Grande fenômeno de bilheteria na China, e aclamado pela crítica em diversos festivais de cinema ao redor do mundo, Dear You, do diretor Lan Hongchun, é certamente um dos filmes mais bonitos que vi neste ano. Abrangendo um período que vai dos anos 1940 até os dias atuais, a história atravessa três gerações para falar, com grande sensibilidade, sobre família, pertencimento e, sobretudo, memórias e vínculos que permanecem interligados através do tempo.
A trama inicia nos dias atuais, na cidade chinesa de Shantou, onde a simpática Shurou (Iap Sok-jiu) está celebrando seus 87 anos cercada por amigos e familiares, que a têm como exemplo de força e resiliência. Há quarenta anos atrás, seu marido Zheng Musheng (Wang Yantong) viajou em direção ao sudeste asiático para escapar de ser recrutado pelas tropas chinesas durante a guerra civil no país, e nunca mais voltou. Durante anos, Shurou recebeu cartas de Musheng no exílio, e enquanto aguardava seu retorno com lealdade, criava os três filhos do casal com muita luta. Isso até ela receber uma foto, sem carta anexada, que parecia indicar que ele havia construído uma nova família em Bangkok. Sentindo-se traída, ela desejou nunca mais saber notícias suas e não deixava ninguém sequer tocar no assunto.
A fotografia, no entanto, escondia um grande mal-entendido, daqueles capazes de mudar trajetórias de vida para sempre. E quem descobre isso é o neto de Shurou, Xiaowei (Hiau-ui), que endividado e sem saber como sair dessa situação desesperadora, decide viajar até a Tailândia para tentar encontrar seu avô e pedir-lhe um empréstimo, já que as poucas informações que tem indicam que ele se tornou um homem rico e importante por lá. Enquanto Xiaowei vai descobrindo aos poucos o verdadeiro destino do avô, o filme nos faz voltar no tempo, contando tudo que aconteceu com Musheng desde que ele saiu de casa pela última vez.
A mulher, que na foto todos presumiram ser a segunda esposa dele, na verdade era Xie Nanzhi (Li Sitong), filha única do dono da pousada onde Musheng ficou hospedado por anos. Longe de uma relação amorosa, os dois desenvolveram uma forte amizade, especialmente depois que Musheng passou a ensinar mandarim clandestinamente aos filhos de outros imigrantes, pessoas que, assim como ele, haviam deixado seu país em busca de sobrevivência e de uma vida melhor. Mesmo longe de casa, ele jamais se esqueceu do verdadeiro lar que havia deixado para trás, mantendo a comunicação com a esposa por meio de cartas e alimentando o sonho de um dia conseguir retornar. O destino, no entanto, tinha outros planos.
Apesar de abordar temas complexos, Dear You encontra espaço para um humor bastante peculiar, que ajuda a aliviar o peso de determinados momentos sem jamais diminuir sua importância. O filme alterna com naturalidade entre situações engraçadas e passagens profundamente emocionais, fazendo com que o espectador transite entre o riso e a melancolia quase sem perceber. Essa mistura também contribui para que a história nunca se torne excessivamente melodramática, mesmo que, às vezes, a trilha sonora soe um pouco forçada.
Ao acompanhar os efeitos de decisões tomadas décadas atrás, o longa mostra como pequenos mal-entendidos, silêncios e circunstâncias fora do nosso controle podem atravessar gerações e continuar moldando a vida de pessoas que sequer estavam presentes quando tudo aconteceu. No fim, mais do que uma história sobre uma separação forçada, Dear You é um filme sobre aquilo que permanece quando as pessoas se vão: as lembranças, os vínculos e as histórias que continuam sendo contadas dentro de uma família. Um delicado retrato sobre o tempo e sobre a maneira como ele pode tanto nos afastar quanto nos aproximar daqueles que amamos.



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