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segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Crítica: Io Capitano (2023)


O tema da imigração tem sido recorrente no cinema europeu, principalmente pelo fato do continente estar vivenciando desde 2015 a maior onda de refugiados após a Segunda Guerra Mundial. São milhares de pessoas que todos os dias se arriscam para fugir de guerras e do estado de pobreza extrema em seus países de origem, com intuito de tentar levar uma vida digna nos grandes centros, e Io Capitano, novo filme do italiano Matteo Garrone, aborda esta questão de forma angustiante, em um dos filmes mais tensos e necessários do ano.


Vencedor do Leão de Prata em Veneza, e escolhido para representar a Itália no Óscar de melhor filme internacional, o filme acompanha Seydou (Seydou Sarr) e Moussa (Moustapha Fall), dois jovens senegaleses que decidem guardar algumas economias para fugir do país e tentar ganhar a vida na Europa. Ao contrário de outros imigrantes que fogem de guerras, eles aparentemente vivem numa certa tranquilidade, e a principal motivação é melhorar a vida da família e tentar ma carreira musical. Mesmo contando com a negativa da família, eles partem às escondidas de Dakar rumo à Síria, onde irão começar a jornada pelo deserto do Saara, tendo como meta alcançar o sul da Itália. 

Ao longo de duas horas, acompanhamos a odisseia destes meninos, que precisam enfrentar não somente os perigos naturais do percurso, como a maldade humana no seu estado mais puro, na pele de policiais e rebeldes que se aproveitam da situação de desespero para enriquecer às custas das pessoas, ou usá-las em trabalhos forçados. O roteiro tem muita sobriedade e conduz tudo como se fosse uma grande aventura. O primeiro ato contextualiza e apresenta muito bem estes dois personagens e suas motivações, o que ajuda a criar uma empatia instantânea por eles. Já o segundo ato ganha ainda mais força ao mostrar a jornada dos dois, os perigos, os sofrimentos, mas sobretudo a resiliência de continuarem firmes em suas missões. O último ato é o mais tenso de todos, principalmente quando Seydou precisa se responsabilizar pela vida de centenas de imigrantes como ele, ao comandar um barco pelo mar mediterrâneo (daí o nome do filme).


Mais do que a jornada física, os protagonistas passam também por uma jornada de amadurecimento. Afinal, eles saíram de seu vilarejo com uma esperança quase ingênua, sem ter a mínima noção do que poderiam encontrar pelo caminho, e ao final já eram pessoas completamente diferentes. Mas ainda assim, com o mesmo coração e a mesma humanidade. O prêmio de melhor atuação estreante em Veneza foi justíssimo para Seydou Sarr, que está impecável, em uma das atuações masculinas mais fortes que vi este ano. É um filme doloroso, impactante e visceral, que grita, assim como seu personagem principal no final, por soluções.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Crítica: Godzilla: Minus One (2023)


Aparecendo pela primeira vez nos cinemas em 1954, Godzilla já teve sua história contada mais de trinta vezes nas telas desde então, entre filmes live action e animações. Gigantesco, com a aparência mesclada entre dinossauro e réptil, e praticamente indestrutível, ele sempre foi considerado o "reis dos monstros", além de ser visto como uma personificação simbólica do medo dos japoneses diante das armas nucleares após a Segunda Guerra Mundial. Godzilla: Minus One, do diretor Takashi Yamazaki, é praticamente um filme homenagem pelos 50 anos do personagem, que resgata a essência dos filmes primordiais e o propósito da existência do Godzilla, e apresenta ele de uma maneira impressionante.


O grande acerto do filme é a forma como ele começa e termina abordando os traumas de um Japão pós-guerra, completamente destruído pelos bombardeios e pelas bombas nucleares lançadas pelos Estados Unidos, além de estar economicamente desesperançado. O foco do filme é na relação da população civil com o conflito e com estes problemas subsequentes, como é o caso de Koichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki), um piloto kamikaze que desertou durante a guerra e viu o Godzilla trucidar todo um batalhão de soldados após pousar o seu avião na ilha de Odo.

Um ano se passou e agora Koichi está de volta a Tóquio, enfrentando muitas dificuldades após descobrir que seus pais morreram nos bombardeios. É na cidade que ele conhece Noriko (Minami Hamabe), uma mulher que está cuidando de uma criança recém orfã, e que ele decide acolher em sua pequena e apertada residência. A convivência dos três vai se intensificando, na medida em que o Japão também vai entrando novamente nos eixos, mas a ameaça do Godzilla na cidade pode colocar tudo a perder novamente.

Gostei muito de como o filme trabalha a personalidade de Koichi, um homem que tinha o dever de se matar pela pátria, e não o fez, sendo taxado pelos colegas de covarde e tendo que viver com este sentimento eternamente. Porém, em outra conversa, alguém o elogia por ter tido a coragem de abandonar a guerra, deixando claro que esta história de morrer pela pátria não faz sentido algum. A discussão é muito bem trabalhada pelo roteiro, assim como outras questões pertinentes sobre guerra, pátria e honra. O protagonista também é muito humano, como dá para sentir na própria atitude que ele tem de cuidar de uma mulher e uma criança sem ter obrigação, apenas por bondade.


Se na parte dramática o filme já é extremamente competente, nas partes mais movimentadas, com o Godzilla em ação, ele fica ainda mais grandioso. O trabalho visual é impecável, e há muito tempo eu não via um CGI sendo tão bem utilizado em cenas de destruição em massa. Pois sim, o Godzilla destrói tudo que vê de forma indiscriminada, e a maneira como o diretor utiliza vários ângulos de câmera para mostrar isso é irretocável. Algumas cenas são um espetáculo à parte, como a que o Godzilla persegue um barco em alto mar. Talvez não haja nada igual este ano, em termos de criar agonia e tensão no espectador. É brilhante! A própria figura do Godzilla também é uma das mais amedrontadoras que já se viu dele, se não a mais. Cada preparação dele para lançar seu "raio atômico" é um espetáculo estarrecedor.

É nítido que o filme possui algumas facilitações, alguns exageros aqui e ali, e até mesmo algumas atuações afetadas, mas os acertos são tantos, que estes detalhes acabam sendo deixados de lado no resultado final. Mais do que um filme sobre um monstro que destrói cidades inteiras, Minus One é um filme sobre as consequências dolorosas de uma guerra, sobre culpa, e principalmente sobre como a sociedade lida com desastres de magnitudes inimagináveis. Aqui é o Godzilla, mas poderia muito bem ser uma bomba atômica, e a referência está ali para todos verem.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Crítica: Maestro (2023)


Com direção de Bradley Cooper, e produção de nada mais nada menos que Steven Spielberg e Martin Scorsese, Maestro chegou com muita pompa no catálogo da Netflix nesta última semana, sendo inclusive considerado a grande aposta do streaming para o Óscar de 2024. O filme tem o propósito de mostrar um pouco da vida e da trajetória profissional do maestro e compositor norte-americano Leonard Bernstein, conhecido por popularizar um gênero até então considerado da elite, além de ser responsável por trabalhos famosos como o musical West Side Story, que posteriormente foi adaptado para o cinema.


O filme inicia em meados dos anos 1940, quando aos 25 anos de idade, Bernstein (Bradley Cooper) ganha a chance de sua vida ao substituir o maestro Bruno Walter na Orquestra Filarmônica de Nova Iorque, em frente a um Carnegie Hall lotado e sem sequer ter ensaiado. A performance foi transmitida para o mundo todo e chamou a atenção do New York Times, que teceu elogios ao jovem maestro e o elevou a fama instantaneamente. Este início é promissor, mas é um dos poucos momentos grandiosos da carreira do músico que realmente ganha o destaque que merece, já que o roteiro infelizmente escolhe focar mais na sua relação com a esposa do que propriamente na sua obra e no seu legado.

Bernstein conheceu a conceituada atriz de teatro e televisão Felicia Montealegre (Carey Mulligan) em uma festa, ainda nos anos 1950, sem imaginar que ela seria sua companheira pelo resto da vida. Com uso de alguns saltos temporais esquisitos, logo vemos os dois casados, e posteriormente vivendo com três filhos, e a relação em si acaba não sendo desenvolvida ao ponto de criar uma química aos olhos do espectador, mesmo que o foco do filme fosse justamente o relacionamento dos dois. O casamento nunca impediu o maestro de continuar tendo casos, principalmente com homens, mas esta questão da sexualidade dele também acaba sendo mal desenvolvida, ficando apenas na superficialidade.

 

Bradley Cooper tem momentos ótimos na pele do protagonista, mas ao mesmo tempo tem momentos que são difíceis de compreender sua intenção. O fato é que o filme poderia facilmente ser chamado de "A Esposa de Leonard Bernstein", pois o filme é de Carey Mulligan. Ela que brilha e rouba a cena, em uma atuação estonteante e sublime, que certamente pode lhe render premiações ao longo do ano. O ponto positivo de Maestro é que ele definitivamente foge da estrutura clichê de um cinebiografia, e eu achei alguns momentos bem criativos neste sentido. A fotografia também é bela, tanto nos momentos em preto e branco, como nas cores que ajudam a separar os dois momentos distintos contados da vida de Bernstein. No entanto, Maestro é um filme que, no geral, carece de alma, e que prometia muito mais do que verdadeiramente cumpriu.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Crítica: Ninjababy (2023)


Lançado no Brasil diretamente no catálogo da Mubi, Ninjababy é uma das gratas surpresas desta reta final de ano. Com um humor peculiar, mas trazendo ao mesmo tempo um tom lúcido e dramático por trás, a diretora norueguesa Yngvild Sve Flikke nos faz adentrar na cabeça de uma jovem que tinha muitos planos para a vida e nenhum deles incluía ter filhos, mas que por descuido e obra do destino acaba descobrindo uma gravidez indesejada e já bastante adiantada.


O filme acompanha Rakel (Kristine Thorp), uma garota na faixa dos vinte anos que só descobre que está grávida quando já está com seis meses de gestação. Seu corpo não deu sinais aparentes, e quem percebeu as pequenas alterações hormonais foi sua melhor amiga, que é também que lhe obriga a fazer o teste comprobatório. O pai da criança? Pelos cálculos De Rakel é um homem que ela sequer sabe o nome, e que chama de "Dick Jesus", uma espécie de amigo colorido que ela só vê para transar.

Como não há mais tempo para um aborto, e o pai da criança também não demonstra no início a mínima intenção de ajudar ela no processo, Rakel precisa encarar a gravidez até o fim e enquanto isso busca encontrar alguém que adote a criança após ela nascer. Nesta busca, ela acaba se metendo em algumas situações inusitadas, contando sempre com a ajuda de seu professor de defesa pessoal Mos (Nader Khademi), que tem uma grande queda por ela.


Na teoria o roteiro lembra muito o filme "Juno", lançado em 2007, mas na prática possui a sua própria assinatura, a começar pela abordagem "politicamente incorreta" e sem rodeios. Os personagens são adoráveis, e é impossível não criar empatia pela protagonista logo de cara. Desenhista, ela sonha ganhar a vida como cartunista, e o "ninjababy" que dá nome ao título nada mais é do que uma representação animada que ela cria do próprio filho que está esperando, e que num recurso bem divertido do roteiro, volta e meia "conversa" com ela.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Crítica: Monster (2023)


O cinema do japonês Hirokazu Kore-eda tem uma característica muito própria, que é a de contar histórias aparentemente simples do cotidiano, mas que nas entrelinhas abordam temas importantes e universais. Premiado como melhor roteiro em Cannes deste ano, Monster (Kaibutsu) nos coloca dentro de uma espiral de acontecimentos, fazendo com que a gente tenha que ligar todos os pontos da narrativa aos poucos, até finalizá-la de forma arrebatadora.


A trama acompanha Saori (Sakura Ando), que é mãe solteira de Minato (Soya Kurokawa), um menino bastante ativo que ainda está no ensino fundamental. Desde a morte do pai do garoto, ela se desdobra em duas para sustentar a casa, e naturalmente acaba agindo de forma superprotetora com o filho único. Ao perceber alterações no comportamento do garoto e alguns machucados pelo seu corpo, ela o pressiona para saber o que está acontecendo, e o menino fala que está sofrendo agressões do seu professor na escola. Preocupada com a situação, ela procura a direção da instituição, que parece não levar o caso a sério, deixando ela ainda mais irritada e iniciando um conflito que vai gerar várias reviravoltas.

O que está acontecendo de fato com o menino é contado sob três pontos de vistas diferentes, todos partindo curiosamente de um incêndio de grandes proporções ocorrido em um prédio central da cidade. O primeiro ponto de vista é justamente o de Saori, e essa sua busca pela verdade em relação ao filho. Todas essas verdades pré-estabelecidas nesta primeira parte vão sendo desconstruídas na segunda, que é narrada sob a perspectiva do próprio professor, Hori (Eita Nagayama). O terceiro e último ato conta a versão definitiva sob os olhos de Minato e o seu melhor amigo, Yori (Hinata Hiiragi), montando todas as peças que faltavam de maneira satisfatória.


O que mais chama a atenção nesse quebra-cabeças montado pelo roteiro, é que apesar de contar a mesma história três vezes, o filme não fica repetitivo em momento algum, já que cada ato vai trazendo elementos novos que nos anteriores passaram batidos, justamente por não estarem dentro do campo de visão da perspectiva contada. Dos três capítulos, talvez o segundo seja o mais fraco, e confesso que o filme me perdeu um pouco nele. Porém, o final é dilacerante, e compensa muito.

O elenco é poderoso, mas quem encanta de verdade são os atores mirins, sobretudo o menino que faz Yori. Doce e delicado, ele sofre diariamente com o bullying dos colegas, e isso acaba sendo o ponto central da trama, já que todos os outros personagens acabam se envolvendo com isso, seja para protegê-lo, seja para atacá-lo, ou simplesmente por se omitir. Kore-eda usa esta história simples para montar um panorama da sociedade japonesa atual, onde aborda temas como amizade, bullying na infância e o papel de pais e educadores na construção da personalidade das crianças. Um dos filmes mais belos do ano.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Crítica: Pedágio (2023)


Escrito e dirigido por Carolina Markovicz (do premiado Carvão), Pedágio segue a mesma linha de outros filmes nacionais lançados recentemente como Raquel 1:1 e Medusa, tendo como ponto central em comum mostrar a hipocrisia da igreja e de seus seguidores. Porém, diferentemente das outras obras relacionadas, aqui a diretora assume um tom de sátira, o que faz o filme ser extremamente carismático em alguns momentos, mesmo abordando temas obscuros como o preconceito e a busca disparatada de uma "cura gay".


O filme acompanha Suellen (Maeve Jinkings), uma mulher batalhadora que  trabalha como atendente de um pedágio em Cubatão, na região da baixada santista. Ela mora com o filho Tiquinho (Kauan Alvarenga), um jovem prestes a se formar no ensino médio e que passa boa parte do tempo performando músicas pop, com direito a figurinos extravagantes e muita maquiagem, para vídeos que ele mesmo posta na internet. O jeito do filho incomoda muito Suellen, num misto de vergonha (pelos vídeos viralizarem entre seus colegas de trabalho) e preocupação (por medo de ver seu filho sofrer com o preconceito dos colegas na escola), e influenciada pela colega de trabalho Telma (Aline Marta Maia), ela decide colocar o garoto em uma espécie de "cura gay" organizada por um pastor de fora do país.

Markovicz consegue nos apresentar estes personagens de uma forma muito orgânica, criando um laço de empatia imediata, principalmente quando focamos nesta relação entre mãe e filho. Suellen possui elementos que poderiam facilmente transformá-la em uma antagonista da sua própria história, mas a verdade é que não dá para dizer que existe maldade em suas ações. Sua homofobia com o filho é muito mais uma preocupação com o futuro do garoto, em um mundo que infelizmente ainda não aprendeu a acolhê-lo, do que repúdio por ele ser quem ele é. E isso fica evidente em uma cena onde ela desabafa com o garoto e indaga "você acha que o mundo lá fora é fácil pra gente que nem você?".


O realismo da trama é deixado um pouco de lado com a personagem Telma, que trabalha com Suellen no pedágio. Ela é usada para dissecar a hipocrisia dos fanáticos evangélicos, mas tem algumas escolhas um tanto quanto irreais. Ainda assim, é a responsável por alguns dos momentos mais cômicos do filme, sendo também uma personagem que a protagonista sente muita confiança (pro bem ou pro mal). No meio disso tudo, Suellen também vive um relacionamento complicado com Arauto (Thomas Aquino), que ganha a vida roubando joias e relógios, e que na segunda metade do filme tem um papel importante no desenvolvimento da personagem.

Sabendo do absurdo que é a ideia de existir uma "cura gay", a diretora não economiza na ridicularização disto enquanto mostra o processo terapêutico do pastor, e esses momentos são realmente engraçadíssimos. Infelizmente, por mais absurda que a ideia pareça, tem gente que realmente acredita neste tipo de "cura milagrosa", como se a homossexualidade fosse uma doença que precisasse de tratamento.


O grande destaque do filme fica por conta da atuação de Maeve Jinkings, que trabalha pela segunda vez com a diretora, e é gigantesca em cada cena que aparece. O seu olhar cansado expressa todos os sentimentos de uma personagem extremamente humana que, assim como todos nós, tem qualidades e defeitos pontuais. O design de produção também merece elogios, por recriar espaços que ajudam na fácil identificação do público, como nos detalhes da casa onde os protagonistas moram ou os locais que eles frequentam. Por fim, arrisco a dizer que Pedágio é o melhor filme nacional que vi em 2023 no cinema, e em um ano que foi repleto de ótimas produções feitas por aqui, isso é muita coisa.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Crítica: Nosso Sonho (2023)


Se existe um gênero cinematográfico que está em alta é o das cinebiografias. Nos últimos anos, infindáveis histórias contando a vida de figuras famosas da música e da cultura pop foram levadas às telas, e essa tendência também atingiu recentemente o cinema brasileiro. O mais novo exemplo disto é Nosso Sonho, dirigido por Eduardo Albergaria, que conta um pouco da história da dupla Claudinho & Buchecha, que foi um estrondoso sucesso nos anos 1990.


O filme é narrado sob a perspectiva de Buchecha (Juan Paiva), e inicia ainda na infância quando ele conheceu o menino Claudinho na época em que ambos moravam em São Gonçalo. Apesar da forte amizade criada entre os dois, eles acabaram ficando anos afastados após Claudinho se mudar com a família, mas quis o destino que eles se reencontrassem ainda na adolescência, quando Buchecha precisou sair da casa dos pais. Na mesma época, o funk começava a surgir nas favelas como um novo ritmo que chegava para ficar, e vendo uma oportunidade de prosperar através da música, os dois decidem formar uma dupla para participar de um concurso de MC's na favela do Salgueiro.

Este concurso serve como trampolim para a carreira da dupla, que logo passa a se apresentar na televisão e ganha o país inteiro com seu "funk melody". Porém, confesso que me incomodou bastante a forma como o roteiro, e principalmente a montagem, no traz esse momento de surgimento dos dois no meio artístico. Não há uma contextualização de como eles se "descobriram" artistas, e a impressão que fica é a de que eles aprenderam a cantar repentinamente, que apareceram na televisão de um dia para o outro, e que o sucesso também veio absolutamente do nada, pois não há um ponto de ligação entre os dois extremos da carreira. O filme também perde a chance de trabalhar melhor a questão da importância que foi ter dois jovens negros, oriundos da periferia, chegando à televisão e fazendo tanto sucesso numa época em que isso ainda era considerado um tabu. Também senti falta de mais momentos que mostrassem as composições das músicas e todo o processo criativo da dupla.

Outro ponto negativo é a relação de Buchecha com o pai, que fica um pouco confusa em determinados momentos. Inlcusive o pai, vivido por Nando Cunha, é um personagem detestável, onde é impossível criar qualquer sentimento de empatia. De tudo, no entanto, o que mais me incomodou no filme foi o excesso de maneirismos que existe no roteiro. É tudo muito convencional, e eu não consegui me envolver como gostaria com a história. Isso não é de forma alguma culpa dos atores, e eu inclusive destaco aqui a atuação de Lucas Penteado (conhecido recentemente por ter participado do Big Brother Brasil), que está fenomenal na pele do Claudinho. Até mesmo a língua presa, que era característica do cantor, é trazida pelo ator de uma maneira que não fica nada caricata, e o que temos é um personagem extremamente carismático e apaixonante, à altura do que Claudinho merecia.


Por fim, apesar dos inúmeros defeitos, não dá para negar que Nosso Sonho é um projeto que foi nitidamente realizado com amor, principalmente por ter tido o próprio Buchecha por trás, demonstrando que tudo, na verdade, não passou de uma homenagem dele ao companheiro, morto em um acidente de carro em 2002. A trilha sonora, como já era de se prever, comanda o clima de nostalgia o filme inteiro, e só por isso já vale a vista.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Crítica: The Holdovers (2023)


Distante do cinema desde 2017, quando lançou Pequena Grande Vida, Alexander Payne (de Nebraska e Sideways) está de volta com The Holdovers, que segue o mesmo estilo de seus outros filmes e apresenta, com um roteiro simples mas muito bem elaborado, personagens apaixonantes que se relacionam de maneira extremamente orgânica.


O filme se passa no período do natal de 1970, onde conhecemos Paul Hunman (Paul Giamatti), um professor que dá aulas sobre civilizações antigas na conceituada escola preparatória Barton Academy. Ele foi o "premiado" entre todos os professores para ficar nas dependências da escola durante as férias e cuidar dos alunos que vão ter que ficar no local por não terem para onde ir. O que para a grande maioria seria um martírio, para ele não é nada demais, afinal de contas ele é um homem solitário e já possui o costume de passar o período sozinho de qualquer maneira. Com uma visão extremamente amarga da vida e uma rigidez exagerada em seus métodos de educação, Hunman é odiado por praticamente todos os alunos e até mesmo por boa parte dos seus colegas, mas parece não se preocupar com isso. Com ele na escola ficam apenas o jovem Angus Tully (Dominic Sessa) e a cozinheira chefe do local, Mary (Da'vine Joy Randolph), e é sobre estes três personagens que o roteiro se solidifica, abordando a personalidade de cada um com muita delicadeza, desde suas alegrias até os seus traumas.

Todos os três protagonistas são apaixonantes, mas eu destaco Mary. Mulher negra, ela aceitou o cargo de cozinheira na escola há alguns anos atrás para dar a possibilidade do filho poder estudar no local, que majoritariamente é frequentado por pessoas brancas e ricas. No entanto, o filho acabou sendo obrigado a se alistar no exército (o único da escola a ter que passar por isso, ora vejam só) e ir para o Vietnã, onde perdeu a vida. O natal para ela tem um significado especial por conta dessa perda, que ainda é bem recente. Já Angus é um menino inteligentíssimo mas que possui uma agressividade pulsante, que já o fez ser expulso de três escolas no passado. Ele tenta andar na linha, já que a mãe prometeu colocá-lo em uma instituição militar caso seja mais uma vez expulso, mas sua impulsividade às vezes fala mais alto. Angus estava esperando viajar com a mãe nas férias, mas é surpreendido quando ela o pede para ficar na escola, pois quer aproveitar as férias para curtir uma "lua de mel" com o novo namorado. Dos três, ele talvez seja o mais contrariado em ficar no local, mas o fato é que, querendo ou não, estes personagens são obrigados a conviver por alguns dias, dividindo as tarefas diárias e principalmente a mesa nas refeições.


O roteiro, escrito por David Hemingson é basicamente sobre as reviravoltas sucintas que acontecem em nossas vidas, quando por exemplo um estranho nos leva para uma nova direção, que sequer havíamos considerado, ou quando pequenas conversas aleatórias nos fazem refletir sobre o que somos e o que queremos ser. Apesar de ter alguns clichês, isso não incomoda em nenhum momento, pois a direção de Payne consegue fugir totalmente da previsibilidade. The Holdovers é uma grande surpresa nessa reta final de ano, e um daqueles filmes que deixam o coração "quentinho" após os créditos finais.


segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Crítica: Napoleão (2023)


Quando se fala em filme épico na atualidade, não tem outro nome que me venha à cabeça que não seja o de Ridley Scott. O cineasta, que nunca abriu mão da grandiosidade estética em seus trabalhos, é responsável por alguns dos filmes mais expressivos do gênero, como Gladiador (2000), Cruzada (2005) e mais recentemente O Último Duelo (2021), que eu inclusive acho extremamente subestimado, pois ao contrário da opinião geral, o considero um dos melhores lançados naquele ano. Dito isto, quando foi anunciado que Scott estava por trás de uma produção sobre Napoleão Bonaparte, a expectativa não poderia ter sido maior, sobretudo quando foi confirmada a presença de um dos atores mais completos da nossa geração na pele do imperador: Joaquin Phoenix. E diferentemente da esmagadora maioria, posso dizer que gostei do que vi, pois apesar de ter pontos negativos bem evidentes, a experiência no cinema foi bem satisfatória.


O filme inicia logo após a Revolução Francesa eclodir e levar à guilhotina milhares de membros e apoiadores da Monarquia, no chamado "Período do Terror". Nesta época, Napoleão era apenas capitão de artilharia do exército francês, mas ganhou notoriedade na batalha que ficou conhecida como O Cerco de Toulon, em 1793, onde foi o autor do plano que heroicamente levou a França à vitória contra os britânicos. O feito logo o promoveu à General, dando início a caminhada militar e política de Napoleão que o levaria, posteriormente, ao cargo de Imperador da França.

As últimas palavras de Napoleão antes da morte em 1821 foram "França, exército e Josephine", naturalmente suas principais paixões na vida. E são justamente estes três elementos que o roteiro, escrito por David Scarpa, utiliza para forjar a personalidade dele ao longo de duas horas e meia. Há muita discussão rolando acerca da veracidade dos fatos mostrados no roteiro e da forma como o diretor apresenta Napoleão à sua própria maneira, e isso inclusive vem gerando inúmeras críticas por parte de historiadores. A verdade é que às vezes o filme parece realmente desconexo da realidade e peca em não se aprofundar tanto em questões importantes que justificariam o porquê de Napoleão ter se tornado um homem tão idolatrado. E é inegável que isso acaba fazendo falta para uma melhor contextualização do personagem dentro da própria história.


Considerado um homem cheio de controvérsias, Napoleão era reconhecidamente um homem inteligentíssimo e um estrategista de primeira, mas essa sua faceta não é tão explorada no filme, que prefere apostar mais na parte sentimental de sua relação com Josephine (Vanessa Kirby). Aliás, todo o filme é conectado pelas famosas cartas que Napoleão escreveu para a esposa enquanto estava nas batalhas e depois no exílio, e com exceção das cenas de combates, os momentos com a esposa são os que mais tomam tempo de tela. Era uma relação conturbada, cheia de mentiras e traições, e é interessante analisar como as palavras das cartas parecem se contradizer com o que é visto em cena, pois em nenhum momento parece haver amor entre os dois. O que vemos acima de tudo é uma relação fria, talvez apoiada muito mais no sexo, na posse e no desejo de Napoleão em ter um herdeiro, do que pela paixão propriamente dita.

Há que se dizer também que algumas cenas parecem descoladas, e isso talvez se justifique pelo fato do diretor ter cortado boa parte do filme para poder distribuí-lo nos cinemas com uma duração comercialmente aceitável, enquanto promete lançar uma versão completa de mais de quatro horas em breve diretamente no streaming. Ainda assim, acaba sendo bem perceptível que a montagem deixa muita coisa solta e sem explicação, como a própria relação de Napoleão com os personagens secundários da trama, que não têm quase nenhum desenvolvimento.


Apesar dos defeitos serem bem explícitos, uma coisa que não se pode negar é que visualmente o filme é impressionante. Toda a reconstituição da época, tanto os figurinos como os cenários, são extremamente bem construídos, e as cenas das batalhas apresentam uma brutalidade poucas vezes vista em filmes de guerra, sendo um verdadeiro deleite na tela grande do cinema. E justamente por isso, e nadando totalmente contra a maré, afirmo que Napoleão cumpriu com as expectativas que eu havia colocado sobre ele.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Crítica: Tia Virgínia (2023)


É comum ouvirmos a expressão "vai ficar para titia", de forma pejorativa, quando alguma mulher não tem filhos e nem deseja tê-los, como se gerar uma criança fosse praticamente uma obrigação moral. Em Tia Virgínia, a personagem que dá nome ao título é uma destas mulheres que decidiu se livrar dessas amarras da sociedade, e aos 70 anos de idade nunca sequer casou. Liberdade, no entanto, não é um palavra que define a sua vida, já que Virgínia (Vera Holtz) acabou sendo praticamente obrigada pelas irmãs a cuidar da mãe doente (Vera Valdez) até o final dos seus dias, vivendo enclausurada na antiga casa da família onde acompanha tediosamente a passagem do tempo.


Premiado no Festival de Gramado deste ano, o roteiro de Fabio Meira se passa inteiramente na véspera de natal, onde Virgínia recebe a visita das duas irmãs e de seus sobrinhos já crescidos para se juntarem na ceia. Apesar de não se verem há um bom tempo, o natal para as irmãs tem um clima muito diferente desta vez, já que é o primeiro desde que o pai delas faleceu, e as lembranças dos natais passados acabam sendo inevitáveis, assim como todas as mágoas.

A primeira a chegar na casa é Valquíria (Louise Cardoso) com seu filho Bernardo (Iuri Saraiva). Ela é a mais eloquente das três irmãs, e nitidamente a que mais critica Virgínia em praticamente tudo que ela faz. Em seguida chega Vanda (Arlete Salles), junto com o seu companheiro (Antônio Pitanga) e sua filha Ludi (Daniela Fontan). A dinâmica familiar vai se intensificando à medida que os personagens vão conversando sobre os rumos que cada um tomou na vida e relembrando memórias da família. Ao mesmo tempo, por se tratar de uma relação cujas feridas estão bem expostas, qualquer coisa também vira motivo de briga, como a escolha do prato principal, a roupa a ser usada no jantar e até mesmo o uso de frutas cristalizadas no arroz (com essa com certeza vocês irão se identificar).

O filme conquista pela fácil identificação, afinal de contas, todos nós temos família, algumas maiores, outras nem tanto, e todos sabemos o quão complexas elas podem ser em suas particularidades. E principalmente, o quanto essas complexidades afloram justamente em dias de reunião, como numa noite de natal. O trabalho de direção de arte é elogiável, criando um cenário que remete profundamente às "casas de vó" pelo Brasil à fora, com uma gama de detalhes impressionante, e para muitos, nostálgica.

Se na parte técnica o filme é impecável, o que dizer então das atuações. Todo o elenco se destaca, mas Vera Holtz é um fenômeno em cena! Com uma personagem cheia de camadas, que vai guardando tudo dentro de si até finalmente (e lindamente) estourar, Vera brilha, e o prêmio de melhor atriz em Gramado foi mais do que merecido. Arlete Salles também se destaca ao apresentar alguns dos momentos mais cômicos da trama, e Louise Cardoso está firme na pele de uma personagem extremamente humana cujo principal defeito é sempre achar que está com a razão e sabe de tudo.


Por fim, Tia Virgínia acaba sendo o verdadeiro "filme de natal", data onde famílias se reúnem para a ceia tentando forçar uma união que, muitas vezes, não passa de puro teatro e fingimento diante de tantas feridas abertas. E a protagonista parece saber disso, tanto que em uma das cenas mais bonitas do filme, se permite encenar junto de todos uma dança, como se quisesse abrilhantar ainda mais o "espetáculo". Um filme recheado de momentos cômicos, mas com uma carga dramática acentuada e conduzida na medida certa

sábado, 11 de novembro de 2023

Crítica: O Assassino (2023)


Metódico, frio e extremamente calculista. Assim dá para definir o personagem de Michael Fassbender em sua rotina de trabalho. Porém, não se trata de um emprego como qualquer outro, já que ele ganha a vida como assassino de aluguel. Baseado em uma HQ francesa de mesmo nome, O Assassino (The Killer) é o novo filme do veterano David Fincher, em mais uma parceria sua com a Netflix, e tem dividido bastante as opiniões desde sua estreia no serviço de streaming.


O protagonista não tem nome mas ao mesmo tempo tem vários, já que usa dezenas de identidades falsas ao longo da trama para viajar de um lugar a outro sem deixar rastros. No começo do filme ele está em Paris, e acompanhamos todo o processo dele para se posicionar estrategicamente em frente ao apartamento onde sua próxima vítima estará dentro de poucas horas. Enquanto prepara tudo, o personagem fala em uma narração off sobre os seus métodos de trabalho, deixando bem claro a forma perfeccionista com que age. Ele também tem quatro regrinhas básicas que leva como um mantra: nunca improvisar, nunca confiar em ninguém, não ter empatia nenhuma e não fazer absolutamente nada além do que foi pago para fazer. 

Na mesma narração ele também reflete sobre várias questões da vida, o que me fez lembrar um pouco outro filme do diretor, Clube da Luta, e até mesmo o clássico Táxi Driver, de Martin Scorsese, onde o personagem de Robert De Niro também divaga sobre nuances da sociedade da época. Isso serve para apresentar ao espectador um panorama da personalidade e principalmente a visão de mundo do protagonista. Outro filme ao qual este início remete, mas de forma ainda mais explícita, é Janela Indiscreta, do Alfred Hitchcock, já que enquanto espera entediado a aparição do seu alvo, o assassino fica acompanhando as janelas vizinhas como uma espécie de voyeur.


Após cometer um erro incomum, ele foge apressadamente do local, limpa todos os rastros e volta para casa na República Dominicana. Porém, chegando no local, descobre que sua namorada Magdala (Sophie Charlotte) foi violentamente agredida enquanto ele estava fora, e agora ele está disposto a caçar cada um dos responsáveis. E nessa busca, culpados e não culpados acabam pagando o preço. O mais interessante nesta virada de chave do filme é ver que nessa sua jornada de vingança, o assassino passará por muitos testes de empatia, onde a cada cena nós iremos nos perguntar "será que ele vai fazer isso mesmo?", e geralmente sim, ele faz. Chega a ser até engraçado como ele não abandona seu método, seja contra quem for. 

O que me incomodou um pouco no roteiro foi a maneira facilitada com que o personagem consegue ir de um lugar a outro (em poucos dias ele passa por Paris, Santo Domingo, New Orleans, Los Angeles e New York) e adentrar prédios sem nenhum esforço, bem como a facilidade que ele tem de conseguir identidades e placas de carro falsas. Aos poucos, isso começou a ficar cada vez menos crível para mim, o que me afastou um pouco da história. O desenvolvimento dos personagens secundários da trama também é quase inexistente, sobretudo com relação a namorada do assassino (interpretada pela brasileira Sophie Charlotte), e mesmo que eu tenha entendido desde o início que a intenção do diretor era justamente ter um filme intimista focado em apenas um personagem, não posso negar que senti falta dos demais.


Apesar de não considerá-lo um dos melhores trabalhos do Fincher, O Assassino me prendeu enquanto o assistia, e está longe de ser um filme descartável, principalmente pela ótima atuação do Fassbender. Além dele e da Sophie Charlotte (que aparece pouco mas tem um papel crucial na história), o elenco ainda tem Tilda Swinton na pele de uma "colega" de profissão do protagonista, e cuja cena juntos é muito interessante. Por fim, o ritmo pode até ser diferente do que estamos acostumados a ver, mas a assinatura do diretor está presente em cada frame, e isso é inegável.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Crítica: A Menina que Matou os Pais: A Confissão (2023)


Um é bom, dois é aceitável, e três é desnecessário. O ditado não é bem assim, mas alterei para falar especificamente da trilogia A Menina que Matou os Pais, que desde 2020 tenta trazer a história por trás de um dos assassinatos que mais marcaram o Brasil no começo dos anos 2000: o de Manfred von Richtofen e sua esposa Marísia, mortos brutalmente em uma ação orquestrada pela própria filha, Suzane von Richtofen.


Os dois primeiros filmes, lançados simultaneamente há três anos atrás, narravam o crime de acordo com cada versão dos envolvidos. Em A Menina que Matou os Pais, temos a história contada sob a ótica de Daniel Cravinhos, o namorado de Suzane na época e autor do crime, e apresenta uma narrativa em que a menina é vista como uma verdadeira psicopata, que armou tudo e fez a cabeça dele para cometer o crime junto com o irmão Cristian. Já em O Menino que Matou Meus Pais, a narrativa é sob a visão de Suzane, apresentando uma menina ingênua que caiu em uma relação abusiva e foi psicologicamente influenciada a agir contra os próprios pais. 

O que sustentava o interesse nos dois primeiros filmes era justamente essa disputa de narrativas entre o depoimento de um e de outro, e a construção dos personagens de acordo com essa ambiguidade. Agora com A Menina que Matou os Pais: A Confissão, a intenção do diretor Maurício Eça era mostrar os fatos verdadeiros do caso, de acordo com as investigações e o próprio julgamento, mas fica o questionamento: era mesmo necessário remexer novamente no assunto?

 

O filme tem inúmeros pontos negativos, a começar pelas atuações forçadas que não passam grau nenhum de veracidade, principalmente a de Carla Diaz, que exagera nos trejeitos para tentar mostrar o desequilíbrio mental da sua personagem. Algo que já havia sido feito em um dos filmes anteriores, mas aqui fica ainda mais caricato. A cena da confissão, que está no próprio nome do filme, também é muito superficial e mal conduzida, o que tira completamente o propósito da existência deste longa. Isso sem contar na cena em que os pais dos irmãos cravinhos descobrem que os filhos estavam envolvidos no crime, que é de uma mediocridade inexplicável. O único adendo que faço no elenco é em relação a Bárbara Colen, que faz a delegada do caso, e que mesmo em um roteiro frágil consegue se destacar. Em resumo, o terceiro e último filme da trilogia acaba sendo apenas uma enrolação a mais de uma história que já deu o que tinha que dar. É insatisfatório, mal feito, e, talvez até mesmo desrespeitoso com a memória das vítimas e de seus familiares.