quinta-feira, 21 de maio de 2026

Crítica: Tatame (2025)


Esporte e política muitas vezes andam de mãos dadas, por mais que muita gente insista que uma coisa não tem nada a ver com a outra. De exemplos históricos, como Jesse Owens desafiando a narrativa nazista em frente a Adolf Hitler nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, ou Muhammad Ali sendo banido dos ringues por se recusar a lutar na Guerra do Vietnã, até episódios recentes, como a seleção iraniana optando por não cantar o hino nacional durante a Copa do Mundo de 2022, o esporte sempre foi atravessado por disputas ideológicas, tensões diplomáticas e manifestações de resistência.


Inspirado em acontecimentos reais, a trama de Tatame (Tatami) gira em torno de Leila Hosseini (Arienne Mandi), uma judoca talentosa que está defendendo a seleção do Irã no Campeonato Mundial do esporte, que acontece em Tbilisi, capital da Geórgia. Com altas chances de ganhar uma medalha, a atleta vai vencendo suas adversárias e avançando na competição, mas o sucesso no tatame é atravessado por uma ordem vinda diretamente do governo iraniano: ela deve perder propositalmente ou abandonar o torneio antes de enfrentar uma atleta israelense.

O verdadeiro conflito, neste caso, não está na competição esportiva, mas no peso psicológico imposto à protagonista. Diferente dos tradicionais dramas esportivos, em que a superação depende exclusivamente da força de vontade do atleta, aqui existe um obstáculo impossível de ser vencido apenas com talento ou determinação. Leila até tenta resistir às ordens estatais, mas sabe que qualquer decisão sua pode colocar a própria família em risco. E o filme acerta ao compreender que, em regimes autoritários, o controle raramente se limita ao indivíduo: ele se estende também aos vínculos afetivos, transformando o medo em instrumento de coerção.


Essa atmosfera opressiva é construída com enorme eficiência pela direção. A fotografia em preto e branco não surge apenas como escolha estética, mas como elemento para amplificar a sensação constante de claustrofobia e vigilância. A cada nova luta vencida por Leila, a tensão aumenta gradualmente, como se cada passo rumo à medalha e à glória também aproximasse a personagem de uma tragédia inevitável. O roteiro alterna o avanço da competição com cenas da família sendo pressionada no Irã, além de apresentar pequenos flashbacks que revelam fragmentos de uma vida cotidiana aparentemente comum. Isso ajuda a humanizar ainda mais os personagens e reforçar o peso de viver em um país onde até conquistas pessoais podem se transformar em ameaças políticas.

Zar Amir Ebrahimi, que ganhou reconhecimento internacional após Holy Spider, entrega uma atuação especialmente forte como Maryam, treinadora de Leila. É através dela que o filme amplia sua discussão sobre ciclos de repressão e trauma. Maryam já viveu situação semelhante no passado e entende perfeitamente o que significa abrir mão da própria carreira, dos próprios sonhos e da própria identidade em nome da sobrevivência. Sua presença adiciona uma camada melancólica ao longa, como alguém que enxerga em Leila a repetição de uma violência que nunca deixou de existir.


Mais do que um filme sobre judô, Tatame se revela um thriller sufocante sobre autoritarismo, controle estatal e resistência silenciosa. Ao transformar o espaço esportivo em um campo de batalha moral, o longa evidencia como regimes opressivos tentam controlar até mesmo aquilo que deveria simbolizar mérito. E justamente por partir de uma situação tão específica, o filme encontra uma dimensão universal poderosa: a de indivíduos obrigados a escolher entre seus sonhos e sua própria sobrevivência.

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