terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Os indicados ao Globo de Ouro 2020

Foram anunciados nesta segunda-feira (09) todos os indicados ao Globo de Ouro 2020, que ocorrerá no dia 05 de janeiro do ano que vem. História de Um Casamento, de Noah Baumbach, foi o filme com maior presença em categorias, 6 no total, seguido de O Irlandês e Era Uma Vez em... Hollywood, cada um com 5. Confira a lista abaixo com todas as categorias na parte de cinema:

Cena de História de um Casamento, campeão de indicações.

Melhor Filme de Drama
- 1917
- Coringa
- Dois Papas
- História de um Casamento
- O Irlandês

Melhor Filme de Comédia/Musical
- Meu Nome é Dolomite
- Entre Facas e Segredos
- Era Uma Vez em... Hollywood
- Jojo Rabbit
- Rocketman

Melhor Diretor
- Bong Joon-Ho, por Parasita
- Martin Scorsese, por O Irlandês
- Quentin Tarantino, por Era Uma Vez em... Hollywood
- Sam Mendes, por 1917
- Todd Philips, por Coringa

Melhor Ator em Filme de Drama
- Adam Driver, por História de um Casamento
- Antonio Banderas, por Dor e Glória
- Christian Bale, por Ford vs. Ferrari
- Joaquin Phoenix, por Coringa
- Jonathan Pryce, por Dois Papas

Melhor Ator em Filme de Comédia/Musical
- Daniel Craig, por Entre Facas e Segredos
- Eddie Murphy, por Meu Nome é Dolomite
- Leonardo DiCaprio, por Era Uma Vez em... Hollywood
- Roman Griffin Davis, por Jojo Rabbit
- Taron Egerton, por Rocketman

Melhor Atriz em Filme de Drama
- Charlize Theron, por O Escândalo
- Cynthia Erivo, por Harriet
- Renée Zellweger, por Judy
- Scarlett Johansson, por História de um Casamento
- Saoirse Ronan, por Adoráveis Mulheres

Melhor Atriz em Filme de Comédia/Musical
- Ana de Armas, por Entre Facas e Segredos
- Awkwafina, por The Farewell
- Beanie Feldstein, por Fora de Série
- Cate Blanchet, por Cadê Você, Bernadette?
- Emma Thompson, por Late Night

Melhor Ator Coadjuvante
- Al Pacino, por O Irlandês
- Anthony Hopkins, por Dois Papas
- Brad Pitt, por Era Uma Vez em... Hollywood
- Joe Pesci, por O Irlandês
- Tom Hanks, por Um Lindo Dia na Vizinhança

Melhor Atriz Coadjuvante
- Annette Bening, por O Relatório
- Jennifer Lopez, por As Golpistas
- Kathy Bates, por Richard Jewell
- Laura Dern, por História de um Casamento
- Margot Robbie, por O Escândalo

Melhor Roteiro
- Dois Papas
- Era Uma Vez em... Hollywood
- História de um Casamento
- O Irlandês
- Parasita

Melhor Filme Estrangeiro
- Dor e Glória (Espanha)
- Os Miseráveis (França)
- Parasita (Coreia do Sul)
- Retrato de uma Jovem em Chamas (França)
- The Farewell (China)

Melhor Filme de Animação
- Como Treinar seu Dragão 3
- Frozen 2
- Link Perdido
- O Rei Leão
- Toy Story 4

Melhor Trilha Sonora Original
- 1917
- Adoráveis Mulheres
- Brooklyn - Sem Pai Nem Mãe
- Coringa
- História de um Casamento

Melhor Canção Original
- Beautiful Ghosts, de Cats
- I'm Gonna Love me Again, de Rocketman
- Into the Unknown, de Frozen 2
- Spirit, de O Rei Leão
- Stand Up, de Harriet

domingo, 8 de dezembro de 2019

Crítica: O Irlandês (2019)


Se existe no mundo um diretor que sabe trabalhar a violência nos cinemas, esse diretor é Martin Scorsese. O homem por trás das obras-primas Os Bons Companheiros e Cassino volta a abordar o tema máfia/gângster de forma primorosa em O Irlandês (The Irishman), numa verdadeira aula de como fazer cinema.



O filme conta a história de Frank Sheeran (Robert DeNiro), um veterano de guerra que trabalha como motorista em um sindicato de caminhoneiros. Sua vida muda quando ele conhece a família Bufalino, principalmente Russell (Joe Pesci), e passa a cumprir tarefas para os membros da máfia. Pouco a pouco Frank vai adentrando no mundo do crime organizado, criando contatos e crescendo dentro dele, até se tornar um assassino a sangue frio capaz de fazer qualquer serviço.

Já idoso, sem forças e vivendo em um asilo, Frank rememora toda a sua vida, sua carreira e sua relação com os chefões do crime através de uma narração em off. O longa, dessa forma, se passa em três períodos diferentes: quando ele ainda era novo e entrou para a máfia, quando ele já está mais velho e fazendo uma viagem com Russel pelas estradas dos Estados Unidos, e quando ele está vivendo debilitado na casa de repouso nos seus últimos dias de vida.



O enredo passa de um período ao outro com muita naturalidade, numa montagem perfeita. O ritmo cadenciado pode até cansar em alguns momentos, mas serve para dar uma realidade muito maior às cenas, além de nos apresentar com mais detalhes as personalidades de cada um dos personagens em cena. Fica evidente que não se trata de um filme para entretenimento, mas sim, de um filme que tem como única intenção te colocar dentro daquele mundo durante suas três horas e meia de duração. Achei muito inteligente e original o fato do filme apresentar os personagens secundários mostrando sempre a data e o motivo da morte de cada um escrito embaixo. Na vida do crime, todos tem um prazo de validade.

Se Scorsese sozinho já seria capaz de nos apresentar uma grande história, imagina com um elenco composto de Al Pacino, Robert DeNiro, Joe Pesci, Harvey Keitel, Anna Pacquin, entre outros. Foi realmente uma sensação única ver Pesci, Pacino e DeNiro trabalhando juntos pela última vez. Digo pela última vez porque Pesci já estava aposentado há anos e foi convencido a voltar à ativa apenas para viver este personagem tão simbólico. Diferente de seus personagens extravagantes e inconsequentes nos outros trabalhos de Scorsese, Pesci dá vida aqui a um homem contido, inteligente, e que se mantém equilibrado mesmo nas situações mais adversas, quase como uma voz da sabedoria. Um papel merecido a um ator que ficou marcado na história do cinema e que dificilmente fará algo novo.



O ator que mais contracena com Pesci no filme é Robert DeNiro, seu parceiro de longa data. Os personagens dos dois se conhecem por um acaso, e se tornam extremamente leais um com o outro para o resto de suas vidas. DeNiro para variar está impecável, numa atuação de gala. O bom trabalho de rejuvenescimento da equipe técnica nos transporta para uma época de ouro da carreira do ator, onde ele fez filmes que marcaram sua carreira como O Poderoso Chefão, Era Uma Vez na América, e o próprio Os Bons Companheiros de Scorsese. Disciplinado em seguir regras, não demorou para seu personagem subir no mundo do crime, mas no final do filme, em uma espécie de prólogo melancólico, ele mesmo se questiona se tudo o que ele fez valeu a pena, principalmente por suas atitudes terem afastado a própria família.


Por último falo aqui de Al Pacino, que interpreta o sindicalista Jimmy Hoffa, o chefão de tudo. Completamente desequilibrado, o personagem de Pacino rouba a cena e é responsável por alguns dos momentos mais cômicos da trama. Hoffa é um homem extremamente orgulhoso e teimoso que sempre tenta impôr seu poder na base do grito, além de se achar intocável e não dar a mínima para as convenções da máfia. Suas atitudes sempre geram consequências, não só para ele, mas para todos os demais membros. Longe de fazer grandes papéis há anos, Al Pacino ganhou de Scorsese um grande presente ao interpretar um personagem que é a sua cara.


Por fim, se essa for mesmo a despedida de Scorsese do gênero, esse ciclo não poderia ter se encerrado de um jeito melhor. O Irlandês é um filme sobre lealdade, envelhecimento e arrependimentos, mas sobretudo, sobre as consequências que decisões erradas podem trazer à vida de um homem. É Scorsese na sua melhor forma.


quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Crítica: A Odisseia dos Tontos (2019)


Sou um grande fã do cinema argentino e da sua maneira bem-humorada de lidar com os problemas do país. O diretor Sebastián Borensztein, que já havia me conquistado com Um Conto Chinês (2011), volta a trabalhar com Ricardo Darín em A Odisseia dos Tontos (La Odisea de los Giles), uma estória de superação e sobretudo de amizade.



O enredo nos coloca dentro da Argentina de 2001, no auge da crise que assolou o país na época. Em uma cidade pequena do interior, um grupo de pessoas decide formar uma cooperativa para juntar dinheiro e comprar uma fábrica abandonada, afim de reaquecer os negócios na região. Porém, logo que fazem o investimento, eles acabam caindo no golpe de um banqueiro e de seu advogado, e ficam sem absolutamente nada. A partir desse acontecimento, começam a planejar uma forma de recuperar tudo o que perderam, e vão até o limite para conseguir.

O filme segue a cartilha dos filmes de assalto norte-americanos, mas sabe se adaptar muito bem a cultura Argentina e às suas características. Todos os personagens são bem trabalhados e ganham seus momentos. O protagonista Ricardo Darin apresenta mais uma vez uma atuação segura e convincente, e e o único que apresenta momentos de dramaticidade em meio aos demais. Quem também está muito bem é Luis Brandini com seu jeito sério e debochado.



Representa da Argentina no Oscar de 2020, A Odisseia dos Tontos é um filme sobre não se deixar vencer tão fácil, sobre ir atrás de justiça, mas sobretudo sobre como a união das pessoas é capaz de corrigir injustiças (mesmo que parece fácil na ficção). Na sessão onde assisti o filme foi aplaudido no final da exibição, tamanho seu carisma com o espectador. Mais um grande trabalho do cinema argentino para a conta.


segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Crítica: A Vida Invisível (2019)


Vencedor do prêmio principal da mostra Um Certo Olhar em Cannes e representante do Brasil no Óscar 2020, A Vida Invisível, de Karim Ainouz (Madame Satã e O Céu de Suely) é um dos filmes mais poderosos do nosso cinema nos últimos anos, e ao mesmo tempo que encanta com cenas belíssimas, também incomoda ao tocar em assuntos extremamente necessários nos dias de hoje.



O enredo acompanha a história de Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), duas irmãs que cresceram juntas em uma família de portugueses no Rio de Janeiro dos anos 1940 e 1950. As duas possuem personalidades distintas; enquanto Eurídice é introvertida, inocente e tenta seguir as regras impostas pela sociedade, Guida é espontânea, inquieta e efusiva, e não baixa a cabeça para as convenções sociais da época. Um dia Guida resolve fugir de casa para viver um amor escondido, sem fazer a mínima ideia de que essa sua atitude mudaria para sempre a vida das duas. 

Apaixonada pela música e sonhando em se tornar uma pianista de sucesso, Eurídice se apega a isso para sobreviver aos dias que se seguiram sem a irmã, até se casar com Antenor (Gregorio Duvivier) e sair definitivamente de casa. O casamento, no entanto, é muito longe do que ela buscava para sua vida, e o diretor utiliza essa união para evidenciar o machismo na sua pior forma, com direito a cenas bem pesadas de violência doméstica, tanto verbal como sexual. Aliás, é interessante analisar como o sexo é utilizado pelo diretor em cena, sempre como um elemento opressor do sexo masculino, e não como algo prazeroso e confortável para os dois lados. Nota-se no olhar das mulheres nessas cenas o desconforto que elas carregam de serem vistas apenas como objetos.



O filme é sobre um grande desencontro das duas irmãs, mas também de novos encontros. Quando Guida volta para casa e não é aceita pelo pai por estar grávida, ela precisa encontrar uma forma de sobreviver e recomeçar a vida na companhia de uma "nova" família, onde é acolhida com muito carinho. Interessante analisar que o título do livro, do qual deriva o filme, é A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, e essa segunda parte do nome foi surrupiada para o cinema por um propósito: aqui não é somente Eurídice que se torna uma personagem apagada pelas nuances da vida, mas é um filme sobre todas as mulheres que viviam na época e enfrentaram as mesmas dificuldades de tentar ser alguém.

O filme tem um ótimo elenco, e ganha um toque ainda mais especial com a participação de Fernanda Montenegro. Uma atuação breve, por cerca de 20 minutos, mas avassaladora, provando mais uma vez o porque dela ser o maior patrimônio do cinema brasileiro. O enredo intercala a história das duas irmãs sem se tornar cansativo, e é legal perceber como, mesmo distantes, elas sempre tiveram uma ligação de alma inquebrável.



Por fim, A Visa Invisível é uma obra sobre famílias partidas, afastamentos, e principalmente saudade. É a maturidade do cinema de Karim Ainouz, que tem aqui o melhor filme de sua carreira até então. Viva o cinema nacional.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Crítica: Coringa (2019)


O icônico personagem do Coringa já apareceu em diversos filmes ao longo da história do cinema, tendo sido o primeiro deles ainda na década de 1960, mas somente agora em 2019 que, pela primeira vez, ele ganha um filme próprio, só dele. Em grande parte das aparições anteriores ele era apenas o temido vilão de Batman, sendo sempre um personagem secundário, ainda que tenha roubado a cena algumas vezes (como nas antológicas atuações de Heath Ledger, em 2008, e Jack Nicholson, em 1989). Bom, tendo um filme apenas seu, era grande a responsabilidade de Todd Phillips em criar a complexa personalidade do Coringa e mostrar como ele se tornou quem ele é. E foi um trabalho impecável, desses que revigoram o cinema e nos fazem lembrar como é bom amar e acompanhar a sétima arte.



Primeiramente, vamos falar sobre Gotham City, local onde tudo acontece, e que lembra muito (e propositalmente) a Nova Iorque dos anos 1980, já retratada em diversos filmes, como no clássico Táxi Driver de Martin Scorsese. Assim como na Nova Iorque de Scorsese, Gotham é uma cidade suja e desleixada, e a situação piora ainda mais com a greve dos lixeiros (fato que realmente aconteceu na cidade americana), que culmina em lixos acumulados por todo o canto e uma epidemia de ratos, ambiente que combina com a frieza e a falta de empatia de todos os seus habitantes.

É nesse local hostil que vive Arthur Fleck (Joaquim Phoenix), um homem que trabalha para uma empresa de palhaços e mora com a mãe em um prédio precário da cidade. Na primeira cena do filme, Fleck aparece em frente ao espelho, tentando com os dedos forçar um sorriso e uma aparente expressão de felicidade, que não condiz em nada com o seu verdadeiro sentimento. Logo ele volta para seu estado natural, o de descontentamento com a vida e com tudo que o rodeia, e rola até mesmo uma lágrima. Esse "sorriso forçado" aparece inúmeras vezes ao longo da trama, como demonstração de alguém que está desesperado para ser feliz numa realidade que não o permite ser.



Arthur possui um distúrbio que faz ele gargalhar em situações de nervosismo, sem querer. Este é um ponto muito bem utilizado pelo autor, onde é possível sentir toda a agonia do personagem. Por isso mesmo não se trata de uma risada engraçada, muito pelo contrário, pois se você entende o que ele está sentindo se torna angustiante vê-lo nessa situação. No começo do filme ele chega a utilizar um cartãozinho que entrega para as pessoas explicando o motivo das suas risadas incontroláveis, mas depois ele mesmo deixa de usá-los pois percebe que não adianta nada, já que as pessoas continuam debochando e tratando-o mal de qualquer forma.

O filme tem a audácia de nos faz sentir empatia por Arthur, fazendo até com que esqueçamos, por alguns momentos, de que se trata de um vilão. Isso fica evidente em uma cena onde ele é agredido e reage, e fica ainda mais forte quando descobrimos um pouco mais sobre seu passado, cheio de abusos e violência. Obviamente não dá para se apegar a isso para justificar seus atos, sobretudo no final do filme, mas de alguma forma você o compreende, e isso é um tanto quanto perturbador.



Esse exercício de construção do personagem é o mais impressionante da obra num todo. Um homem comum, de fala mansa e olhos perdidos, que tinha sonhos e ambições mas viu tudo evaporar com os sentimentos de abandono e solidão. Mais do que isso, um homem que no começo da estória ainda acreditava no ser-humano, mas que passou a enxergar todos como potenciais ameaças numa sociedade calejada. 

Tudo isso não seria possível sem um grande ator por trás, e é aí que entra a atuação impressionante de Joaquim Phoenix, que perdeu 24 quilos para dar vida ao personagem. Simplesmente não há palavras para expressar o que o ator consegue fazer em cena. O sentimento que ele transmite através de uma excelente linguagem corporal, poucas vezes eu vi igual, e com certeza deve lhe render muitas conquistas na temporada de premiações, incluindo o Óscar, no qual ele já foi indicado três vezes.

O filme também é impecável tecnicamente. Sua fotografia melancólica e a excelente utilização das cores (mais escuras em momentos sombrios e depressivos do personagem e mais claras quando ele encontra algo que o faz sentir-se bem consigo mesmo) são uma verdadeira aula de cinematografia. Tudo finalizado com uma bela ambientação da época e uma excepcional trilha sonora. Para um filme baseado em um personagem dos quadrinhos, é surpreendente analisar também que não há, em momento algum, a utilização de efeitos especiais, e isso engrandece o trabalho ainda mais, visto que teve um orçamento baixíssimo comparado com outros filmes do mesmo estúdio.



Por fim, Coringa é um filme extremamente corajoso, como há tempos não se via no cinema feito nos Estados Unidos. E é exatamente isso que o cinema precisa, ousadia. A direção não teve receio do que o público iria ou não pensar, e entregou aquele que é o grande filme americano do ano. Você sai da sala de cinema atordoado, tentando a todo custo digerir o que acabou de ver, e digo pra vocês que isso demora a passar. Uma verdadeira obra de arte, e um filme para entrar para a história.