segunda-feira, 27 de julho de 2026

Crítica: A Odisseia (2026)


Atribuída ao poeta Homero, Odisseia é uma das principais epopeias da literatura grega antiga e, mesmo após quase três milênios, ainda é considerada uma das obras fundamentais da literatura mundial. Repleta de deuses e criaturas mitológicas, a narrativa atravessou os séculos refletindo sobre coragem, família, destino e, sobretudo, as cicatrizes que guerras deixam naqueles que sobrevivem a elas. Vencedor do Óscar em 2024 com Oppenheimer, Christopher Nolan surpreendeu a todos quando anunciou que traria a história para as telas do cinema. Porém, analisando sua filmografia recente e principalmente o seu método perfeccionista de trabalho, é realmente difícil imaginar um cineasta contemporâneo que estivesse mais preparado do que ele para assumir um desafio dessa magnitude.


A história de A Odisseia (The Odissey) acompanha o guerreiro Odisseu (Matt Damon), Rei de Ítaca, que após comandar a queda de Troia, inicia uma longa jornada de volta para casa. O percurso, que deveria durar poucos meses, acaba se estendendo por mais de dez anos, colocando Odisseu e seus companheiros diante de incontáveis provas de sobrevivência, seres mitológicos, monstros marinhos e todo o tipo de adversidades. Enquanto isso, sua esposa Penélope (Anne Hathaway), fiel à ideia de aguardá-lo, sofre uma pressão crescente para escolher um novo marido entre os diversos pretendentes dispostos a assumir o trono. Diante de assustadores boatos sobre possíveis invasões, a população clama urgentemente por um novo Rei, já que deixou de acreditar no retorno de Odisseu.

Diante desse cenário, o filho do casal e futuro herdeiro do trono, Telêmaco (Tom Holland), parte em busca de respostas sobre o paradeiro do pai. O roteiro logo revela que Odisseu está vivo, isolado na ilha de Ogígia e sem qualquer lembrança do próprio passado. Aqui, Nolan tem a sua maior liberdade criativa em relação à obra original, já que no livro de Homero, Odisseu na verdade nunca perdeu a memória. Vivendo sob os cuidados de Calipso (Charlize Theron), ele começa lentamente a recuperar suas lembranças, e é a partir dessas recordações que o diretor reorganiza a narrativa, conduzindo o espectador por uma estrutura não linear que revisita tanto sua participação na Guerra de Troia quanto a sucessão de acontecimentos que o levaram até a ilha.


Se em Oppenheimer, Nolan foi duramente criticado por tentar "explicar demais" a história, se tornando excessivamente expositivo, aqui vemos exatamente o contrário. O diretor não perde tempo com contextualizações desnecessárias e confia na força das imagens para conduzir a narrativa. A cronologia fragmentada exige atenção do espectador, mas jamais compromete a compreensão dos acontecimentos. Pelo contrário, torna a experiência ainda mais envolvente, fazendo com que cada nova lembrança do personagem traga um novo respiro ao filme, que nunca perde o seu ritmo, mesmo quando o diretor opta por passagens silenciosas.

Visualmente, o resultado é simplesmente deslumbrante. Algumas sequências alcançam um nível de grandiosidade raro no cinema atual, como o encontro com o ciclope Polifemo, a passagem pelas ilhas das Sereias cujo canto atrai os navegantes para a morte, o perturbador banquete na casa da feiticeira Circe, o confronto contra o monstro marinhos Cila e, por fim, a recriação do lendário Cavalo de Troia, talvez o maior símbolo da inteligência estratégica de Odisseu. Nolan conduz todas essas passagens com um domínio impressionante da linguagem cinematográfica. Fotografia, montagem, trilha sonora, tudo funciona em perfeita sintonia para transformar cada desafio em uma experiência sensorial que desperta fascínio.


Mais do que um espetáculo visual, A Odisseia também impressiona pela humanidade imposta ao seu protagonista, outra mudança considerável em relação ao original. No livro, Odisseu tem suas virtudes mas é um homem arrogante, manipulador e extremamente avarento, enquanto aqui, temos um personagem bastante benevolente. Matt Damon entrega uma atuação poderosa na pele de um guerreiro cuja maior virtude não é necessariamente a força física, mas a inteligência, a capacidade de liderança e o profundo senso de responsabilidade pelos homens que conduz. Odisseu se recusa a abandonar qualquer companheiro, mesmo quando isso significa colocar a própria vida em risco, carregando consigo a culpa e a memória de cada um que ficou pelo caminho.

O elenco de apoio acompanha esse alto nível. Anne Hathaway transmite com sensibilidade a solidão e a resistência de Penélope, Tom Holland convence na evolução de Telêmaco, enquanto Charlize Theron confere uma melancolia inesperada à Calipso. Entre as diversas participações, destacam-se ainda Robert Pattinson como Antínoo, Zendaya como Atena, Ben Safdie como Agamênon, Jon Bernthal como Menelau, John Leguizamo como Eumeu, Himesh Patel como Euríloco, Elliot Page como Sinon e Samantha Morton como Circe. Mesmo aqueles com pouco tempo de tela encontram espaço para marcar presença, contribuindo com toda a riqueza deste universo singular.


Por fim, ao transformar um dos maiores textos da história da humanidade em um espetáculo audiovisual de rara imponência, Christopher Nolan talvez alcance o ponto mais alto de sua carreira. Sua adaptação impressiona tanto pela escala monumental das cenas quanto pela maneira como utiliza a mitologia para refletir sobre trauma, memória, culpa e os efeitos devastadores da guerra. É um filme que honra o legado de Homero sem abrir mão da identidade de seu diretor, equilibrando espetáculo e profundidade com uma segurança admirável. Uma obra que já nasce com lugar garantido entre os grandes épicos do cinema.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Crítica: Todo Mundo em Pânico 6 (2026)


Lançado em 2000, Todo Mundo em Pânico, criação dos irmãos Wayans, revolucionou o jeito de se fazer comédia no cinema ao transformar os maiores sucessos do terror em uma grande paródia. Pânico, Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Halloween, O Chamado e O Sexto Sentido foram apenas alguns dos alvos de um humor politicamente incorreto, repleto de piadas infames, humor físico e situações completamente absurdas, que fizeram a saga conquistar uma legião de fãs. Agora, em 2026, a franquia ganhou um reboot que também funciona como sequência, apostando justamente na nostalgia do público para provar que esse tipo de humor ainda tem espaço.


Do último filme da saga, lançado em 2013, para cá, o gênero do terror viveu uma nova fase de ouro, oferecendo material de sobra para os Wayans explorarem. Sob a direção de Michael Tiddes, Todo Mundo em Pânico 6 (Scary Movie) coloca novamente o ghostface de Pânico (outra saga que ganhou sequências recentes) no centro da história, agora envolvido em uma nova onda de assassinatos que assombra os Estados Unidos. A estrutura permanece praticamente a mesma, renovando apenas as referências e adaptando a linguagem para o cenário cultural atual.

Dentre filmes e séries mencionados desta vez, temos Wandinha (que aqui se torna Waldinha), A Hora do Mal, Longlegs: Vínculo Mortal, Terrifier, M3gan, A Substância, Pecadores, e até mesmo filmes que não fazem parte do gênero terror, como Michael e Guerreiras do K-Pop. Essa mistura funciona quando as referências são integradas à piada, mas em outros momentos elas aparecem apenas como pequenas esquetes isoladas, sem muito contexto na narrativa. Porém, seria injusto cobrar um roteiro elaborado de uma franquia que, de fato, nunca teve essa pretensão. O caos e a anarquia sempre foram parte da identidade de Todo Mundo em Pânico, e aqui não é diferente.


Aliás, se existe uma palavra que define o filme, ela é "descaramento". Os Wayans não estabelecem limites para o alvo de suas piadas. Há críticas à atuação da polícia de imigração durante o governo Trump, aos discursos mais radicais da direita americana, à militância performática nas redes sociais, às discussões sobre pronomes, aos influenciadores que vivem de transmissões ao vivo, aos hábitos irritantes da geração Z, à cultura "redpill" e até aos arquivos Epstein. O humor atira para todos os lados sem se preocupar em agradar qualquer grupo específico.

Algumas piadas acertam em cheio, enquanto outras claramente não encontram o timing ideal. Mas essa sempre foi a essência da franquia: provocar antes de pedir licença. O aspecto mais interessante, porém, talvez seja a forma como o filme também ri de si mesmo. A metalinguagem aparece constantemente, com personagens ironizando justamente as estratégias que a própria produção utiliza, como a reciclagem de histórias antigas se apegando à nostalgia e o uso recorrente de clichês narrativos que dominaram Hollywood nos últimos anos. É uma autocrítica divertida e surpreendentemente consciente.

Apesar de ter um nome já consolidado, o filme não teria alcançado o mesmo sucesso sem o retorno dos personagens mais queridos da franquia: Cindy Campbell (Anna Faris), Brenda (Regina Hall), Shorty (Marlon Wayans), Ray (Shawn Wayans), Doofy (Dave Sheridan) e até o "mãozinha" (Chris Elliott). Todos reaparecem interpretados pelos mesmos atores do filme original, funcionando menos como peças fundamentais da trama e mais como uma grande celebração do legado da franquia.


Por fim, de volta ao comando da franquia após três filmes, os irmãos Wayans entregam uma comédia escrachada, ofensiva na medida certa e plenamente consciente da própria limitação formal. Sem qualquer vergonha de recorrer ao humor mais infantil quando a situação pede, o novo Todo Mundo em Pânico entende perfeitamente qual é sua missão. Talvez nem todas as piadas acertem o alvo, mas a vontade de fazer o público rir permanece intacta, e isso basta para tornar esse retorno surpreendentemente divertido.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Crítica: Backrooms: Um Não-lugar (2026)


A lenda dos "backrooms" surgiu em 2019 dentro de um fórum na internet, onde uma imagem de um corredor amarelo aparecia acompanhada por textos sobre "sair da realidade". Três anos depois, Kane Parsons transformou essa história em uma websérie de curtas que viralizou no Youtube, acumulando milhões de visualizações. Confesso a vocês que nunca vi os curtas e portanto caí de "paraquedas" no longa Backrooms: Um Não-Lugar, após ele ter se tornado um dos maiores fenômenos do terror neste ano. Naturalmente, logo após terminar o filme, dei uma boa pesquisada no conceito original e, pelo pouco que vi, ficou claro que o filme é extremamente fiel à proposta que o originou, até por contar com a direção do mesmo Kane Parsons, em sua estreia em longas-metragens.


Os corredores amarelos de formatos irregulares, labirínticos e infinitos, as luzes fluorescentes, os objetos amontoados pelo caminho e a constante sensação de que algo profundamente errado existe naquele lugar criam uma atmosfera desconfortável e hipnótica desde os primeiros minutos. A premissa é, de certa forma, simples. Nela, acompanhamos Clark (Chiwetel Elijofor), um homem de meia-idade que enfrenta uma profunda depressão após o divórcio com a esposa. Afundado no alcoolismo e presenciando a decadência de sua loja de departamentos, que por sua vez também virou sua moradia improvisada, ele procura ajuda com a terapeuta Mary (Renate Reinsve), que o instiga a repensar a própria vida. Ao investigar pequenas quedas de luz na loja, Clark encontra uma espécie de "falha" nas paredes do subsolo, que o levam a um lugar estranho, que desafia qualquer lógica.

Curioso com a descoberta, Clark vai explorando mais profundamente o espaço, ficando cada vez mais intrigado com seus longos e silenciosos corredores, em um enigma que o consome aos poucos e o leva a questionar a própria sanidade. Para tentar provar aos outros (e também a si mesmo) que não está enlouquecendo, ele convida seus dois funcionários, Kat (Lukita Maxwell) e Bobby (Finn Bennett), para explorar o local juntos, registrando tudo com uma câmera analógica. Em paralelo, a terapeuta de Clark também acaba adentrando o espaço, tornando-se mais uma personagem presa neste mistério indecifrável e incompreensível.

Kane Parsons demonstra um domínio admirável da linguagem visual, utilizando enquadramentos amplos, corredores intermináveis e um uso do som inquietante para transmitir uma sensação genuína de isolamento. A câmera analógica reforça o aspecto documental da experiência, aproximando o espectador daquele pesadelo e aumentando a sensação de realismo. O problema é que o diretor, em nenhum momento, se preocupa em explicar o que é este lugar, tampouco as inúmeras situações vividas pelos personagens enquanto parecem ser observados por criaturas misteriosas.


A ausência de respostas não seria um problema se o roteiro desse ao espectador um caminho para desenvolver suas próprias interpretações, o que não acontece aqui. O mistério deixa de ser fascinante para se tornar frustrante, principalmente em seu terço final. A intenção parece ser instigar o público para posteriormente expandir esse universo em continuações, mas isso acaba criando um efeito contrário, fazendo o público perder o interesse. Desta forma, Backrooms: Um Não-Lugar funciona muito melhor como uma experiência sensorial e imersiva do que como uma narrativa propriamente dita, o que faz ele ser incompleto e esquecível.

Crítica: Heel (2026)


O cineasta polonês Jan Komasa ganhou reconhecimento internacional em 2020, quando seu drama Corpus Christi (Boże Ciało) figurou entre os cinco indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional, prêmio que acabou ficando com o sul-coreano ParasitaEm Heel (inicialmente anunciado com o nome Good Boy), o diretor demonstra mais uma vez o seu interesse por personagens difíceis de admirar, mas fascinantes de acompanhar, girando em torno de um protagonista moralmente ambíguo, cuja trajetória evoca os mais diversos sentimentos.


O filme começa nos mostrando uma noite comum na vida de Tommy (Anson Boon), um jovem delinquente, impulsivo e sem qualquer senso de responsabilidade. Líder de um grupo que grava agressões contra desconhecidos e atos de vandalismo para divulgação nas redes sociais, ele vive em um ciclo de violência, consumo de drogas, sexo inconsequente e explosões de raiva. Seu comportamento autodestrutivo parece fazer parte da rotina, incentivado pelos próprios amigos, que transformam cada infração em entretenimento.

Tudo muda quando, após desmaiar na rua depois de mais uma noite de excessos, Tommy desperta acorrentado em um porão escuro, usando uma coleira no pescoço. Logo conhecemos Chris (Stephen Graham), o proprietário da casa, que vive com a esposa Kathryn (Andrea Riseborough) e o filho Jonathan (Kit Rakusen). Revoltado com os inúmeros crimes do jovem registrados em vídeos publicados na internet, Chris decide submetê-lo a uma espécie de "reabilitação" forçada. A premissa inevitavelmente remete a Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, ao apresentar um jovem violento sendo submetido contra sua vontade a um processo de condicionamento para voltar ao convívio social como alguém "melhor".


A questão moral abordada neste "sequestro" é o que move o filme. É evidente que o cárcere privado promovido pela família não pode ser tratado como algo aceitável, mas ao mesmo tempo, Tommy é construído de maneira tão repulsiva nos primeiros minutos, que a reação instintiva do espectador é questionar até que ponto alguém como ele merece compaixão. Essa ambiguidade funciona muito bem porque embora estejam cometendo um crime, Chris e sua família nunca são retratados como pessoas cruéis ou sádicas; pelo contrário, parecem genuinamente acreditar que estão oferecendo ao rapaz uma oportunidade de mudar, e isso torna tudo ainda mais desconfortável. À medida que Tommy demonstra sinais de cooperação, ele passa a receber pequenas recompensas: um quarto mais confortável, uma alimentação mais robusta e maior liberdade para circular pela casa graças ao aumento da extensão da corrente que o prende. Aos poucos, ele decide embarcar naquela estranha dinâmica familiar, desenvolvendo laços inesperados tanto com a empregada recém-contratada (Monika Frajczyk) quanto com o menino Jonathan.

As atuações contribuem decisivamente para essa credibilidade. Stephen Graham entrega mais uma interpretação intensa, equilibrando firmeza e vulnerabilidade sem transformar Chris em um simples justiceiro. Andrea Riseborough acrescenta camadas importantes à esposa, frequentemente dividida entre apoiar o marido e questionar os limites daquela situação absurda, enquanto Kit Rakusen confere espontaneidade ao jovem Jonathan, peça fundamental para humanizar o ambiente. Mesmo Tommy, inicialmente quase impossível de suportar, ganha nuances conforme o roteiro avança, tornando sua transformação mais convincente.


Por fim, Heel é uma proposta provocativa, sustentada por personagens complexos e por um roteiro que constantemente desafia nossos próprios limites éticos. O único ponto negativo é que em sua reta final, o longa parece apressar conclusões que mereciam maior desenvolvimento. Apesar disso, não deixa de ser um thriller psicológico desconfortável e repleto de cenas que continuam ecoando muito depois dos créditos finais.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Crítica: Obsessão (2026)


"Muito cuidado com aquilo que você deseja, pois esse desejo pode se tornar realidade." O famoso e controverso alerta popular serve como ponto de partida para a provocante história de Obsessão (Obsession), filme dirigido por Curry Barker que, desde o seu lançamento, vem gerando uma enorme repercussão, e que se consolidou como o grande fenômeno do terror neste primeiro semestre de 2026.


A trama acompanha Bear (Michael Johnston), um jovem extremamente tímido que é secretamente apaixonado pela amiga de infância e agora colega de trabalho, Nikki (Inde Navarrette). Apesar da intensa paixão, ele nunca teve coragem de assumir os seus sentimentos, permanecendo preso à chamada "friedzone". A premissa, que remete a uma típica comédia romântica, ganha contornos sombrios quando Bear entra em uma loja de artefatos esotéricos e compra um misterioso "salgueiro dos desejos", objeto que promete realizar qualquer desejo daquele que partir seu graveto ao meio.

Embora não acredite em seus poderes, Bear acaba levando o artefato por achar sua estética curiosa e imaginar que seria um bom presente para dar a Nikki quando finalmente se declarar. No entanto, angustiado por mais uma vez se ver silenciado pela vergonha e pelo medo da rejeição, Bear resolve usar o artefato para si mesmo, fazendo o desejo mais previsível possível: pedindo que Nikki o amasse mais do que qualquer coisa. O pedido se concretiza imediatamente, mas Bear logo descobre que não estava preparado para as consequências devastadoras e para o preço que pagaria por transformar um sentimento que deveria ser livre, em pura imposição.


O aspecto mais interessante do roteiro é o dilema moral que ele apresenta, pois justamente quem deveria representar a ameaça acaba sendo a maior vítima da história. Nikki passa a ser escravizada por um sentimento que jamais escolheu sentir, e obrigada a corresponder a uma paixão de maneira completamente irracional. E aqui é impossível não destacar a atuação de Navarrette, que é simplesmente brilhante. A transformação perturbadora de uma jovem doce e cheia de vida em alguém consumido por uma obsessão doentia acontece de forma gradual e convence justamente pela atuação impressionante da atriz.

Essa mudança comportamental rapidamente chama a atenção de amigos e colegas de trabalho de Nikki, enquanto rumores começam a surgir na tentativa de encontrar uma explicação. Ao mesmo tempo, Bear, que inicialmente acredita estar vivendo um sonho ao finalmente ter seu amor correspondido, passa a experimentar o lado mais sombrio dessa fantasia quando Nikki adota atitudes cada vez mais possessivas, violentas e autodestrutivas. O filme retrata um relacionamento abusivo levado ao seu limite, mas com uma particularidade que torna tudo ainda mais inquietante: é impossível culpá-la por seus atos, já que aquele comportamento nunca foi uma escolha sua.


Vivendo um momento de enorme prestígio, refletido no recente reconhecimento da Academia a produções do gênero, o terror ganha mais um diretor promissor. Em seu longa de estreia, Curry Barker demonstra segurança tanto na construção da tensão quanto na condução do horror gráfico. Sem economizar na violência física e nas cenas sangrentas, cria sequências que permanecem na memória muito depois dos créditos finais, deixando claro que seu nome merece ser acompanhado de perto daqui pra frente.