Chega o fim de dezembro, e mais uma vez é hora de postar os melhores filmes do ano. Este foi um ano em que muita coisa boa foi lançada, tanto nos cinemas, que voltaram a receber público depois de meses com portas fechadas, quanto nos serviços de streaming, que justamente por conta da pandemia ainda tiveram muitas estreias com exclusividade. Lembrando sempre que a escolha é pessoal, e eu só coloco filmes que tiveram lançamento oficial no país de 1º de janeiro até o fim do ano. Sem mais delongas, vamos a ela:
20. Loucos por Justiça, de Anders Thomas Jensen (Dinamarca)

Sucesso de público e crítica na Dinamarca, o filme aborda o tema do
luto familiar de um jeito muito original e ousado, abusando de uma
característica típica do cinema de Anders Thomas Jensen: o humor ácido. Na
trama, Markus (Mads Mikkelsen) é um militar em ação
que precisa voltar pra casa após a notícia de que sua esposa morreu em
um acidente de trem. Lidando com o luto e tendo que cuidar da filha
adolescente (Andrea Gadeberg) que sobreviveu, ele recebe a visita do matemático
Otto (Nikolaj Kaas), que estava no mesmo vagão da sua esposa e desconfia
que não foi um acidente, mas sim uma ação criminosa para matar um dos
passageiros sem deixar pistas. Otto se junta aos amigos Lennart (Lars Brygman) e
Emmenthaler (Nicolas Bro) para tentar comprovar a teoria do suposto
atentado, algo que a polícia não leva a sério e descarta investigar. Mas
eles não desistem e procuram a ajuda de Markus, justamente por saberem que na dor da
perda ele faria de tudo para procurar a verdade e consequentemente a
justiça. Mesmo recheado de alívios
cômicos, não se trata de um filme leve, e o filme traz uma série
de reflexões importantes sobre temas como o luto, a amizade, a família, o
sentido de algumas coisas acontecerem nas nossas vidas e o fato de que
não precisamos de respostas para tudo.
19. A Ausência que Seremos, de Fernando Trueba (Colômbia)
O
novo filme de Fernando Trueba nos apresenta a figura de Hector Abad
Gómez (Javier Câmara), um médico sanitarista e professor
universitário de Medellín que foi um forte defensor dos direitos
humanos durante a ditadura colombiana. A história é contada sobre a
visão do filho de Hector, e se passa em dois períodos distintos: quando
ele era criança e vivia colado ao pai, e quando ele, já adulto, precisa voltar à Medellin para a despedida do pai na faculdade onde ele lecionou por anos. Interessante
analisar que o médico não se dizia nem de esquerda e nem de direita,
mas sofreu perseguição ao ser considerado comunista por se preocupar com
a população de baixa renda (qualquer semelhança com os dias de hoje é
mera coincidência). A Ausência que Seremos é um filme que quase passou
despercebido no catálogo da Netflix este ano, mas recomendo fortemente
para quem tiver a oportunidade de assisti-lo.
18. Tenho Medo Toureiro, de Rodrigo Sepúlveda (Chile)

Adaptado do livro do chileno Pedro Lemebel, Tenho Medo
Toureiro é um filme
muito sensível sobre preconceito, resistência, aceitação e, sobretudo, o
amor, seja ele na forma que for. La Loca del Frente (Alfredo
Castro) é uma travesti quase beirando os 60, que vive sozinha e se
apaixona por um homem que a salva de ser espancada durante uma batida
militar numa boate. Vale lembrar que o enredo se passa durante a
ditadura no Chile,
que era extremamente intolerante contra o público LGBT. O homem
que a salva é Carlos (Leonardo Ortizgris), um jovem que faz parte de um
grupo revolucionário que está planejando assassinar Pinochet. Movida
pela paixão repentina e também como uma forma de recompensa-lo, "La
Loca" aceita guardar em sua casa algumas caixas de Carlos que
supostamente teria livros subversivos dentro. Com um leve toque
de humor, mas sempre preocupado em mostrar a dura realidade daquela
época, o roteiro também acerta em tocar num ponto muito perspicaz: de
que não foi somente em ditaduras que os LGBT's sofreram abusos e
repressão, e que por isso mesmo, muitos deles não estavam na linha de frente
contra o regime, já que não fazia diferença.
17. Marighella, de Wagner Moura (Brasil)

Depois de dois anos sofrendo com inúmeros adiamentos
burocráticos, finalmente chegou aos cinemas brasileiros o longa
Marighella, que marca a estreia de Wagner Moura na direção e conta a
história de Carlos Marighella, revolucionário que liderou a luta armada
contra a ditadura no Brasil. O filme se passa basicamente entre
os anos 1964 e 1969, quando a ditadura havia acabado de ser instaurada e
o país vivia um dos seus períodos históricos mais conturbados. Neste
cenário surge Marighella (Seu Jorge), um político comunista e cofundador
da ALN (Aliança Libertadora Nacional), que por conta de suas ações
violentas de enfrentamento ao regime, chegou a ser
considerado o inimigo número um do governo militar. Gostei muito do ritmo
do filme, que não deixa a
história se tornar cansativa mesmo com suas 2h30 de duração. As idas e voltas no tempo
também são fáceis de acompanhar graças a ótima montagem, que mostra
tanto o lado guerrilheiro de Marighella como o lado pessoal e familiar.
Outro fato que chamou muito a minha atenção é a excelente ambientação da
época, além, é claro, do elenco super afiado. Numa cena pós
crédito temos um momento bastante catártico, que passa a importante mensagem
de que a "pátria amada" não é de um grupo ou de outro, mas sim de todos
nós. Dá para perceber também, mesmo que de forma muito sucinta, certas
críticas indiretas aos dias de hoje, numa forma de mostrar que algumas
semelhanças com aquele período não são meras coincidências.
16. Druk - Mais uma Rodada, de Thomas Vinterberg (Dinamarca)

O enredo de Druk acompanha
Martin (Mads Mikkelsen), um professor que está passando por um momento
melancólico na sua fase dos 40 anos e que vive desanimado com a
carreira, com o casamento e com a vida em geral. Martin tem três
amigos professores de longa data que também estão com problemas, Tommy
(Thomas Bo Larsen), Nicolaj (Magnos Millang) e Peter (Lars Ranthe). Um
dia eles descobrem a teoria de um filósofo dinamarquês que fala que o
ser humano, para viver bem e em plenitude, precisa ter uma certa
quantidade de álcool no sangue por dia, e aceitam o desafio de testar
isso na prática. Tudo vai bem no começo, inclusive com eles melhorando
vários aspectos das suas próprias vidas, passando a ver tudo com mais
interesse e sendo muito mais criativos, mas é claro que com o tempo
alguns problemas começam a acontecer, principalmente pela velha mania
que temos de chegar no nosso limite e acharmos que podemos ir um pouco
além. Eu achei o filme inteiro muito verdadeiro, desde as
atuações até as situações que ocorrem com os personagens, que por sinal
são muito bem desenvolvidos pelo roteiro, com suas inseguranças e ansiedades. A ideia de se viver sempre
entorpecido, como uma forma de fugir da realidade, é algo que agrega
boas discussões, mas o filme foge da ideia de glamourização do álcool,
principalmente quando incita os personagens a terem que lidar com as
próprias consequências disso. O final é uma catarse, e um dos
momentos mais legais do cinema nos últimos anos.15. Reze Pelas Meninas Roubadas, de Tatiana Huezo (México)

Dirigido pela estreante Tatiana Huezo, Reze Pelas Meninas Roubadas é
baseado no livro homônimo de Jennifer Clement que conta a história de
meninas que são tiradas de suas famílias para virarem escravas sexuais
de milícias armadas no México. O
roteiro gira em
torno de Ana (Ana Cristina Gonzales), uma menina que vive com a mãe em
um vilarejo no estado de Jalisco, e convive diariamente com o medo e a
preocupação de ser a próxima sequestrada. O grande acerto da direção é
trazer o ponto de vista das crianças sobre esses crimes absurdos, numa
visão
sincera de quem não entende muito bem o que está acontecendo mas traz o
medo no olhar. É através das reações e dos olhares dessas meninas que
sentimos o verdadeiro impacto que as organizações criminosas criam na
vida e no dia a dia dessas pessoas. Para evitar serem visadas, elas são obrigadas a cortar o
cabelo curto, e uma das cenas mais emocionantes do filme é justamente
num momento como esse. São meninas que não conseguem viver uma vida
normal, quase não conseguem dar um sorriso, mas que
carregam uma doçura encantadora dentro delas, que transbordam em pequenas ações.
14. Não Olhe Para Cima, de Adam McKay (Estados Unidos)
A estudante de astronomia
Kate Dibiaski (Jennifer Lawrence) enxerga no telescópio um objeto que
parece ser um cometa e mostra ao Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio),
que faz os cálculos de rota e logo conclui que o objeto está vindo em
direção à Terra e que o impacto será catastrófico. Os dois precisam avisar o quanto antes as autoridades
para que medidas sejam tomadas, mas a partir de
então começa uma verdadeira odisseia de Kate e Randall, pois ninguém quer ouvi-los ou
sequer levá-los a sério. O
roteiro evidentemente faz uma crítica à maneira como o
mundo enxerga a ciência hoje em dia, além de criticar a sociedade do
espetáculo e do engajamento que vivemos. Mesmo com dados que colocam em
cheque a vida da população na Terra, os dois astrônomos praticamente não
têm espaço na mídia, e quando finalmente são ouvidos, é tudo levado na
brincadeira, com muitos memes nas redes sociais, além de gerar uma onda
negacionista que fala que eles estão mentindo para a população. Ao pedir
para olharem para cima e enxergarem o cometa se aproximando, o
protagonista está pedindo que as pessoas apenas enxerguem o óbvio, coisa
que hoje em dia tem sido difícil.
13. Duna, de Denis Villeneuve (Estados Unidos)

Dirigido por Denis
Villeneuve, Duna se baseia no livro homônimo lançado por Frank Herbert em
1965 e que é considerado até hoje o livro de ficção científica mais
vendido da história. O
filme começa nos apresentando o desértico e distante planeta Arrakis,
que há 80 anos é dominado pelos forasteiros Harkonnen, que
exploram as dunas do local atrás de especiarias que são extremamente
valiosas. Certo dia, o império decide tirar os Harkonnen do local e
designar Leto Atreide (Oscar Isaac) como novo comandante.
Atreide então viaja até Arrakis com sua família para se
instalar e se adaptar ao novo planeta, que é extremamente quente com
temperaturas que chegam a mais de 140 graus no sol. Porém, quando Leto descobre que foi traído pelo império,
ele se vê obrigado a se juntar aos nativos do planeta para combater os inimigos, que
querem ele e sua família mortos. Eu gostei muito da
contextualização que o diretor faz da história para quem, assim como eu,
não a conhecia, e fiquei na expectativa da continuação, que deverá ser lançada em 2023.
12. O Homem Ideal, de Maria Schrader (Alemanha)
Representante da Alemanha no Oscar 2022 de melhor filme
internacional, O Homem Ideal (Ich Bin Dein Mensch) bebe da mesma fonte
de Ela, lançado em 2013 e dirigido por Spike Jonze, e também aborda a
relação de seres humanos com a inteligência artificial. No filme da
diretora Maria Schrader, uma nova tecnologia está sendo testada onde um
robô humanoide promete ser o par perfeito para quem tiver solitário, com base no
escaneamento dos gostos da pessoa contratante do serviço. Alma (Maren Eggert) é uma antropóloga que aceita o
desafio de testar por 3 semanas a tecnologia para depois fazer um
relatório sobre suas impressões, e recebe em sua casa o robô Tom
(Dan Stevens), que passa a conviver com ela diariamente. Programado para
fazer só o que Alma gosta, Tom vai se moldando pouco a pouco às
preferências dela, tentando ser o mais perfeito possível em todos os
aspectos e deixar Alma feliz ao seu lado, mas o resultado acaba sendo o contrário. O filme se aprofunda em questões muito humanas, como solidão, perdas, e claro, o amor, e tem um senso de humor que o faz ser leve e agradável para todos os gostos.
11. Minari, de Lee Isaac Chung (Estados Unidos)
A trama se passa
na década de 1980 e acompanha o casal de imigrantes coreanos Jacob e
Monica, que estão se mudando da Califórnia para o Arkansas junto com os
filhos para tentar uma vida melhor. Há anos trabalhando no negócio
aviário, eles decidem comprar um pedaço de terra para mudar um pouco a
rotina e ganhar a vida plantando frutos e vegetais originários da Coreia
do Sul, afim de atender a grande quantidade de imigrantes do país que
estavam chegando aos Estados Unidos. As coisas, no entanto, se mostram
muito mais difíceis do que eles imaginavam, por inúmeras questões, como o
próprio choque de culturas que é evidenciado no filme através de
pequenos detalhes. É um roteiro bastante singelo, com personagens
muito humanos, e fica evidente que é um filme feito com muito amor pelo
fato de trazer memórias afetivas da própria vida do diretor, que nasceu
nos Estados Unidos mas é filho de imigrantes.
10. No Ritmo do Coração, de Sian Heder (Estados Unidos)

Adaptado
do filme francês "A Família Bélier" (2014),
CODA (abreviação para Children of Deaf Adults/ Filhos de adultos surdos)
acompanha uma família de surdos que vive da pesca numa pequena cidade
litorânea de Massachusetts. Dos 4 membros da família, apenas uma
consegue ouvir e falar: a caçula Ruby (Emilia Jones). Por conta
disso, Ruby acaba sendo o elo entre seus pais (Marli Matlin e Frank Troy
Kutsur) e seu irmão mais velho (Daniel Durant) com o mundo exterior,
ajudando-os principalmente nos negócios. Descoberta pelo
professor de música da escola, Ruby começa a fazer audições para
conquistar uma bolsa na
faculdade de música de Boston, porém a necessidade da família em tê-la
por perto pode pôr tudo a perder. No Ritmo do Coração talvez seja para
mim a grande surpresa do ano, já que fui assisti-lo sem expectativa
alguma e terminei encantado com tudo que vi. É um filme que, acima de
tudo, fala sobre inclusão, mas também sobre família, amor e sonhos.
9. Caros Camaradas! Trabalhadores em Luta, de Andrei Konchalovsky (Rússia)

O
enredo se baseia num fato verídico que ocorreu na União Soviética em
1962, e que ficou conhecido posteriormente como Revolta de
Novocherkassk. Em plena guerra fria, onde Stálin já havia morrido e o
país vivia entre altos e baixos na economia, um grupo de trabalhadores
decide se revoltar contra o aumento abusivo dos preços nos mercados e a
baixa do salário recebido numa fábrica de locomotivas. A revolta sai do
controle quando trabalhadores de outras fábricas se unem ao ato, e o
governo russo resolve conter as manifestações com violência. Os acontecimentos são mostrados sob o ponto de vista de Luydmilla (Yuliya
Vysotskaya), uma forte militante do partido comunista que trabalha numa
cúpula do governo municipal. É através dela que acompanhamos o movimento
do governo para conter a greve e a crescente preocupação interna de que
a revolta poderia manchar a imagem de prosperidade do regime. A protagonista é
bastante complexa, pois ao mesmo tempo que reconhece que as coisas não andam
bem no país, ela não recua em defender o regime a todo custo, inclusive a força policial descabida para conter os protestos. Não é um
filme que critica uma ideologia específica, mas sim, todos os governos
autoritários que agem com truculência e tentam maquiar seus erros e seus defeitos.
8. Aranha, de Andrés Wood (Chile)

Dezessete anos depois do excelente Machuca, o diretor
Andrés Wood volta a abordar o período pré-ditadura militar no Chile com
Aranha, filme que representou o país no Oscar de 2020 e que só
agora em 2021 chegou aos cinemas brasileiros. O
foco do roteiro é nas ações do grupo
nacionalista Patria Y Libertad, uma organização paramilitar
de extrema direita surgida nos anos 1970 e que tinha um símbolo
semelhante a uma aranha. O grupo realizou uma série de atentados e
colaborou no golpe
contra o governo eleito de Salvador Allende, o que veio a resultar num
dos governos de exceção mais sanguinários da história comandado por
Augusto Pinochet. O roteiro se passa em dois períodos distintos,
os anos pré-ditadura (1970-1973) e os anos atuais, com os membros do
grupo já envelhecidos e vivendo uma vida aparentemente normal. É interessante
ver como, mesmo depois de muitos anos, os personagens seguem com as
mesmas ideias, ainda que por conveniência tenham que disfarçar muito
bem, já que no Chile a questão da ditadura é uma ferida que é levada
muito a sério (quem dera também fosse assim aqui no Brasil).
7. Nomadland, de Chloé Zhao (Estados Unidos)

Vencedor do Óscar de melhor filme, Nomadland acompanha Fern (Frances
McDormand), uma mulher que ficou desamparada depois que a empresa onde
trabalhava fechou as portas por conta da crise econômica que assolou os
EUA em 2008. Sem trabalho fixo e sem casa, Fern passa a atravessar as
estradas do país fazendo bicos, enquanto dorme em sua van e enfrenta
todo tipo de adversidades. Na sua jornada, Fern vai conhecendo outras
pessoas que vivem a mesma situação dela, de marginalização, inclusive
uma comunidade nômade, onde faz amizades e finalmente se sente parte de
algo maior. O roteiro tem um ar documental, até pelo fato de
juntar ao elenco pessoas que realmente vivem essa realidade na pele
diariamente. É bem emocionante ouvir os relatos deles, alguns inclusive
dos quais jamais esquecerei. São abordados assuntos como o sistema de
aposentadoria, a chegada da idade e o peso de se viver numa sociedade
injusta e desigual. Trata-se de um filme grandioso na sua
simplicidade e que desperta os sentimentos mais diversos com muito pouco.
6. Nós Duas, de Filippo Meneghetti (França)
Representante da França no Oscar 2021, Nós Duas é um drama sobre duas mulheres fortes, que precisam esconder seus sentimentos numa sociedade que ainda é coberta de preconceitos e tabus. Madeleine (Martine Chevallier) e Nina (Barbara Sukowa) são vizinhas, e mantém um relacionamento amoroso há mais de uma década. Para os familiares de ambas, elas são apenas grandes amigas, que na solidão da terceira idade fazem companhia uma a outra. Cansadas de viverem essa "mentira", elas planejam contar tudo e se mudar juntas para a Itália, porém um infortúnio acaba deixando Madeleine muito doente, tirando totalmente sua liberdade e dificultando a realização desse sonho. Amor e libido na terceira idade ainda são de fato um tabu, ainda mais entre duas pessoas do mesmo sexo, e o filme aborda isso com muita delicadeza.
5. Agente Duplo, de Maitê Alberdi (Chile)

Realidade ou ficção? Essa dúvida paira no
ar em alguns momentos durante a exibição de Agente Duplo, um
documentário diferente de tudo que eu já havia visto até então no gênero
e que foi o representante do Chile no Oscar 2021. Uma mulher entra em contato com uma agência de detetives para descobrir
como sua mãe está sendo tratada em um asilo, e após um anúncio no
jornal, vários idosos na faixa de 80 anos são entrevistados para um deles entrar como "espião" na casa de repouso e passar
informações de como está sendo tratada a idosa. Sergio é o escolhido, e passa a
conviver com os moradores do asilo como se fosse um interno de verdade,
ouvindo histórias, lembranças, queixas e até mesmo despertando paixões.
Aos poucos vamos sabendo mais da vida de cada um deles apenas pelas
conversas com Sérgio, e é impossível não se emocionar com o que
vemos. O que era para ser um filme denúncia, acaba se transformando num tocante
filme sobre o cotidiano da velhice e da sua solidão.
4. Judas e o Messias Negro, de Shaka King (Estados Unidos)

Baseado numa história real, o enredo se
passa em 1968 e começa acompanhando William O'Neal (Lakeith Stanfield),
um ladrão de carros que é
capturado pelo FBI e tem duas opções: ir para a cadeia por alguns
anos ou realizar uma missão como infiltrado no partido dos Panteras
Negras em troca da sua liberdade. Na mesma época, o presidente
dos Panteras Negras em Illinois era Fred Hampton (Daniel Kaluuya), um
jovem de 21 anos com ideais muito fortes e discursos efusivos. Aos
poucos, William vai conquistando seu espaço no grupo e ganhando a
confiança do próprio presidente, para quem ele passa a dirigir. Embora o
roteiro foque nessa relação entre Fred e William, que como o nome do
filme já sugere termina em uma tragédia bíblica, o diretor se preocupa
em abordar muitas outras questões, e a principal delas é a forma
como o governo dos EUA tratava qualquer forma de resistência
que surgia, com extrema violência e repressão, além é claro, do racismo e da segregação existentes na época.
3. O Cego que Não Queria ver o Titanic, de Teemu Nikki (Finlândia)
As dificuldades e as adaptações de um
homem que fica cego e paralítico por causa de uma doença degenerativa.
Esse é o mote central desse filme dirigido
pelo finlandês Teemu Nikki,que acompanha Jaakko (Petri Poikolanen), que antes de perder a visão era um apaixonado por cinema. Seus contatos com o mundo são seu pai, com quem fala diariamente por telefone, e Sirpa, que ele nunca encontrou pessoalmente mas se apaixonou após se conhecerem num aplicativo de relacionamento. Quando Sirpa fica doente e teme não ter muito tempo de vida, Jaako decide ir visitá-la na cidade onde ela mora, mas ele nunca havia saído de casa sozinho desde que ficou cego e as dificuldades logo aparecem, principalmente quando se depara com pessoas de má índole pelo caminho. A
experiência de assistir esse filme foi intensa, chocante, mas ao mesmo
tempo prazerosa pela qualidade acima da média.
2. Quo Vadis, Aida?, de Jasmila Zbánic (Bósnia)
As cicatrizes da guerra da Bósnia, que durou de abril de
1992 até dezembro de 1995, ainda doem na
população daquela região, e isso reflete muito no cinema feito por lá.
Quo Vadis, Aida?, da diretora Jasmila Zbánic, se passa no final do
conflito e conta a história real do que ficou conhecido como genocídio
de Srebrenica, o maior massacre ocorrido em terras europeias desde a
Segunda Guerra Mundial. No cerne do enredo está Aida (Jasna Duricic), que trabalha como intérprete na sede da ONU e tenta ajudar nas negociações entre bósnios, sérvios e membros da ONU, enquanto do lado de fora mais de 30 mil pessoas buscam desesperadamente refúgio para fugir da morte certa. Quo Vadis, Aida? era o meu preferido para vencer o Óscar de melhor filme internacional deste ano.
1. Meu Pai, de Florian Zeller (Estados Unidos)
O filme acompanha Anthony
(Anthony Hopkins), um senhor na faixa dos 80 anos que está começando a
dar sinais de demência e cuja filha (Olivia Colman) faz de tudo para
tentar ajudá-lo. O tema já foi abordado muitas vezes no cinema, mas não
lembro de ter visto algo igual ao que vi aqui. Com uma estrutura
labiríntica, típica de um filme de suspense, Zeller nos coloca na
perspectiva de Anthony, fazendo com que tenhamos a mesma sensação de
confusão do personagem, e acerta em cheio na forma que
aborda essa deterioração da mente de uma pessoa já idosa, o dilema dos familiares
em como resolver a situação do enfermo e principalmente a tristeza
deles ao ver quem se ama chegar há um estado como este. Óscar de melhor ator mais do que merecido ao Hopkins, e para mim o grande filme do ano lançado no Brasil.