terça-feira, 8 de setembro de 2026

Crítica: El Ser Querido (2026)


Quatro anos após o excelente As Bestas (2022), o cineasta espanhol Rodrigo Sorogoyen volta aos cinemas com mais um drama intenso sobre a natureza das relações humanas. El Ser Querido parte de uma premissa já explorada por outras obras recentes, como o vencedor do Oscar de melhor filme internacional, Valor Sentimental, para investigar os laços familiares, os ressentimentos acumulados ao longo dos anos e, principalmente, a dificuldade de reconstruir uma relação depois que a distância emocional se torna muito maior do que a própria distância física.


O filme começa com um reencontro entre pai e filha, treze anos após a última vez que haviam se visto. Ele é Esteban Martínez (Javier Bardem), um cineasta de sucesso, vencedor de dois Oscar, que deixou a Espanha há muitos anos para morar nos Estados Unidos. Ela é Emília (Victoria Luengo), uma aspirante a atriz que vem construindo sua carreira em séries pouco conhecidas da televisão. Mais do que a distância física, porém, o que se criou entre os dois foi uma distância emocional aparentemente impossível de ser revertida. Isso fica evidente desde a primeira conversa, quando os primeiros ressentimentos vêm à tona, mostrando que há feridas profundas demais para serem ignoradas e, sobretudo, uma história que nenhum dos dois parece disposto a revisitar com facilidade.

O encontro, no entanto, tem uma finalidade bastante clara: a fim de recuperar a relação com a filha e, segundo ele, ajudá-la na carreira, Esteban quer que ela seja a protagonista de seu novo filme, um épico ambicioso sobre a exploração colonial da Espanha no Saara Ocidental, com filmagem nas Ilhas Canárias. Logo, Emília, que até então ninguém sabia ser filha do cineasta (nem mesmo o google), se torna a figura central do novo filme do pai, que se passa nos anos 1930 e se chamará Desierto. A partir de então, passamos a acompanhar as filmagens do longa, em um esquema de "filme dentro do filme" que sempre me encanta no cinema. Aqui, porém, o recurso ganha uma dimensão ainda mais pessoal e íntima, já que o processo de produção é constantemente atravessado pela tensão desse reencontro marcado por traumas e ressentimentos.

Javier Bardem está impecável na pele de um personagem ambíguo, que alterna constantemente entre o cruel e o carismático; ora sendo compreensível e lidando bem com todos ao seu redor, ora se transformando em um completo descontrolado quando as coisas não saem como planejado. Cada linha de diálogo e cada olhar do ator ajudam a construir essa personalidade contraditória, fazendo com que nunca saibamos exatamente qual será sua próxima ação. Victoria Luengo também está muito bem como Emília, especialmente por interpretar uma personagem que não se entrega facilmente ao papel de vítima. A atriz consegue transmitir bem a ideia de uma personagem que parece estar sempre tentando decidir se vale a pena abrir novamente uma porta que passou treze anos fechada. Além do mais, Emília ainda precisa conviver com aquele paradigma incômodo de ser a "filha do diretor", o que faz com que todos os demais membros da equipe duvidem de sua capacidade de estar ali.


A fotografia é outro ponto alto do longa. O uso das paisagens das Ilhas Canárias resulta em imagens belíssimas, criando uma dimensão quase monumental para Desierto, que contrasta com a intimidade do conflito familiar que acontece nos bastidores. Por fim, El Ser Querido é um filme que encontra sua força justamente na compreensão de que algumas relações não podem simplesmente voltar ao ponto em que foram interrompidas, não importa o esforço que se faça para tanto. Afinal, treze anos de afastamento não desaparecem depois de algumas conversas, e o filme é inteligente ao não tratar essa reconciliação como um processo simples ou instantâneo.

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