A marroquina Maryam Touzani é uma das cineastas mais relevantes do continente africano na atualidade. Seu cinema marcante tem como uma de suas características principais apresentar histórias de mulheres fortes e destemidas, explorando a sexualidade, a independência e a resistência contra leis patriarcais arcaicas. Essa abordagem aparece de forma mais contundente em Adam (2019), mas também pode ser percebida no recente longa que ela roteirizou em parceria com seu marido Nabil Ayouch, Everybody Loves Touda (2024).
Protagonizado pela veterana atriz espanhola Carmen Maura, conhecida sobretudo pela parceria longeva e prolífica com o cineasta Pedro Almodóvar, Rua Málaga (Calle Malaga) começa contextualizando o espectador com a seguinte informação: durante os anos 1930, muitos espanhóis, fugindo da ditadura de Franco, fizeram morada no norte do Marrocos, mais precisamente na cidade de Tânger, que por conta da imigração virou uma metrópole multicultural. Maria Ángeles (Maura) é fruto deste período histórico. Ela nasceu e foi criada em Tânger, e continuou morando na região mesmo quando toda o restante da família resolveu voltar à Espanha após o fim do regime de exceção. Querida por todos na vizinhança, Maria leva uma vida simples e tranquila até receber a visita inesperada da filha, Clara (Marta Etura), que está morando em Madrid e não a visitava há mais de um ano.
O motivo da visita, no entanto, logo vem à tona: Clara, visivelmente tensa desde o início, revela que precisa desesperadamente de dinheiro, e pretende vender o imóvel onde Maria vive há mais de 40 anos, uma propriedade que o pai de Clara colocou em seu nome antes de falecer anos atrás. Ela está decidida, e foi visitar a mãe apenas com a intenção de comunicá-la da escolha difícil, porém necessária. Mais do que isso, ela quer convencer Maria a finalmente fazer as malas e ir passar o resto da vida perto da família em Madrid, pois não vê sentido na escolha da mãe em permanecer longe de todos. E ao receber um firme não, opta pela decisão mais prática: colocá-la em um asilo.
O grande dilema moral do filme é justamente este: quem seria capaz de despejar, a grosso modo, a própria mãe por razões financeiras? Pior do que isso, cogitar retirar uma pessoa lúcida e satisfeita com sua vida do conforto do próprio lar para colocá-la em um lar de idosos. Maria, obviamente, rejeita a ideia, mas também não oferece grande resistência quando é levada para o local, talvez por compreender em silêncio o desespero da filha, numa condescendência que apenas quem é mãe pode ser capaz de compreender. Ainda assim, a mudança em seu semblante é evidente: a mulher de espírito jovial e sempre alegre que víamos no início dá lugar a alguém progressivamente tomada pelo desânimo.
Não demora para que Maria consiga escapar do lar de acolhimento, e sua primeira ação é justamente retornar ao apartamento às escondidas. Sem pensar muito nas consequências, ela também tenta resgatar, aos poucos, os móveis que foram vendidos pela filha, enquanto se esconde toda vez que o corretor de imóveis aparece para mostrar o local a algum potencial comprador. Percebendo que a região reúne muitos apaixonados por futebol, mas carece de um espaço onde eles possam assistir aos jogos enquanto bebem e socializam, Maria decide transformar o apartamento em um pequeno negócio improvisado para acolher esse público específico e, ao mesmo tempo, garantir alguma renda. Neste meio tempo, maria também reencontra o amor, a sexualidade e o prazer de viver, quando se relaciona com o dono do antiquário para o qual seus móveis haviam sido vendidos.
Ao permitir que Maria redescubra o amor, o desejo e a vontade de experimentar coisas novas, o filme mostra que a velhice não precisa ser sinônimo de apagamento. Ela sair de uma clínica onde estava rodeada de idosos para se juntar a um grupo de jovens amantes de esporte, também é uma tentativa de provar a si mesma que sua mente ainda está muito vivaz. Há também uma reflexão sobre pertencimento, afinal, Maria é, de fato, oriunda de família espanhola, mas sua identidade, suas memórias e até seus pequenos rituais cotidianos, está profundamente enraizada no Marrocos, que tornou seu verdadeiro lar. E ela não abre mão disso, custe o que custar. Por fim, Rua Málaga é muito mais do que um filme sobre conflitos familiares, mas uma delicada reflexão sobre o envelhecimento. Um drama singelo, despretensioso e cheio de ternura, que encontra sua força na atuação sensível e potente de Carmen Maura.


















