quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Crítica: The Great Buddah + (2018)


Representante de Taiwan na corrida pelo Óscar de melhor filme estrangeiro, The Great Buddha + descreve com muita sensibilidade e doses de humor o dia-dia de um vilarejo do país, se aprofundando em aspectos de uma cultura pouca conhecida para os lados de cá.



Dirigido por Huang Hsin-yao, o filme acompanha Picles (Cres Chuang), um homem que trabalha como vigia noturno de uma fábrica de estátuas de bronze. No local estão construindo um grande buda, e durante o dia todas as atenções são voltadas para esse importante serviço. De noite, porém, o espaço fica vazio, e ele e seu melhor amigo, Umbigo (Bamboo Chen), que também trabalha na fábrica, se reúnem para botar conversa fora e ver revistas pornográficas.

Certa noite eles resolvem assistir as filmagens da câmera que o diretor da fábrica (Leon Dai) instalou no próprio carro como medida de segurança. O ato vira rotina, e todo dia eles assistem a vários vídeos, principalmente os mais obscenos, visto que o diretor é mulherengo e quase todo dia sai com alguma mulher diferente. Eles seguem nessa bricnadeira "vouyer" até a câmera mostrar algo pela qual eles não estavam preparados para ver.



Um dos principais destaques do filme é o excelente trabalho da direção de fotografia. Filmado em preto e branco, o filme ganha muito nesse formato, e cria até situações engraçadas como alguns momentos em que aparecem cores em objetos específicos no meio da cena para salientar alguma ideia. Outra coisa que chama atenção é o bom humor do filme, com algumas sacadas inteligentíssimas. Com uma linguagem bastante poética, The Great Buddha + é uma grata surpresa deste pequeno e desconhecido país asiático, e um estudo crítico e irônico do seu povo e sua cultura.


terça-feira, 6 de novembro de 2018

Crítica: Dogman (2018)


Escolhido para representar a Itália no Óscar de melhor filme estrangeiro em 2019, Dogman, do diretor Matteo Garrone, mostra uma Roma longe dos padrões que costumamos ver, focando principalmente em sua pobreza e seus problemas sociais para mostrar a história de um cidadão comum que tenta sobreviver em meio a situações de conflito.



O filme acompanha Marcello (Marcello , um homem que mora nos subúrbios de Roma e é dono de um pequeno negócio onde trabalha dando banho em cachorros. Ele tem uma filha pequena que vive com a mãe, mas que sempre que pode passa um tempo com ele e até o ajuda a banhar os animais. Dono de um enorme coração, ele inexplicavelmente é amigo de Simone, um homem extremamente violento, sem escrúpulos, que ganha a vida praticando furtos em casas e comércios. 

Preso numa lealdade quase cega, Marcello acaba ajudando Simone na prática de alguns crimes, e sua vida muda completamente quando ele é culpado por um deles, justamente dentro da sua própria vizinhança. Muito mais do que a punição da lei, a punição dos vizinhos, que se sentem traídos e não querem vê-lo mais por perto, é o que realmente faz a vida de Marcello perder o sentido e ele mudar sua personalidade.



Assim como em outros filmes seus, Garrone se preocupa bastante com a questão moral do personagem, e a atuação impressionante de Marcello Fonte, o que inclusive lhe rendeu o prêmio de melhor ator em Cannes, ajuda muito nesta questão. A transformação que ocorre no personagem da primeira metade do filme para a segunda é o que dá sustentação à estória e torna o longa interessantíssimo nos minutos finais. Com sua atmosfera suburbana e marginal, Dogman não economiza na violência e na fotografia melancólica para trazer o que de pior existe no ser-humano em suas duas horas de duração.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Crítica: O Que as Pessoas Vão Dizer (2018)


Escolhido para representar a Noruega no Óscar 2019 de melhor filme estrangeiro, O Que as Pessoas Vão Dizer (Hva Vil Folk Si) traz novamente à tona a discussão da liberdade individual sendo sufocada por dogmas religiosos, tendo como resultado um dos filmes mais preciosos do ano.



Nisha (Maria Mozhdah) é uma jovem adolescente que vive no seio de uma família de cultura muçulmana em meio a Oslo, capital da Noruega. Apesar da pressão familiar para seguir as tradições religiosas, Nisha é dona de um espírito livre, e quer ser como todas as outras jovens que ela conhece da sua idade. Ela vai em festas, fica com rapazes, e vai vivendo a vida da melhor maneira que pode, ainda que na maioria das vezes escondida.

Essa maneira de enxergar a vida causa um enorme desconforto em sua família, que teme ser mal vista pelos vizinhos da mesma origem. As coisas pioram muito quando ela é descoberta namorando, e na tentativa de isolar a menina e reeducar conforme as leis da religião, o pai decide mandá-la para morar com a avó no Paquistão. Lá ela precisa mudar toda sua rotina e reaprender costumes à força.



Já vi muitas vezes essa realidade cruel ser mostrada nas telas, mas sempre é triste da mesma maneira. Terrível pensar que ao redor do mundo existam tantas Nisha's por aí, tendo que se submeter a uma vida que não é delas, sem liberdades individuais, e tendo que carregar o peso de não poder ser quem se é de verdade. Até quando essas culturas continuarão sendo tão atrasadas e desatualizadas perante o restante do mundo?

O roteiro é muito bem realizado, e as atuações são extremamente fortes. Inclusive, o fato de ser falado quase todo em Urdu (uma das línguas oficiais do Paquistão) deixa o filme muito mais verdadeiro. Destaco ainda o final, que traz uma das cenas mais emblemáticas e pesadas que vi no cinema em 2018. Ainda estou no começo da maratona do Óscar, mas já considero O Que as Pessoas Vão Dizer um dos meus favoritos.


terça-feira, 30 de outubro de 2018

Crítica: Oitava Série (2018)


Marcando a estreia do comediante e músico Bo Burnham na direção de longas metragens, Oitava Série (Eighth Grade) aborda a vulnerabilidade e a solidão na adolescência com muita sensibilidade, e prova que nem sempre um roteiro clichê pode ser ruim.



Kayla é uma adolescente que está no último ano do fundamental, numa época cheia de mudanças de comportamento e principalmente de visão do mundo que a cerca. Ela possui um canal no youtube onde grava vídeos dando dicas de maquiagem, dicas de vestuário, e falando sobre ter auto confiança e amar a si mesmo. Porém, na realidade, ela é muito diferente do que mostra nos vídeos e nas suas redes sociais.

O que mais falta em Kayla é justamente o amor próprio que ela tanto defende. Pouco confiante, na escola ela praticamente não conversa com ninguém, e quando é chamada para alguma festa acaba sempre ficando isolada de todos. Mas ela não é fechada apenas na rua; em casa, sua relação com o pai é ainda pior, onde ela chega a usar fones de ouvido durante as refeições para não ter que conversar na mesa.



Kayla, na verdade, é um retrato da juventude de hoje, da juventude das aparências. Está absurdamente triste mas abre um sorrisão para tirar uma foto e postar no seu instragram com intuito de ganhar likes. E assim vai vivendo, cada vez mais isolada, cada vez mais no seu próprio mundo. O filme abre um espaço para abordar também a descoberta da sexualidade quando Kayla se apaixona por um menino da turma e tenta se aproximar dele. 

O enredo parece bobo, e por vezes até não deixa de ser, mas traz alguns momentos bem interessantes e isso não se pode negar. A boa atuação da protagonista ajuda a amarrar o público na trama, bem como a direção firme de Burnham. Em resumo, Oitava Série é um filme "igual" a muitos outros já feitos sobre esse período da vida tão conturbado e cheio de dúvidas, mas com algumas pitadas de originalidade que fazem toda a diferença.

domingo, 28 de outubro de 2018

Recomendação de Filme #60

Mil Vezes Boa Noite - Erick Poppe (2013)

No meio de escombros, uma câmera fotográfica ensanguentada pelo chão. É com essa imagem que começa Mil Vezes Boa Noite (Tusen Ganger God Natt), do diretor norueguês Erik Poppe (Hawaii, Oslo / Águas Turvas). A cena infelizmente é quase rotina na vida de Rebecca (Juliette Binoche), uma fotógrafa de guerra que ganha a vida registrando momentos que poucos teriam coragem de registrar.



Casada e mãe de duas filhas, ela ama o que faz. A família por sua vez também sente orgulho da sua profissão, prova disso é a filha mais velha manter guardado um álbum com recortes de jornal contendo fotos tiradas pela mãe ao longo de todos os anos. Ao mesmo tempo, porém, todos sentem muito medo da insegurança e do que pode acontecer a Rebecca durante suas viagens de trabalho, e por isso o marido (Nikolaj Coster-Waldau) tenta a todo momento fazer com que ela desista da carreira.

Ela no entanto não larga a profissão por nada no mundo. Mais do que paixão pela fotografia, ela faz esse trabalho como uma tentativa desesperada de abrir os olhos do mundo para a maldade e a injustiça que existem em países onde conflitos são constantes. Os retratos que ela tira mostram a realidade nua e crua do que acontece nessas regiões, muitas vezes esquecidas pelo resto do mundo.



Aliás, o filme faz uma dura crítica justamente a esse pouco caso que os países desenvolvidos fazem a respeito do que acontece com os países de terceiro mundo. Quando a personagem diz que as pessoas estão mais preocupadas com a Paris Hilton saindo de um carro sem calcinha do que com as crianças morrendo na áfrica, não passa de um retrato cruel da realidade. No final, sentimos o mesmo que Rebecca: a sensação de revolta e impotência ao ver que as coisas irão continuar acontecendo e nós somos incapazes de mudar isso. 

O enredo, no entanto, foge da apelação, e encanta pela belíssima fotografia. A atuação de Binoche, como sempre, é excelente, mas todo o restante do elenco também está de parabéns. Mil Vezes Boa Noite é um filme que dói na alma, e confesso que fiquei em silêncio por um bom tempo após terminá-lo. Custou para digeri-lo. É triste ver quanta barbárie há longe das nossas vistas, e quanta maldade o ser-humano é capaz de fazer. Um filme que deveria ser visto por todos.

sábado, 27 de outubro de 2018

Crítica: Buscando... (2018)


Empolgante e inovador; essas são as palavras que eu uso para definir num primeiro momento Buscando... (Searching...), do diretor estreante Aneesh Chaganty. Usando como mote o desaparecimento de uma jovem numa pequena cidade norte-americana, o enredo discorre sobre diversos assuntos, mas fala principalmente sobre o uso excessivo da tecnologia e a consequente distância numa relação entre pais e filhos.



O filme logo de cara chama a atenção pelo seu formato de filmagem. Denominado como Screen Life, a técnica (que já foi utilizada em filmes como Amizade Desfeita e Nerve) consiste em mostrar praticamente toda a estória dentro de telas de computadores e celulares. Nos primeiros 10 minutos somos introduzidos diretamente na vida da família Kim até a trágica morte da mãe. Desta forma, David (John Cho) e a filha adolescente Margot (Michelle La) precisam reaprender a viver sozinhos na casa.

A relação dos dois é distante, o que cada vez é mais natural no mundo de hoje. David é totalmente alheio ao universo pessoal da filha, e os dois conversam muito pouco pessoalmente, mais por aplicativos. O único momento de lazer juntos é quando passa o programa favorito dos dois na televisão, mas fora isso, o contato é quase zero. A ação principal do filme começa quando Margot vai na casa de uma amiga participar de um grupo de estudos e não volta mais para casa. 



Desesperado, David começa a procurar pistas através das redes sociais da garota, até porque hoje em dia as redes dizem mais sobre todos nós do que qualquer outra coisa: do que a gente gosta, onde frequentamos, quem são nossos amigos mais próximos. Tudo que ele vai conseguindo descobrir vai sendo reunido numa teia de indícios, e para isso ele conta com a ajuda da detetive Vick (Debra Messing).

O filme é carregado de tensão, e toda hora surge uma pista nova que pode levar ao paradeiro da menina. O mais curioso é ver como David não conhecia absolutamente nada da rotina da própria filha, enquanto qualquer um podia saber pelos seus perfis pessoais. Na hora de ligar para algum conhecido, ele não sabia o nome de nenhum amigo, e não sabia nem mesmo que ela tinha largado as aulas de piano há meses. Um retrato da falta de diálogo dentro de casa e um alerta aos pais espectadores. E quando finalmente o caso parece ter sido resolvido, algo acontece e muda novamente toda a história, deixando o resultado final bem interessante.



Por fim, Buscando... traz um roteiro inteligentíssimo, cheio de reviravoltas, que não deixa pontas soltas no final.  É realmente muito bom ver o cinema se renovando quando todas as formas de se contar uma história pareciam ter se esgotado. Trata-se de um dos melhores filmes do ano.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

12 filmes que poderão estar no Óscar 2019

Estamos nos aproximando do fim de mais um ano, e as especulações para o Óscar 2019 estão a mil. Como todos os principais festivais do mundo já foram realizados em 2017, é possível fazer uma prévia dos nomes que mais chamaram a atenção e podem estar concorrendo na premiação máxima do cinema no dia 24 de fevereiro. Confira a lista:


Roma (Alfonso Cuarón)

Depois de vencer o Leão de Ouro de 2018 em Berlim, e ser ovacionado no mesmo festival, Roma vem forte para ser um dos principais candidatos ao Óscar 2019 de melhor filme. O longa é dirigido por Alfonso Cuarón, vencedor do Óscar de melhor direção em 2014 por Gravidade, e isso já o credencia muito na disputa. A trama, filmada em preto e branco, aborda a vida de uma empregada doméstica que vive na capital italiana e precisa lutar diariamente para ter um espaço na hierarquia social.

O Primeiro Homem (Damien Chazelle)

Depois de surpreender com seu filme de estreia, Whiplash: Em Busca da Perfeição, e de conquistar Hollywood com o aclamado La La Land: Cantando Estações, Damien Chazelle tem grandes chances de retornar ao Óscar com seu mais novo trabalho, O Primeiro Homem. A cinebiografia de Neil Armstrong, o primeiro astronauta a pisar na lua, traz novamente a parceria do diretor com Ryan Gosling e recebeu muitos aplausos no Festival de Veneza.

If Beale Street Could Talk (Barry Jenkins)

Outro jovem diretor que surge como uma boa alternativa nessa edição do Óscar é Barry Jenkins. Depois de ter feito história em 2016 com Moonlight: Sob a Luz do Luar, ele deve voltar à premiação com If Beale Street Could Talk, que adapta um romance de mesmo nome escrito por James Baldwin. O filme promete novamente cutucar a sociedade americana sobre o tema do preconceito racial.

Nasce Uma Estrela (Bradley Cooper)

Estreia de Bradley Cooper na direção, Nasce Uma Estrela vem lotando as salas de cinema mundo à fora, inclusive no Brasil, e isso se dá muito pelo fato da cantora Lady Gaga ser a protagonista do filme. Mas ele vai muito além disso, e a prova de sua qualidade foram os aclamados elogios recebidos nos festivais por onde passou até então. O drama musical acompanha um casal de músicos que se conhece através da arte.

Green Book (Peter Farrelly)

Dirigido por Peter Farrelly e estrelado por Viggo Mortensen e Mahershala Ali, o filme conta a história de um recém-contratado motorista de um pianista negro e a viagem dos dois em uma turnê pelo sul dos Estados Unidos na década de 1960. No Festival de Toronto o filme foi muito elogiado e saiu como vencedor do prêmio popular, com destaque para as atuações e o tom leve do enredo. Green Book tem tudo para ser o filme "indie" desta edição do Óscar.

The Favourite (Yorgos Lanthimos)

Com um grande elenco, encabeçado por Emma Stone e Rachel Weiz, o novo filme do grego Yorgos Lanthimos tem tudo para estar na lista dos melhores filmes no Óscar, ou no mínimo na categoria de melhor roteiro (que é o forte do diretor). A comédia foca na figura de uma rainha, sua amiga fiel e uma nova serva do palácio, trazendo uma história de intrigas e traições mostrada de uma forma bem peculiar, característica do cinema de Lanthimos.

As Viúvas (Steve McQueen)

Outro filme com elenco de peso é As Viúvas, do diretor Steve McQueen (de 12 Anos na Escravidão). Com Viola Davis, Michelle Rodriguez, Liam Neeson, Colin Farrell e Robert Duvall, a trama gira em torno de 4 mulheres que precisam lidar com os problemas deixados pelos maridos, mortos em função de suas atividades criminosas. Além do elenco e da direção, o enredo ainda foi escrito por Gillian Flynn (de Garota Exemplar), o que cria ainda mais expectativa sobre ele.

Infiltrado na Klan (Spike Lee)

O novo filme de Spike Lee vem para botar mais uma vez o dedo na ferida da história americana de segregação, contando a história de um policial afro-americano que consegue se infiltrar na ordem da Ku Klux Klan. Indicado a Palma de Ouro em Cannes, ele acabou levando o prêmio do júri, e foi muito elogiado pela crítica na ocasião.

Vice (Adam Mckay)

O filme de Adam McKay (de A Grande Aposta) conta a história de Dick Cheney, um dos mais emblemáticos e importantes vices-presidente dos Estados Unidos. McKay retorna sua parceria com Christian Bale, que interpreta Cheney e novamente deve estar encabeçando a lista de melhores atores. Além dele, o filme ainda traz Steve Carell, Sam Rockwell e a grande Amy Adams.


Can You Ever Forgive Me? (Marielle Heller)

Dirigido por Marielle Heller, o filme conta a história real de uma jornalista que, numa crise financeira pessoal, decide forjar e vender cartas de personalidades já falecidas para ganhar dinheiro. A ideia estranha dá certo mas ela se torna alvo da polícia, e pra continuar lucrando precisa arrumar novas maneiras usando textos originais de arquivos e bibliotecas. O filme também vem sendo elogiado em festivais, principalmente a atuação de Melissa McCarthy.


Boy Erased (Joel Edgerton)

Dirigido por Joel Edgerton, Boy Erased traz um tema polêmico e muito atual. O filme conta a história de um garoto gay, de apenas 19 anos, que mora numa pequena cidade conservadora do Arkansas e se vê confrontado pela família: ou ele arrisca perder sua família e amigos ou entra num programa de terapia que busca a "cura" da homossexualidade. No elenco estão nomes como Nicole Kidman e Russell Crowe, mas quem chama a atenção mesmo é o menino Lucas Hedges (de Manchester à Beira-Mar).


Pantera Negra

É raro a academia dar espaço para filmes de super-heróis na categoria principal do Óscar, mas há uma grande possibilidade de Pantera Negra estar na lista final. Muitos críticos apostam nisso, e são fortes os rumores de que o príncipe de Wakanda, e primeiro super-herói negro do cinema, façam história em 2019.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Crítica: Benzinho (2018)


Premiado e muito elogiado no Festival de Gramado deste ano, Benzinho é um retrato sensível e emocionante de uma família de classe média do Rio de Janeiro, que precisa lidar com uma notícia inesperada e uma série de problemas em meio a uma grave crise financeira.



Irene (Karine Teles) e Klaus (Otávio Muller) são casados, tem quatro filhos, e moram em uma casa cheia de problemas estruturais. Logo numa das primeiras cenas temos algo muito emblemático: a porta da casa estraga, o que os obriga a entrar e sair pela janela. Esse é apenas um dos obstáculos que essa família enfrenta ao longo do filme, tanto físicos como sentimentais. O enredo mostra com muita naturalidade o cotidiano dessa família, que está buscando investir em algum negócio novo já que a livraria que tinham está indo à falência pela falta de procura.

Apesar de mostrar toda a família em boa parte do tempo, o roteiro tem uma protagonista evidente: Irene, e explora esta personagem com muita franqueza. Mãe coruja, ela precisa a todo momento lidar com uma sobrecarga de sentimentos, principalmente quando o filho mais velho, Fernando (Konstantinos Sarris), é chamado para jogar handebol profissional em um time da Alemanha. Aliás, este é o mote central da história, e é a partir deste momento que Irene se vê completamente dividida entre estar feliz pela conquista do filho ou triste por ter que vê-lo ir embora sem saber quando irá voltar.



Além da direção impecável, um dos principais fatores do sucesso do filme é a atuação gigantesca de Karine Teles. A atriz, que já é para mim uma das melhores do cinema brasileiro atual, já tinha mostrado todo seu talento em O Lobo Atrás da Porta e Que Horas Ela Volta?, e agora mais uma vez aparece brilhante na pele desta personagem tão difícil e cheia de personalidade e emoções.

Otávio Muller também segura bem as pontas no papel de Klaus, o típico marido carinhoso mas omisso, que não se mete muito na vida dos membros da família mas está sempre pronto pra ajudar a segurar as barras mais pesadas. Quem também se destaca é Adriana Esteves na pele da irmã de Irene, apesar de sua trama com o ex-marido abusivo ter ficado um pouco perdida no meio de tudo.



Com um roteiro simples mas extremamente tocante, Benzinho já é para mim o filme nacional do ano. Algumas cenas vão ficar para sempre na minha memória, principalmente a última, que é uma das coisas mais belas e emocionantes que eu já vi no cinema. Uma grande obra de Gustavo Pizzi.


domingo, 2 de setembro de 2018

Recomendação de Filme #59

Quero Viver - Maciej Pieprzyca (2013)

Em todo sobre enfermidades existe uma linha bastante tênue que o separa de ser, de um lado dramaticamente apelativo, e de outro, uma verdadeira obra-prima. O polonês Quero Viver (Chce Sie Zyc), do diretor Maciej Pieprzyca, é um belo exemplo de um trabalho consistente e muito bem feito, e pode ser considerado um dos melhores filmes do cinema do leste europeu.



A trama acompanha a história real de Mateusz (Dawid Ogrodnik), que foi diagnosticado com uma forte paralisia cerebral desde criança. Sua infância foi extremamente difícil, principalmente por ele não compreender quase nada do que falavam e do que faziam ao redor, além de não conseguir fazer absolutamente nada sozinho, nem mesmo as coisas mais básicas.

Apesar de tudo, Mateusz teve a sorte de ter nascido em uma família unida e determinada a fazer com ele tivesse uma vida normal. Sua mãe super protetora e seu pai extremamente carinhoso foram a base para que ele conseguisse sobreviver às dificuldades. Além deles, ele ainda tinha um irmão mais velho bastante atencioso e uma irmã na fase difícil da adolescência, que talvez tenha sido a mais distante em termos de contato mas que ainda assim não deixava de amá-lo incondicionalmente.


Dentro da família, a relação de Mateusz com seu pai é com certeza a parte mais bela do longa. Aliás, que pai maravilhoso. O que ele fazia por Mateusz poderia servir de exemplo para todo e qualquer pai do mundo, e em qualquer situação. Seus ensinamentos ao garoto não vinham de forma didática, mas na prática, e através de suas próprias ações ele ensinou a Mateusz coisas que o menino levou para o resto da sua vida.

Ainda na infância, uma das coisas que Mateusz mais gostava de fazer era ficar olhando o movimento da rua pelo vidro da janela. Aliás, é interessante a observação que ele faz do cotidiano ao redor, e o modo como o diretor analisa alguns pontos da vida em sociedade sob a perspectiva dos olhos e sentimentos do menino. Desde a tristeza de ver crianças brincando e ele não podendo estar junto (ainda que ele não compreendesse muito bem isso) até a análise do casal de vizinhos que não conseguem mais nem se olhar depois de um tempo. Outro ponto interessante que o diretor traz é a divisão do filme em capítulos, com títulos e figuras "estranhas", que acabamos entendendo melhor na reta final.



Após a morte do pai, a vida de Mateusz muda significativamente. A tristeza do garoto é extrema, e de que forma não poderia ser? Com a tragédia, ele perdeu o seu maior elo de ligação com a vida, a pessoa que lhe dava tudo que ele precisava e que lhe fazia sentir especial e único. Se para nós uma perda já é difícil de aceitar, para Mateusz foi um sentimento de dor triplicado.

O filme pula então para sua adolescência, momento onde Mateusz se apaixona pela primeira vez. Anka, uma menina solitária que passa seus dias lendo para fugir do clima pesado de casa, acaba atraindo uma atenção diferenciada do menino, e a relação que eles criam entre si é extremamente forte. Quando são obrigados a se separar, ele sente novamente a mesma dor insuportável da morte de seu pai: a dor da despedida. O toque dos dedos que eles dão por baixo da porta se torna uma das cenas mais belas da história do cinema, e mais tristes também.

Após um tempo, com a doença da mãe, ele acaba sendo levado a um hospital psiquiátrico, onde passa seus próximos anos. Ele odeia o lugar, e odeia ainda mais a mãe por ela o ter deixado naquele lugar. Depois de muita resistência, Mateusz só consegue acostumar com a rotina quando chega uma nova voluntária, Magda, que passa a tratá-lo com carinho, ensinando coisas que até então ele nunca havia tido contado antes (como a beleza do corpo nu feminino, por exemplo). O relacionamento entre os dois causa a demissão de Magda, e ele se vê novamente sozinho no mundo, apesar das visitas da mãe.



Seu sonho sempre foi poder se comunicar com as pessoas ao redor, e dizer principalmente que ali tem uma cabeça pensante e não apenas um vegetal à espera da morte. E quando uma médica chega ao local com um novo método de comunicação através de piscadelas, ele consegue finalmente realizar esse desejo, passando a se comunicar com o mundo exterior da forma como sempre quis.

Em filmes como esse, o que se sobressai são as atuações. Não é fácil dar vida a personagens tão complexos como Mateusz, e Dawid Ogrodnik está realmente de parabéns, numa das melhores atuações que eu já vi na minha vida. Porém, deve-se elogiar também o menino que fez sua versão mirim, que foi tão espetacular quanto.

Na questão do roteiro, só há o que elogiar. A forma poética com que foi filmado dá um ar gracioso ao longa, e é impossível não se deixar levar. Infelizmente é um filme que não chegou aos cinemas daqui e posteriormente nem em plataformas de stream, sendo até mesmo difícil de encontrar para baixar na internet. Mas quem tiver a oportunidade de tê-lo em mãos para assistir, não deve pensar duas vezes.


quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Crítica: Custódia (2018)


O cinema contemporâneo francês possui uma forte característica de exposição dos problemas sociais, e mais uma vez esse aspecto é extremamente bem apresentado em Custódia (Jusqu' à La Garde), primeiro longa da carreira de Xavier Legrand, que de cara já foi premiado como melhor direção em Veneza.



Miriam (Léa Drucker) e Denis (Antoine Besson) estão lutando na justiça em razão da guarda de Julien (Thomas Giorian), o filho de 11 anos do casal. O homem quer ter pelo menos o direito de ver o filho em finais de semana alternados, enquanto a mulher quer proibi-lo de chegar perto da criança. A primeira cena mostra todos reunidos em frente a juíza e possui muitas falas, com os advogados de ambas as partes expondo as razões de cada um. Isso serve para dar uma pincelada de leve na história de cada personagem.

É curioso como o diretor trabalha a ambiguidade dos personagens, principalmente a do pai. Num primeiro momento você sente pena dele e acha correta a decisão do juiz em aceitar que ele possa ter um pouco de contato com o filho. Qualquer pessoa de bom coração também torceria para isso, visto que ele parece realmente querer muito ver a criança. Porém, essa personalidade logo cai por terra na primeira vez que ele pega o menino.

No fundo, Julien se torna apenas uma artimanha de Denis para tentar se reaproximar da ex-mulher, já que nitidamente ele não possui nenhum carinho pelo menino e o trata mal todas as vezes que o vê. Sua obsessão por Miriam começa a ir além, e ele usa o filho para perseguir ela e descobrir sua nova rotina numa ânsia de tentar tê-la de volta a qualquer custo. A reta final da trama é arrebatadora, mostrando as consequências traumáticas que uma relação doentia pode causar a todos os envolvidos. E o que mais dói nessa história é acompanhar o sofrimento de uma criança em meio a tudo isso e saber que isso é mais comum do que se imagina.



Com boas atuações e uma excelente montagem da direção, o enredo de Custódia prende a atenção do início ao fim. Trata-se de um filme extremamente atual, numa época em que vemos nos jornais todos os dias notícias absurdas de feminicídio e violência doméstica. Até quando isso irá acontecer?