segunda-feira, 25 de maio de 2026

Crítica: Michael (2026)


O subgênero das cinebiografias musicais vem sofrendo um desgaste ano após ano, com muitas ideias recicladas e roteiros preguiçosos, mas ainda sobrevive graças ao apelo popular em cima de grandes nomes da música e a pequenos respiros de originalidade trazidos por alguns cineastas. Dentro desta realidade controversa, surgiram obras muito boas recentemente, como Rocketman (Elton John) e Um Completo Desconhecido (Bob Dylan), mas também outras deploráveis, como Bob Marley: One Love (Bob Marley) e Back to Black (Amy Winehouse), que nem de perto faziam jus aos artistas retratados. Dentro deste contexto, dá para dizer que Michael, dirigido por Antoine Fuqua, fica exatamente no meio-termo dessa divisão, pois mesmo sem abrir mão de diversos clichês do gênero, o longa possui grandes acertos narrativos e momentos de genuína potência estética e musical.


O filme acompanha uma boa parte da história do "Rei do Pop", Michael Jackson, desde sua infância em Gary, Indiana, onde começou a cantar com seus irmãos no Jackson Five, até o momento em que passa a brilhar em carreira solo já na década de 1980. Quem interpreta Michael na fase infantil é Juliano Valdi, que demonstra muita competência, tanto nas sequências musicais quanto no controle dramático necessário para retratar uma infância conturbada e emocionalmente complexa. O filme desde cedo cria uma espécie de antagonismo para o pai dos garotos, Joe (Colman Domingo), que com a obsessão de vê-los se tornar um fenômeno musical, exige perfeição absoluta e pune severamente qualquer falha. De acordo com os relatos do próprio Michael em vida, o filme até suaviza parte dessas agressões paternais, que na vida real teriam sido muito mais graves e violentas do que apenas "surras de cinto".

Mesmo diante do comportamento agressivo do pai, o grupo consegue se manter unido e passa a ganhar cada vez mais espaço nas mídias, se tornando um grande sucesso, sobretudo pela voz, pelo carisma e pela desenvoltura do menino Michael em cima dos palco. O roteiro consegue trabalhar muito bem os conflitos internos e externos de Michael nesta fase, e também ilustrar referências que serviriam mais tarde como referência nas suas músicas e na sua estética visual. É ainda nesta fase que o filme também constrói a bonita relação de afeto entre Michael e sua mãe, Katherine (Nia Long), que não concordava com a agressividade do pai mas se via impotente diante da situação.


Quando o filme avança para a fase adulta, surge aquele que talvez seja seu maior trunfo: Jafar Jackson, sobrinho de Michael na vida real, que não apenas interpreta o cantor, mas praticamente o incorpora. Sua performance vai muito além da simples imitação, recriando voz, trejeitos, movimentos, olhares e até a energia física do artista com uma precisão impressionante. É algo que talvez a genética explique, mas a semelhança é tão absurda, que não é difícil imaginar, em diversos momentos, que estamos vendo o próprio Michael em cena, como se estivéssemos em documentário de sua carreira.

Outro ponto forte do filme, e não seria para menos, são suas sequências musicais. Fuqua aproveita ao máximo a presença magnética de Jafar e transforma o longa em um verdadeiro espetáculo audiovisual. Além das apresentações ao vivo, as recriações dos bastidores de videoclipes icônicos, como das músicas Beat It e Thriller, certamente estão entre os momentos mais marcantes do filme. Michael sempre foi conhecido pelo seu apreço pelo cinema, o que explica seus videoclipes grandiosos e muito bem elaborados, e o filme explora muito bem essa sua parte criativa, mostrando como ele era um artista completo.


Ao longo do filme, também ficamos conhecendo algumas figuras importantes da trajetória de Michael, como a executiva Suzanne de Passe, que foi essencial para que os irmãos assinassem com a Motown Records, e Bill Bray, chefe de segurança do cantor entre 1971 e 1996, que mais do que um protetor do artista, também se tornou um amigo e confidente. Outro ponto que o filme explora era o amor de Michael por animais, digamos, exóticos. Aparecem dividindo a casa com ele um ratinho, uma lhama, uma jiboia e até mesmo uma girafa, além é claro, do mais conhecido de todos, o chimpanzé Bubbles, que viveu por muitos anos com Michael e fez várias aparições públicas ao seu lado.

Sem transformar isso em discurso panfletário, o roteiro também toca sucintamente na questão do racismo estrutural presente na indústria musical da época, que em meados dos anos 1980, ainda não dava o espaço merecido à artistas negros. Com o lançamento de Billie Jean, a situação mudou, já que o videoclipe passou a ser amplamente exibido em canais como a MTV, abrindo caminhos para tantos outros.


Por fim, o que falta de ousadia para tratar aspectos mais polêmicos da vida de Michael, sobra em potência e, sobretudo, em respeito à figura retratada. Cada aparição do cantor em cena é tratada como um evento, deixando evidente não apenas o tamanho do artista em sua época, mas também sua permanência no imaginário das gerações futuras. Independente de qualquer controvérsia, é legal demais ver a música de Michael chegar aos jovens de hoje em dia através do filme. Isso, por si só, já faz obras como essa se tornarem necessárias. Agora resta esperar pela sequência, prevista para ser lançada nos próximos anos, e que deve mostrar os últimos anos de Michael.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Crítica: Tatame (2025)


Esporte e política muitas vezes andam de mãos dadas, por mais que muita gente insista que uma coisa não tem nada a ver com a outra. De exemplos históricos, como Jesse Owens desafiando a narrativa nazista em frente a Adolf Hitler nos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, ou Muhammad Ali sendo banido dos ringues por se recusar a lutar na Guerra do Vietnã, até episódios recentes, como a seleção iraniana optando por não cantar o hino nacional durante a Copa do Mundo de 2022, o esporte sempre foi atravessado por disputas ideológicas, tensões diplomáticas e manifestações de resistência.


Inspirado em acontecimentos reais, a trama de Tatame (Tatami) gira em torno de Leila Hosseini (Arienne Mandi), uma judoca talentosa que está defendendo a seleção do Irã no Campeonato Mundial do esporte, que acontece em Tbilisi, capital da Geórgia. Com altas chances de ganhar uma medalha, a atleta vai vencendo suas adversárias e avançando na competição, mas o sucesso no tatame é atravessado por uma ordem vinda diretamente do governo iraniano: ela deve perder propositalmente ou abandonar o torneio antes de enfrentar uma atleta israelense.

O verdadeiro conflito, neste caso, não está na competição esportiva, mas no peso psicológico imposto à protagonista. Diferente dos tradicionais dramas esportivos, em que a superação depende exclusivamente da força de vontade do atleta, aqui existe um obstáculo impossível de ser vencido apenas com talento ou determinação. Leila até tenta resistir às ordens estatais, mas sabe que qualquer decisão sua pode colocar a própria família em risco. E o filme acerta ao compreender que, em regimes autoritários, o controle raramente se limita ao indivíduo: ele se estende também aos vínculos afetivos, transformando o medo em instrumento de coerção.


Essa atmosfera opressiva é construída com enorme eficiência pela direção. A fotografia em preto e branco não surge apenas como escolha estética, mas como elemento para amplificar a sensação constante de claustrofobia e vigilância. A cada nova luta vencida por Leila, a tensão aumenta gradualmente, como se cada passo rumo à medalha e à glória também aproximasse a personagem de uma tragédia inevitável. O roteiro alterna o avanço da competição com cenas da família sendo pressionada no Irã, além de apresentar pequenos flashbacks que revelam fragmentos de uma vida cotidiana aparentemente comum. Isso ajuda a humanizar ainda mais os personagens e reforçar o peso de viver em um país onde até conquistas pessoais podem se transformar em ameaças políticas.

Zar Amir Ebrahimi, que ganhou reconhecimento internacional após Holy Spider, entrega uma atuação especialmente forte como Maryam, treinadora de Leila. É através dela que o filme amplia sua discussão sobre ciclos de repressão e trauma. Maryam já viveu situação semelhante no passado e entende perfeitamente o que significa abrir mão da própria carreira, dos próprios sonhos e da própria identidade em nome da sobrevivência. Sua presença adiciona uma camada melancólica ao longa, como alguém que enxerga em Leila a repetição de uma violência que nunca deixou de existir.


Mais do que um filme sobre judô, Tatame se revela um thriller sufocante sobre autoritarismo, controle estatal e resistência silenciosa. Ao transformar o espaço esportivo em um campo de batalha moral, o longa evidencia como regimes opressivos tentam controlar até mesmo aquilo que deveria simbolizar mérito. E justamente por partir de uma situação tão específica, o filme encontra uma dimensão universal poderosa: a de indivíduos obrigados a escolher entre seus sonhos e sua própria sobrevivência.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Crítica: Provas de Amor (2026)


Marcando a grande estreia atrás das câmeras da diretora e roteirista Alice Douard, Provas de Amor (Des Preuves D'Amour) é um filme sensível e modesto sobre maternidade, pertencimento e reconhecimento afetivo, que sem recorrer a grandes melodramas ou conflitos artificiais, encontra força justamente na simplicidade com que observa as inseguranças e fragilidades de suas personagens.


O filme se passa em Paris, no ano de 2014. Enquanto rodam os créditos iniciais, uma voz anuncia, com muita comemoração ao fundo, a aprovação da lei que oficializa o casamento entre pessoas do mesmo sexo na França. Logo em seguida, passamos a acompanhar o casal formado por Céline Steyer (Ella Rumpf) e Nadia Hamadi (Monia Chokri). Céline é mais jovem e trabalha como DJ e produtora musical, enquanto Nadia tem uma carreira sólida como dentista. Com a possibilidade do casamento ser finalmente reconhecido pelo Estado, elas decidem ter um filho juntas e, em comum acordo, Nadia é escolhida para engravidar por meio de inseminação artificial.

A burocracia da nova legislação, no entanto, ainda impõe barreiras cruéis às duas. Mesmo casadas legalmente, Céline não pode simplesmente ter seu nome incluído na certidão de nascimento da criança: para ser reconhecida como mãe, ela precisa entrar com um processo formal de adoção. O processo, entretanto, se mostra bastante moroso e desgastante. Para seguir adiante, o casal precisa reunir quinze testemunhas dispostas a depor a favor da adoção, além de enfrentar uma infinidade de documentos, entrevistas e comprovações. 

Enquanto Nadia lida com as limitações físicas e emocionais de uma gravidez já avançada, Céline corre contra o tempo para conquistar algo que deveria ser básico: o direito de também ser reconhecida como mãe. É justamente aí que o filme encontra sua dimensão mais sensível. Céline sente o bebê como seu tanto quanto Nadia, mas a impossibilidade de experienciar a gestação faz surgir dúvidas, inseguranças e uma sensação constante de deslocamento. Em relações heteronormativas, os papéis de pai e mãe costumam ser automaticamente legitimados pela própria estrutura social; aqui, porém, Céline se vê obrigada a descobrir e reivindicar o seu lugar o tempo inteiro.


A situação se torna ainda mais dolorosa quando pessoas externas à relação começam a fazer perguntas invasivas ou comentários aparentemente inocentes, mas carregados de julgamento, transformando um momento que deveria ser de felicidade em uma experiência marcada pela ansiedade. Douard conduz tudo isso com enorme delicadeza, evitando transformar suas protagonistas em símbolos ou porta-vozes de discursos. O filme funciona justamente porque trata essas mulheres como pessoas reais, cheias de pequenas contradições, fragilidades e afetos cotidianos.

Outro aspecto especialmente tocante está na relação de Céline com sua mãe, interpretada por Noémie Lvovsky, uma pianista de sucesso que esteve ausente durante boa parte de sua vida. Mais uma vez, o filme retorna à ideia de maternidade, agora sob a perspectiva de alguém que abriu mão da presença constante em nome da carreira, mas que, ainda assim, jamais deixou de amar a filha. Essa relação adiciona novas camadas ao longa, ampliando sua reflexão sobre o que realmente define uma mãe: a biologia, a presença, o cuidado ou o afeto.


Sem grandes excessos, mas com uma força emocional singular, Provas de Amor encanta justamente pela honestidade com que observa suas personagens. Alice Douard transforma uma discussão social em algo profundamente humano, íntimo e universal, realizando um filme sobre maternidade que fala, acima de tudo, sobre o desejo fundamental de amar e ser reconhecido como família.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Crítica: O Drama (2026)


Dirigido pelo norueguês Kristoffer Borgli, dos instigantes Doente de Mim Mesma (2022) e O Homem dos Sonhos (2023), O Drama (The Drama) é daqueles filmes que funcionam especialmente melhor quando vistos sem qualquer informação prévia do roteiro. A surpresa aqui se torna essencial, e é justamente ela que faz a obra ser uma das mais desconfortáveis e provocativas do ano, ao mesmo tempo em que também é uma das experiências mais engraçadas e inquietantes.


Na trama, acompanhamos Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson), um jovem casal apaixonado que vive todas as expectativas e ansiedades que surgem às vésperas do tão esperado casamento. Enquanto Charlie escreve o discurso que fará durante a cerimônia, diversos flashbacks revelam o início da relação e suas principais fases, quase sempre marcadas por momentos genuinamente felizes. A química entre os dois atores é evidente, o que torna a relação instantaneamente convincente, fazendo com que o espectador rapidamente compreenda por que eles desejam construir uma vida juntos.

Tudo transcorre normalmente até que, durante uma brincadeira aparentemente inocente em um jantar com os amigos Mike (Mamoudou Athie) e Rachel (Alana Haim), Emma revela algo de seu passado impossível de ser recebido com indiferença. Obviamente, não entrarei em spoilers, mas trata-se de uma revelação extremamente sensível dentro do contexto social norte-americano. A revelação imediatamente altera toda a dinâmica da noite, instaurando um desconforto crescente que abala as estruturas aparentemente sólidas do relacionamento.


O filme, que inicialmente assume a atmosfera leve de uma comédia romântica, rapidamente se transforma em um drama denso sustentado por uma poderosa alegoria moral. É impossível não se questionar sobre o que faríamos ao descobrir a pior coisa que a pessoa que amamos já fez na vida. Os limites morais aqui são constantemente desconstruídos, e Borgli demonstra inteligência ao não buscar respostas fáceis ou julgamentos definitivos, mas sim, provocar o espectador a refletir sobre culpa, perdão e a dificuldade de separar alguém de seus próprios erros.

Mesmo abalados, Emma e Charlie precisam continuar lidando com os preparativos do casamento, como escolher figurinos, definir o cardápio, organizar ensaios fotográficos e decidir a trilha sonora da cerimônia, enquanto a relação lentamente se deteriora entre quatro paredes sob o peso da dúvida. Paralelamente, Emma tenta explicar-se, insistindo que já não é mais a mesma pessoa de anos atrás e oferecendo motivos bem plausíveis para compreensão de suas ações passadas. Mas até que ponto isso é suficiente? Afinal, existe uma linha moral que, uma vez ultrapassada, torna impossível enxergar outra pessoa da mesma maneira?


Um dos grandes destaques do filme é a atuação de Robert Pattinson, que mais uma vez demonstra uma impressionante versatilidade ao interpretar um personagem emocionalmente complexo e dividido entre amor, repulsa e desejo de compreensão. Entre momentos de humor constrangedor e diálogos carregados de tensão, O Drama constrói um retrato honesto sobre como relacionamentos podem ser abalados não apenas por traições ou mentiras, mas pela simples percepção de que talvez nunca conheçamos completamente quem está ao nosso lado.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Crítica: O Grande Arco de Paris (2025)


Um filme para amantes da arquitetura, mas que também irá agradar aqueles que gostam de histórias sobre os pormenores das burocracias institucionais. O Grande Arco de Paris (L'Inconnu de la Grande Arche), do diretor Stéphane Demoustier, revisita uma história real ocorrida no início dos anos 1980, quando o então presidente francês François Mitterrand lançou um concurso para escolher o projeto que viria a se transformar no monumental Grande Arco de La Défense, estrutura de 112 metros inaugurada em Paris no ano de 1989.


O filme narra a história do arquiteto vencedor do concurso, o dinamarquês Johan Otto von Spreckelsen (Claes Bang), e sua obstinada luta para concretizar a obra exatamente da maneira como a imaginou. Com um prazo apertado, pois a inauguração precisava coincidir com as comemorações do bicentenário da Revolução Francesa, Spreckelsen se vê pressionado não apenas pelo tempo, mas sobretudo pelas constantes interferências políticas, técnicas e orçamentárias que ameaçam descaracterizar sua visão original. Para auxiliá-lo, entra em cena o arquiteto francês Paul Andreu (Swann Arlaud), conhecido por projetar o aeroporto Charles de Gaulle, e cuja presença evidencia o conflito central da narrativa: o embate entre o ideal artístico e as inevitáveis concessões exigidas por uma obra pública dessa magnitude.

Demoustier encontra força justamente nesse choque entre criação e burocracia. O filme revela como projetos grandiosos frequentemente deixam de pertencer aos seus criadores no momento em que passam a depender de interesses políticos e decisões coletivas. Há algo de frustrante , e até mesmo melancólico, em acompanhar um homem que lentamente percebe sua obra se tornar irreconhecível diante dos próprios olhos. Embora seja sustentado pela atuação precisa e contida de Claes Bang, o longa por vezes se torna excessivamente repetitivo ao mergulhar nos detalhes minuciosos das intermináveis reuniões e disputas administrativas. 

Em determinados momentos, a narrativa parece girar em círculos, reproduzindo a própria sensação de desgaste enfrentada pelo protagonista, mas sem conseguir transformar isso em tensão dramática suficiente. A vida pessoal de Spreckelsen surge em breves pinceladas, especialmente na relação com sua esposa, Liv (Sidse Babett Knudsen), e mesmo que as cenas acrescentem humanidade ao personagem, o filme claramente escolhe concentrar seu olhar apenas no processo criativo e na frustração de ser incompreendido.


Mais do que um filme sobre arquitetura, O Grande Arco de Paris acaba funcionando como um retrato sobre autoria, ego e desgaste. Um estudo sobre o que acontece quando uma obra monumental deixa de ser apenas um projeto artístico e passa a se tornar símbolo político, administrativo e histórico ao mesmo tempo.