quinta-feira, 23 de julho de 2026

Crítica: Todo Mundo em Pânico 6 (2026)


Lançado em 2000, Todo Mundo em Pânico, criação dos irmãos Wayans, revolucionou o jeito de se fazer comédia no cinema ao transformar os maiores sucessos do terror em uma grande paródia. Pânico, Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Halloween, O Chamado e O Sexto Sentido foram apenas alguns dos alvos de um humor politicamente incorreto, repleto de piadas infames, humor físico e situações completamente absurdas, que fizeram a saga conquistar uma legião de fãs. Agora, em 2026, a franquia ganhou um reboot que também funciona como sequência, apostando justamente na nostalgia do público para provar que esse tipo de humor ainda tem espaço.


Do último filme da saga, lançado em 2013, para cá, o gênero do terror viveu uma nova fase de ouro, oferecendo material de sobra para os Wayans explorarem. Sob a direção de Michael Tiddes, Todo Mundo em Pânico 6 (Scary Movie) coloca novamente o ghostface de Pânico (outra saga que ganhou sequências recentes) no centro da história, agora envolvido em uma nova onda de assassinatos que assombra os Estados Unidos. A estrutura permanece praticamente a mesma, renovando apenas as referências e adaptando a linguagem para o cenário cultural atual.

Dentre filmes e séries mencionados desta vez, temos Wandinha (que aqui se torna Waldinha), A Hora do Mal, Longlegs: Vínculo Mortal, Terrifier, M3gan, A Substância, Pecadores, e até mesmo filmes que não fazem parte do gênero terror, como Michael e Guerreiras do K-Pop. Essa mistura funciona quando as referências são integradas à piada, mas em outros momentos elas aparecem apenas como pequenas esquetes isoladas, sem muito contexto na narrativa. Porém, seria injusto cobrar um roteiro elaborado de uma franquia que, de fato, nunca teve essa pretensão. O caos e a anarquia sempre foram parte da identidade de Todo Mundo em Pânico, e aqui não é diferente.


Aliás, se existe uma palavra que define o filme, ela é "descaramento". Os Wayans não estabelecem limites para o alvo de suas piadas. Há críticas à atuação da polícia de imigração durante o governo Trump, aos discursos mais radicais da direita americana, à militância performática nas redes sociais, às discussões sobre pronomes, aos influenciadores que vivem de transmissões ao vivo, aos hábitos irritantes da geração Z, à cultura "redpill" e até aos arquivos Epstein. O humor atira para todos os lados sem se preocupar em agradar qualquer grupo específico.

Algumas piadas acertam em cheio, enquanto outras claramente não encontram o timing ideal. Mas essa sempre foi a essência da franquia: provocar antes de pedir licença. O aspecto mais interessante, porém, talvez seja a forma como o filme também ri de si mesmo. A metalinguagem aparece constantemente, com personagens ironizando justamente as estratégias que a própria produção utiliza, como a reciclagem de histórias antigas se apegando à nostalgia e o uso recorrente de clichês narrativos que dominaram Hollywood nos últimos anos. É uma autocrítica divertida e surpreendentemente consciente.

Apesar de ter um nome já consolidado, o filme não teria alcançado o mesmo sucesso sem o retorno dos personagens mais queridos da franquia: Cindy Campbell (Anna Faris), Brenda (Regina Hall), Shorty (Marlon Wayans), Ray (Shawn Wayans), Doofy (Dave Sheridan) e até o "mãozinha" (Chris Elliott). Todos reaparecem interpretados pelos mesmos atores do filme original, funcionando menos como peças fundamentais da trama e mais como uma grande celebração do legado da franquia.


Por fim, de volta ao comando da franquia após três filmes, os irmãos Wayans entregam uma comédia escrachada, ofensiva na medida certa e plenamente consciente da própria limitação formal. Sem qualquer vergonha de recorrer ao humor mais infantil quando a situação pede, o novo Todo Mundo em Pânico entende perfeitamente qual é sua missão. Talvez nem todas as piadas acertem o alvo, mas a vontade de fazer o público rir permanece intacta, e isso basta para tornar esse retorno surpreendentemente divertido.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Crítica: Backrooms: Um Não-lugar (2026)


A lenda dos "backrooms" surgiu em 2019 dentro de um fórum na internet, onde uma imagem de um corredor amarelo aparecia acompanhada por textos sobre "sair da realidade". Três anos depois, Kane Parsons transformou essa história em uma websérie de curtas que viralizou no Youtube, acumulando milhões de visualizações. Confesso a vocês que nunca vi os curtas e portanto caí de "paraquedas" no longa Backrooms: Um Não-Lugar, após ele ter se tornado um dos maiores fenômenos do terror neste ano. Naturalmente, logo após terminar o filme, dei uma boa pesquisada no conceito original e, pelo pouco que vi, ficou claro que o filme é extremamente fiel à proposta que o originou, até por contar com a direção do mesmo Kane Parsons, em sua estreia em longas-metragens.


Os corredores amarelos de formatos irregulares, labirínticos e infinitos, as luzes fluorescentes, os objetos amontoados pelo caminho e a constante sensação de que algo profundamente errado existe naquele lugar criam uma atmosfera desconfortável e hipnótica desde os primeiros minutos. A premissa é, de certa forma, simples. Nela, acompanhamos Clark (Chiwetel Elijofor), um homem de meia-idade que enfrenta uma profunda depressão após o divórcio com a esposa. Afundado no alcoolismo e presenciando a decadência de sua loja de departamentos, que por sua vez também virou sua moradia improvisada, ele procura ajuda com a terapeuta Mary (Renate Reinsve), que o instiga a repensar a própria vida. Ao investigar pequenas quedas de luz na loja, Clark encontra uma espécie de "falha" nas paredes do subsolo, que o levam a um lugar estranho, que desafia qualquer lógica.

Curioso com a descoberta, Clark vai explorando mais profundamente o espaço, ficando cada vez mais intrigado com seus longos e silenciosos corredores, em um enigma que o consome aos poucos e o leva a questionar a própria sanidade. Para tentar provar aos outros (e também a si mesmo) que não está enlouquecendo, ele convida seus dois funcionários, Kat (Lukita Maxwell) e Bobby (Finn Bennett), para explorar o local juntos, registrando tudo com uma câmera analógica. Em paralelo, a terapeuta de Clark também acaba adentrando o espaço, tornando-se mais uma personagem presa neste mistério indecifrável e incompreensível.

Kane Parsons demonstra um domínio admirável da linguagem visual, utilizando enquadramentos amplos, corredores intermináveis e um uso do som inquietante para transmitir uma sensação genuína de isolamento. A câmera analógica reforça o aspecto documental da experiência, aproximando o espectador daquele pesadelo e aumentando a sensação de realismo. O problema é que o diretor, em nenhum momento, se preocupa em explicar o que é este lugar, tampouco as inúmeras situações vividas pelos personagens enquanto parecem ser observados por criaturas misteriosas.


A ausência de respostas não seria um problema se o roteiro desse ao espectador um caminho para desenvolver suas próprias interpretações, o que não acontece aqui. O mistério deixa de ser fascinante para se tornar frustrante, principalmente em seu terço final. A intenção parece ser instigar o público para posteriormente expandir esse universo em continuações, mas isso acaba criando um efeito contrário, fazendo o público perder o interesse. Desta forma, Backrooms: Um Não-Lugar funciona muito melhor como uma experiência sensorial e imersiva do que como uma narrativa propriamente dita, o que faz ele ser incompleto e esquecível.

Crítica: Heel (2026)


O cineasta polonês Jan Komasa ganhou reconhecimento internacional em 2020, quando seu drama Corpus Christi (Boże Ciało) figurou entre os cinco indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional, prêmio que acabou ficando com o sul-coreano ParasitaEm Heel (inicialmente anunciado com o nome Good Boy), o diretor demonstra mais uma vez o seu interesse por personagens difíceis de admirar, mas fascinantes de acompanhar, girando em torno de um protagonista moralmente ambíguo, cuja trajetória evoca os mais diversos sentimentos.


O filme começa nos mostrando uma noite comum na vida de Tommy (Anson Boon), um jovem delinquente, impulsivo e sem qualquer senso de responsabilidade. Líder de um grupo que grava agressões contra desconhecidos e atos de vandalismo para divulgação nas redes sociais, ele vive em um ciclo de violência, consumo de drogas, sexo inconsequente e explosões de raiva. Seu comportamento autodestrutivo parece fazer parte da rotina, incentivado pelos próprios amigos, que transformam cada infração em entretenimento.

Tudo muda quando, após desmaiar na rua depois de mais uma noite de excessos, Tommy desperta acorrentado em um porão escuro, usando uma coleira no pescoço. Logo conhecemos Chris (Stephen Graham), o proprietário da casa, que vive com a esposa Kathryn (Andrea Riseborough) e o filho Jonathan (Kit Rakusen). Revoltado com os inúmeros crimes do jovem registrados em vídeos publicados na internet, Chris decide submetê-lo a uma espécie de "reabilitação" forçada. A premissa inevitavelmente remete a Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, ao apresentar um jovem violento sendo submetido contra sua vontade a um processo de condicionamento para voltar ao convívio social como alguém "melhor".


A questão moral abordada neste "sequestro" é o que move o filme. É evidente que o cárcere privado promovido pela família não pode ser tratado como algo aceitável, mas ao mesmo tempo, Tommy é construído de maneira tão repulsiva nos primeiros minutos, que a reação instintiva do espectador é questionar até que ponto alguém como ele merece compaixão. Essa ambiguidade funciona muito bem porque embora estejam cometendo um crime, Chris e sua família nunca são retratados como pessoas cruéis ou sádicas; pelo contrário, parecem genuinamente acreditar que estão oferecendo ao rapaz uma oportunidade de mudar, e isso torna tudo ainda mais desconfortável. À medida que Tommy demonstra sinais de cooperação, ele passa a receber pequenas recompensas: um quarto mais confortável, uma alimentação mais robusta e maior liberdade para circular pela casa graças ao aumento da extensão da corrente que o prende. Aos poucos, ele decide embarcar naquela estranha dinâmica familiar, desenvolvendo laços inesperados tanto com a empregada recém-contratada (Monika Frajczyk) quanto com o menino Jonathan.

As atuações contribuem decisivamente para essa credibilidade. Stephen Graham entrega mais uma interpretação intensa, equilibrando firmeza e vulnerabilidade sem transformar Chris em um simples justiceiro. Andrea Riseborough acrescenta camadas importantes à esposa, frequentemente dividida entre apoiar o marido e questionar os limites daquela situação absurda, enquanto Kit Rakusen confere espontaneidade ao jovem Jonathan, peça fundamental para humanizar o ambiente. Mesmo Tommy, inicialmente quase impossível de suportar, ganha nuances conforme o roteiro avança, tornando sua transformação mais convincente.


Por fim, Heel é uma proposta provocativa, sustentada por personagens complexos e por um roteiro que constantemente desafia nossos próprios limites éticos. O único ponto negativo é que em sua reta final, o longa parece apressar conclusões que mereciam maior desenvolvimento. Apesar disso, não deixa de ser um thriller psicológico desconfortável e repleto de cenas que continuam ecoando muito depois dos créditos finais.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Crítica: Obsessão (2026)


"Muito cuidado com aquilo que você deseja, pois esse desejo pode se tornar realidade." O famoso e controverso alerta popular serve como ponto de partida para a provocante história de Obsessão (Obsession), filme dirigido por Curry Barker que, desde o seu lançamento, vem gerando uma enorme repercussão, e que se consolidou como o grande fenômeno do terror neste primeiro semestre de 2026.


A trama acompanha Bear (Michael Johnston), um jovem extremamente tímido que é secretamente apaixonado pela amiga de infância e agora colega de trabalho, Nikki (Inde Navarrette). Apesar da intensa paixão, ele nunca teve coragem de assumir os seus sentimentos, permanecendo preso à chamada "friedzone". A premissa, que remete a uma típica comédia romântica, ganha contornos sombrios quando Bear entra em uma loja de artefatos esotéricos e compra um misterioso "salgueiro dos desejos", objeto que promete realizar qualquer desejo daquele que partir seu graveto ao meio.

Embora não acredite em seus poderes, Bear acaba levando o artefato por achar sua estética curiosa e imaginar que seria um bom presente para dar a Nikki quando finalmente se declarar. No entanto, angustiado por mais uma vez se ver silenciado pela vergonha e pelo medo da rejeição, Bear resolve usar o artefato para si mesmo, fazendo o desejo mais previsível possível: pedindo que Nikki o amasse mais do que qualquer coisa. O pedido se concretiza imediatamente, mas Bear logo descobre que não estava preparado para as consequências devastadoras e para o preço que pagaria por transformar um sentimento que deveria ser livre, em pura imposição.


O aspecto mais interessante do roteiro é o dilema moral que ele apresenta, pois justamente quem deveria representar a ameaça acaba sendo a maior vítima da história. Nikki passa a ser escravizada por um sentimento que jamais escolheu sentir, e obrigada a corresponder a uma paixão de maneira completamente irracional. E aqui é impossível não destacar a atuação de Navarrette, que é simplesmente brilhante. A transformação perturbadora de uma jovem doce e cheia de vida em alguém consumido por uma obsessão doentia acontece de forma gradual e convence justamente pela atuação impressionante da atriz.

Essa mudança comportamental rapidamente chama a atenção de amigos e colegas de trabalho de Nikki, enquanto rumores começam a surgir na tentativa de encontrar uma explicação. Ao mesmo tempo, Bear, que inicialmente acredita estar vivendo um sonho ao finalmente ter seu amor correspondido, passa a experimentar o lado mais sombrio dessa fantasia quando Nikki adota atitudes cada vez mais possessivas, violentas e autodestrutivas. O filme retrata um relacionamento abusivo levado ao seu limite, mas com uma particularidade que torna tudo ainda mais inquietante: é impossível culpá-la por seus atos, já que aquele comportamento nunca foi uma escolha sua.


Vivendo um momento de enorme prestígio, refletido no recente reconhecimento da Academia a produções do gênero, o terror ganha mais um diretor promissor. Em seu longa de estreia, Curry Barker demonstra segurança tanto na construção da tensão quanto na condução do horror gráfico. Sem economizar na violência física e nas cenas sangrentas, cria sequências que permanecem na memória muito depois dos créditos finais, deixando claro que seu nome merece ser acompanhado de perto daqui pra frente. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Crítica: As Ovelhas Detetives (2026)


Filmes com animais falantes possuem uma doçura e um ar de inocência que só quem viveu a Sessão da Tarde nos anos 1990 lembra bem como era. Crescemos assistindo ao porquinho atrapalhado de Babe, ao trio inseparável de A Incrível Jornada, ao ratinho de Stuart Little, e a tantas outras obras do gênero que possivelmente só teriam dado certo naquele momento, já que no cinema de hoje a premissa soa bastante boba. Ainda assim, em pleno 2026, As Ovelhas Detetives (The Sheep Detectives) surge como uma ótima adição à lista de filmes já citados, e tem tudo para, em alguns anos, também ser lembrado como um dos grandes representantes do subgênero.


A trama acompanha George Hardy (Hugh Jackman), um pastor de ovelhas que vive no pacato vilarejo fictício de Denbrook, no interior da Inglaterra. Ele apresenta seus animais, sua rotina camponesa e seu pequeno vilarejo através de uma carta endereçada à sua filha Rebecca (Molly Gordon), que mora nos Estados Unidos, convidando-a para finalmente conhecer o lugar. No passado, George precisou entregá-la para adoção ainda bebê e apenas agora, décadas depois, descobriu seu paradeiro, decidindo reconstruir o vínculo que nunca pôde existir.

No dia a dia, George trata seu rebanho com enorme carinho e atenção, nomeando cada ovelha e cuidando delas como se fossem verdadeiros membros da família. Toda noite ele reúne os animais em frente ao trailer onde mora para ler um romance policial, sem imaginar que eles acompanham atentamente cada capítulo para, depois, discutirem a história entre si. Como em outros filmes do gênero, os animais não falam com os humanos, apenas entre eles, e é justamente dessa premissa que nasce um dos aspectos mais encantadores da obra.


O diretor constrói uma cultura própria para as ovelhas, cuja forma de interpretar o mundo humano desperta curiosidade constante. Elas tentam compreender conceitos como religião, a vida agitada das cidades, a maldade e, principalmente, o luto. Há, inclusive, uma passagem particularmente bonita em que as ovelhas adultas explicam aos filhotes que aqueles que partem se transformam em nuvens de algodão. É um momento de grande sensibilidade, que utiliza a ingenuidade dos animais e a individualidade de cada um para refletir sobre temas profundamente humanos.

Após uma noite de tempestade, o rebanho encontra George morto no pasto. A polícia conclui rapidamente que a causa foi um ataque cardíaco e não demonstra interesse em investigar além do necessário. As ovelhas, no entanto, tem certeza de que ele foi assassinado, talvez influenciadas pelas histórias de crime que ele mesmo contava. Convictas disso, passam a formular hipóteses e tentam conduzir discretamente o policial Tim Derry (Nicholas Braun) até a verdade, recorrendo aos pequenos sinais que conseguem transmitir aos humanos.


É um filme fofo e singelo, e cuja premissa jamais soa ridícula. A estrutura clássica dos romances de detetive conduz a narrativa e culmina em uma resolução divertida, que demonstra conhecer muito bem as convenções do gênero. A revelação final ironiza essas fórmulas ao mostrar que as ovelhas já haviam compreendido praticamente toda a verdade apenas por reconhecerem padrões presentes nas histórias que George costumava ler: uma morte misteriosa, interesses financeiros, suspeitos improváveis e a inevitável reviravolta. Mais do que uma homenagem aos tradicionais filmes de animais falantes, As Ovelhas Detetives também se revela uma divertida carta de amor às narrativas policiais, equilibrando humor, emoção e mistério com uma delicadeza difícil de encontrar no cinema contemporâneo.