quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Crítica: Rose (2026)


Sucesso no último Festival de Berlim e escolhido para representar a Áustria no Oscar de Melhor Filme Internacional em 2027, Rose, do diretor Markus Schleinzer, é um filme potente que fala, acima de tudo, sobre identidade e resistência feminina numa época onde mulheres não tinham direitos e nem voz.


Ambientado no século XVII e baseado em uma história real, o filme nos transporta para uma aldeia rural da Alemanha, país devastado pela Guerra dos Trinta Anos. Rose (Sandra Hüller) acaba de chegar ao local após servir ao exército durante dez anos. Em suas mãos, carrega um documento que lhe confere a posse de uma fazenda na região, fazendo com que os habitantes a aceitem imediatamente como um novo membro da comunidade. Há, no entanto, um detalhe que faz toda a diferença: Rose é uma mulher que, há anos, por uma questão de sobrevivência, se passa por homem.

O disfarce funcionou por décadas e continua funcionando na aldeia. Com a ajuda dos vizinhos, Rose reergue a fazenda, que estava abandonada, e se torna uma figura importante entre os moradores, demonstrando inteligência, força e valentia. Porém, isso não é suficiente para que seja considerada um homem de verdade. Para isso, precisa se casar, a fim de preservar as tradições patriarcais da época. A escolhida é Suzanna (Caro Braun), uma jovem aparentemente pura e imaculada, mas que também esconde um grande segredo e pretende usar o casamento para encobri-lo. Os problemas começam quando, pressionada pela comunidade, Rose precisa engravidar a esposa para que o casamento não seja anulado e ela não perca parte dos bens envolvidos no acordo.


Gosto de como o filme não se preocupa em rotular a sexualidade de Rose, mostrando que a escolha de se passar por homem foi, antes de tudo, uma estratégia de sobrevivência que ela adotou ainda muito jovem. Ao mesmo tempo, é perspicaz a maneira como a personagem jamais é descoberta. De certa forma, isso abre espaço para uma discussão pertinente sobre o corpo humano e as expectativas que construímos em torno dele. Rose não precisava necessariamente corresponder àquilo que os outros esperavam de um homem: sua força, sua postura e sua valentia eram suficientes para que todos acreditassem na identidade que ela apresentava. E no fim, o que acaba colocando tudo a perder é justamente a obrigação de assumir o papel de pai, uma das funções mais profundamente enraizadas na estrutura patriarcal.

A fotografia em preto e branco dá ao filme uma beleza quase desconfortável, potencializando a pobreza do cenário e a miséria moral daquela sociedade. O ponto alto, no entanto, não poderia ser outro senão a presença extraordinária de Sandra Hüller em cena. Uma das melhores atrizes europeias da atualidade, Hüller demonstra mais uma vez sua capacidade ímpar de dar vida a personagens enigmáticos, que dizem muito mais pelo olhar e pelas expressões do que pelas palavras. Não conhecemos o passado de Rose, mas conseguimos compreender que ela enfrentou inúmeras privações e desafios ao longo da vida só pela personalidade construída ao longo do filme.


Por fim, Rose é, acima de tudo, um retrato doloroso de uma sociedade que determina quem podemos ser e quais papéis devemos desempenhar para sermos aceitos. E mesmo se passando há séculos atrás, remete imediatamente aos tempos de hoje, onde muitas pessoas ainda parecem viver com a cabeça do povo daquela época.

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