Entre os anos de 1704 e 1740, o compositor e maestro italiano Antonio Vivaldi trabalhou como professor de música no Ospedale della Pietà, instituição de Veneza voltada à educação e ao acolhimento de meninas órfãs. Foi durante esse período que o músico viveu a fase mais produtiva de sua carreira, compondo algumas das obras que se tornariam fundamentais para o seu legado. Primavera, do diretor italiano Damiano Michieletto, revisita esse momento da vida de Vivaldi, mas escolhe não colocá-lo no centro da narrativa. Em vez disso, volta seus olhos para uma das jovens musicistas da Pietà, a prodígio do violino Anna Maria Della Pietà, personagem que aqui recebe o nome de Cecilia.
A trama é narrada pela própria protagonista (Tecla Insolia), por meio de cartas destinadas a uma mãe que ela sequer sabe se um dia voltará a encontrar. Abandonada ainda criança no local, Cecilia alimenta o sonho quase infantil de um dia ser buscada por sua genitora, como já viu acontecer com outras internas. É através dessas cartas que somos apresentados à rotina da instituição, ao mesmo tempo em que ela revela as dores, frustrações e angústias de uma jovem condenada a viver longe do mundo e, principalmente, nas sombras de uma sociedade que pouco valoriza sua existência.
Comandado por uma madre superiora megera (Fabrizia Sacchi), o local assume no filme uma atmosfera quase opressiva. Além de fria e meticulosa, ela não demonstra nenhum tipo de empatia por aquelas que ela deveria proteger. Suas maldades vão desde jogar filhotes de gato vivos no rio na frente de todas as meninas, até marcar os bebês recém chegados com ferro quente, deixando a marca da instituição em sua pele. Afinal, ela as enxergava muito mais como uma oportunidade de negócios no futuro do que como seres humanos. Desde cedo, as internas eram obrigadas a aprender música e a se apresentar para nobres e frequentadores da igreja, garantindo doações que ajudavam a sustentar a Pietà. E quando chegavam à idade adulta, muitas eram encaminhadas para casamentos arranjados com homens ricos, em negociações que envolviam dotes pomposos.
No meio deste contexto, Vivaldi (Michele Riondino) é chamado ao local para substituir o professor das meninas, cujo trabalho já não agradava mais aos frequentadores dos cultos dominicais. O músico logo se impressiona com Cecilia, não apenas por seu extraordinário domínio do violino, mas também por sua inteligência e astúcia. A relação entre os dois jamais parte para o lado sexual, e fica bem evidente que a forte conexão que se estabelece é sobretudo intelectual e artística. Vivaldi encontra na jovem uma musicista capaz de compreender e executar suas ideias com uma habilidade incomum, enquanto Cecilia encontra no compositor alguém disposto a enxergar nela algo além de uma órfã destinada a desaparecer no anonimato.
Sob o comando de Vivaldi, os concertos da Pietà se transformam em uma das grandes atrações de Veneza. Viajantes, nobres e membros da realeza europeia passam a visitar a cidade para ouvir aquelas jovens musicistas. E, justamente por contar com instrumentistas tão talentosas, Vivaldi podia ousar cada vez mais em suas composições, criando peças de enorme dificuldade técnica. Durante os anos em que viveu na instituição, ele compôs mais de 500 concertos, entre eles sua obra mais famosa, As Quatro Estações.
É curioso como Primavera é, ao mesmo tempo, uma biografia de Vivaldi e não é. Estamos no centro de um dos momentos mais importantes de sua trajetória, mas o filme deliberadamente o coloca quase como um coadjuvante de sua própria história. A escolha funciona porque desloca o olhar para aquelas que ficaram à margem dos registros históricos: as meninas da Pietà, cujo talento foi fundamental para que a música de Vivaldi alcançasse novas possibilidades.
Com ótimas sequências musicais e uma recriação de época impecável, Primavera encontra sua identidade justamente ao propôr uma perspectiva diferente sobre uma história que já parecia conhecida. Talvez seu maior mérito esteja justamente aí: lembrar que, por trás de um grande nome da música, existiam também dezenas de jovens talentosas cuja arte ajudou a dar um pouco de significado às suas vidas, mesmo que imposta.


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