quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Crítica: O Último Viking (2025)

Alguns atores e diretores parecem ter nascido para trabalhar juntos. É o caso do cineasta dinamarquês Anders Thomas Jensen e do ator Mads Mikkelsen, cuja parceria prolífica se consolidou como uma das mais interessantes do cinema atual. Desde Flickering Lights (2000), os dois já estiveram juntos em dez projetos, tanto com Jensen na direção como também colaborando apenas no roteiro. O humor ácido do diretor sempre casou perfeitamente com a excentricidade do ator em cena, e se Jensen sempre soube criar personagens "quebrados", Mads sempre soube interpretá-los com muita intensidade. Agora em O Último Viking (The Last Viking), essa sintonia não poderia ser diferente.

A trama acompanha Anker, interpretado por Nikolaj Lie Kaas, outro parceiro de longa data do diretor. Após roubar uma grande quantia em dinheiro, ele esconde a bolsa em um depósito, mas acaba preso antes de conseguir recuperá-la. Antes de ser capturado, porém, ele pede ao irmão, Manfred (Mikkelsen), que enterre o dinheiro nas proximidades da casa onde eles cresceram. Quinze anos depois, ao deixar a prisão, Anker reencontra o irmão e planeja viajar até o local em sua companhia, mas descobre que a missão de reaver o montante será bem mais complexa do que ele imaginava.

Desde a infância, Manfred sofre de um transtorno raro de personalidade. Agora, por exemplo, ele não aceita mais ser chamado pelo próprio nome: acredita ser John Lennon, o lendário integrante dos Beatles, e exige ser tratado como tal. O delírio, que poderia ser explorado apenas como gag cômica, ganha contornos mais densos à medida que o filme revela o passado dos irmãos. Criados sob a tirania de um pai violento e instável, ambos carregam marcas profundas de abusos físicos e, sobretudo, psicológicos. Quando Manfred ainda criança passou a acreditar ser um viking da mitologia nórdica, tornou-se alvo de chacotas na escola e de repressões ainda mais severas em casa. O pai o culpava por suas “loucuras” e responsabilizava Anker por não conseguir “controlá-lo”, o que gerava uma espiral de violência severa.

Esses traumas moldaram dois homens radicalmente distintos, mas ligados por um afeto silencioso e resiliente. É nesse equilíbrio entre absurdo e dor que Jensen demonstra sua habilidade narrativa. Como já é de praxe em sua filmografia, temos a adição de vários personagens secundários que ajudam a formar o arco do absurdo. Entre eles, três fugitivos de uma clínica psiquiátrica que se juntam ao grupo na antiga casa da família, que agora é um Airbnb. Dois deles possuem a mesma dissociação de Manfred: um acredita que é Paul McCartney e George Harrison (os dois ao mesmo tempo), enquanto outro acredita ser Ringo Star. De repente, os Beatles estão "reunidos" novamente, o que serve para dar um novo sentido à vida de Manfred (ops, de John) e um sentimento de pertencimento que ele, talvez, jamais havia sentido antes.

O que poderia soar como uma sucessão de esquetes nonsense ganha coesão graças ao olhar compassivo de Jensen. O humor é afiado, por vezes até politicamente incorreto, mas há sempre uma intenção dramática por trás do riso. Paralelamente, a tensão em torno da busca pela mala de dinheiro, intensificada pela perseguição implacável que Anker passa a sofrer de pessoas do seu passado a quem ele ficou devendo, impede que a narrativa perca fôlego, misturando o "caos cômico" com um suspense policial enérgico. Com personagens carismáticos e um senso de absurdo cuidadosamente orquestrado, O Último Viking reafirma o cinema de Anders Thomas Jensen em sua essência máxima: tragicômico, provocador e humano.

Crítica: Nuremberg (2025)

Entre 1945 e 1946, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, oficiais do alto escalão nazista foram levados a julgamento por um Tribunal Militar Internacional formado por juízes dos países Aliados (Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e União Soviética), em um dos julgamentos mais desafiadores, complexos e memoráveis da história. Sob acusações de crimes de guerra e principalmente crimes contra a humanidade, vinte e dois oficiais foram julgados em um primeiro momento, entre eles o sucessor direto de Hitler, Hermann Göring.

Dirigido por James Vanderbilt (de Conspiração e Poder, 2015), Nuremberg se inicia logo após as tropas soviéticas tomarem Berlim. Hitler e Goebbels já haviam cometido suicídio, mas figuras centrais do regime acabam sendo capturadas, entre elas Göring (Russell Crowe). Sua prisão funciona como o eixo dramático da narrativa, especialmente a partir de seus encontros com o psiquiatra americano Douglas Kelley (Rami Malek), encarregado de avaliá-lo psicologicamente enquanto ele aguarda julgamento.

A relação entre os dois se transforma em uma amizade tão improvável quanto inquietante, sustentada por interesses claramente distintos. Göring demonstra confiança absoluta de que escapará das acusações e retornará à sua família, usando as conversas não apenas para reafirmar essa convicção, mas também para manipular Kelley como intermediário na sua relação com a esposa e a filha. Kelley, por sua vez, vê nessas interações a oportunidade de compreender os mecanismos psicológicos que permitiram tamanha brutalidade por parte dos líderes nazistas, com a ambição de escrever um livro sobre o tema.

O que começa como uma avaliação clínica, logo se revela um truque orquestrado pelos oficiais americanos. Kelley descobre que sua verdadeira função é, na verdade, extrair informações estratégicas sobre como os réus se defenderiam no tribunal, e diante desse dilema moral, ele é forçado a abrir mão de princípios que construiu ao longo de sua vida profissional. Ainda que tal conduta fosse, em qualquer outro contexto, moralmente condenável, o filme habilmente provoca o espectador ao questionar se há espaço para ética tradicional quando se está lidando com mentes por trás de um genocídio. Göring, em especial, age com um cinismo perturbador, fingindo ignorância sobre os horrores dos campos de concentração, apesar da posição central que ocupava no regime.

Nos minutos finais, Nuremberg assume a forma de um clássico filme de tribunal, mas evita cair em clichês. Quando Vanderbilt opta por inserir imagens reais do Holocausto, com montanhas de corpos empilhados, corpos desfigurados e evidências incontestáveis da barbárie, o impacto é devastador. São registros que, na vida real, foram exibidos pela primeira vez durante o próprio julgamento, e que mesmo já exaustivamente vistos em documentários e outras obras de ficção, continuam a ferir como se fossem inéditos.

O filme estabelece paralelos inquietantes com o cenário político contemporâneo, especialmente com a ascensão de discursos de ódio e do extremismo ao redor do mundo. Em um dos momentos mais perturbadores, Göring, ao ser indagado sobre o que lhe fez se tornar um seguidor fiel das ideias nazistas, afirma, com um sorriso irônico, que “Hitler fez todos se sentirem alemães novamente”. A frase arrepia, não apenas por responder a eterna pergunta sobre como uma nação inteira permitiu que aquilo acontecesse, mas por ecoar discursos atuais, funcionando como um alerta sombrio de que ideias parecidas precisam ser combatidas antes que seja tarde demais.

Russell Crowe entrega uma atuação sólida e dominante, compondo um Göring manipulador e perigosamente carismático, que mantém sua postura de superioridade mesmo atrás das grades. Se Crowe é destaque, o mesmo não posso dizer de Malek, que não consegue alcançar a seriedade que o personagem necessitava, com tiques e cacoetes irritantes que se sucedem o filme inteiro. O elenco de apoio cumpre bem sua função, com destaque para Michael Shannon como o promotor Robert H. Jackson, John Slattery como o comandante da prisão e Leo Woodall no papel do tradutor.

Por fim, Nuremberg não é apenas um filme histórico ou um drama jurídico bem executado, mas um lembrete incômodo de que o mal raramente se apresenta como monstruoso à primeira vista. Ele se disfarça de discurso civilizado, de carisma e de promessas de pertencimento e prosperidade. Ao revisitar um dos julgamentos mais importantes do século XX, o filme reafirma que a memória é uma ferramenta essencial para impedir que os erros mais brutais da humanidade se repitam.

Crítica: Marty Supreme (2026)

Primeiro filme solo do diretor Josh Safdie sem o irmão Benny, cuja parceria ficou conhecida por filmes como Bom Comportamento (2017) e Jóias Brutas (2019), Marty Supreme se baseia levemente na história real de Marty Reisman, um excêntrico jogador de tênis de mesa que, nos anos 1950, transformou a própria carreira em espetáculo ao usar estratégias pouco ortodoxas para atrair atenção, investidores e notoriedade.

O filme já começa nos apresentando ao seu protagonista, Marty Mouser (Timothée Chalamet), um homem errático, imoral e sem escrúpulos, que é capaz de qualquer coisa para alcançar seus objetivos. Trabalhando como vendedor em uma loja de sapatos de Nova Iorque, ele está tentando juntar dinheiro para poder disputar um campeonato de tênis de mesa importante na Inglaterra que, em sua cabeça, não é uma possibilidade de ascensão, mas uma confirmação inevitável da sua superioridade. Ele não acredita que ganhará o torneio, ele tem certeza. Completamente egocêntrico, manipulador, e movido por uma autoconfiança que beira o delírio, Marty está obcecado em tornar o tênis de mesa um grande espetáculo nos Estados Unidos, e para isso, não vê problema nenhum em atravessar pessoas, situações e limites éticos com a mesma rapidez com que golpeia a bola na mesa.

Safdie apresenta um personagem caótico, com uma urgência tão caótica quanto, que precisa correr contra o tempo para tentar resolver sua vida. Dito isso, é um filme ligado no 220v, sem paradas para respirar e sem espaço para contemplação. E essa energia funciona até certo ponto, pelo menos para prender a atenção do espectador. O problema é que muita coisa na história parece aleatória, desordenada e pouco explicada. Em resumo, o que vemos é um amontoado de situações extravagantes que por vezes se atropelam e não se conectam, criando uma sensação de que estamos acompanhando apenas fragmentos de uma história, e não uma progressão orgânica.

Não dá para negar, no entanto, que o filme tem seus momentos de inspiração. Um dos pontos que acho interessante, é o fato de trazer para o centro da trama um esporte que não tem tanta aclamação do público ocidental, mas que é bem interessante de acompanhar pela sua riqueza técnica. Recentemente o tênis de mesa ficou mais conhecido por nós brasileiros por causa de Hugo Calderano, que fez história ao chegar nas semifinais dos jogos olímpicos de Paris em 2024 e por ganhar a Copa do Mundo do esporte em 2025, sendo o primeiro atleta das Américas a conquistar tal feito. O filme, nesse sentido, acerta ao explorar o potencial cinematográfico das partidas, captando a velocidade e a tensão dos duelos.

A ambientação da Nova Iorque dos anos 1950 também merece destaque. As cenas externas ajudam a consolidar o clima de época, reforçando a atmosfera de um país em transformação, onde oportunismo e espetáculo caminham lado a lado. Mas o verdadeiro trunfo de Marty Supreme é Timothée Chalamet. Em uma performance intensa e fisicamente inquieta, o ator confere magnetismo a um personagem essencialmente detestável. Marty é irritante, vaidoso e moralmente questionável, mas ainda assim, impossível de ignorar. Chalamet equilibra carisma e repulsa com precisão, entregando a sua melhor atuação até então na carreira, e que muito possivelmente irá lhe tender o seu primeiro Oscar daqui há um mês.

No fim das contas, Marty Supreme é um filme que vibra mais pela energia do que pela coesão, o que de forma alguma o faz ser ruim, apenas distante de ser intocável. Há talento, há personalidade e há momentos de verdadeiro impacto, mas falta a amarração que transforma intensidade em grandeza. O fato é que ele confirma o talento de Josh Safdie como cronista de figuras obsessivas à beira do colapso, mas também evidencia que, de certa forma, faz falta o contraponto criativo do irmão.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Crítica: The Plague (2026)


É comum nos abraçarmos à nostalgia e lembrarmos com certo carinho da adolescência, mas uma coisa é certa: esta fase da vida não é nada fácil. Além dos hormônios à flor da pele e das inseguranças constantes, somos obrigados a lidar com a descoberta cruel de que o mundo fora das quatro paredes do nosso quarto não é nem um pouco acolhedor. Tudo isso enquanto moldamos a nossa própria personalidade, sem termos a verdadeira dimensão de que cada passo dado neste momento irá ecoar pela vida inteira.


Em seu filme de estreia, Charlie Polinger nos apresenta um thriller psicológico que aborda uma questão recorrente e dolorosa nesta fase complexa da vida: o bullying escolar. A trama se passa em 2003, e acompanha um grupo de jovens que vive em uma espécie de internato para meninos, todos alunos de polo aquático do professor Wags (interpretado por Joel Edgerton, que também é o produtor do longa). Entre eles está o recém chegado Ben (Everett Blunck), um garoto de 12 anos, sensível e meio desengonçado, que tenta desesperadamente se encaixar no grupo. Não sabemos muito sobre ele, apenas que ele se mudou há pouco com a mãe para a nova cidade após a separação dos pais, e seu sotaque diferente imediatamente acaba sendo motivo de risadas e deboches dos outros meninos.

No centro da dinâmica cruel do grupo está Jake (Kayo Martin), um líder informal. Com um rosto angelical, mas uma maldade intrínseca no olhar, ele aparentemente dita as regras, enquanto os demais apenas seguem suas ideias, sem pensar nas consequências dos seus atos. Um dos alvos preferenciais da violência psicológica de Jake é Eli (Kenny Rasmussen), um garoto tímido, solitário e acima do peso, que sofre de alergias na pele que nunca cicatrizam. A partir disso, o grupo cria o boato de que ele carrega a “peste”, uma doença supostamente contagiosa transmitida a qualquer um que toque em sua pele. A mentira funciona como uma sentença: Eli passa a ser sistematicamente isolado, ridicularizado e desumanizado.


É nesse ambiente sufocante que se estabelece o principal conflito de Ben. Diferente dos outros, ele demonstra empatia e se compadece do sofrimento de Eli, mas o medo de se tornar a próxima vítima o paralisa. Para sobreviver, acaba compactuando com as agressões, mesmo que isso o corroa por dentro. Polinger constrói com inteligência a ambiguidade do personagem, inclusive quando mostra o próprio Ben se questionando se a tal “peste” não seria real, num reflexo cruel de como a repetição de uma ideia pode distorcer a percepção da realidade. Essa tensão cresce até o momento inevitável em que Ben decide tomar uma posição à favor de Eli, pagando um preço alto e brutal por isso.

O filme escancara como crianças e adolescentes podem ser impiedosos, especialmente quando agem em grupo, protegidos pelo anonimato coletivo e pela ausência de consequências imediatas. O que torna o filme ainda mais perturbador é o quanto essa violência soa palpável e reconhecível. Não se trata de exagero cinematográfico, mas de um retrato incômodo de comportamentos que continuam se repetindo fora da tela. Casos recentes, como o do cão Orelha, em Santa Catarina, reforçam essa lógica cruel: alguém inicia o ato de violência, por pura maldade e psicopatia, e os demais vão na onda, muitas vezes por covardia.


Ao transformar o bullying em um verdadeiro horror psicológico, Polinger não apenas denuncia essa dinâmica, mas também nos obriga a encarar uma pergunta desconfortável: quantas vezes, por medo de exclusão, escolhemos o silêncio, ou ainda pior, a cumplicidade? Por fim, The Plague sugere que o verdadeiro contágio não é a “peste” inventada pelos garotos, mas a violência que se espalha quando ninguém tem coragem de interrompê-la, e é justamente essa constatação que torna sua experiência tão angustiante.

Crítica: A Empregada (2026)

Baseado no livro homônimo da escritora Freida McFadden, um fenômeno editorial que conquistou uma legião de fãs, A Empregada (The Housemaid) é um suspense que, na teoria, promete abordar temas importantes como violência doméstica, abuso psicológico e relações tóxicas mantidas por aparência, mas que, na prática, derrapa em um roteiro raso, superficial e cheio de reviravoltas que só funcionam se você morou a vida inteira em uma caverna e nunca assistiu um filme de suspense antes.

O filme começa nos apresentando a Millie (Sydney Sweeney), uma jovem mulher que está passando por dificuldades e consegue ser selecionada para ser a nova empregada na mansão de uma família rica. É Nina Winchester (Amanda Seyfried), a dona da casa, que lhe entrevista, lhe mostra os aposentos e sobretudo lhe dita as regras. Entre elas, a de que Millie deve morar no local, em um quartinho pequeno porém confortável do sótão. 

O cenário inicial de estabilidade logo se desfaz quando Nina passa a tratar a nova funcionária com uma hostilidade crescente. Além de agressiva, ela a humilha constantemente e constrói mentiras cruéis a seu respeito, especialmente para o marido, Andrew (Brandon Sklenar), que surge como a figura serena e racional da casa. É ele quem explica a Millie que Nina sofre de graves distúrbios psicológicos, usando isso como justificativa para seu comportamento abusivo. Precisando do emprego por questões externas que vão muito além do dinheiro, Millie precisa aguentar a pressão e seguir firme, mesmo sofrendo humilhação atrás de humilhação. Ao mesmo tempo, Andrew se mostra acolhedor e protetor, dando início a uma dinâmica que lentamente descamba para um triângulo amoroso tão óbvio quanto artificial.

Não tendo lido o livro, não cabe a mim fazer uma comparação direta com o material original, mas enquanto obra cinematográfica, A Empregada se sustenta sobre reviravoltas preguiçosas e soluções narrativas que subestimam a inteligência do espectador de maneira quase ofensiva. O ápice desse problema surge na metade do filme, quando uma longa sequência de flashback tenta se impôr como grande virada dramática, apenas para reciclar a fórmula mais batida possível: “a vilã, na verdade, é uma vítima”. Tudo apresentado de forma genérica, sem complexidade ou qualquer sutileza.

No fim das contas, o filme não oferece nada de novo, apenas uma colagem de clichês mal disfarçados. Em nenhum momento, por exemplo, é crível a tentativa de vender Millie como uma “pobre coitada sem ter onde morar”, já que a construção da personagem é tão frágil que nunca consegue sustentar essa vulnerabilidade. O apelo sexual em torno de Sydney Sweeney também é evidente e explorado sem pudor, mas as cenas entre ela e Andrew beiram o constrangedor: falta química, falta tesão, falta verdade. O que resta é um roteiro preguiçoso que aposta em dois corpos bonitos em situações artificiais para fisgar um público específico, deixando claro que, sem isso, o roteiro simplesmente não se sustenta.