quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Crítica: La Bola Negra (2026)


Premiado em Cannes e apontado como um dos nomes mais fortes na briga pelo próximo Óscar de melhor filme internacional, La Bola Negra, dirigido pelos espanhóis Javier Ambrossi e Javier Calvo, parte de uma peça inacabada deixada pelo poeta e dramaturgo Federico García Lorca, assassinado em 1936, durante os primeiros meses da Guerra Civil Espanhola. A partir dessa obra brutalmente interrompida, o filme constrói uma narrativa que atravessa diferentes períodos da história do país para refletir sobre repressão, identidade e memória.


A trama se desenvolve em três épocas distintas da história espanhola. A primeira nos leva a 1937, em meio à Guerra Civil, quando acompanhamos Sebastián (Guitarricadelafuente), um jovem músico recrutado pelo exército após seu vilarejo ser bombardeado por aviões italianos. Ele fica encarregado de cuidar de Rafael (Miguel Bernardeau), um integrante da resistência capturado pelas forças militares e encaminhado à enfermaria. Sebastián se apaixona pelo rapaz, e o desejo mútuo que surge os coloca em uma posição extremamente perigosa, não apenas pelas tensões políticas que os cercam, mas também pela sociedade profundamente conservadora da época, onde homossexualidade representava uma sentença de exclusão e violência.

Em paralelo, somos apresentados a Carlos (Milo Quifes), cuja história se passa em 1932 e estabelece uma conexão mais direta com a peça de Lorca que inspira o filme. Proveniente de uma família burguesa, o jovem tenta ingressar em uma espécie de fraternidade masculina, submetendo-se a um processo de admissão que depende do voto secreto de seus integrantes. Bolas brancas representam a aceitação, enquanto as pretas simbolizam a rejeição. Ao final da votação, Carlos descobre que a maioria dos membros não deseja sua entrada no grupo, em grande parte devido aos rumores sobre sua sexualidade. Para ser aceito futuramente, Carlos vai precisar confrontar a possibilidade de esconder aquilo que verdadeiramente é.


Por fim, acompanhamos Alberto (Carlos González), um jovem pesquisador que vive em Madri nos dias atuais. Diferentemente dos personagens das outras duas narrativas, ele pertence a uma geração que conquistou maior liberdade para viver e expressar sua sexualidade, fruto de décadas de luta por direitos e reconhecimento. Após a morte do avô, Alberto recebe, junto à herança, um envelope contendo uma carta misteriosa e um manuscrito. A descoberta desses documentos dá início a uma investigação que o conduz ao passado familiar e estabelece os vínculos entre as três histórias, revelando como experiências de repressão e luta podem atravessar gerações.

O roteiro costura essas narrativas para abordar temas como fascismo, homofobia, família, teatro e memória coletiva, construindo um épico de proporções monumentais tanto em sua forma quanto em seu conteúdo. À primeira vista, as três histórias parecem seguir caminhos independentes, situadas em contextos históricos e sociais diferentes. No entanto, todas compartilham um eixo central: a homossexualidade e as diferentes formas de repressão às quais ela foi submetida ao longo do tempo.


Ao aproximar essas histórias separadas por décadas, La Bola Negra monstra que a conquista de direitos não apaga os traumas produzidos pela intolerância ao longo de décadas. Da mesma forma, mostra como o silêncio imposto a uma geração pode continuar repercutindo na vida de tantas outras. Afinal, lembrar aqueles que foram silenciados é uma forma de resistência, e talvez uma das maneiras mais importantes de impedir que a história volte a se repetir.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Crítica: Hope - O Primeiro Contato (2026)


Dirigido pelo sul-coreano Na Hong-jin, Hope: Primeiro Impacto (Hope) estreou no Festival de Cannes deste ano e deu muito o que falar ao concorrer à Palma de Ouro. De fato, trata-se de um filme bastante diferente daquilo que estamos acostumados a ver em um dos festivais mais prestigiados do cinema mundial, diante dos olhares da crítica mundial. Considerado o longa-metragem mais caro já produzido na Coreia do Sul, a obra aposta em muita ação, criaturas monstruosas e efeitos visuais grandiosos, aproximando-se da estética dos grandes blockbusters de Hollywood.


A trama se passa em um vilarejo fictício de aparência bucólica, chamado de Hope Harbor, localizado em uma região desmilitarizada na fronteira entre as duas Coreias. Em um dia aparentemente corriqueiro, o chefe de polícia Bum-seok (Hwang Jung-min) recebe a notícia de que um grupo de caçadores encontrou um boi morto e mutilado no meio de uma estrada. O que restou do animal apresenta profundas marcas de garras, levando os homens a suspeitar do ataque de um tigre vindo da floresta. No entanto, ao chegar à fazenda de onde o bovino havia saído, eles encontram novos sinais de destruição e os restos mortais do fazendeiro, indicando que a ameaça é muito maior do que imaginavam.

Ao retornar à cidade, Bum-seok encontra corpos decapitados espalhados pelas ruas estreitas, além de inúmeros prédios destruídos. Durante aproximadamente cinquenta minutos, o filme constrói uma atmosfera sufocante de medo e mistério, e essa é, de longe, sua melhor parte. É impossível não ficar absorto a cada passo dos personagens, enquanto tentamos imaginar que tipo de ameaça estão enfrentando. Nesse primeiro momento, vemos apenas pessoas arremessadas violentamente, corpos mutilados e um rastro de destruição assustador, enquanto os moradores tentam reagir com armas que se mostram completamente insuficientes diante do perigo.


Na segunda metade, temos finalmente o primeiro vislumbre do monstro. E, de fato, sua aparência foge completamente do esperado. Não vou dar spoilers do seu aspecto, pois acho que o fator surpresa é importante, mas quando o grupo de moradores descobre uma possível nave especial cravada na floresta, é possível concluir que ele não somente venho de outro planeta, como também não está sozinho. Provido de uma força descomunal e uma altura que lembra os Na'vi, de Avatar, a criatura permanece envolta em mistério, e pouco sabemos sobre suas origens ou motivações.

Além do policial Bum-seok, duas personagens femininas desempenham papéis fundamentais na trama: a policial Sung-ae (Jung Ho-yeon) e a chefe do centro médico de Hope (Hwang Seok-jeong), responsável pela autópsia do primeiro monstro capturado e morto. Sua participação é crucial para que os moradores comecem a compreender a biologia da criatura e, consequentemente, a dimensão da ameaça que enfrentam. Outro aspecto interessante é o humor peculiar do filme, que encontra espaço para piadas mesmo em meio ao caos. Os personagens estão longe de ser heróis invencíveis e tampouco tomam sempre as melhores decisões, e é justamente essa humanidade que confere graça a situações que, em outras circunstâncias, seriam apenas aterrorizantes.


O principal problema de Hope, porém, está em suas sequências finais, quando a narrativa se prolonga muito além do necessário. Embora as cenas de perseguição sejam visualmente impressionantes, elas acabam se tornando excessivamente longas e cansativas, presas a uma dinâmica repetitiva que compromete o ritmo da obra. Para completar, o desfecho deixa diversas questões em aberto e transmite a impressão de que o diretor pretende expandir esse universo em possíveis continuações. A possibilidade de uma franquia não seria, por si só, um problema, mas a maneira como o filme termina faz com que a história pareça incompleta.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Crítica: Nimrods - A Green Day Comedy (2026)


Devo iniciar essa crítica deixando claro que escrevo ela muito mais com a emoção do que com a razão. Afinal, Green Day foi a primeira banda que eu me considerei verdadeiramente fã quando comecei a ouvir música no início dos anos 2000. Na adolescência, fiz parte de um clube de fãs, que se juntava na Redenção, em Porto Alegre, para tocar músicas da banda no violão. Na mesma época, comprei toda a discografia em CD's, tinha pôsteres deles espalhados pelas paredes do meu quarto, e cheguei a acampar para pegar grade no primeiro show da banda por aqui. Dito isso, é claro que fiquei muito curioso para ver Nimrods - A Green Day Comedy, filme inspirado na história real de Billie Joe, Mike Dirnt e Tré Cool antes da fama.

Evidentemente, sabia que não deveria esperar grandes méritos técnicos de uma obra que prometia ser despretensiosa. No entanto, me surpreendi positivamente com um filme que, apesar de simples, consegue ser maduro em sua proposta. Em uma época onde até comédias parecem ser obrigadas a apresentar algum conceito moral, o diretor Lee Kirk não se apega a essa preocupação, e diverte justamente por nos remeter a boas comédias musicais do passado, como Rock n' Roll High School (1979) e Detroit Rock City (1999).

O roteiro acompanha Tommy (Mason Thames), Fred (Kyrl Coffman) e Ched (Ryan Foust), três jovens que formam a banda de garagem Analog Dogs. Enquanto Tommy e Fred são típicos adolescentes rebeldes, que fogem da escola e rejeitam qualquer tipo de controle, Ched se mostra um verdadeiro "nerd", parecendo completamente deslocado do grupo. Isso, porém, não abala a forte amizade que existe entre os três, e o desejo compartilhado de assistir a banda favorita, Green Day, que irá tocar na cidade na semana do natal.



Em um encontro rápido em uma loja de discos com os membros do Green Day, os jovens entregam uma fita demo gravada com a primeira música deles, e o número de Tommy escrito nela. Essa é a deixa para que o irmão de Tommy, Wayne (Keen Ruffalo), resolva pregar uma peça nele: ligar se passando pelo baterista do Green Day, convidando a Analog Dogs para abrir o show deles em Los Angeles na virada do ano novo. A mentirinha faz com que Tommy, Fred e Ched partam em uma aventura do Kansas City em direção a Califórnia, dando início a um road movie que tem tudo aquilo que se espera de uma comédia do gênero.

No caminho, vários percalços atrapalham a jornada, como um carro estragado, uma experiência com alucinógenos e até um suposto serial killer. Entretanto, as situações bizarras e engraçadas vão apenas reforçando o espírito de união e amizade entre eles, sempre com a boa música do Green Day por trás. Há rebeldia, há algumas ações irresponsáveis, mas há também personagens extremamente simpáticos, que conseguem conquistar imediatamente o espectador.

O roteiro é previsível do início ao fim, mas o diretor conduz tudo de uma maneira que isso não soe cansativo e nem estrague a experiência como um todo. Para quem é fã da banda, claro que é um prato cheio. Além das músicas, temos diversas referências diretas à banda, como o coelho Bunny, a guitarra Blue (clássico instrumento do vocalista Billie Joe Armstrong), uma guerra de lama em um show de punk rock, e claro, os próprios membros da banda aparecendo como eles mesmos. Mas o filme funciona até mesmo para quem não é fã, e apenas gosta de um filme descompromissado e que não tenta disfarçar suas limitações.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Crítica: Pressão (2026)


Em 6 de junho de 1944, tropas militares Aliadas iniciaram a Operação Overlord nas praias da Normandia, naquele que ficou conhecido como o Dia D. O objetivo da missão, liderada pelo general norte-americano Dwight D. Eisenhower, era criar uma nova frente de batalha para libertar a Europa Ocidental do controle nazista. Pressão (Pressure), do diretor Anthony Maras, conta as 72 horas que antecederam esta ação militar que mudou os rumos da Segunda Guerra, mas sob uma ótica um tanto curiosa e até então inexplorada: a dos meteorologistas do exército.


Quando se fala em estratégias de batalhas, poucos lembram de algo determinante para que elas funcionem: o clima. Ao invés de tiros e explosões, o filme nos coloca dentro de salas militares claustrofóbicas, onde mapas e probabilidades meteorológicas são discutidas e analisadas meticulosamente. Afinal, para o sucesso de uma operação de tamanho porte e importância, era essencial saber se o tempo estaria propício. É neste contexto que o capitão James Stagg (Andrew Scott), um renomado meteorologista britânico, é chamado para entregar a previsão do tempo mais assertiva possível.

É bom lembrar que estamos falando de 80 anos atrás, período em que a tecnologia que conhecemos hoje ainda engatinhava. E com os equipamentos de meteorologia, a situação não era diferente. Por meio de engenhocas que, aos nossos olhos, parecem bastante estranhas, Stagg chegou a uma conclusão que ninguém queria ouvir: a data marcada para o deslocamento tinha chances reais de tempestades severas. A partir de então, grandes embates surgem entre Stagg e o Coronel Krick (Chris Messina), da força aérea dos Estados Unidos, que em contrapartida apresenta dados diferentes de acordo com seus métodos particulares de estudo, prevendo bom tempo para a ocasião. E como adiar a operação não fazia parte dos planos, ficou fácil adivinhar de que lado eles optariam ficar.


A estrutura do filme é bastante protocolar. O roteiro, desde o início, caminha de forma rasa para uma conclusão óbvia sobre quem dos dois está certo, e isso acaba tirando boa parte do suspense que poderia manter a narrativa em ebulição. Entretanto, não dá para considerar o filme um grande desastre. A ideia de acompanhar uma das maiores operações militares da história a partir das previsões meteorológicas é, por si só, excelente, justamente porque desloca o foco das batalhas para uma disputa silenciosa, na qual uma informação aparentemente banal seria determinante para a vida de milhares de soldados.

Por fim, Pressão mostra que, por trás de grandes acontecimentos históricos, muitas vezes existem decisões tomadas longe dos campos de batalha, e cuja importância nem temos ideia. Afinal, quem iria imaginar que uma previsão meteorológica poderia mudar o rumo da humanidade? É uma perspectiva no mínimo interessante, ainda que falte mais ousadia ao filme.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Crítica: Rose (2026)


Sucesso no último Festival de Berlim e escolhido para representar a Áustria no Oscar de Melhor Filme Internacional em 2027, Rose, do diretor Markus Schleinzer, é um filme potente que fala, acima de tudo, sobre identidade e resistência feminina numa época onde mulheres não tinham direitos e nem voz.


Ambientado no século XVII e baseado em uma história real, o filme nos transporta para uma aldeia rural da Alemanha, país devastado pela Guerra dos Trinta Anos. Rose (Sandra Hüller) acaba de chegar ao local após servir ao exército durante dez anos. Em suas mãos, carrega um documento que lhe confere a posse de uma fazenda na região, fazendo com que os habitantes a aceitem imediatamente como um novo membro da comunidade. Há, no entanto, um detalhe que faz toda a diferença: Rose é uma mulher que, há anos, por uma questão de sobrevivência, se passa por homem.

O disfarce funcionou por décadas e continua funcionando na aldeia. Com a ajuda dos vizinhos, Rose reergue a fazenda, que estava abandonada, e se torna uma figura importante entre os moradores, demonstrando inteligência, força e valentia. Porém, isso não é suficiente para que seja considerada um homem de verdade. Para isso, precisa se casar, a fim de preservar as tradições patriarcais da época. A escolhida é Suzanna (Caro Braun), uma jovem aparentemente pura e imaculada, mas que também esconde um grande segredo e pretende usar o casamento para encobri-lo. Os problemas começam quando, pressionada pela comunidade, Rose precisa engravidar a esposa para que o casamento não seja anulado e ela não perca parte dos bens envolvidos no acordo.


Gosto de como o filme não se preocupa em rotular a sexualidade de Rose, mostrando que a escolha de se passar por homem foi, antes de tudo, uma estratégia de sobrevivência que ela adotou ainda muito jovem. Ao mesmo tempo, é perspicaz a maneira como a personagem jamais é descoberta. De certa forma, isso abre espaço para uma discussão pertinente sobre o corpo humano e as expectativas que construímos em torno dele. Rose não precisava necessariamente corresponder àquilo que os outros esperavam de um homem: sua força, sua postura e sua valentia eram suficientes para que todos acreditassem na identidade que ela apresentava. E no fim, o que acaba colocando tudo a perder é justamente a obrigação de assumir o papel de pai, uma das funções mais profundamente enraizadas na estrutura patriarcal.

A fotografia em preto e branco dá ao filme uma beleza quase desconfortável, potencializando a pobreza do cenário e a miséria moral daquela sociedade. O ponto alto, no entanto, não poderia ser outro senão a presença extraordinária de Sandra Hüller em cena. Uma das melhores atrizes europeias da atualidade, Hüller demonstra mais uma vez sua capacidade ímpar de dar vida a personagens enigmáticos, que dizem muito mais pelo olhar e pelas expressões do que pelas palavras. Não conhecemos o passado de Rose, mas conseguimos compreender que ela enfrentou inúmeras privações e desafios ao longo da vida só pela personalidade construída ao longo do filme.


Por fim, Rose é, acima de tudo, um retrato doloroso de uma sociedade que determina quem podemos ser e quais papéis devemos desempenhar para sermos aceitos. E mesmo se passando há séculos atrás, remete imediatamente aos tempos de hoje, onde muitas pessoas ainda parecem viver com a cabeça do povo daquela época.