história de cada um. São crianças e adultos, que juntos vivem um futuro incerto, principalmente quando chega uma ordem de reintegração de posse dando um prazo para eles saírem do local.

15. La Ragazza del Mondo, de Marco Danieli (Itália)

Em La Ragazza del Mondo, acompanhamos a vida da jovem Giulia (Sara Serraioco), uma jovem italiana que vive uma fase de descobertas, como é comum da idade, mas se sente presa pelo conservadorismo dos pais, testemunhas de jeová. Quando conhece um outro jovem da escola, completamente oposto a ela, Giulia começa a se soltar das amarras da família, mas nem tudo é como parece ser, já que o relacionamento se torna abusivo.


14. Star Wars: Os Últimos Jedi, de Rian Johnson (EUA)


40 anos depois do lançamento do primeiro filme, Star Wars voltou mais uma vez às telas para alegria de milhares e milhares de fãs espalhados pelo mundo. Na trama de Os Últimos Jedi, oitavo filme da saga, a resistência liderada pela princesa Leia vive dias difíceis. Obrigados a abandonar sua base principal após ataque da Primeira Ordem, eles vagam pelas galáxias fugindo dos caças do líder supremo Snoke, e a única forma de escapar é entrar dentro da nave inimiga para desativar seu dispositivo de rastreamento. Ao mesmo tempo, a jovem Rey passa a receber os ensinamentos do mestre Jedi Luke Skywalker em uma ilha isolada, enquanto descobre os poderes da força.


13. Mulheres Divinas, de Petra Biondina Volpe (Suíça)


Mulheres Divinas se passa nos anos 1970 e mostra a luta das mulheres pelo direito ao voto na Suíça, um dos últimos países do mundo a aceitar isso. Baseado em fatos reais, ele conta a história sob a perspectiva de Nora (Marie Leuenberg), uma dona de casa que mora com o marido e dois filhos em uma pequena aldeia. Por ser um local isolado, as mudanças que ocorreram no mundo nos últimos anos não chegou por aqui ainda, e os moradores vivem numa sociedade ainda machista e patriarcal, onde mulheres não tem direito a nada. Depois de ter contato com as ideias feministas, Nora passa a tentar trazer as outras mulheres da vila para unirem forças e mudar essa realidade.

12. Minha Vida de Abobrinha, de Claude Barras (França/Suíça)

Em plena era das animações ultrarrealistas, é lindo de ver um filme como Minha Vida de Abobrinha, todo feito com bonecos em Stop Motion e extremamente sensível. O filme acompanha o menino Icare, que prefere ser chamado de Abobrinha. Órfão de pai, ele vivia com a mãe alcóolotra até a morte dela, quando o menino vai parar em um orfanato. O filme acompanha a partir de então o cotidiano dele em meio às outras crianças com o mesmo destino, cada um com sua individualidade e sua forma de lidar com as rejeições da vida. O enredo é muito bonito, misturando momentos de graça com momentos de drama, sem deixar de ter um fundo de reflexão social.

11. Brimstone, de Martin Koolhoven (Holanda)

Com um enredo enigmático e muito bem escrito, o filme do holandês Martin Koolhoven se passa no século XIX e discorre sobre o desejo de vingança em meio a um clima de faroeste perturbador. Dividido em quatro capítulos, o filme conta de trás para a frente a história da jovem Liz (Dakota Fanning), uma mulher muda que vive com o marido e o filho dele. Tudo ia normal até a chegada na cidade de um novo reverendo (Guy Pearce), que tem uma história passada com Liz que vai sendo descoberta na medida em que os capítulos passam. Chocante, imprevisível e diferenciado, Brimstone é daqueles filmes que dá gosto de ver o cinema produzir em uma época em que a criatividade está em falta.

10. Bingo - O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende (Brasil)

Aclamado pela crítica, Bingo - O Rei das Manhãs é mais um exemplar do excelente momento atual do cinema brasileiro. O filme conta a história de Arlindo Barreto, que se tornou ícone da televisão brasileira ao dar vida ao palhaço Bozo, sucesso de audiência nos anos 1980 no SBT. Arlindo (que no filme virou Augusto por questões contratuais) ganhava a vida participando de pornochanchadas até, sem querer, ir parar na audição para fazer o papel do palhaço, que já era sucesso nos Estados Unidos. Sua criatividade conquistou a equipe de produção e lhe rendeu o papel, mas apesar de conquistar o país inteiro, ninguém o conhecia, já que ele era obrigado a esconder seu rosto a todo custo. Esse fato, aliado ao uso cada vez mais constante de drogas, pôs fim a uma carreira que tinha tudo para durar décadas.

9. Okja, de Joon-Ho Bong (Coréia do Sul/EUA)

Após o sucesso do excelente Expresso do Amanhã, o sul-coreano Joon-Ho Bong volta mais uma vez aos holofotes com um filme extremamente humano. Lançado diretamente na Netflix, Okja logo encanta pela bonita amizade criada entre Mija e seu "superporco", um porco fêmea gigantesco que foi modificado em laboratório pela empresa da megalomaníaca Lucy (Tilda Swinton). Os problemas começam quando a empresa quer de volta o animal, e Mija começa a fazer de tudo para não se separar da melhor amiga.

8. Frantz, de François Ozon (França)

O francês François Ozon é um dos diretores mais badalados dos últimos anos, e sua sensibilidade em contar histórias conquistou muitos admiradores. Com diálogos marcantes e poéticos, Frantz é sem dúvida o melhor filme até então de sua carreira, ou pelo menos o que mais mexeu comigo. O longa se passa após o fim da Primeira Guerra Mundial e acompanha Anna (Paula Beer), uma mulher que visita todos os dias o túmulo do marido morto em combate. Tudo normal até que um dia ela avista um homem desconhecido deixando flores na lápide. Indo atrás do homem, ela descobre se tratar de Adrian (Pierre Niney), um francês que logo revela ter se tornado amigo de Frantz em Paris antes da guerra começar. Aos poucos a figura de Adrian vai sendo desmistificada e segredos da vida na guerra começam a surgir.

7. Até o Último Homem, de Mel Gibson (EUA)

Depois de 10 anos sem lançar um filme, Mel Gibson voltou com essa obra-prima que se passa na Segunda Guerra Mundial. A trama acompanha Desmond Ross (Andrew Garfield), filho de um militar aposentado que é assumidamente contra todo e qualquer tipo de guerra. No entanto, com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, milhares de jovens se alistaram para lutar e Desmond se sentiu culpado por não estar lutando ao lado deles. Mas como um homem que se nega a pegar em armas pode ir para um campo de batalhas? Essa é a grande questão do filme.

6. Contratiempo, de Oriol Paulo (Espanha)

Quem assistiu El Cuerpo e ficou extasiado com o plot twist fantástico no final, vai se encantar novamente com mais uma obra do diretor Oriol Paulo. Contratiempo, lançado diretamente na plataforma da Netflix, é talvez o melhor filme de suspense do ano. A vida de Adrian ia bem, com dinheiro, fama e uma bela família, mas tudo muda quando ele acorda num quarto de hotel e se depara com sua mulher morta no banheiro. Sem lembrar de nada do que aconteceu, a polícia o transforma no principal suspeito, e ele precisa contratar uma advogada para fazer sua defesa. É aí que começam as revelações.

5. Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky (Brasil)


Como Nossos Pais cativa o espectador pela sutileza em abordar assuntos aparentemente simples, porém extremamente complexos, como a relação familiar, o autoconhecimento, e o papel da mulher na sociedade moderna. Durante um almoço de família, a mãe de Rosa (Maria Ribeiro) conta a ela que seu pai não é seu pai de verdade. A partir desta descoberta, Rosa começa a reavaliar todas as suas escolhas e a procurar um verdadeiro sentido pra vida. Entre as diversas questões abordadas pelo filme, está a necessidade que temos, diante das adversidades e surpresas da vida, de abrir mão de algo por um bem maior. Focando nas relações humanas e suas nuances, o longa de Laís Bodansky é o melhor filme nacional do ano.

4. Eu, Daniel Blake, de Ken Loach (Irlanda)

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2016, o britânico Ken Loach prova que, aos 80 anos de idade, ainda sabe abordar os problemas sociais contemporâneos como poucos. Com um enredo devastador que versa, sobretudo, a respeito da dignidade humana, Eu, Daniel Blake faz uma crítica contundente aos sistemas governamentais e suas burocracias. Daniel Blake (Dave Johns) é um carpinteiro de 59 anos que acaba de sofrer um ataque cardíaco. Impedido pela sua médica de trabalhar, ele busca conseguir um benefício financeiro ao qual tem direito, mas é aí que os problemas começam, já que o sistema é falho e demorado.No mundo de hoje, quem vive de auxílios, mesmo necessitando de verdade, é taxado de aproveitador e preguiçoso, e o filme tenta desmistificar isso. Eu, Daniel Blake é um filme para se refletir, independente de sua posição política. Pelo menos é o que se espera. Com uso do bom humor, Loach consegue trazer uma linguagem de fácil compreensão e nenhum didatismo. É a vida como ela é, a realidade crua de uma sociedade onde, quem pouco tem, não recebe o merecido respeito

3. Um Homem Chamado Ove, de Hannes Holm (Suécia)

Ove (Rolf Lassgard) à primeira vista é o típico rabugento da terceira idade. Morando em um pequeno condomínio de casas, ele se irrita com todos os atos dos vizinhos, que segundo ele, não fazem nada certo. No entanto, tudo começa a mudar quando um casal com filhos passa a morar na casa da frente. Ao mesmo tempo em que mostra o presente, o enredo, através da narração do próprio Ove, mostra também seu passado, passando por momentos bons e ruins de sua vida, que explicam muito sobre sua personalidade. Os pontos fortes são os diálogos, munidos de um humor bastante peculiar, e claro, a atuação de Lassgard que é sensacional.

2. Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan (EUA)

Cinco anos após o seu último trabalho, o diretor Kenneth Lonergan voltou às telas com um dos filmes mais poderosos do ano. Centrado no silêncio e abordando sentimentos como a perda e o remorso, Manchester à Beira-Mar (Manchester By The Sea) foge do comum trazendo uma trama simples mas muito bem trabalhada. Lee Chandler (Casey Affleck) precisa voltar à Manchester onde viveu por anos para o enterro do irmão. Muitos segredos fazem parte do passado de Lee nessa cidade, e pouco a pouco, através de flashbacks, vamos descobrindo o que de fato aconteceu. Singular e devastador, o filme foi meu favorito para ganhar o Óscar deste ano.


1. Lion - Uma Jornada Para Casa, de Garth Davis (Reino Unido)
Baseado em uma história real, o filme acompanha o menino Saroo (Sunny Pawar), que vive com a mãe e os dois irmãos em um pequeno vilarejo da Índia. Um dia Saroo se perde do irmão mais velho e acaba viajando milhares de quilômetros até Calcutá, uma megalópole onde vivem mais de 4 milhões de pessoas. O menino usa toda sua esperteza para sobreviver nas ruas dessa cidade caótica até ser resgatado por um orfanato, que logo consegue sua adoção para uma família australiana. O filme então pula para 20 anos após o ocorrido, onde Sarro (agora vivido por Dev Patel) é um estudante universitário na Austrália. Apesar do tempo, ele jamais esqueceu suas origens, e sonha com o dia em que poderá reencontrar sua mãe biológica. Com grandes atuações, o filme traz um conceito interessante de família, e aborda com simplicidade o assunto da adoção e do amor entre mãe e filho, seja de sangue ou não. É um filme incrivelmente humano.