Todos os países carregam em sua história manchas e cicatrizes profundas que parecem nunca desaparecer. E talvez nem devam, já que a memória serve também como proteção para que se evite a repetição de absurdos do passado. Dentro deste panorama de traumas coletivos, um dos episódios mais dolorosos da história da China ocorreu em 1937 durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, quando tropas do Império Japonês tomaram Nanquim, a capital chinesa na época, e cometeram atrocidades inimagináveis contra a população civil, no que ficou conhecido como "O Massacre de Nanquim". Estima-se que até 300 mil pessoas foram mortas de forma arbitrária e cruel durante um período de seis semanas.
Representante da China no Óscar de melhor filme internacional em 2026, Dead to Rights, do diretor Ao Shen, revisita esse trauma histórico de maneira poderosa, retratando os horrores daqueles dias que ainda reverberam na memória coletiva do país. Após uma breve contextualização, o filme já inicia em 13 de dezembro de 1937, o fatídico dia em que os japoneses tomaram a cidade de Nanquim. Tudo vai sendo registrado detalhadamente pelo fotógrafo japonês Ito Hideo (Daichi Harashima), que tem a intenção de documentar tudo para mostrar à alta cúpula do Império o "sucesso" da missão.
No entanto, não basta apenas tirar fotos; os oficiais exigem que Ito também pegue em armas para ser considerado membro do exército como os demais. É quando, na incumbência de matar o jovem Su Liuchang (Liu Haoran), ele descobre um álbum de fotos entre seus pertences. Questionado, Su afirma que é dono de um estúdio fotográfico na cidade, o que cai como uma luva para Ito, que precisa mesmo de um lugar para tirar as fotos dos negativos e colocar no papel. Logo, descobrimos que Su não é o dono do estúdio, mas apenas um frequentador do local. O proprietário é, na verdade, Jin Chengzong (Lawrence Wang), que está escondido com a família no local.
Para preservar a vida de todos, Jin passa a ensinar a Su a arte da revelação fotográfica. Sua utilidade para os japoneses garante a eles uma sobrevivência temporária, e o estúdio acaba se transformando em uma espécie de refúgio improvisado de uma resistência silenciosa. Aos poucos, outras pessoas se juntam ao grupo: Wang Guanghai (Eric Wang), que está trabalhando como intérprete para o exército japonês, sua esposa, a cantora de ópera Lin Yuxiu (Gao Ye), e um amigo dela, Song Cunyi (Zhou You). Enquanto cumpre a ordem de revelar as fotografias feitas por Ito, Su passa a se chocar cada vez mais com as atrocidades registradas. É então que surge a ideia de produzir cópias extras das imagens, na esperança de que, um dia, elas possam expor ao mundo evidências que o exército japonês tentava esconder.
O diretor não poupa o espectador ao mostrar os horrores com extrema autenticidade, porém sem nunca ultrapassar a linha do explícito. A dimensão do horror é construída por uma atmosfera brutal, onde soldados se divertem com uma perturbadora indiferença enquanto cometem os crimes de guerra mais inimagináveis. O que torna ainda mais incômodo, é pensar que tudo foi mostrado de acordo com relatos de testemunhos da época, o que amplia ainda mais o peso histórico do que está sendo retratado. Alguns momentos são particularmente difíceis de assistir, como um fuzilamento em massa às margens do rio Yangtzé ou uma sequência envolvendo um bebê de colo cujo choro irrita os militares. São cenas profundamente desconfortáveis, e justamente por isso necessárias, que ajudam a dimensionar a barbárie que marcou aquele período.
Em meio a essa atmosfera opressiva, o filme encontra um contraponto inesperado na admiração pela própria arte da fotografia. O “curso intensivo” que Jin oferece a Su sobre o processo de revelação na câmara escura é mostrado com riqueza de detalhes, explorando as etapas de uma técnica que hoje pode parecer obsoleta, mas que carrega um valor simbólico imenso. Afinal, como sugere um personagem em determinado momento, eles não estão apenas revelando fotografias, mas também vidas. Mais do que isso, relevando uma realidade que, não fosse pelos registros, talvez ficasse para sempre escondida debaixo do tapete. Após duas horas testemunhando o mais alto grau de crueldade que um ser humano pode alcançar, surge ao menos um pequeno alívio: saber que alguns dos principais responsáveis pelas atrocidades foram julgados e punidos, inclusive com ajuda das fotos copiadas por Su Liuchang.
Por fim, é perceptível o claro teor nacionalista por trás do roteiro, sobretudo em uma cena um tanto quanto "cafona" envolvendo símbolos nacionais do país, mas trata-se de algo compreensível quando se lida com uma ferida histórica tão profunda. Mais do que um poderoso registro de um dos capítulos mais sombrios do século XX, Dead to Rights funciona também como uma homenagem à fotografia e, sobretudo, como um lembrete de que preservar a memória talvez seja a melhor maneira de impedir que tragédias como essa se repitam. Não por acaso, é daqueles filmes que permanecem na memória muito depois dos créditos finais e despertam no espectador a vontade imediata de pesquisar e ler mais profundamente sobre o tema retratado.

















