sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Crítica: Nimrods - A Green Day Comedy (2026)


Devo iniciar essa crítica deixando claro que escrevo ela muito mais com a emoção do que com a razão. Afinal, Green Day foi a primeira banda que eu me considerei verdadeiramente fã quando comecei a ouvir música no início dos anos 2000. Na adolescência, fiz parte de um clube de fãs, que se juntava na Redenção, em Porto Alegre, para tocar músicas da banda no violão. Na mesma época, comprei toda a discografia em CD's, tinha pôsteres deles espalhados pelas paredes do meu quarto, e cheguei a acampar para pegar grade no primeiro show da banda por aqui. Dito isso, é claro que fiquei muito curioso para ver Nimrods - A Green Day Comedy, filme inspirado na história real de Billie Joe, Mike Dirnt e Tré Cool antes da fama.

Evidentemente, sabia que não deveria esperar grandes méritos técnicos de uma obra que prometia ser despretensiosa. No entanto, me surpreendi positivamente com um filme que, apesar de simples, consegue ser maduro em sua proposta. Em uma época onde até comédias parecem ser obrigadas a apresentar algum conceito moral, o diretor Lee Kirk não se apega a essa preocupação, e diverte justamente por nos remeter a boas comédias musicais do passado, como Rock n' Roll High School (1979) e Detroit Rock City (1999).

O roteiro acompanha Tommy (Mason Thames), Fred (Kyrl Coffman) e Ched (Ryan Foust), três jovens que formam a banda de garagem Analog Dogs. Enquanto Tommy e Fred são típicos adolescentes rebeldes, que fogem da escola e rejeitam qualquer tipo de controle, Ched se mostra um verdadeiro "nerd", parecendo completamente deslocado do grupo. Isso, porém, não abala a forte amizade que existe entre os três, e o desejo compartilhado de assistir a banda favorita, Green Day, que irá tocar na cidade na semana do natal.



Em um encontro rápido em uma loja de discos com os membros do Green Day, os jovens entregam uma fita demo gravada com a primeira música deles, e o número de Tommy escrito nela. Essa é a deixa para que o irmão de Tommy, Wayne (Keen Ruffalo), resolva pregar uma peça nele: ligar se passando pelo baterista do Green Day, convidando a Analog Dogs para abrir o show deles em Los Angeles na virada do ano novo. A mentirinha faz com que Tommy, Fred e Ched partam em uma aventura do Kansas City em direção a Califórnia, dando início a um road movie que tem tudo aquilo que se espera de uma comédia do gênero.

No caminho, vários percalços atrapalham a jornada, como um carro estragado, uma experiência com alucinógenos e até um suposto serial killer. Entretanto, as situações bizarras e engraçadas vão apenas reforçando o espírito de união e amizade entre eles, sempre com a boa música do Green Day por trás. Há rebeldia, há algumas ações irresponsáveis, mas há também personagens extremamente simpáticos, que conseguem conquistar imediatamente o espectador.

O roteiro é previsível do início ao fim, mas o diretor conduz tudo de uma maneira que isso não soe cansativo e nem estrague a experiência como um todo. Para quem é fã da banda, claro que é um prato cheio. Além das músicas, temos diversas referências diretas à banda, como o coelho Bunny, a guitarra Blue (clássico instrumento do vocalista Billie Joe Armstrong), uma guerra de lama em um show de punk rock, e claro, os próprios membros da banda aparecendo como eles mesmos. Mas o filme funciona até mesmo para quem não é fã, e apenas gosta de um filme descompromissado e que não tenta disfarçar suas limitações.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Crítica: Pressão (2026)


Em 6 de junho de 1944, tropas militares Aliadas iniciaram a Operação Overlord nas praias da Normandia, naquele que ficou conhecido como o Dia D. O objetivo da missão, liderada pelo general norte-americano Dwight D. Eisenhower, era criar uma nova frente de batalha para libertar a Europa Ocidental do controle nazista. Pressão (Pressure), do diretor Anthony Maras, conta as 72 horas que antecederam esta ação militar que mudou os rumos da Segunda Guerra, mas sob uma ótica um tanto curiosa e até então inexplorada: a dos meteorologistas do exército.


Quando se fala em estratégias de batalhas, poucos lembram de algo determinante para que elas funcionem: o clima. Ao invés de tiros e explosões, o filme nos coloca dentro de salas militares claustrofóbicas, onde mapas e probabilidades meteorológicas são discutidas e analisadas meticulosamente. Afinal, para o sucesso de uma operação de tamanho porte e importância, era essencial saber se o tempo estaria propício. É neste contexto que o capitão James Stagg (Andrew Scott), um renomado meteorologista britânico, é chamado para entregar a previsão do tempo mais assertiva possível.

É bom lembrar que estamos falando de 80 anos atrás, período em que a tecnologia que conhecemos hoje ainda engatinhava. E com os equipamentos de meteorologia, a situação não era diferente. Por meio de engenhocas que, aos nossos olhos, parecem bastante estranhas, Stagg chegou a uma conclusão que ninguém queria ouvir: a data marcada para o deslocamento tinha chances reais de tempestades severas. A partir de então, grandes embates surgem entre Stagg e o Coronel Krick (Chris Messina), da força aérea dos Estados Unidos, que em contrapartida apresenta dados diferentes de acordo com seus métodos particulares de estudo, prevendo bom tempo para a ocasião. E como adiar a operação não fazia parte dos planos, ficou fácil adivinhar de que lado eles optariam ficar.


A estrutura do filme é bastante protocolar. O roteiro, desde o início, caminha de forma rasa para uma conclusão óbvia sobre quem dos dois está certo, e isso acaba tirando boa parte do suspense que poderia manter a narrativa em ebulição. Entretanto, não dá para considerar o filme um grande desastre. A ideia de acompanhar uma das maiores operações militares da história a partir das previsões meteorológicas é, por si só, excelente, justamente porque desloca o foco das batalhas para uma disputa silenciosa, na qual uma informação aparentemente banal seria determinante para a vida de milhares de soldados.

Por fim, Pressão mostra que, por trás de grandes acontecimentos históricos, muitas vezes existem decisões tomadas longe dos campos de batalha, e cuja importância nem temos ideia. Afinal, quem iria imaginar que uma previsão meteorológica poderia mudar o rumo da humanidade? É uma perspectiva no mínimo interessante, ainda que falte mais ousadia ao filme.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Crítica: Rose (2026)


Sucesso no último Festival de Berlim e escolhido para representar a Áustria no Oscar de Melhor Filme Internacional em 2027, Rose, do diretor Markus Schleinzer, é um filme potente que fala, acima de tudo, sobre identidade e resistência feminina numa época onde mulheres não tinham direitos e nem voz.


Ambientado no século XVII e baseado em uma história real, o filme nos transporta para uma aldeia rural da Alemanha, país devastado pela Guerra dos Trinta Anos. Rose (Sandra Hüller) acaba de chegar ao local após servir ao exército durante dez anos. Em suas mãos, carrega um documento que lhe confere a posse de uma fazenda na região, fazendo com que os habitantes a aceitem imediatamente como um novo membro da comunidade. Há, no entanto, um detalhe que faz toda a diferença: Rose é uma mulher que, há anos, por uma questão de sobrevivência, se passa por homem.

O disfarce funcionou por décadas e continua funcionando na aldeia. Com a ajuda dos vizinhos, Rose reergue a fazenda, que estava abandonada, e se torna uma figura importante entre os moradores, demonstrando inteligência, força e valentia. Porém, isso não é suficiente para que seja considerada um homem de verdade. Para isso, precisa se casar, a fim de preservar as tradições patriarcais da época. A escolhida é Suzanna (Caro Braun), uma jovem aparentemente pura e imaculada, mas que também esconde um grande segredo e pretende usar o casamento para encobri-lo. Os problemas começam quando, pressionada pela comunidade, Rose precisa engravidar a esposa para que o casamento não seja anulado e ela não perca parte dos bens envolvidos no acordo.


Gosto de como o filme não se preocupa em rotular a sexualidade de Rose, mostrando que a escolha de se passar por homem foi, antes de tudo, uma estratégia de sobrevivência que ela adotou ainda muito jovem. Ao mesmo tempo, é perspicaz a maneira como a personagem jamais é descoberta. De certa forma, isso abre espaço para uma discussão pertinente sobre o corpo humano e as expectativas que construímos em torno dele. Rose não precisava necessariamente corresponder àquilo que os outros esperavam de um homem: sua força, sua postura e sua valentia eram suficientes para que todos acreditassem na identidade que ela apresentava. E no fim, o que acaba colocando tudo a perder é justamente a obrigação de assumir o papel de pai, uma das funções mais profundamente enraizadas na estrutura patriarcal.

A fotografia em preto e branco dá ao filme uma beleza quase desconfortável, potencializando a pobreza do cenário e a miséria moral daquela sociedade. O ponto alto, no entanto, não poderia ser outro senão a presença extraordinária de Sandra Hüller em cena. Uma das melhores atrizes europeias da atualidade, Hüller demonstra mais uma vez sua capacidade ímpar de dar vida a personagens enigmáticos, que dizem muito mais pelo olhar e pelas expressões do que pelas palavras. Não conhecemos o passado de Rose, mas conseguimos compreender que ela enfrentou inúmeras privações e desafios ao longo da vida só pela personalidade construída ao longo do filme.


Por fim, Rose é, acima de tudo, um retrato doloroso de uma sociedade que determina quem podemos ser e quais papéis devemos desempenhar para sermos aceitos. E mesmo se passando há séculos atrás, remete imediatamente aos tempos de hoje, onde muitas pessoas ainda parecem viver com a cabeça do povo daquela época.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Crítica: Dear You (2026)


Grande fenômeno de bilheteria na China, e aclamado pela crítica em diversos festivais de cinema ao redor do mundo, Dear You, do diretor Lan Hongchun, é certamente um dos filmes mais bonitos que vi neste ano. Abrangendo um período que vai dos anos 1940 até os dias atuais, a história atravessa três gerações para falar, com grande sensibilidade, sobre família, pertencimento e, sobretudo, memórias e vínculos que permanecem interligados através do tempo.


A trama inicia nos dias atuais, na cidade chinesa de Shantou, onde a simpática Shurou (Iap Sok-jiu) está celebrando seus 87 anos cercada por amigos e familiares, que a têm como exemplo de força e resiliência. Há quarenta anos atrás, seu marido Zheng Musheng (Wang Yantong) viajou em direção ao sudeste asiático para escapar de ser recrutado pelas tropas chinesas durante a guerra civil no país, e nunca mais voltou. Durante anos, Shurou recebeu cartas de Musheng no exílio, e enquanto aguardava seu retorno com lealdade, criava os três filhos do casal com muita luta. Isso até ela receber uma foto, sem carta anexada, que parecia indicar que ele havia construído uma nova família em Bangkok. Sentindo-se traída, ela desejou nunca mais saber notícias suas e não deixava ninguém sequer tocar no assunto.

A fotografia, no entanto, escondia um grande mal-entendido, daqueles capazes de mudar trajetórias de vida para sempre. E quem descobre isso é o neto de Shurou, Xiaowei (Hiau-ui), que endividado e sem saber como sair dessa situação desesperadora, decide viajar até a Tailândia para tentar encontrar seu avô e pedir-lhe um empréstimo, já que as poucas informações que tem indicam que ele se tornou um homem rico e importante por lá. Enquanto Xiaowei vai descobrindo aos poucos o verdadeiro destino do avô, o filme nos faz voltar no tempo, contando tudo que aconteceu com Musheng desde que ele saiu de casa pela última vez.


A mulher, que na foto todos presumiram ser a segunda esposa dele, na verdade era Xie Nanzhi (Li Sitong), filha única do dono da pousada onde Musheng ficou hospedado por anos. Longe de uma relação amorosa, os dois desenvolveram uma forte amizade, especialmente depois que Musheng passou a ensinar mandarim clandestinamente aos filhos de outros imigrantes, pessoas que, assim como ele, haviam deixado seu país em busca de sobrevivência e de uma vida melhor. Mesmo longe de casa, ele jamais se esqueceu do verdadeiro lar que havia deixado para trás, mantendo a comunicação com a esposa por meio de cartas e alimentando o sonho de um dia conseguir retornar. O destino, no entanto, tinha outros planos.

Apesar de abordar temas complexos, Dear You encontra espaço para um humor bastante peculiar, que ajuda a aliviar o peso de determinados momentos sem jamais diminuir sua importância. O filme alterna com naturalidade entre situações engraçadas e passagens profundamente emocionais, fazendo com que o espectador transite entre o riso e a melancolia quase sem perceber. Essa mistura também contribui para que a história nunca se torne excessivamente melodramática, mesmo que, às vezes, a trilha sonora soe um pouco forçada.


Ao acompanhar os efeitos de decisões tomadas décadas atrás, o longa mostra como pequenos mal-entendidos, silêncios e circunstâncias fora do nosso controle podem atravessar gerações e continuar moldando a vida de pessoas que sequer estavam presentes quando tudo aconteceu. No fim, mais do que uma história sobre uma separação forçada, Dear You é um filme sobre aquilo que permanece quando as pessoas se vão: as lembranças, os vínculos e as histórias que continuam sendo contadas dentro de uma família. Um delicado retrato sobre o tempo e sobre a maneira como ele pode tanto nos afastar quanto nos aproximar daqueles que amamos.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Crítica: Primavera (2026)


Entre os anos de 1704 e 1740, o compositor e maestro italiano Antonio Vivaldi trabalhou como professor de música no Ospedale della Pietà, instituição de Veneza voltada à educação e ao acolhimento de meninas órfãs. Foi durante esse período que o músico viveu a fase mais produtiva de sua carreira, compondo algumas das obras que se tornariam fundamentais para o seu legado. Primavera, do diretor italiano Damiano Michieletto, revisita esse momento da vida de Vivaldi, mas escolhe não colocá-lo no centro da narrativa. Em vez disso, volta seus olhos para uma das jovens musicistas da Pietà, a prodígio do violino Anna Maria Della Pietà, personagem que aqui recebe o nome de Cecilia.


A trama é narrada pela própria protagonista (Tecla Insolia), por meio de cartas destinadas a uma mãe que ela sequer sabe se um dia voltará a encontrar. Abandonada ainda criança no local, Cecilia alimenta o sonho quase infantil de um dia ser buscada por sua genitora, como já viu acontecer com outras internas. É através dessas cartas que somos apresentados à rotina da instituição, ao mesmo tempo em que ela revela as dores, frustrações e angústias de uma jovem condenada a viver longe do mundo e, principalmente, nas sombras de uma sociedade que pouco valoriza sua existência.

Comandado por uma madre superiora megera (Fabrizia Sacchi), o local assume no filme uma atmosfera quase opressiva. Além de fria e meticulosa, ela não demonstra nenhum tipo de empatia por aquelas que ela deveria proteger. Suas maldades vão desde jogar filhotes de gato vivos no rio na frente de todas as meninas, até marcar os bebês recém chegados com ferro quente, deixando a marca da instituição em sua pele. Afinal, ela as enxergava muito mais como uma oportunidade de negócios no futuro do que como seres humanos. Desde cedo, as internas eram obrigadas a aprender música e a se apresentar para nobres e frequentadores da igreja, garantindo doações que ajudavam a sustentar a Pietà. E quando chegavam à idade adulta, muitas eram encaminhadas para casamentos arranjados com homens ricos, em negociações que envolviam dotes pomposos.


No meio deste contexto, Vivaldi (Michele Riondino) é chamado ao local para substituir o professor das meninas, cujo trabalho já não agradava mais aos frequentadores dos cultos dominicais. O músico logo se impressiona com Cecilia, não apenas por seu extraordinário domínio do violino, mas também por sua inteligência e astúcia. A relação entre os dois jamais parte para o lado sexual, e fica bem evidente que a forte conexão que se estabelece é sobretudo intelectual e artística. Vivaldi encontra na jovem uma musicista capaz de compreender e executar suas ideias com uma habilidade incomum, enquanto Cecilia encontra no compositor alguém disposto a enxergar nela algo além de uma órfã destinada a desaparecer no anonimato.

Sob o comando de Vivaldi, os concertos da Pietà se transformam em uma das grandes atrações de Veneza. Viajantes, nobres e membros da realeza europeia passam a visitar a cidade para ouvir aquelas jovens musicistas. E, justamente por contar com instrumentistas tão talentosas, Vivaldi podia ousar cada vez mais em suas composições, criando peças de enorme dificuldade técnica. Durante os anos em que viveu na instituição, ele compôs mais de 500 concertos, entre eles sua obra mais famosa, As Quatro Estações.


É curioso como Primavera é, ao mesmo tempo, uma biografia de Vivaldi e não é. Estamos no centro de um dos momentos mais importantes de sua trajetória, mas o filme deliberadamente o coloca quase como um coadjuvante de sua própria história. A escolha funciona porque desloca o olhar para aquelas que ficaram à margem dos registros históricos: as meninas da Pietà, cujo talento foi fundamental para que a música de Vivaldi alcançasse novas possibilidades.

Com ótimas sequências musicais e uma recriação de época impecável, Primavera encontra sua identidade justamente ao propôr uma perspectiva diferente sobre uma história que já parecia conhecida. Talvez seu maior mérito esteja justamente aí: lembrar que, por trás de um grande nome da música, existiam também dezenas de jovens talentosas cuja arte ajudou a dar um pouco de significado às suas vidas, mesmo que imposta.