segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Crítica: The Plague (2026)


É comum nos abraçarmos à nostalgia e lembrarmos com certo carinho da adolescência, mas uma coisa é certa: esta fase da vida não é nada fácil. Além dos hormônios à flor da pele e das inseguranças constantes, somos obrigados a lidar com a descoberta cruel de que o mundo fora das quatro paredes do nosso quarto não é nem um pouco acolhedor. Tudo isso enquanto moldamos a nossa própria personalidade, sem termos a verdadeira dimensão de que cada passo dado neste momento irá ecoar pela vida inteira.


Em seu filme de estreia, Charlie Polinger nos apresenta um thriller psicológico que aborda uma questão recorrente e dolorosa nesta fase complexa da vida: o bullying escolar. A trama se passa em 2003, e acompanha um grupo de jovens que vive em uma espécie de internato para meninos, todos alunos de polo aquático do professor Wags (interpretado por Joel Edgerton, que também é o produtor do longa). Entre eles está o recém chegado Ben (Everett Blunck), um garoto de 12 anos, sensível e meio desengonçado, que tenta desesperadamente se encaixar no grupo. Não sabemos muito sobre ele, apenas que ele se mudou há pouco com a mãe para a nova cidade após a separação dos pais, e seu sotaque diferente imediatamente acaba sendo motivo de risadas e deboches dos outros meninos.

No centro da dinâmica cruel do grupo está Jake (Kayo Martin), um líder informal. Com um rosto angelical, mas uma maldade intrínseca no olhar, ele aparentemente dita as regras, enquanto os demais apenas seguem suas ideias, sem pensar nas consequências dos seus atos. Um dos alvos preferenciais da violência psicológica de Jake é Eli (Kenny Rasmussen), um garoto tímido, solitário e acima do peso, que sofre de alergias na pele que nunca cicatrizam. A partir disso, o grupo cria o boato de que ele carrega a “peste”, uma doença supostamente contagiosa transmitida a qualquer um que toque em sua pele. A mentira funciona como uma sentença: Eli passa a ser sistematicamente isolado, ridicularizado e desumanizado.


É nesse ambiente sufocante que se estabelece o principal conflito de Ben. Diferente dos outros, ele demonstra empatia e se compadece do sofrimento de Eli, mas o medo de se tornar a próxima vítima o paralisa. Para sobreviver, acaba compactuando com as agressões, mesmo que isso o corroa por dentro. Polinger constrói com inteligência a ambiguidade do personagem, inclusive quando mostra o próprio Ben se questionando se a tal “peste” não seria real, num reflexo cruel de como a repetição de uma ideia pode distorcer a percepção da realidade. Essa tensão cresce até o momento inevitável em que Ben decide tomar uma posição à favor de Eli, pagando um preço alto e brutal por isso.

O filme escancara como crianças e adolescentes podem ser impiedosos, especialmente quando agem em grupo, protegidos pelo anonimato coletivo e pela ausência de consequências imediatas. O que torna o filme ainda mais perturbador é o quanto essa violência soa palpável e reconhecível. Não se trata de exagero cinematográfico, mas de um retrato incômodo de comportamentos que continuam se repetindo fora da tela. Casos recentes, como o do cão Orelha, em Santa Catarina, reforçam essa lógica cruel: alguém inicia o ato de violência, por pura maldade e psicopatia, e os demais vão na onda, muitas vezes por covardia.


Ao transformar o bullying em um verdadeiro horror psicológico, Polinger não apenas denuncia essa dinâmica, mas também nos obriga a encarar uma pergunta desconfortável: quantas vezes, por medo de exclusão, escolhemos o silêncio, ou ainda pior, a cumplicidade? Por fim, The Plague sugere que o verdadeiro contágio não é a “peste” inventada pelos garotos, mas a violência que se espalha quando ninguém tem coragem de interrompê-la, e é justamente essa constatação que torna sua experiência tão angustiante.

Crítica: A Empregada (2026)

Baseado no livro homônimo da escritora Freida McFadden, um fenômeno editorial que conquistou uma legião de fãs, A Empregada (The Housemaid) é um suspense que, na teoria, promete abordar temas importantes como violência doméstica, abuso psicológico e relações tóxicas mantidas por aparência, mas que, na prática, derrapa em um roteiro raso, superficial e cheio de reviravoltas que só funcionam se você morou a vida inteira em uma caverna e nunca assistiu um filme de suspense antes.

O filme começa nos apresentando a Millie (Sydney Sweeney), uma jovem mulher que está passando por dificuldades e consegue ser selecionada para ser a nova empregada na mansão de uma família rica. É Nina Winchester (Amanda Seyfried), a dona da casa, que lhe entrevista, lhe mostra os aposentos e sobretudo lhe dita as regras. Entre elas, a de que Millie deve morar no local, em um quartinho pequeno porém confortável do sótão. 

O cenário inicial de estabilidade logo se desfaz quando Nina passa a tratar a nova funcionária com uma hostilidade crescente. Além de agressiva, ela a humilha constantemente e constrói mentiras cruéis a seu respeito, especialmente para o marido, Andrew (Brandon Sklenar), que surge como a figura serena e racional da casa. É ele quem explica a Millie que Nina sofre de graves distúrbios psicológicos, usando isso como justificativa para seu comportamento abusivo. Precisando do emprego por questões externas que vão muito além do dinheiro, Millie precisa aguentar a pressão e seguir firme, mesmo sofrendo humilhação atrás de humilhação. Ao mesmo tempo, Andrew se mostra acolhedor e protetor, dando início a uma dinâmica que lentamente descamba para um triângulo amoroso tão óbvio quanto artificial.

Não tendo lido o livro, não cabe a mim fazer uma comparação direta com o material original, mas enquanto obra cinematográfica, A Empregada se sustenta sobre reviravoltas preguiçosas e soluções narrativas que subestimam a inteligência do espectador de maneira quase ofensiva. O ápice desse problema surge na metade do filme, quando uma longa sequência de flashback tenta se impôr como grande virada dramática, apenas para reciclar a fórmula mais batida possível: “a vilã, na verdade, é uma vítima”. Tudo apresentado de forma genérica, sem complexidade ou qualquer sutileza.

No fim das contas, o filme não oferece nada de novo, apenas uma colagem de clichês mal disfarçados. Em nenhum momento, por exemplo, é crível a tentativa de vender Millie como uma “pobre coitada sem ter onde morar”, já que a construção da personagem é tão frágil que nunca consegue sustentar essa vulnerabilidade. O apelo sexual em torno de Sydney Sweeney também é evidente e explorado sem pudor, mas as cenas entre ela e Andrew beiram o constrangedor: falta química, falta tesão, falta verdade. O que resta é um roteiro preguiçoso que aposta em dois corpos bonitos em situações artificiais para fisgar um público específico, deixando claro que, sem isso, o roteiro simplesmente não se sustenta.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Crítica: Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (2026)

Craig Brewer é um diretor conhecido por demonstrar um interesse particular no poder transformador da música em suas narrativas. Foi assim em Ritmo de um Sonho (2005) e no remake de Footloose (2011), filmes que tratam a música não apenas como pano de fundo, mas como motor emocional dos seus personagens. Inspirado no documentário homônimo de 2008, Song Sung Blue reafirma essa inclinação do cineasta ao acompanhar a trajetória de dois cantores que tentam reorganizar a própria vida por meio da arte.

A história gira em torno de Mike Sardina (Hugh Jackman), um artista frustrado que tentou seguir carreira autoral no passado, mas que acabou encontrando seu sustento ao imitar outros cantores em apresentações de bares. Caracterizado como Don Ho, ele conhece Claire (Kate Hudson), uma cabeleireira que também complementa a renda interpretando cantoras famosas. A conexão entre os dois surge instantaneamente, e logo se transforma também em parceria artística. Juntos, eles criam o duo Lightning & Thunder, com um show tributo a Neil Diamond que alcança relativo sucesso no estado do Wisconsin, até que uma tragédia pessoal atravessa suas vidas.

Se, por um lado, as sequências musicais são envolventes, vibrantes e prazerosas de assistir, o mesmo cuidado não se estende aos conflitos dramáticos. Brewer apela para soluções excessivamente melodramáticas, tratando os dilemas dos personagens com pouca sutileza. Ainda que a história real de Mike e Claire comporte uma virada emocional potente, o diretor falha na intensidade do drama, resultando em cenas que soam artificiais e enfraquecem o impacto final.

Nada disso, porém, pode ser atribuído ao elenco. Hugh Jackman e Kate Hudson exibem uma química convincente, sustentando o filme mesmo quando o roteiro acelera etapas importantes da relação. São dois personagens solitários mas cheios de energia, que encontram no outro um novo impulso para seguir em frente. Entre eles, no entrando, Hudson acaba se destacando um pouco mais, ao entregar uma atuação sensível e carismática, que acabou inclusive lhe rendendo a indicação ao Oscar de Melhor Atriz este ano.

Por fim, Song Sung Blue funciona mais quando confia na música e em seus intérpretes do que quando tenta forçar a comoção pelo drama. Ainda assim, é impossível negar a sinceridade de suas intenções, mesmo que a execução seja irregular. O filme nunca tenta ser maior do que é e, no fim das contas, se revela acima de tudo como uma homenagem sensível a quem tenta sobreviver da arte mesmo com todos os percalços pelo caminho.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Crítica: Um Pai (2025)


Que a vida é frágil, isso todos nós sabemos, mas a verdade é que nem sempre temos a verdadeira dimensão do quanto. Um gesto banal ou único erro cometido, independente se por descuido ou vontade própria, é capaz de transformar um destino para sempre e deixar marcas irreversíveis. É sobre este tema que trata Father (Otec), filme da diretora Tereza Nvotová, inspirado em uma história real e escolhido para representar a Eslováquia no Oscar de 2026.


O filme começa nos inserindo dentro da rotina matinal de uma família comum. O pai, Michal (Milan Ondrík), sai de casa para fazer sua corrida diária, e após voltar para casa e tomar um banho, se prepara para ir ao escritório onde trabalha. As notícias na televisão indicam que será mais um dia escaldante de calor em meio ao pico do verão europeu, e sua esposa Zuzka (Dominika Morávková) pede que ele deixe a filha do casal, Dominika (Dominika Zajcz), na creche durante o caminho. Tudo parece absolutamente normal, e é justamente essa tranquilidade que torna o golpe seguinte tão devastador.

Logo, vemos o homem no ambiente de trabalho, rodeado de preocupações e telefonemas que não acabam mais, num estado de estresse que já parece ser rotineiro. Essa aparente normalidade é despedaçada quando ele recebe uma ligação da esposa no meio da tarde, questionando o porquê da filha do casal não ter sido deixada na creche conforme o combinado. A partir de então, o mundo de Michal desaba. Apesar da lembrança vívida de tê-la deixado lá, a realidade é outra: ele esqueceu a criança dentro do carro, presa à cadeirinha, sob um sol implacável e uma temperatura desumana. O desfecho é irremediável: quando ele corre até o carro, encontra a menina morta.


A mudança no tom do filme causa um impacto imediato e sufocante no espectador. Milan Ondrík entrega uma atuação impressionante, transitando com precisão entre o homem absorvido pelas pressões do trabalho e alguém completamente devastado após a perda da filha, uma dor que é ainda mais agravada pela consciência de sua própria culpa no ocorrido. A cena em que essa tragédia se concretiza é uma das mais perturbadoras e potentes do cinema recente, daquelas que ficam martelando na cabeça muitos dias depois de assistir ao filme. 

Outro grande acerto da direção é mostrar a forma como a esposa de Michal lida com a tragédia. Mesmo desesperada, e com a consciência de que a morta da filha poderia ter sido evitada, ela engole a dor para demonstrar uma empatia inesperada pelo marido, pois no fundo sabe que Michal jamais teria feito isso de maneira proposital. É uma reação muito humana, talvez até incompreensível para alguns. Os dias que se seguem após a tragédia também não são nada fáceis para o casal, como acontece sempre em situações como esta. Uma das cenas mais marcantes neste processo é quando eles precisam retirar na delegacia o veículo onde a menina veio a óbito, uma função burocrática que inevitavelmente causa uma grande comoção em ambos.

Apesar do drama intenso, em momento algum a direção cai em armadilhas narrativas e apela para o sentimentalismo barato, e a dor dos personagens, assim como a culpa devastadora que Michal carrega, é tratada com um realismo cru e respeitoso. Quando o filme pula para o julgamento de Michal no tribunal, surge mais um dilema moral: será que existe punição maior do que carregar, para o resto da vida, a culpa da morte trágica da sua única filha? O próprio Michal diz não se importar com o resultado, já que isso jamais trará sua filha de volta, e é impossível não sentir a dor por trás desta declaração.


Esse questionamento ecoa para além da tela e atinge diretamente o espectador, sobretudo porque casos como esse existem fora da ficção, e nem sempre são recebidos com empatia. Father não oferece respostas fáceis, mas nos obriga a encarar uma das faces mais dolorosas da condição humana: a de que, às vezes, a tragédia nasce não da maldade, mas do cansaço, da falha e da fragilidade que define a nossa trajetória.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Crítica: The Ballad of Wallis Island (2025)

Quem nunca sonhou em chamar seu artista favorito para um show exclusivo? Esse desejo improvável se torna realidade para Charles (Tim Key), um homem solitário que vive em uma pequena ilha do Pacífico Sul e decide usar o dinheiro ganho na loteria para contratar uma apresentação particular de seu ídolo, o cantor Herb McGwyer (Tom Basden).


A trama de The Ballad of Wallis Island começa com a chegada de Herb à ilha, feita de barco, em meio a um cenário tão belo quanto isolado. Ele está indo ao local ciente de que fará um show intimista para uma plateia de pelo menos cem pessoas. Por muitos anos, Herb teve uma parceria musical de sucesso com sua ex-esposa, Nell (Carey Mulligan), mas o duo terminou quando o casal se separou. Desde então, ele tenta se firmar em uma carreira solo, mas vem sofrendo financeiramente para produzir um novo disco. Logo, a oferta de meio milhão de libras, feita pelo morador da ilha, é irrecusável.

A grande reviravolta ocorre com a chegada inesperada de Nell à ilha. Charles não era apenas fã de Herb, mas do duo que ele formava com a ex-esposa, e seu verdadeiro desejo sempre foi vê-los tocar juntos novamente — nem que fosse apenas para aquela reunião privada. Nell, por sua vez, parece lidar com a situação de forma leve e madura, chegando acompanhada de seu novo marido e disposta a ensaiar com Herb. Ele, no entanto, se sente enganado e inicialmente resiste à ideia, mas mais uma vez acaba cedendo por razões financeiras. O reencontro desperta lembranças e sentimentos mal resolvidos, especialmente em Herb, mas isso não é suficiente para ressuscitar a antiga química musical entre os dois. A falta de sintonia evidencia que certas conexões pertencem ao passado, e o filme utiliza esse impasse para refletir sobre a natureza da arte: ela não pode ser forçada, planejada ou comprada, pois depende de um estado emocional e criativo que nem sempre pode ser recriado.

A parte musical do filme é cativante, mas o personagem mais carismático da narrativa é Charles. Seu fanatismo pelos cantores fica evidente nos recortes de jornais e revistas que guarda com carinho, nos discos e pôsteres de shows espalhados pela casa, além de conhecer absolutamente tudo sobre a vida pessoal de Herb e Nell. No entanto, pouco a pouco, o filme revela que seu desejo obsessivo por este show de reunião vai muito além deste simples fanatismo: ele está profundamente ligado à memória de sua ex-esposa, falecida precocemente em decorrência de um doença, e que por sua vez era ainda mais fã do que ele. Tim Key equilibra com delicadeza o humor e o drama, construindo um personagem genuíno, ingênuo e profundamente humano.

Por fim, The Ballad of Wallis Island é um filme pequeno em escala, que não ambiciona grandes viradas narrativas nem um apuro técnico exuberante. Ainda assim, agrada justamente por sua simplicidade: pelas músicas melancólicas, pelas paisagens deslumbrantes e, sobretudo, pela sensibilidade com que aborda temas como luto, memória e a impossibilidade de reviver o que já passou.