Quando um filme reúne dois dos atores mais badalados de Hollywood na atualidade em um drama de época, e que ainda por cima promete abordar o poder transformador da música, é inevitável que ele gere boas expectativas. É o que aconteceu com A História do Som (The History of Sound), novo filme do cineasta sul-africano Oliver Hermanus (de Viver, 2022), que tem sim os seus momentos interessantes, mas que infelizmente frustra por entregar muito menos do que prometia.
A trama nos apresenta Lionel Worthing, um jovem que, desde a infância, demonstra uma sensibilidade quase sobrenatural para os sons do mundo. Os ruídos da natureza, as inflexões da voz humana e as melodias que ecoam nos lugares mais improváveis, tudo é absorvido por ele de forma intensa e singular. Em 1917, já adulto (vivido por Paul Mescal), Lionel recebe uma bolsa para estudar no Conservatório de New England, em Boston, deixando pela primeira vez a fazenda da família no Kentucky. E é nesse novo e desafiador ambiente que ele conhece David White (Josh O'Connor), um cantor igualmente fascinado pela música, com quem estabelece uma conexão imediata.
A Primeira Guerra Mundial interrompe o florescer dessa relação, quando David precisa servir o exército. O vínculo entre os dois passa a sobreviver por meio de cartas e encontros esporádicos, até que, com o retorno de David para casa, o romance enfim ganha forma. Juntos, eles decidem viajar pelo interior dos Estados Unidos, com o projeto de captar canções populares em cilindros de cera utilizados para fazer gravações na época. A ideia era reunir uma coletânea de músicas folk, afim de preservar a memória cultural do país e de sua gente, antes que as mesmas se perdessem no tempo.
É justamente neste ponto que o filme encontra seus melhores momentos, ao mostrar com sensibilidade o quanto a música pode ser um instrumento vivo da memória coletiva. As sequências em que Lionel e David descobrem novas vertentes sonoras, novas vozes e realidades distintas, são carregadas de uma beleza melancólica e ao mesmo tempo engrandecedora. No entanto, a proposta bonita e contemplativa esbarra em um ritmo excessivamente arrastado, fazendo com que o filme perca sua força. A narrativa parece hesitar em aprofundar os conflitos emocionais ou dar maior densidade dramática à relação dos dois personagens, e o romance, embora delicado, carece de tensão e uma certa urgência.
A reta final é tocante, e reforça a ideia central de mostrar o poder da música como guardiã de memórias e sentimentos, mas é pouco para elevar o conjunto da obra. As atuações são sólidas, a reconstrução de época é cuidadosa e a trilha sonora, elemento vital da narrativa, é, sem dúvida, o grande trunfo do filme. E ainda que o impacto final fique aquém do esperado e a história não reverbere com a intensidade que o seu potencial sugeria, há beleza suficiente em sua construção musical para que a experiência, sobretudo para os amantes da música, ainda seja proveitosa.
















