quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Crítica: Corrida dos Bichos (2026)


O cineasta Fernando Meirelles soube como poucos abordar a realidade nua e crua do Rio de Janeiro em Cidade de Deus, filme que até hoje permanece cultuado como um dos grandes clássicos do cinema brasileiro. Depois do enorme sucesso, Meirelles foi construir sua carreira em produções internacionais, dirigindo ótimas obras como O Jardineiro Fiel, Ensaio Sobre a Cegueira e Dois Papas. Por conta disso, o seu mais novo trabalho, Corrida dos Bichos, naturalmente despertou boas expectativas por marcar o seu retorno, anos depois, ao local que foi tão importante para o início de sua carreira. O resultado, no entanto, é extremamente frustrante.


Dirigido por Meirelles em parceria com Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis, o filme se passa em um futuro distópico no qual o Brasil foi devastado por uma grande catástrofe climática. Não há muita informação sobre o que de fato ocorreu, mas o Rio de Janeiro já não é mais o cartão postal que conhecemos, e a população sobrevivente vive quase inteiramente nos morros da cidade. Neste cenário meio "Mad Max", o jogo do bicho, um dos mais tradicionais meios de apostas ilegais do país, evoluiu sua dinâmica para algo mais animalesco (perdão pelo trocadilho): agora, a elite se diverte apostando em pessoas usando máscaras de animais, que arriscam a própria vida em corridas sangrentas pelas vielas e lajes das favelas. Enquanto isso, um grupo de rebeldes se esconde no chamado “perímetro", e tenta interferir nas corridas para acabar com essa prática desumana.

No papel, há material de sobra para construir uma boa distopia, especialmente por permitir ao filme explorar elementos muito particulares da realidade brasileira. O problema é que o roteiro não consegue transformar suas boas ideias em um universo que pareça minimamente interessante. A contextualização é apressada, a construção da atmosfera é inconsistente e praticamente tudo soa plástico e artificial. Em momento algum é possível se sentir verdadeiramente imerso dentro daquela realidade, e embora a história seja ambientada em um futuro pós-apocalíptico, a construção daquele mundo falha ao transmitir a sensação de que uma grande catástrofe realmente aconteceu.

É especialmente frustrante porque Meirelles já demonstrou saber trabalhar muito melhor com universos distópicos. Em Ensaio Sobre a Cegueira, por exemplo, a situação extraordinária servia como instrumento para investigar o comportamento humano diante do colapso das estruturas sociais. Aqui, porém, a distopia parece existir apenas como pano de fundo para as corridas. Os vilões são caricatos, os mocinhos não despertam interesse e a crítica social nunca encontra força suficiente para se sustentar. A ideia de uma elite utilizando o sofrimento das massas como entretenimento poderia render uma reflexão poderosa, como acontece em Jogos Vorazes, mas o filme não desenvolve esse conflito com a profundidade necessária. Afinal, é difícil construir personagens verdadeiramente antissistema quando o próprio sistema que eles pretendem combater é tão mal desenvolvido.


Consequentemente, as motivações dos personagens acabam esvaziadas por um roteiro que parece mais interessado em fazer a história avançar do que em explicar por que aquelas pessoas estão lutando. As cenas simplesmente se amontoam, muitas vezes sem uma conexão clara, enquanto personagens surgem e desaparecem sem receber sequer uma apresentação adequada. A resistência, por exemplo, nunca ganha um propósito realmente convincente e muitas vezes parece existir apenas para criar obstáculos aos corredores. Falta ao filme uma compreensão mais clara de seus próprios personagens, de seus conflitos e, principalmente, das razões que deveriam fazer o público se importar com aquela revolução.

O desperdício de elenco também é notório. Estamos falando de ótimos nomes como Rodrigo Santoro, Seu Jorge, Isis Valverde, Bruno Gagliasso e Silvero Pereira, todos com potencial para acrescentar muito à história, mas limitados por personagens que raramente ultrapassam o nível da caricatura. A pior escolha, entretanto, talvez seja a participação de Anitta como a apresentadora das corridas na televisão. Suas intervenções são carregadas de gírias e frases artificiais, do tipo "sabemos que esse jogo é ilegal, mas é disso que o povo gosta", que acabam retirando qualquer peso das situações apresentadas. Até mesmo o conflito entre os personagens de Isis Valverde e Bruno Gagliasso, membros da elite apostadora, e que deveria funcionar como um dos principais motores dramáticos da trama, é tão insosso que dificilmente pode ser encarado como uma verdadeira rivalidade. Já Rodrigo Santoro, colocado na posição de grande antagonista, parece tão perdido quanto o próprio roteiro em relação ao que deveria fazer com o personagem, mesmo que não lhe falte empenho. Porém, é difícil tirar leite de pedra.


Por fim, ao invés de funcionar como uma sátira da espetacularização da violência, Corrida dos Bichos é um enorme desperdício de potencial. A premissa é interessante, o universo poderia render uma ficção científica genuinamente brasileira e o elenco reúne nomes capazes de sustentar um filme muito mais ambicioso. Mas nada disso encontra respaldo em um roteiro que não sabe desenvolver seu mundo, seus personagens ou mesmo as críticas que pretende fazer. Uma distopia sem atmosfera, uma revolução sem propósito e um espetáculo que, ironicamente, nunca consegue convencer o espectador de que existe algo realmente em jogo. Ouso dizer que é o pior filme que vi no ano. Uma pena.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Crítica: Carolina Caroline (2026)


Bonnie & Clyde (1967) e Assassinos por Natureza (1994) são os primeiros filmes que me vêm à cabeça quando se fala de casais fora da lei em fugas eletrizantes pelas estradas dos Estados Unidos. Nitidamente bebendo da mesma fonte, Carolina Caroline, do diretor Adam Rehmeier, acompanha Caroline (Samara Weaving) e Oliver (Kyle Gallner), um casal que também mistura paixão e crime de maneira enérgica e pulsante.



Caroline vive em uma pacata cidade do Texas, trabalhando como "faz tudo" em uma loja de conveniência de um posto de estrada. Seu destino cruza com o do forasteiro Oliver quando ele chega ao local para fazer pequenas compras. Exímio golpista, Oliver engana o dono do posto fazendo um truque com uma nota de um dólar, e Caroline assiste tudo com uma certa admiração. Ela se sente atraída instantaneamente por ele, não só pelo crime em sim, mas por ele mostrar inteligência e sobretudo por ter um espírito livre, algo que ela inveja, já que nunca sequer saiu da cidade.

Unindo a vontade de sair da rotina pacata com o desejo de viajar pelo país, Caroline se apega a Oliver e quer que ele a ensine suas práticas criminosas para que ela possa ajudá-lo. Em conjunto, os dois começam a planejar crimes cada vez mais ousados, partindo de pequenos golpes financeiros para grandes assaltos a bancos. Enquanto isso, Caroline carrega um drama interno que se torna o principal motor emocional da narrativa: o desejo de conhecer a mãe, que lhe abandonou quando ela ainda era um bebê. Sendo assim, os planos do casal consistem em aplicar seus golpes enquanto atravessam o país rumo à Carolina do Sul, onde vive Deborah (Kyra Sedgwick), que, apesar de sua pequena participação, rouba a cena e funciona como um novo divisor de águas na vida da protagonista.

Ainda que o filme consiga prender a atenção até o fim, não dá para ignorar que sua progressão é bastante previsível e os clichês vão se amontoando a cada nova cena. A atuação de Samara Weaving também me soou excessivamente forçada, o que, em determinados momentos, torna algumas de suas reações menos naturais. Por sua vez, Kyle Gallner se mostra mais firme como um personagem carismático, que não soa como um criminoso qualquer e consegue transmitir certa ambiguidade. A trilha sonora country combina perfeitamente com a atmosfera da produção, enquanto as estradas, postos de gasolina e pequenas cidades americanas ajudam a construir uma identidade visual que remete aos road movies e aos filmes de perseguição criminal dos quais a obra claramente bebe.



Apesar dos problemas, Carolina Caroline, está longe de ser um filme descartável, sobretudo quando transforma a fuga da protagonista em uma espécie de jornada de auto descoberta. É, por fim, um filme que sabe das suas limitações, mas que mesmo assim não deixa de ser divertido e envolvente, sobretudo pela química dos seus protagonistas.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Crítica: O Convite (2026)


Filmes de estrutura teatral, que confinam seus personagens a um único cenário e apostam em longas conversas e reflexões sobre a vida, costumam me agradar muito. Alguns bons exemplos recentes são Deus da Carnificina (2011), Perfeitos Desconhecidos (2017) e Mass (2021), obras que encontram justamente neste espaço limitado a oportunidade para explorar o desconforto, geralmente provocado por verdades inconvenientes vindo à tona. É dentro dessa proposta que Olivia Wilde constrói O Convite (The Invite), seu terceiro filme como diretora após os elogiados Fora de Série (2019) e Não Se Preocupe, Querida (2022), que transforma um simples jantar entre vizinhos em uma espécie de acerto de contas emocional, misturando drama, humor e sensualidade de maneira bastante peculiar.


O filme começa nos apresentando ao melancólico professor de música Joe (Seth Rogen), que ao chegar em casa descobre que sua esposa, Angela (Olivia Wilde), convidou os vizinhos do andar de cima para jantar, em agradecimento por terem sido compreensivos com os barulhos da reforma que fizeram nos últimos meses. Ele fica indignado, pois a última coisa que ele tinha planejado para a noite era ter que socializar com pessoas que ele, nitidamente, não tem simpatia alguma. A situação gera uma longa discussão, e dá para perceber que isso é apenas mais uma noite normal dentro de uma relação conjugal marcada pelo desgaste e pela distância. Para piorar, enquanto os dois vivem uma crise que parece não ter fim, os vizinhos parecem desfrutar de uma relação intensa e sexualmente muito ativa, algo que fica evidente pelos sons que atravessam os apartamentos todas as noites. A situação desperta certa inveja em Angela e uma grande repulsa em Joe, que decide aproveitar o jantar para reclamar do comportamento dos vizinhos.

Logo, conhecemos os visitantes, quando a terapeuta e sexóloga Pina (Penélope Cruz) e o bombeiro aposentado Hawk (Edward Norton) batem à porta. Após um início amigável, com trocas de elogios e pequenos presentinhos, as conversas cruzadas evidenciam o que cada um dos personagens possui em comum, até que em determinado momento os casais se separam. Angela e Hawk passam a compartilhar suas paixões por arte e decoração, enquanto Joe e Pina dividem um baseado e conversam, com muito bom humor, sobre as nuances da vida adulta. Quando os quatro se reúnem novamente na sala de estar, uma proposta bastante inusitada dos visitantes é finalmente verbalizada, moldando o rumo da história e fazendo o filme entrar em verdadeira combustão.

Mesmo limitado a um único cenário, o roteiro inteligentemente segura a tensão até o fim, utilizando cada conversa, cada mudança de ambiente e cada nova revelação para alterar a dinâmica entre os personagens. O próprio apartamento acaba se tornando um personagem da história, já que as reformas, as decorações e até mesmo a disposição dos cômodos revelam muito sobre o estado emocional daqueles que ali vivem. Porém, muito desse êxito também se deve ao elenco. Temos quatro nomes de peso envolvidos, que conseguem criar personagens extremamente carismáticos. Angela é ansiosa, e está angustiada para que cada detalhe do jantar seja perfeito. Joe é um homem que não sente mais tesão em viver, mas que sempre encontra uma brecha para desfilar seu humor afiado com piadas incômodas. Hawk é o mais enigmático dos personagens, e nunca é possível saber exatamente o que ele está pensando, enquanto Pina exala um ar intelectual e parece ser a mais sincera e direta do grupo.

A reunião destes quatro elementos não cria nenhum conflito do zero, mas acaba sendo o estopim de muitos ressentimentos que já existiam bem antes deste encontro. Até mesmo Pina e Hawks, que aparentavam ser um casal bem seguro de si e "perfeito", demonstram suas fraquezas no desenrolar da noite. E quanto mais as conversas avançam, mais sérias ficam as discussões sobre a vida e sobre o que se espera dentro de um relacionamento. O sexo acaba surgindo como um tema crucial do filme, mas o roteiro não se reduz a isso de maneira vazia, usando a sexualidade como ferramenta para discutir até que ponto a ausência de desejo pode revelar sobre a saúde geral de uma relação. Por fim, O Convite sabe ser engraçado, constrangedor e, em alguns momentos, genuinamente sensível, se apresentando como uma das surpresas cinematográficas mais agradáveis do ano.


quarta-feira, 29 de julho de 2026

Crítica: Dia D (2026)



Poucos diretores são tão fortemente ligados a um gênero específico quanto Steven Spielberg é à Ficção Científica. Apesar de alguns dos seus melhores filmes pertencerem a outras vertentes, como os dramas A Lista de Shindler e A Cor Púrpura, é inegável sua importância para a consolidação do gênero, sobretudo quando se propôs a investigar a vida extraterrestre. Sendo assim, era inevitável que seu novo filme, Dia D (Disclosure Day), carregasse uma enorme expectativa, já que prometia um retorno triunfal do diretor ao universo que ajudou a redefinir. O resultado, no entanto, é um dos filmes mais insossos e decepcionantes do ano.


Desde o primeiro minuto, fica claro que o filme navega para um lado completamente oposto do esperado. Ao invés de construir um mistério envolvente sobre o desconhecido, o diretor aposta em um thriller de perseguição que, em diversos momentos, remete a um filme de ação genérico, daqueles que o ator Jason Statham adora protagonizar. Não há problema algum nesse tipo de entretenimento, mas certamente não é o que se espera de um cineasta que revolucionou a ficção científica justamente por utilizar o extraordinário como ferramenta para discutir a condição humana.

A trama acompanha Daniel (Josh O'Connor), um especialista em segurança cibernética que trabalha na Wardex, uma suposta grande empresa de tecnologia, que na realidade, serve como fachada para algo muito maior: proteger arquivos ultra secretos acumulados durante o século XX que, por sua vez, conteriam evidências concretas do contato entre humanos e seres extraterrestres. Convencidos de que a verdade precisa ser revelada, Daniel e um pequeno grupo de funcionários colocam em prática um plano meticulosamente elaborado para roubar os arquivos e expor tudo ao mundo. Isso dá início a uma fuga frenética, onde eles precisam enfrentar agentes fortemente armados, liderados por Noah (Colin Firth), que tentam a todo custo impedir o vazamento dos arquivos.


Paralelamente, passamos a acompanhar Margaret (Emily Blunt), meteorologista do principal noticiário de Kansas City, que passa a experimentar visões inexplicáveis após um estranho encontro com um pássaro. Durante uma transmissão ao vivo, ela sofre uma interferência que a faz emitir sons ininteligíveis aos ouvidos humanos, compreendidos apenas por Daniel. Embora os dois jamais tenham se encontrado, ambos compartilham uma misteriosa conexão que o roteiro sugere estar ligada a uma espécie de condição especial, surgida ainda nas suas infâncias. O problema, no entanto, é que essa relação nunca é devidamente desenvolvida, permanecendo vaga durante praticamente toda a narrativa.

Josh O'Connor e Emily Blunt fazem o possível, mas acabam bastante limitados por personagens pouco desenvolvidos e por um roteiro que parece mais interessado em levá-los de uma sequência de ação à outra do que em explorar seus conflitos internos. O mesmo vale para os coadjuvantes, como seus respectivos parceiros Jane (Eve Hewson) e Jackson (Wyatt Russell), que existem apenas para cumprir funções narrativas bastante superficiais. Colman Domingo também aparece como parceiro de Daniel nesta missão complexa, mas assim como os demais, seu personagem também carece de mais profundidade. E Colin Firth, por fim, parece mais um vilão fanfarrão tirado do universo Marvel do que um personagem a ser levado a sério.


A ideia de discutir como a sociedade reagiria diante da confirmação definitiva de que não estamos sozinhos no universo tinha potencial para render uma excelente ficção científica, justamente por abrir espaço para debates políticos, religiosos, científicos e filosóficos. É esse o tipo de reflexão que sempre marcou os melhores trabalhos de Spielberg dentro do gênero, e é justamente isso que se esperava novamente. Entretanto, o filme abandona essa possibilidade para investir na estrutura de perseguição incessante, onde tiros, explosões e fugas ocupam o lugar das questões realmente interessantes. E quando finalmente tenta abordar as implicações dessa descoberta nos minutos finais, a narrativa já está desgastada e sem força suficiente para provocar qualquer impacto.

Como se isso não bastasse, o roteiro acumula conveniências e diálogos excessivamente expositivos, que explicam aquilo que deveria ser descoberto pelo espectador enquanto deixa justamente as perguntas mais importantes sem resposta. Em vez de alimentar o mistério, essas escolhas acabam enfraquecendo a tensão e tornando a experiência cada minuto mais frustrante. Nem mesmo o aspecto técnico consegue salvar a produção. Em alguns momentos, os efeitos visuais apresentam um acabamento surpreendentemente irregular para os padrões da filmografia de Spielberg. A trilha sonora de John Williams, parceiro inseparável do diretor e responsável por algumas das composições mais memoráveis da história do cinema, também soa estranhamente preguiçosa, incapaz de criar uma atmosfera de encantamento ou suspense.


Por fim, Dia D é um raro tropeço de um cineasta que sempre soube transformar a ficção científica em algo muito maior do que simples entretenimento. Há boas ideias por trás do roteiro, mas o que sobra é um thriller artificial, incapaz de transmitir o fascínio, o senso de descoberta e a carga emocional que fizeram de Spielberg uma referência absoluta quando o assunto é a imaginação do desconhecido.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Crítica: A Odisseia (2026)


Atribuída ao poeta Homero, Odisseia é uma das principais epopeias da literatura grega antiga e, mesmo após quase três milênios, ainda é considerada uma das obras fundamentais da literatura mundial. Repleta de deuses e criaturas mitológicas, a narrativa atravessou os séculos refletindo sobre coragem, família, destino e, sobretudo, as cicatrizes que guerras deixam naqueles que sobrevivem a elas. Vencedor do Óscar em 2024 com Oppenheimer, Christopher Nolan surpreendeu a todos quando anunciou que traria a história para as telas do cinema. Porém, analisando sua filmografia recente e principalmente o seu método perfeccionista de trabalho, é realmente difícil imaginar um cineasta contemporâneo que estivesse mais preparado do que ele para assumir um desafio dessa magnitude.


A história de A Odisseia (The Odissey) acompanha o guerreiro Odisseu (Matt Damon), Rei de Ítaca, que após comandar a queda de Troia, inicia uma longa jornada de volta para casa. O percurso, que deveria durar poucos meses, acaba se estendendo por mais de dez anos, colocando Odisseu e seus companheiros diante de incontáveis provas de sobrevivência, seres mitológicos, monstros marinhos e todo o tipo de adversidades. Enquanto isso, sua esposa Penélope (Anne Hathaway), fiel à ideia de aguardá-lo, sofre uma pressão crescente para escolher um novo marido entre os diversos pretendentes dispostos a assumir o trono. Diante de assustadores boatos sobre possíveis invasões, a população clama urgentemente por um novo Rei, já que deixou de acreditar no retorno de Odisseu.

Diante desse cenário, o filho do casal e futuro herdeiro do trono, Telêmaco (Tom Holland), parte em busca de respostas sobre o paradeiro do pai. O roteiro logo revela que Odisseu está vivo, isolado na ilha de Ogígia e sem qualquer lembrança do próprio passado. Aqui, Nolan tem uma das suas maiores liberdades criativas em relação à obra original, já que no livro de Homero, Odisseu na verdade nunca perdeu a memória. Vivendo sob os cuidados de Calipso (Charlize Theron), ele começa lentamente a recuperar suas lembranças, e é a partir dessas recordações que o diretor reorganiza a narrativa, conduzindo o espectador por uma estrutura não linear que revisita tanto sua participação na Guerra de Troia quanto a sucessão de acontecimentos que o levaram até a ilha.


Se em Oppenheimer, Nolan foi duramente criticado por tentar "explicar demais" a história, se tornando excessivamente expositivo, aqui vemos exatamente o contrário. O diretor não perde tempo com contextualizações desnecessárias e confia na força das imagens para conduzir a narrativa. A cronologia fragmentada exige atenção do espectador, mas jamais compromete a compreensão dos acontecimentos. Pelo contrário, torna a experiência ainda mais envolvente, fazendo com que cada nova lembrança do personagem traga um novo respiro ao filme, que nunca perde o seu ritmo, mesmo quando o diretor opta por passagens silenciosas.

Visualmente, o resultado é simplesmente deslumbrante. Algumas sequências alcançam um nível de grandiosidade raro no cinema atual, como o encontro com o ciclope Polifemo, a passagem pelas ilhas das Sereias cujo canto atrai os navegantes para a morte, o perturbador banquete na casa da feiticeira Circe, o confronto contra o monstro marinho Cila e, por fim, a recriação do lendário Cavalo de Troia, talvez o maior símbolo da inteligência estratégica de Odisseu. Nolan conduz todas essas passagens com um domínio impressionante da linguagem cinematográfica. Fotografia, montagem, trilha sonora, tudo funciona em perfeita sintonia para transformar cada desafio em uma experiência sensorial que desperta fascínio.


Mais do que um espetáculo visual, A Odisseia também impressiona pela humanidade imposta ao seu protagonista, outra mudança considerável em relação ao original. No livro, Odisseu tem suas virtudes mas é um homem arrogante, manipulador e extremamente avarento, enquanto aqui, temos um personagem bastante benevolente. Matt Damon entrega uma atuação poderosa na pele de um guerreiro cuja maior virtude não é necessariamente a força física, mas a inteligência, a capacidade de liderança e o profundo senso de responsabilidade pelos homens que conduz. Odisseu se recusa a abandonar qualquer companheiro, mesmo quando isso significa colocar a própria vida em risco, carregando consigo a culpa e a memória de cada um que ficou pelo caminho.

O elenco de apoio acompanha esse alto nível. Anne Hathaway transmite com sensibilidade a solidão e a resistência de Penélope, enquanto Charlize Theron confere uma melancolia inesperada à Calipso. Tom Holland, por sua vez, até convence na evolução de Telêmaco, mas é indiscutivelmente o ponto fraco nas atuações principais. Entre as demais participações, destacam-se ainda Robert Pattinson como Antínoo, John Leguizamo como Eumeu, Himesh Patel como Euríloco e Samantha Morton como Circe. Mesmo aqueles com pouco tempo de tela encontram espaço para marcar presença, como Zendaya (Atena), Elliot Page (Sinon), Jon Bernthal (Menelau) e Ben Safdie (Agamênon), contribuindo com toda a riqueza deste universo rico e singular.


Por fim, ao transformar um dos maiores textos da história da humanidade em um espetáculo audiovisual de rara imponência, Christopher Nolan talvez alcance o ponto mais alto de sua carreira. Sua adaptação impressiona tanto pela escala monumental das cenas quanto pela maneira como utiliza a mitologia para refletir sobre trauma, memória, culpa e os efeitos devastadores da guerra. É um filme que honra o legado de Homero sem abrir mão da identidade de seu diretor, equilibrando espetáculo e profundidade com uma segurança admirável. Uma obra que já nasce com lugar garantido entre os grandes épicos do cinema.