Mchikpara é uma expressão de origem judaico-árabe que significa "dou minha vida por você", e poucas formas de amor traduzem tão bem esse sentimento quanto o amor de uma mãe, que vence barreiras físicas e emocionais e faz o possível e o impossível pelo bem dos seus filhos. É sobre essa devoção incondicional que fala Era Uma Vez Minha Mãe (Ma Mère, Dieu et Sylvie Vartan), filme delicado do cineasta canadense Ken Scott, que se baseia na autobiografia do advogado e apresentador de televisão francês Roland Perez.
Na trama, é o próprio Roland quem narra a história de sua mãe, Esther (Leïla Bekhti), desde o ano em que ele nasceu, em 1963. Sexto filho de uma família de judeus radicada na França, o menino veio ao mundo com uma deformidade no pé direito, que segundo os médicos, o condenaria ao uso permanente de aparelhos ortopédicos. Rejeitando aceitar esse prognóstico, Esther tenta todas as formas que acredita serem possíveis para reverter a situação, e entre consultas com especialistas, tratamentos experimentais e orações diárias diante de um altar improvisado, ela se agarra praticamente sozinha à esperança de um milagre que parece nunca chegar, já que a figura paterna se mostra quase nula.
Roland cresce praticamente recluso dentro de casa, onde aprende a ler e escrever com a ajuda dos seus irmãos. O mundo exterior ele acompanha através da televisão, onde passa quase 24 horas do seu dia com os olhos grudados na programação. Enquanto isso, Esther encontra uma renomada médica disposta a tentar um tratamento inovador, alimentando a esperança de que o filho possa finalmente conquistar a mobilidade que lhe foi negada desde o nascimento. A partir daí, toda a rotina da família passa a girar em torno de sua recuperação, que é feita no próprio conforto do lar.
Por influência de uma das irmãs, Roland descobre a cantora Sylvie Vartan, tornando-se rapidamente um admirador apaixonado pela sua obra. Quando a artista sofre um grave acidente de carro e luta pela própria sobrevivência, sua história passa a servir de inspiração para o garoto, que encontra nela um exemplo de força e resiliência. Um fato curioso é que, já na vida adulta, Roland viria a trabalhar muito próximo de sua maior referência, sendo mais do que apenas um colaborador, mas um amigo e confidente.
Mesmo que em alguns momentos o filme flerte com o melodrama, Ken Scott demonstra sensibilidade suficiente para não permitir que a história se torne totalmente manipuladora. O diretor encontra equilíbrio entre humor, emoção e esperança, transformando uma trajetória marcada pela dor e pela superação em uma celebração da perseverança humana. Por fim, mais do que um relato sobre deficiência, Era Uma Vez Minha Mãe é uma homenagem comovente à força transformadora do amor materno.



















