Vencedor do Caméra d'Or em Cannes, prêmio concedido ao melhor longa-metragem de um diretor estreante, O Bolo do Presidente (The President's Cake) marca um debut tocante e emocionalmente pulsante do iraquiano Hasan Hadi., cujas referências dialogam expressivamente com cineastas "vizinhos" como Jafar Panahi e Abbas Kiarostami, conhecidos por transformar situações banais em narrativas que escalam de maneira quase absurda.
A trama se passa em abril de 1990, e tem como pano de fundo um Iraque economicamente devastado. Ainda sob os efeitos da guerra Irã-Iraque (1980–1988), o país enfrentava fome, escassez e um colapso estrutural que foi ainda mais acentuado pelas severas sanções internacionais, especialmente impostas pelos Estados Unidos, após o presidente Saddam Hussein decidir invadir o Kuwait. Mesmo diante de instabilidades e de um cenário caótico, Saddam sempre fez questão de manter uma tradição peculiar: celebrar o seu aniversário com festas grandiosas, sustentadas por bolos e acompanhamentos preparados pela própria população.
É importante contextualizar que, naquele período, Saddam Hussein vivia o auge do seu poder, e o culto à sua imagem era uma realidade presente no país inteiro. Seu rosto aparecia em praticamente todos os espaços públicos e privados, seja em pôsteres, murais pintados à mão ou em fotografias emolduradas, enquanto cânticos de exaltação eram entoados diariamente pela população, sobretudo nas escolas. Logo, comemorar seu aniversário quase como uma celebração coletiva de um povo.
Dentro desta realidade, cada instituição de ensino recebia a missão de selecionar os alunos que ficariam responsáveis pelas tarefas essenciais para a realização da festa, como a limpeza do espaço, a decoração, e principalmente a confecção do bolo. É aí que conhecemos Lamia (Baneen Ahmed Nayef), uma garota de nove anos da escola primária, que mesmo tentando escapar, tem o seu nome sorteado para ser a responsável da sua turma pelo bolo. Vivendo em uma zona rural com a avó Bibi (Waheed Thabet Khreibat), e sempre carregando a tiracolo o seu galo de estimação Hindi, ela então se vê obrigada a ir para a cidade atrás dos ingredientes. Sem dinheiro, avó e neta enfrentam a difícil tarefa de reunir o necessário em meio à escassez, pechinchando aqui e ali e fazendo o possível para contornar as limitações.
Gradualmente, a narrativa vai transcendendo a simplicidade da sua premissa, revelando-se muito mais do que uma simples história sobre um bolo. Fragilizada pela doença, a avó enxerga na viagem uma oportunidade de garantir um futuro melhor para a Lamia, planejando entregá-la a um casal disposto a criá-la em melhores condições de vida. Ao perceber as intenções da avó, a menina foge, e passa a perambular pela cidade na companhia do seu amigo e colega de classe Saeed (Sajad Mohamad Qasem), que por sua vez, é quem ficou encarregado de conseguir as frutas da celebração.
A partir daí, a jornada dos dois pelas ruas se consolida como o eixo central do filme, enquanto, em paralelo, a avó recorre à polícia na tentativa de encontrar a neta, dando início a uma busca que carrega, ao mesmo tempo, desespero e resignação. Ainda que não haja um discurso político explícito, a dimensão social se impõe de forma orgânica, revelando através de pequenas situações, os impactos profundos daquele contexto na vida dos personagens. Não há, por exemplo, uma paranoia declarada, mas a constante presença de caças cruzando o céu funciona como um lembrete de que algo está errado.
Por fim, Hasan Hadi constrói uma obra que encontra força justamente na delicadeza, transformando uma missão aparentemente trivial em um retrato sensível sobre infância, perda e sobrevivência em meio ao caos, sem jamais ceder ao excesso melodramático. O maior acerto do filme está no contraste entre a inocência de seus protagonistas e a brutalidade do mundo ao redor, potencializado pelas atuações impressionantes do elenco mirim.

















