quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Crítica: A História do Som (2026)


Quando um filme reúne dois dos atores mais badalados de Hollywood na atualidade em um drama de época, e que ainda por cima promete abordar o poder transformador da música, é inevitável que ele gere boas expectativas. É o que aconteceu com A História do Som (The History of Sound), novo filme do cineasta sul-africano Oliver Hermanus (de Viver, 2022), que tem sim os seus momentos interessantes, mas que infelizmente frustra por entregar muito menos do que prometia.


A trama nos apresenta Lionel Worthing, um jovem que, desde a infância, demonstra uma sensibilidade quase sobrenatural para os sons do mundo. Os ruídos da natureza, as inflexões da voz humana e as melodias que ecoam nos lugares mais improváveis, tudo é absorvido por ele de forma intensa e singular. Em 1917, já adulto (vivido por Paul Mescal), Lionel recebe uma bolsa para estudar no Conservatório de New England, em Boston, deixando pela primeira vez a fazenda da família no Kentucky. E é nesse novo e desafiador ambiente que ele conhece David White (Josh O'Connor), um cantor igualmente fascinado pela música, com quem estabelece uma conexão imediata.

A Primeira Guerra Mundial interrompe o florescer dessa relação, quando David precisa servir o exército. O vínculo entre os dois passa a sobreviver por meio de cartas e encontros esporádicos, até que, com o retorno de David para casa, o romance enfim ganha forma. Juntos, eles decidem viajar pelo interior dos Estados Unidos, com o projeto de captar canções populares em cilindros de cera utilizados para fazer gravações na época. A ideia era reunir uma coletânea de músicas folk, afim de preservar a memória cultural do país e de sua gente, antes que as mesmas se perdessem no tempo.

É justamente neste ponto que o filme encontra seus melhores momentos, ao mostrar com sensibilidade o quanto a música pode ser um instrumento vivo da memória coletiva. As sequências em que Lionel e David descobrem novas vertentes sonoras, novas vozes e realidades distintas, são carregadas de uma beleza melancólica e ao mesmo tempo engrandecedora. No entanto, a proposta bonita e contemplativa esbarra em um ritmo excessivamente arrastado, fazendo com que o filme perca sua força. A narrativa parece hesitar em aprofundar os conflitos emocionais ou dar maior densidade dramática à relação dos dois personagens, e o romance, embora delicado, carece de tensão e uma certa urgência.


A reta final é tocante, e reforça a ideia central de mostrar o poder da música como guardiã de memórias e sentimentos, mas é pouco para elevar o conjunto da obra. As atuações são sólidas, a reconstrução de época é cuidadosa e a trilha sonora, elemento vital da narrativa, é, sem dúvida, o grande trunfo do filme. E ainda que o impacto final fique aquém do esperado e a história não reverbere com a intensidade que o seu potencial sugeria, há beleza suficiente em sua construção musical para que a experiência, sobretudo para os amantes da música, ainda seja proveitosa.

Crítica: O Caso dos Estrangeiros (2026)


O tema da imigração nunca esteve tão latente, e o cinema contemporâneo tem acompanhado essa urgência global de perto. Diversas produções recentes abordaram a questão com a seriedade e a sensibilidade necessária, mas infelizmente O Caso dos Estrangeiros (I Was a Stranger) segue o caminho oposto ao entregar um dramalhão carente de sutileza, feito sob medida para manipular as emoções e as lágrimas do público a qualquer custo, sem a devida complexidade narrativa.


O longa de estreia do diretor Brandt Anderson é apresentado em capítulos, e inicia em 2023, com a Dra. Amira Homsi (Yasmine Al Massri) chegando ao hospital onde trabalha em Chicago. Através das memórias da personagem, voltamos oito anos no tempo, quando ela ainda vivia com a família em Aleppo, capital da Síria. Na ocasião, o país estava em meio ao caos da guerra, e ela era responsável pela triagem de pacientes de ambos os lados feridos no combate. Na noite de celebração do seu aniversário, a casa da família de Amira acaba destruída por uma bomba, onde apenas ela e sua filha pequena sobrevivem.

A partir desta tragédia, Amira busca desesperadamente fugir do país. No caminho, mãe e filha cruzam com figuras que simbolizam as diferentes engrenagens do fenômeno migratório. Primeiramente, elas são ajudadas por um soldado, Mustafah (Yahya Mahayni), que parece ser um respiro de empatia em meio a outros soldados inescrupulosos. Em tese, ele representa o dilema moral de quem serve expressamente ao governo de Bashar al-Assad, mas não concorda com suas ideias. Em seguida, ficam nas mãos de um contrabandista chamado Marwan (Omar Sy, o nome mais conhecido do elenco), que viu na necessidade dos refugiados uma oportunidade de lucro financeiro. Por fim, chegam ao capitão Stravos (Constantine Markoulakis), cansado emocionalmente de testemunhar o fluxo incessante de refugiados no Mediterrâneo, mas sempre disposto a ajudar.

A jornada delas é repleta de dificuldades, o que me fez lembrar imediatamente de outro filme que toca neste tema delicado, Green Border, da polonesa Agnieszka Holland. No entanto, enquanto o filme polonês constrói uma narrativa linear sufocante, que aprisiona o espectador em uma tensão crescente, aqui a fragmentação em capítulos enfraquece o envolvimento emocional. Sempre que um núcleo dramático começa a ganhar força, a narrativa é interrompida abruptamente para acompanhar outro personagem, e isso acontece sucessivamente. O resultado é uma colcha de retalhos dramática que impede o aprofundamento nas histórias contadas, transformando traumas complexos em episódios apressados.


Outro problema central está na ausência de contextualização política. A guerra civil síria surge quase como pano de fundo abstrato, e sem uma mínima ancoragem histórica e geopolítica do conflito e do êxodo que ele causou, o drama perde densidade, parecendo apenas um estudo vazio de caso e um mero entretenimento da dor. A crise migratória é, de fato, uma questão universal, mas ignorar suas especificidades enfraquece o impacto. Ao optar por atalhos sentimentais e por uma estrutura fragmentada, O Caso dos Estrangeiros transforma um tema urgente em um melodrama superficial. Em vez de provocar reflexão, o filme se contenta com a emoção imediata, e ao fazer isso, desperdiça a oportunidade de oferecer um retrato verdadeiramente humano e politicamente consciente de uma das maiores tragédias contemporâneas.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Crítica: The Last Viking (2025)

Alguns atores e diretores parecem ter nascido para trabalhar juntos. É o caso do cineasta dinamarquês Anders Thomas Jensen e do ator Mads Mikkelsen, cuja parceria prolífica se consolidou como uma das mais interessantes do cinema atual. Desde Flickering Lights (2000), os dois já estiveram juntos em dez projetos, tanto com Jensen na direção como também colaborando apenas no roteiro. O humor ácido do diretor sempre casou perfeitamente com a excentricidade do ator em cena, e se Jensen sempre soube criar personagens "quebrados", Mads sempre soube interpretá-los com muita intensidade. Agora em O Último Viking (The Last Viking), essa sintonia não poderia ser diferente.

A trama acompanha Anker, interpretado por Nikolaj Lie Kaas, outro parceiro de longa data do diretor. Após roubar uma grande quantia em dinheiro, ele esconde a bolsa em um depósito, mas acaba preso antes de conseguir recuperá-la. Antes de ser capturado, porém, ele pede ao irmão, Manfred (Mikkelsen), que enterre o dinheiro nas proximidades da casa onde eles cresceram. Quinze anos depois, ao deixar a prisão, Anker reencontra o irmão e planeja viajar até o local em sua companhia, mas descobre que a missão de reaver o montante será bem mais complexa do que ele imaginava.

Desde a infância, Manfred sofre de um transtorno raro de personalidade. Agora, por exemplo, ele não aceita mais ser chamado pelo próprio nome: acredita ser John Lennon, o lendário integrante dos Beatles, e exige ser tratado como tal. O delírio, que poderia ser explorado apenas como gag cômica, ganha contornos mais densos à medida que o filme revela o passado dos irmãos. Criados sob a tirania de um pai violento e instável, ambos carregam marcas profundas de abusos físicos e, sobretudo, psicológicos. Quando Manfred ainda criança passou a acreditar ser um viking da mitologia nórdica, tornou-se alvo de chacotas na escola e de repressões ainda mais severas em casa. O pai o culpava por suas “loucuras” e responsabilizava Anker por não conseguir “controlá-lo”, o que gerava uma espiral de violência severa.

Esses traumas moldaram dois homens radicalmente distintos, mas ligados por um afeto silencioso e resiliente. É nesse equilíbrio entre absurdo e dor que Jensen demonstra sua habilidade narrativa. Como já é de praxe em sua filmografia, temos a adição de vários personagens secundários que ajudam a formar o arco do absurdo. Entre eles, três fugitivos de uma clínica psiquiátrica que se juntam ao grupo na antiga casa da família, que agora é um Airbnb. Dois deles possuem a mesma dissociação de Manfred: um acredita que é Paul McCartney e George Harrison (os dois ao mesmo tempo), enquanto outro acredita ser Ringo Star. De repente, os Beatles estão "reunidos" novamente, o que serve para dar um novo sentido à vida de Manfred (ops, de John) e um sentimento de pertencimento que ele, talvez, jamais havia sentido antes.

O que poderia soar como uma sucessão de esquetes nonsense ganha coesão graças ao olhar compassivo de Jensen. O humor é afiado, por vezes até politicamente incorreto, mas há sempre uma intenção dramática por trás do riso. Paralelamente, a tensão em torno da busca pela mala de dinheiro, intensificada pela perseguição implacável que Anker passa a sofrer de pessoas do seu passado a quem ele ficou devendo, impede que a narrativa perca fôlego, misturando o "caos cômico" com um suspense policial enérgico. Com personagens carismáticos e um senso de absurdo cuidadosamente orquestrado, O Último Viking reafirma o cinema de Anders Thomas Jensen em sua essência máxima: tragicômico, provocador e humano.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Crítica: Extermínio: O Templo dos Ossos (2026)


Vou começar sendo bem sincero com vocês: eu nunca fui fã da franquia de terror e ficção científica Extermínio, criada por Danny Boyle e Alex Garland em 2002, e depois da enorme decepção que foi o último filme, lançado em 2025, eu prometi a mim mesmo que não perderia mais tempo com novas sequências. Dito isso, que gratificante foi quebrar essa promessa e assistir este quarto capítulo da saga, que não apenas revitaliza a franquia, como a reinventa sob o olhar ousado da diretora Nia DaCosta (de A Lenda de Candyman).


Extermínio: O Templo dos Ossos é uma sequência direta de Extermínio: A Evolução, e começa acompanhando uma gangue sádica, assassina e ultraviolenta, que usa estranhas perucas loiras e é liderada pelo perturbador Jimmy Crystal (Jack O'Connell). Ele desenvolveu toda uma teologia psicótica e delirante em torno da ideia de ser o próprio filho de Satã, crença que legitima seu domínio absoluto sobre seguidores submissos, que são capazes das maiores atrocidades em nome desta fé cega e distorcida.

O ritual de ingresso no grupo é brutal: o candidato deve lutar até a morte contra um membro já estabelecido, tomando seu lugar caso sobreviva. É assim que o jovem Spike (Alfie Williams), visto ao final do filme anterior deixando sua comunidade após a morte da mãe, é absorvido pela seita. Após vencer um combate sangrento em um ginásio abandonado, ele abandona seu nome e passa a se chamar Jimmy, assim como todos os demais. A partir daí, Spike acompanha a jornada sanguinária do grupo, que não teme os infectados e muito menos os vivos que cruzam o seu caminho. Isso até eles encontrarem o excêntrico Dr. Ian Kelson (Ralph Fiennes), responsável por erguer um monumental templo feito de ossos e crânios humanos.


Se Jimmy Crystal é o personagem mais fascinante da trama, o Dr. Kelson é o mais instigante. Pouco sabemos sobre seu passado ou sobre como ele conseguiu construir um santuário macabro em meio ao caos, mas pistas visuais, como fotografias com a esposa e discos de vinil dos anos 80, revelam que a memória ainda é um elemento central em sua existência solitária. Disposto a estudar os infectados a fundo, Kelson se dedica a observar um zumbi "Alfa" (uma subespécie evoluída que possui mais força e inteligência do que os infectados normais), a quem ele "carinhosamente" batizou de "Sansão".

A criatura demonstra força suficiente para partir um corpo humano ao meio, como vemos em uma cena inicial bastante impactante. No entanto, sempre que se aproxima para atacar o Dr. Kelson, é contida por dardos de morfina que a tornam inofensiva o bastante para as interações conduzidas a seguir pelo médico. Nestas sequências, o filme alcança um tom surpreendentemente lírico, mas ao mesmo cômico, e são através destas interações que o Dr. Kelson vai resgatando vestígios do que a criatura era antes da infecção.


Não se trata de humanizar os zumbis, mas de mostrar que há uma linha tênue entre consciência e instinto, razão e brutalidade. E é justamente aí que reside a maior força do filme: em um universo dominado por zumbis, os vilões mais aterradores continuam sendo os homens. O roteiro não está interessado apenas na violência física dos ataques, mas nas estruturas de poder, fé e manipulação que emergem em uma sociedade colapsada. Afinal, o que sobra quando o mundo "acaba"? Ainda há espaço para empatia? Para moralidade? Para humanidade?

Nia DaCosta aposta em uma abordagem mais intimista, mas não suaviza a brutalidade. Este é, sem dúvida, o capítulo mais sangrento da franquia, onde vemos sem filtro cabeças arrancadas, cérebros devorados, e rios de sangue. No entanto, a violência nunca soa gratuita, ela só reforça a degradação moral daquele universo. Mais importante ainda: este é o filme que entrega os personagens mais complexos e ricos da série. Tanto Ralph Fiennes como Jack O'Connell possuem um magnetismo impressionante quando estão em tela, sendo impossível ficar indiferente a qualquer gesto deles. A calma quase irritante do doutor contrasta com a fúria messiânica de Jimmy, criando um embate ideológico tão poderoso quanto físico.


Ao som da banda Iron Maiden, o clímax do filme explode em uma daquelas cenas antológicas que marcam o cinema, e que mostra, acima de tudo, a potência de Fiennes como um ator singular e absurdamente versátil. Se antes eu estava pronto para abandonar a franquia, agora me vejo ansioso pelo próximo capítulo. Nia DaCosta conseguiu não apenas reinventar a mitologia por trás dos filmes, mas consolidar um ponto de virada crucial na história, mostrando pela primeira vez em muito tempo, que este universo ainda tem algo relevante a dizer.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Crítica: Isto Ainda Está de Pé? (2026)

Em seu terceiro longa-metragem como diretor, Bradley Cooper se propõe a observar com sensibilidade as nuances do fim de um relacionamento amoroso, focando menos no rompimento em si e mais sobre o que vem depois: a autodescoberta, a reconstrução individual e o delicado processo de reorganizar a própria identidade quando o “nós” deixa de existir depois de muitos anos, não apenas dos envolvidos diretos, mas também daqueles que orbitam a dinâmica do casal.

A trama gira em torno de Alex Novak (Will Arnett) e Tess Novak (Laura Dern), um casal com dois filhos que chega a conclusão de quem não funcionam mais juntos. É interessante a maneira como Cooper mostra esta separação, que acontece quase casualmente, enquanto ambos se arrumam para sair de casa, numa espécie de decisão mútua, sem dramas, explosões e amarguras. É o retrato de um casamento que já teve muito amor mas que se perdeu nas entrelinhas da complexa vida à dois, e cuja decisão de se separar parece, no momento, o ato mais maduro possível a ser tomado.

No entanto, a ficha demora a cair. Após uma tarde juntos, Alex quase embarca no mesmo transporte que Tess, um hábito automático que denuncia o quanto a rotina compartilhada anteriormente ainda está muito viva. Os filhos também os enchem de perguntas, e as repostas são sempre as mesmas, protocolarmente otimistas, de vai ficar tudo bem, e de que é o melhor para todos. O clima amigável entre os dois suaviza o impacto para os pequenos neste processo, pois não há aquela ruptura drástica na vida familiar, mas isso não quer dizer que seja fácil e que não haja dor, ainda que silenciosa.

Tentando lidar com o vazio recém-instaurado, Alex entra por acaso em um bar de stand-up e decide colocar seu nome na lista de apresentações, inicialmente apenas para não precisar pagar a entrada. O improviso diante do microfone sobre seu casamento de vinte e seis anos e o divórcio inesperadamente arranca risadas genuínas da plateia, e dele próprio. A partir daí, a comédia torna-se uma válvula de escape para ele e, pouco a pouco, um novo propósito. Tess, por sua vez, reencontra no vôlei, sua antiga paixão, uma forma de reconectar-se consigo mesma. Enquanto ele transforma frustração em humor, ela redescobre o corpo e o movimento como formas de expressão. São trajetórias paralelas de reconstrução que avançam até que as próprias escolhas dos personagens os coloquem novamente diante um do outro.


O filme não tenta ser maior do que é capaz, e acho que este é o seu ponto positivo. Diferentemente de Maestro, obra em que Cooper parecia empenhado em demonstrar virtuosismo técnico e ambição dramática em busca de estatuetas no Óscar, aqui o diretor adota um tom mais contido, quase doméstico. O roteiro é simples, intimista e despretensioso, o que pode ser visto tanto como qualidade quanto como limitação. 

Particularmente, as atuações não me convenceram, sobretudo a de Arnett, que parece oscilar entre o carisma natural e uma certa superficialidade. Embora a proposta seja a de um drama leve e honesto, o roteiro acaba se tornando excessivamente morno, recorrendo a clichês já bastante explorados pelo gênero, especialmente em sua reta final. O resultado é um filme bem-intencionado, mas que raramente ultrapassa a zona de conforto, permanecendo de pé, sim, mas sem nunca realmente alçar voo.