quarta-feira, 15 de julho de 2026

Crítica: Backrooms: Um Não-lugar (2026)


A lenda dos "backrooms" surgiu em 2019 dentro de um fórum na internet, onde uma imagem de um corredor amarelo aparecia acompanhada por textos sobre "sair da realidade". Três anos depois, Kane Parsons transformou essa história em uma websérie de curtas que viralizou no Youtube, acumulando milhões de visualizações. Confesso a vocês que nunca vi os curtas e portanto caí de "paraquedas" no longa Backrooms: Um Não-Lugar, após ele ter se tornado um dos maiores fenômenos do terror neste ano. Naturalmente, logo após terminar o filme, dei uma boa pesquisada no conceito original e, pelo pouco que vi, ficou claro que o filme é extremamente fiel à proposta que o originou, até por contar com a direção do mesmo Kane Parsons, em sua estreia em longas-metragens.


Os corredores amarelos de formatos irregulares, labirínticos e infinitos, as luzes fluorescentes, os objetos amontoados pelo caminho e a constante sensação de que algo profundamente errado existe naquele lugar criam uma atmosfera desconfortável e hipnótica desde os primeiros minutos. A premissa é, de certa forma, simples. Nela, acompanhamos Clark (Chiwetel Elijofor), um homem de meia-idade que enfrenta uma profunda depressão após o divórcio com a esposa. Afundado no alcoolismo e presenciando a decadência de sua loja de departamentos, que por sua vez também virou sua moradia improvisada, ele procura ajuda com a terapeuta Mary (Renate Reinsve), que o instiga a repensar a própria vida. Ao investigar pequenas quedas de luz na loja, Clark encontra uma espécie de "falha" nas paredes do subsolo, que o levam a um lugar estranho, que desafia qualquer lógica.

Curioso com a descoberta, Clark vai explorando mais profundamente o espaço, ficando cada vez mais intrigado com seus longos e silenciosos corredores, em um enigma que o consome aos poucos e o leva a questionar a própria sanidade. Para tentar provar aos outros (e também a si mesmo) que não está enlouquecendo, ele convida seus dois funcionários, Kat (Lukita Maxwell) e Bobby (Finn Bennett), para explorar o local juntos, registrando tudo com uma câmera analógica. Em paralelo, a terapeuta de Clark também acaba adentrando o espaço, tornando-se mais uma personagem presa neste mistério indecifrável e incompreensível.

Kane Parsons demonstra um domínio admirável da linguagem visual, utilizando enquadramentos amplos, corredores intermináveis e um uso do som inquietante para transmitir uma sensação genuína de isolamento. A câmera analógica reforça o aspecto documental da experiência, aproximando o espectador daquele pesadelo e aumentando a sensação de realismo. O problema é que o diretor, em nenhum momento, se preocupa em explicar o que é este lugar, tampouco as inúmeras situações vividas pelos personagens enquanto parecem ser observados por criaturas misteriosas.


A ausência de respostas não seria um problema se o roteiro desse ao espectador um caminho para desenvolver suas próprias interpretações, o que não acontece aqui. O mistério deixa de ser fascinante para se tornar frustrante, principalmente em seu terço final. A intenção parece ser instigar o público para posteriormente expandir esse universo em continuações, mas isso acaba criando um efeito contrário, fazendo o público perder o interesse. Desta forma, Backrooms: Um Não-Lugar funciona muito melhor como uma experiência sensorial e imersiva do que como uma narrativa propriamente dita, o que faz ele ser incompleto e esquecível.

Crítica: Heel (2026)


O cineasta polonês Jan Komasa ganhou reconhecimento internacional em 2020, quando seu drama Corpus Christi (Boże Ciało) figurou entre os cinco indicados ao Oscar de Melhor Filme Internacional, prêmio que acabou ficando com o sul-coreano ParasitaEm Heel (inicialmente anunciado com o nome Good Boy), o diretor demonstra mais uma vez o seu interesse por personagens difíceis de admirar, mas fascinantes de acompanhar, girando em torno de um protagonista moralmente ambíguo, cuja trajetória evoca os mais diversos sentimentos.


O filme começa nos mostrando uma noite comum na vida de Tommy (Anson Boon), um jovem delinquente, impulsivo e sem qualquer senso de responsabilidade. Líder de um grupo que grava agressões contra desconhecidos e atos de vandalismo para divulgação nas redes sociais, ele vive em um ciclo de violência, consumo de drogas, sexo inconsequente e explosões de raiva. Seu comportamento autodestrutivo parece fazer parte da rotina, incentivado pelos próprios amigos, que transformam cada infração em entretenimento.

Tudo muda quando, após desmaiar na rua depois de mais uma noite de excessos, Tommy desperta acorrentado em um porão escuro, usando uma coleira no pescoço. Logo conhecemos Chris (Stephen Graham), o proprietário da casa, que vive com a esposa Kathryn (Andrea Riseborough) e o filho Jonathan (Kit Rakusen). Revoltado com os inúmeros crimes do jovem registrados em vídeos publicados na internet, Chris decide submetê-lo a uma espécie de "reabilitação" forçada. A premissa inevitavelmente remete a Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, ao apresentar um jovem violento sendo submetido contra sua vontade a um processo de condicionamento para voltar ao convívio social como alguém "melhor".


A questão moral abordada neste "sequestro" é o que move o filme. É evidente que o cárcere privado promovido pela família não pode ser tratado como algo aceitável, mas ao mesmo tempo, Tommy é construído de maneira tão repulsiva nos primeiros minutos, que a reação instintiva do espectador é questionar até que ponto alguém como ele merece compaixão. Essa ambiguidade funciona muito bem porque embora estejam cometendo um crime, Chris e sua família nunca são retratados como pessoas cruéis ou sádicas; pelo contrário, parecem genuinamente acreditar que estão oferecendo ao rapaz uma oportunidade de mudar, e isso torna tudo ainda mais desconfortável. À medida que Tommy demonstra sinais de cooperação, ele passa a receber pequenas recompensas: um quarto mais confortável, uma alimentação mais robusta e maior liberdade para circular pela casa graças ao aumento da extensão da corrente que o prende. Aos poucos, ele decide embarcar naquela estranha dinâmica familiar, desenvolvendo laços inesperados tanto com a empregada recém-contratada (Monika Frajczyk) quanto com o menino Jonathan.

As atuações contribuem decisivamente para essa credibilidade. Stephen Graham entrega mais uma interpretação intensa, equilibrando firmeza e vulnerabilidade sem transformar Chris em um simples justiceiro. Andrea Riseborough acrescenta camadas importantes à esposa, frequentemente dividida entre apoiar o marido e questionar os limites daquela situação absurda, enquanto Kit Rakusen confere espontaneidade ao jovem Jonathan, peça fundamental para humanizar o ambiente. Mesmo Tommy, inicialmente quase impossível de suportar, ganha nuances conforme o roteiro avança, tornando sua transformação mais convincente.


Por fim, Heel é uma proposta provocativa, sustentada por personagens complexos e por um roteiro que constantemente desafia nossos próprios limites éticos. O único ponto negativo é que em sua reta final, o longa parece apressar conclusões que mereciam maior desenvolvimento. Apesar disso, não deixa de ser um thriller psicológico desconfortável e repleto de cenas que continuam ecoando muito depois dos créditos finais.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Crítica: Obsessão (2026)


"Muito cuidado com aquilo que você deseja, pois esse desejo pode se tornar realidade." O famoso e controverso alerta popular serve como ponto de partida para a provocante história de Obsessão (Obsession), filme dirigido por Curry Barker que, desde o seu lançamento, vem gerando uma enorme repercussão, e que se consolidou como o grande fenômeno do terror neste primeiro semestre de 2026.


A trama acompanha Bear (Michael Johnston), um jovem extremamente tímido que é secretamente apaixonado pela amiga de infância e agora colega de trabalho, Nikki (Inde Navarrette). Apesar da intensa paixão, ele nunca teve coragem de assumir os seus sentimentos, permanecendo preso à chamada "friedzone". A premissa, que remete a uma típica comédia romântica, ganha contornos sombrios quando Bear entra em uma loja de artefatos esotéricos e compra um misterioso "salgueiro dos desejos", objeto que promete realizar qualquer desejo daquele que partir seu graveto ao meio.

Embora não acredite em seus poderes, Bear acaba levando o artefato por achar sua estética curiosa e imaginar que seria um bom presente para dar a Nikki quando finalmente se declarar. No entanto, angustiado por mais uma vez se ver silenciado pela vergonha e pelo medo da rejeição, Bear resolve usar o artefato para si mesmo, fazendo o desejo mais previsível possível: pedindo que Nikki o amasse mais do que qualquer coisa. O pedido se concretiza imediatamente, mas Bear logo descobre que não estava preparado para as consequências devastadoras e para o preço que pagaria por transformar um sentimento que deveria ser livre, em pura imposição.


O aspecto mais interessante do roteiro é o dilema moral que ele apresenta, pois justamente quem deveria representar a ameaça acaba sendo a maior vítima da história. Nikki passa a ser escravizada por um sentimento que jamais escolheu sentir, e obrigada a corresponder a uma paixão de maneira completamente irracional. E aqui é impossível não destacar a atuação de Navarrette, que é simplesmente brilhante. A transformação perturbadora de uma jovem doce e cheia de vida em alguém consumido por uma obsessão doentia acontece de forma gradual e convence justamente pela atuação impressionante da atriz.

Essa mudança comportamental rapidamente chama a atenção de amigos e colegas de trabalho de Nikki, enquanto rumores começam a surgir na tentativa de encontrar uma explicação. Ao mesmo tempo, Bear, que inicialmente acredita estar vivendo um sonho ao finalmente ter seu amor correspondido, passa a experimentar o lado mais sombrio dessa fantasia quando Nikki adota atitudes cada vez mais possessivas, violentas e autodestrutivas. O filme retrata um relacionamento abusivo levado ao seu limite, mas com uma particularidade que torna tudo ainda mais inquietante: é impossível culpá-la por seus atos, já que aquele comportamento nunca foi uma escolha sua.


Vivendo um momento de enorme prestígio, refletido no recente reconhecimento da Academia a produções do gênero, o terror ganha mais um diretor promissor. Em seu longa de estreia, Curry Barker demonstra segurança tanto na construção da tensão quanto na condução do horror gráfico. Sem economizar na violência física e nas cenas sangrentas, cria sequências que permanecem na memória muito depois dos créditos finais, deixando claro que seu nome merece ser acompanhado de perto daqui pra frente. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Crítica: As Ovelhas Detetives (2026)


Filmes com animais falantes possuem uma doçura e um ar de inocência que só quem viveu a Sessão da Tarde nos anos 1990 lembra bem como era. Crescemos assistindo ao porquinho atrapalhado de Babe, ao trio inseparável de A Incrível Jornada, ao ratinho de Stuart Little, e a tantas outras obras do gênero que possivelmente só teriam dado certo naquele momento, já que no cinema de hoje a premissa soa bastante boba. Ainda assim, em pleno 2026, As Ovelhas Detetives (The Sheep Detectives) surge como uma ótima adição à lista de filmes já citados, e tem tudo para, em alguns anos, também ser lembrado como um dos grandes representantes do subgênero.


A trama acompanha George Hardy (Hugh Jackman), um pastor de ovelhas que vive no pacato vilarejo fictício de Denbrook, no interior da Inglaterra. Ele apresenta seus animais, sua rotina camponesa e seu pequeno vilarejo através de uma carta endereçada à sua filha Rebecca (Molly Gordon), que mora nos Estados Unidos, convidando-a para finalmente conhecer o lugar. No passado, George precisou entregá-la para adoção ainda bebê e apenas agora, décadas depois, descobriu seu paradeiro, decidindo reconstruir o vínculo que nunca pôde existir.

No dia a dia, George trata seu rebanho com enorme carinho e atenção, nomeando cada ovelha e cuidando delas como se fossem verdadeiros membros da família. Toda noite ele reúne os animais em frente ao trailer onde mora para ler um romance policial, sem imaginar que eles acompanham atentamente cada capítulo para, depois, discutirem a história entre si. Como em outros filmes do gênero, os animais não falam com os humanos, apenas entre eles, e é justamente dessa premissa que nasce um dos aspectos mais encantadores da obra.


O diretor constrói uma cultura própria para as ovelhas, cuja forma de interpretar o mundo humano desperta curiosidade constante. Elas tentam compreender conceitos como religião, a vida agitada das cidades, a maldade e, principalmente, o luto. Há, inclusive, uma passagem particularmente bonita em que as ovelhas adultas explicam aos filhotes que aqueles que partem se transformam em nuvens de algodão. É um momento de grande sensibilidade, que utiliza a ingenuidade dos animais e a individualidade de cada um para refletir sobre temas profundamente humanos.

Após uma noite de tempestade, o rebanho encontra George morto no pasto. A polícia conclui rapidamente que a causa foi um ataque cardíaco e não demonstra interesse em investigar além do necessário. As ovelhas, no entanto, tem certeza de que ele foi assassinado, talvez influenciadas pelas histórias de crime que ele mesmo contava. Convictas disso, passam a formular hipóteses e tentam conduzir discretamente o policial Tim Derry (Nicholas Braun) até a verdade, recorrendo aos pequenos sinais que conseguem transmitir aos humanos.


É um filme fofo e singelo, e cuja premissa jamais soa ridícula. A estrutura clássica dos romances de detetive conduz a narrativa e culmina em uma resolução divertida, que demonstra conhecer muito bem as convenções do gênero. A revelação final ironiza essas fórmulas ao mostrar que as ovelhas já haviam compreendido praticamente toda a verdade apenas por reconhecerem padrões presentes nas histórias que George costumava ler: uma morte misteriosa, interesses financeiros, suspeitos improváveis e a inevitável reviravolta. Mais do que uma homenagem aos tradicionais filmes de animais falantes, As Ovelhas Detetives também se revela uma divertida carta de amor às narrativas policiais, equilibrando humor, emoção e mistério com uma delicadeza difícil de encontrar no cinema contemporâneo.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Crítica: O Afinador (2026)


Dirigido por Daniel Graham em sua estreia em longas-metragens, O Afinador (Tuner) parte de uma premissa curiosa, ao transformar um profissional que normalmente atua nos bastidores da música em peça fundamental de uma trama criminal. Misturando drama, suspense e elementos de filmes de assalto, a obra explora uma habilidade incomum de seu protagonista para construir tensão e conduzir a história por caminhos cada vez mais perigosos.


O filme acompanha Niki (Leo Woodall), que cresceu como um prodígio do piano. As circunstâncias da vida, porém, o fizeram abandonar a carreira ainda jovem e, hoje, ele trabalha como afinador de pianos ao lado de seu mentor, o experiente Harry Horowitz (Dustin Hoffman). O ofício exige um ouvido extremamente apurado, e isso Niki possui de sobra, sendo capaz de identificar qualquer nota ou frequência sonora com precisão impressionante. Paradoxalmente, Niki sofre de hiperacusia, uma condição que provoca extrema sensibilidade auditiva e o obriga a utilizar fones e abafadores de ruído o tempo inteiro para suportar os sons cotidianos. 

O conceito se torna ainda mais interessante porque a profissão retratada raramente recebe atenção no cinema, ou mesmo fora dele. Embora seja de conhecimento geral que pianos necessitam de manutenção periódica, poucas pessoas já tiveram contato com um afinador ou sabem exatamente como funciona esse trabalho. O filme se aproveita dessa familiaridade distante para construir uma premissa que soa simultaneamente inusitada e plausível, despertando curiosidade sobre um universo pouco explorado.

Por conta de suas habilidades, Niki acaba recebendo um convite incomum de Uri (Lior Raz), líder de uma gangue que pratica assaltos a grandes residências. Por conseguir ouvir o som quase imperceptível dos mecanismos internos das fechaduras, e consequentemente violar os cofres com certa facilidade, ele se torna uma peça valiosa para o grupo criminoso, e inicialmente aceita o trabalho motivado pela necessidade de ajudar financeiramente Harry, que está hospitalizado entre a vida e a morte enquanto acumula uma extensa dívida médica. O ponto central do filme é justamente este: transformar uma profissão aparentemente simples no elemento chave de uma trama de assalto. O envolvimento de Niki com o grupo criminoso, no entanto, rapidamente sai do controle. Depois de obter o dinheiro que precisava, ele tenta abandonar aquela vida, mas passa a ser chantageado pelos criminosos, que sabem o quanto suas habilidades são essenciais para o sucesso das operações.

O roteiro opta por caminhos bastante previsíveis, recorrendo a coincidências e conveniências narrativas em diversos momentos. No entanto, a forma como Graham trabalha a questão do som e da música, sempre centrando a narrativa na percepção auditiva de seu protagonista, evita que ele se torne superficial. Há sequências em que a imersão sonora é realmente impactante, como se o espectador estivesse compartilhando a mesma condição de Niki, ouvindo cada detalhe, cada ruído e cada interferência com intensidade ampliada. Esse recurso não apenas fortalece a tensão, mas também potencializa a essência da obra.

O próprio protagonista também desperta questionamentos ao longo da narrativa, e seu passado é envolto em mistério. Niki aparenta ser um homem profundamente solitário, marcado por acontecimentos que nunca são completamente revelados ao público. Seu principal ponto de transformação surge a partir da relação com a talentosa pianista Ruthie (Havana Rose Liu), e da necessidade de impedir que suas escolhas comprometam o futuro promissor dela. É nesse conflito que o filme encontra sua dimensão mais humana, indo além da simples mecânica dos assaltos para explorar culpa, responsabilidade e a busca por redenção.

Se há uma fragilidade evidente na narrativa, ela está em alguns personagens coadjuvantes. Harry, interpretado por Dustin Hoffman, acaba sendo utilizado de maneira bastante limitada. Apesar do peso que sua presença exerce sobre as decisões de Niki, o personagem raramente ultrapassa a função de oferecer conselhos ocasionais, comentários espirituosos e pequenas doses de humor. Fica a impressão de que sua participação existe mais para emprestar ao filme o prestígio de um dos nomes mais consagrados de Hollywood do que para desempenhar um papel verdadeiramente relevante dentro da trama.


Por fim, mais do que um thriller sobre roubos, O Afinador acaba funcionando também como uma reflexão sobre talentos que podem se transformar em fardos. A mesma sensibilidade auditiva que torna Niki extraordinário é também aquilo que o distancia das pessoas e o conduz para situações das quais parece impossível escapar. Uma obra envolvente, que mesmo recheada de clichês, se sustenta pela premissa original e por uma abordagem sonora capaz de transformar até mesmo o mais discreto dos ruídos em uma fonte constante de tensão.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Crítica: Um Triste e Belo Mundo (2025)


Longa-metragem de estreia do libanês Ciryl Aris, Um Triste e Belo Mundo (Nujum Al'Amal W Al'Alam) foi o representante do país na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025. A obra apresenta uma história que, em essência, demonstra o quão desafiador pode ser o amor quando ele precisa sobreviver às instabilidades de um país mergulhado em crises, onde o dia de amanhã é sempre uma incógnita.


Yasmina (Mounia Akl) e Nino (Hasan Akil) nasceram praticamente ao mesmo tempo, em meio a um bombardeio da Guerra Civil Libanesa que atingiu a maternidade onde estavam. O dia ficou marcado na história por dois opostos: de um lado, um massacre ocorrido no país deixava o mundo em choque; do outro, o país comemorava o lançamento do primeiro foguete, que alavancava sua corrida espacial. É neste cenário de contrastes que os dois chegam ao mundo, sem imaginar que seus destinos permaneceriam conectados pelos próximos trinta anos.

Após mostrar a infância de Yasmina ao lado da família, o filme avança cerca de duas décadas e passa a acompanhar Nino já adulto, administrando um restaurante. Para quem assistiu à série The Bear, o ambiente da cozinha remete imediatamente ao mesmo clima de tensão constante: gritos, correria e caos. Ao deixar o trabalho dirigindo, ele tem a visão prejudicada por objetos que atingem o para-brisa e acaba invadindo um estabelecimento, ferindo uma mulher. Após prestar socorro, ele a acompanha até o hospital e, tentando amenizar os ânimos exaltados da família, oferece um jantar gratuito para todos. O que não esperava era descobrir que a filha da vítima era justamente Yasmina, transformando um acontecimento aparentemente trágico em mais um divisor de águas na trajetória dos dois.


Com uma narrativa não linear, o longa também retorna à época em que Nino e Yasmina eram crianças e se tornaram grandes amigos na escola. O vínculo parecia inquebrável, até que as circunstâncias da vida os separaram por milhares de quilômetros. A premissa é simples, mas profundamente humana em sua execução. Aqui, o Líbano não funciona apenas como cenário, mas como um personagem ativo da trama. As crises econômicas, políticas e sociais que marcaram o país ao longo das décadas moldam diretamente os caminhos dos protagonistas e influenciam cada etapa de sua relação, e o espectador acompanha diferentes fases desse vínculo em paralelo às transformações e tragédias que atingem a nação, tornando impossível dissociar a história de amor do contexto que a envolve.

Além do caos externo, ambos também cresceram em ambientes familiares conturbados, o que contribuiu para aproximá-los ainda mais. Yasmina passou a infância testemunhando as constantes brigas dos pais, enquanto Nino perdeu a família muito cedo em um acidente devastador. Embora tenham passado mais de três décadas sem notícias um do outro, o reencontro traz à tona memórias, cicatrizes e questionamentos que o tempo jamais foi capaz de apagar. Mais do que uma história sobre coincidências ou reencontros, o filme reflete sobre a permanência dos laços afetivos mesmo quando tudo ao redor parece desmoronar.


Por fim, o título da obra sintetiza perfeitamente sua essência. O mundo retratado por Ciryl Aris é, de fato, triste, marcado por guerras, perdas, crises e incertezas, mas também é belo, justamente porque mesmo diante de tantas adversidades, ainda existe espaço para o amor, para a esperança e para as conexões humanas.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Crítica: Erupcja (2025)


Em polonês, Erupcja significa "erupção", e este fenômeno natural é um elemento crucial na trama do novo filme de Pete Ohs, protagonizado pela cantora britânica Charli XCX e pela atriz e produtora polonesa Lena Góra, que interpretam duas personagens cuja conexão extrapola o físico e que nem o passar dos anos e a distância foram capazes de dissolver.


Com um narrador onipresente, que comenta detalhes importantes sobre os personagens que estamos vendo em tela, o filme começa nos apresentando à Nel (Lena), que herdou uma floricultura de sua mãe e trabalha no local desde jovem. Em paralelo, conhecemos o casal Bethany (Charli) e Rob (Will Madden), que acabaram de chegar à Varsóvia vindos de Londres e se hospedam em um Airnbnb no centro da cidade. Enquanto ela cresceu na capital polonesa, seu namorado está conhecendo a cidade pela primeira vez, e ambos possuem expectativas diferentes para a viagem: ele quer aproveitar o poder sentimental que a cidade exerce em Bethany para pedi-la em casamento, enquanto ela quer se reencontrar com Nel, com quem tem uma relação estreita e intensa desde a adolescência.

É nítido, desde o início do filme, que Bethany carrega consigo algumas inquietações, que nem ela mesma consegue compreender completamente. Desta forma, a viagem acaba se tornando não apenas um reencontro com o passado, mas uma espécie de fuga emocional. Ela sabe que será pedida em casamento pois encontrou as alianças antes da viagem, e entrou em modo de pânico diante da perspectiva de tomar uma decisão para a qual não se sente preparada. Trata-se de uma personagem cujas atitudes aparentam ser imaturas e até mesmo repulsivas, mas que claramente não age por maldade. Bethany é apenas uma criatura perdida na vida, incapaz de entender os seus desejos e que, inevitavelmente, arrasta quem está ao seu lado junto neste turbilhão.


O ponto central da trama, no entanto, é a relação entre Bethany e Nelka, que aos poucos se revela muito mais complexa do que uma simples amizade. Há um elemento quase místico envolvendo as duas: desde que se conheceram aos dezesseis anos, toda vez que se reencontram, algum vulcão entra em erupção em alguma parte do mundo. Este, inclusive, é um dos argumentos utilizados por Bethany para justificar por que não vê Rob como seu parceiro ideal, já que com ele, segundo suas palavras, "não existem erupções". 

Simbolicamente, os vulcões funcionam como uma representação daquilo que existe de mais intenso dentro dessas duas mulheres. Quando Bethany afirma que com Rob não existem erupções, ela não está necessariamente dizendo que não o ama, mas que aquela relação não desperta nela a mesma sensação de descoberta e intensidade que Nel provoca. Pete Ohs conduz essa história com delicadeza, evitando transformar o filme em um romance convencional ou em um drama centrado em um triângulo amoroso, até porque o que une Bethany e Nel não é completamente explicado, permanecendo envolto por uma atmosfera de mistério que torna a experiência ainda mais intrigante.

Charli XCX entrega uma boa estreia como protagonista, na pele desta personagem impulsiva, inquieta e difícil de decifrar. Já Nel é uma figura cuja presença marca profundamente cada cena em que aparece, e não por acaso, parece estar constantemente atraindo a atenção das pessoas ao seu redor. Há algo de magnético em sua postura, uma combinação de confiança e vulnerabilidade que Lena Góra interpreta com enorme naturalidade. Uma curiosidade interessante é que o diretor declarou, recentemente, que todos os atores trabalharam de forma colaborativa no roteiro, determinando os rumos dos seus próprios personagens, e talvez seja justamente por isso que as relações apresentadas em tela soem tão orgânicas.


Entre romance, drama e realismo mágico, Erupcja constrói um retrato sobre pessoas que tentam compreender seus próprios desejos enquanto lidam com as expectativas que a vida adulta impõe. Assim como um vulcão pode permanecer silencioso durante anos antes de explodir, o filme sugere que alguns sentimentos jamais desaparecem por completo, eles apenas aguardam o momento certo para voltar à superfície.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Crítica: Sinta-se Em Casa (2025)


Marcando a estreia do húngaro Gábor Holtai na direção de longas-metragens, Sinta-se em Casa (Feels Like Home) é um thriller psicológico claustrofóbico e extremamente instigante, que parte de uma premissa quase alegórica para construir uma contundente metáfora da sociedade húngara contemporânea e dos mecanismos que sustentam regimes opressores.


A trama acompanha Rita (Rozi Lovas), uma mulher que acaba de ser demitida da loja de calçados onde trabalhava após o abrupto encerramento das atividades do estabelecimento. Ao sair do local, ela é sequestrada por um homem desconhecido e acorda horas depois, amarrada e amordaçada em um quarto escuro e sem mobílias. Seu algoz é Marci (Áron Molnár), um homem que insiste em dizer que Rita é, na verdade, sua irmã desaparecida, e que ele não a sequestrou, apenas a trouxe de volta para casa. Ele inclusive a chama por outro nome, Szilvi, e a pune severamente cada vez que ela nega ser quem ele procurava.

Logo, assumir o papel que lhe é imposto deixa de ser uma escolha e passa a ser uma questão de sobrevivência, mas a falsa identidade é apenas a porta de entrada para uma situação muito mais estranha e perturbadora. Aceitando que é Szilvi, ela conquista o "direito" de conviver com o restante da família Árpád, composta por irmãos, tios e, sobretudo, o pai (Tibor Szérvet), responsável por comandar toda aquela dinâmica. Aos poucos, ela descobre que, com exceção do patriarca, todos os demais integrantes também são prisioneiros da mesma encenação. Todos são pessoas que, em algum momento, também foram obrigadas a cumprirem aqueles papéis, e se adaptaram a isso. 

Quando Rita percebe que a figura de Szilvi ocupa uma posição privilegiada aos olhos do pai, em comparação com os demais, ela passa a explorar essa condição estrategicamente, manipulando as regras daquele ambiente para enfraquecer a autoridade do patriarca e encontrar uma saída não apenas para si, mas para todos os que vivem sob aquele sistema. A partir daí, o filme brinca constantemente com a percepção de verdade e de poder, e trabalha sem pressa na construção de seus mistérios, tornando a jornada de compreensão da protagonista bastante verossímil. O diretor evita revelações apressadas e reviravoltas artificiais, permitindo que cada descoberta surja de maneira orgânica, e o resultado é um roteiro que sustenta muito bem a tensão, até chegar a um desfecho que desafia a lógica convencional mas que, de forma alguma, soa incoerente.

O aspecto mais interessante do filme é que ele não se sustenta apenas pela violência física, mas principalmente pela pressão psicológica provocada pela perda da própria identidade. À medida que os personagens abrem mão de quem são para sobreviver, tornam-se peças fundamentais na manutenção do próprio sistema que os aprisiona, até que, de maneira natural, também se tornam opressivos e cruéis. Nesse sentido, a família retratada pelo filme se transforma em uma representação inquietante de regimes autoritários, nos quais a opressão se sustenta tanto pela força quanto pela internalização de comportamentos e discursos que normalizam a submissão.

Crítica: Garça-Azul (2026)


Longa metragem de estreia da diretora canadense Sophy Romvari, Garça-Azul (Blue Heron) é um retrato extremamente sensível de sua própria infância, que transforma um drama familiar muito íntimo em um potente relato sobre amor, família, empatia e o poder que a arte tem de resgatar fragmentos da memória.


O filme começa nos apresentando a uma família húngara, composta por um casal (Ádám Tompa e Iringó Réti) e seus quatro filhos, que se muda para o Canadá em meados dos anos anos 1990. A história é contada sob a perspectiva de Sasha (Eylul Guven), de apenas oito anos, que observa atentamente tudo que acontece à sua volta. Em meio a mais uma mudança de endereço, os pais de Sasha precisam lutar para manter a harmonia dentro da família, enquanto seu filho mais velho, Jeremy (Edik Beddoes), vem apresentando comportamentos cada vez mais erráticos, autodestrutivos e perigosos. Sem amigos e bastante isolado, ele demonstra enorme sensibilidade em alguns momentos com a família, mas ao mesmo tempo, suas atitudes são sempre imprevisíveis, tornando-o uma incógnita para todos ao seu redor.

Em um dia, Jeremy sai sem rumo de casa; em outro, retorna algemado, acusado de cometer pequenos furtos. Ora deita na calçada, chamando a atenção dos vizinhos, ora sobe no telhado em meio a uma crise emocional. São atitudes aparentemente pequenas, mas que aumentam progressivamente a preocupação dos pais, não apenas pelo bem-estar do filho, mas também pelos impactos que tudo aquilo pode causar nos irmãos mais novos. Tudo isso em uma época em que ainda havia pouca compreensão e discussão sobre tratamentos adequados para casos semelhantes.


Enquanto as demais crianças se encantavam com os novos lugares a conhecer e os novos amigos a fazer, Sasha parecia ser a única que percebia que algo não estava bem, mesmo sem possuir maturidade suficiente para compreender exatamente o que era. Se a primeira metade do filme transcorre na década de 1990, a segunda promove uma ruptura significativa ao apresentar Sasha já adulta (agora interpretada por Amy Zimmer), tentando reconstruir as memórias daquele período para realizar um filme. Cineasta reconhecida, ela decide contar a história do irmão por meio de um documentário, o que a leva de volta aos lugares onde cresceu e viveu boa parte dos acontecimentos retratados anteriormente.

Em busca de respostas, Sasha revisita suas lembranças por meio de visitas aos locais da infância, consulta arquivos produzidos pela assistente social que acompanhava a família e entrevista especialistas contemporâneos para tentar entender se Jeremy recebeu o tratamento adequado na época ou se algo mais poderia ter sido feito. Nesse momento, Blue Heron passa a se aproximar mais do documentário do que da ficção, e torna-se evidente que Sasha é uma representação da própria Romvari, assim como o filme que ela tenta realizar é, em essência, o mesmo que estamos assistindo.

Ao reconstruir a trajetória do irmão, Romvari não busca apenas explicações clínicas para seu comportamento, mas também entender como aquela experiência moldou toda a dinâmica familiar. O filme observa com sensibilidade o papel dos pais, divididos entre a culpa, a preocupação constante e a sensação de impotência diante de uma situação para a qual pareciam não existir respostas adequadas. Por isso, os questionamentos feitos mais de vinte anos depois carregam um peso emocional genuíno: seria possível ter feito mais? Ou aquela família simplesmente lidou com as limitações de conhecimento e suporte existentes na época?


Por fim, Romvari demonstra enorme maturidade ao transformar uma história tão pessoal em uma obra capaz de dialogar com qualquer espectador. Sua abordagem evita soluções fáceis, julgamentos ou sentimentalismos excessivos, e o resultado é um filme delicado e profundamente humano, que encontra na memória não apenas um espaço de dor, mas também uma possibilidade de compreensão e reconciliação.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Crítica: O Mandaloriano e Grogu (2026)


O ambiente intergaláctico de Star Wars, criado por George Lucas em meados dos anos 1970, volta e meia é revisitado por meio de continuações e spin-offs, seja na televisão ou nos cinemas. Dentro deste universo, uma das produções mais aclamadas nos últimos anos foi a série The Mandalorian, criada por Jon Favreau, que acompanha um caçador de recompensas e seu inseparável "bebê Yoda", Grogu. Agora, em 2026, a dupla enfim ganhou sua aventura nas telonas, mas o resultado infelizmente se mostra frustrante, esquecível e bastante genérico em sua composição.


A trama de O Mandaloriano e Grogu, assim como a série, se passa após a queda do Império, retratada em O Retorno de Jedi (1983). Nela, acompanhamos o mandaloriano Din Djarin (Pedro Pascal), trabalhando à serviço da Nova República como uma espécie de justiceiro encarregado de caçar criminosos de guerra remanescentes da Era Imperial. Ao seu lado, está o seu aprendiz, o pequeno Grogu, que é da mesma raça do lendário Mestre Yoda, e que apesar de pequenino, tem o poder de dominar a "Força". Aqui, o roteiro pressupõe que o espectador já conhece a relação dos dois, e não se preocupa em contextualizar absolutamente nada. O filme inicia sem apresentações, e a escolha acaba criando uma barreira para novos espectadores, como se a intenção fosse apenas agradar aqueles que já são fiéis à série.

Sendo assim, logo na primeira cena vemos a dupla no meio de um conflito, onde Djari e Grogu invadem e destroem uma nave de remanescentes imperiais. Ao retornar à base da Nova República, eles recebem uma nova missão da Coronel Ward (Sigourney Weaver), líder da resistência que ajudou a derrubar o antigo regime e personagem de relevância histórica na saga Star Wars. A missão consiste em viajar até uma galáxia distante para capturar o Comandante Coyne, ex-oficial imperial que continua representando uma ameaça. Antes disso, porém, eles precisam resgatar Rotta, filho do lendário gângster Jabba, que está sendo mantido em cativeiro por seus próprios tios. Em posse de informações valiosas, ele será peça fundamental para localizar Coyne, embora convencê-lo a colaborar esteja longe de ser uma tarefa simples.


Visualmente, o filme mantém o padrão técnico elevado que se tornou marca registrada das produções recentes da franquia. Os efeitos especiais impressionam, os cenários apresentam escala grandiosa e o design de criaturas e veículos continua sendo um dos pontos fortes. O problema é que toda essa competência estética serve a uma narrativa incapaz de justificar sua própria existência dentro da saga. O roteiro não consegue escapar da narrativa episódica, e isso afeta muito o ritmo do filme. Os "capítulos" são tão bem delimitados que parecem episódios costurados uns aos outros, com conflitos que começam e terminam rapidamente antes que o próximo segmento entre em cena. A sensação constante é a de estar assistindo a uma temporada condensada, e não a uma obra concebida para o cinema, como se o filme estivesse sempre "recomeçando".

Para piorar, a relação entre os personagens é extremamente superficial. Não há desenvolvimento significativo, tampouco qualquer esforço para tornar Din Djarin mais interessante além da figura do guerreiro mascarado e invencível, transformando-o em uma espécie de "Rambo espacial" cuja jornada não consegue despertar curiosidade ou empatia. O mesmo não acontece com Grogu, que continua sendo o principal responsável pelos poucos momentos genuinamente divertidos do longa. Sua aparência e comportamento ainda despertam simpatia instantânea, e o roteiro lhe concede mais participação nas decisões e nos acontecimentos do que fazia na série.. Ainda assim, o personagem permanece limitado a um papel funcional, incapaz de sustentar sozinho o peso da narrativa.


Por fim, O Mandaloriano e Grogu soa como um projeto concebido mais por necessidade comercial do que por inspiração criativa. Para os fãs mais dedicados da série, a experiência talvez funcione como uma continuação confortável e familiar, mas para quem espera encontrar uma aventura capaz de justificar a transição para as telonas, resta apenas um espetáculo visual competente, porém vazio, que dificilmente deixará qualquer marca duradoura dentro da já extensa galáxia de Star Wars.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Crítica: Era Uma Vez Minha Mãe (2025)


Mchikpara é uma expressão de origem judaico-árabe que significa "dou minha vida por você", e poucas formas de amor traduzem tão bem esse sentimento quanto o amor de uma mãe, que vence barreiras físicas e emocionais e faz o possível e o impossível pelo bem dos seus filhos. É sobre essa devoção incondicional que fala Era Uma Vez Minha Mãe (Ma Mère, Dieu et Sylvie Vartan), filme delicado do cineasta canadense Ken Scott, que se baseia na autobiografia do advogado e apresentador de televisão francês Roland Perez.


Na trama, é o próprio Roland quem narra a história de sua mãe, Esther (Leïla Bekhti), desde o ano em que ele nasceu, em 1963. Sexto filho de uma família de judeus radicada na França, o menino veio ao mundo com uma deformidade no pé direito, que segundo os médicos, o condenaria ao uso permanente de aparelhos ortopédicos. Rejeitando aceitar esse prognóstico, Esther tenta todas as formas que acredita serem possíveis para reverter a situação, e entre consultas com especialistas, tratamentos experimentais e orações diárias diante de um altar improvisado, ela se agarra praticamente sozinha à esperança de um milagre que parece nunca chegar, já que a figura paterna se mostra quase nula.

Roland cresce praticamente recluso dentro de casa, onde aprende a ler e escrever com a ajuda dos seus irmãos. O mundo exterior ele acompanha através da televisão, onde passa quase 24 horas do seu dia com os olhos grudados na programação. Enquanto isso, Esther encontra uma renomada médica disposta a tentar um tratamento inovador, alimentando a esperança de que o filho possa finalmente conquistar a mobilidade que lhe foi negada desde o nascimento. A partir daí, toda a rotina da família passa a girar em torno de sua recuperação, que é feita no próprio conforto do lar.

Por influência de uma das irmãs, Roland descobre a cantora Sylvie Vartan, tornando-se rapidamente um admirador apaixonado pela sua obra. Quando a artista sofre um grave acidente de carro e luta pela própria sobrevivência, sua história passa a servir de inspiração para o garoto, que encontra nela um exemplo de força e resiliência. Um fato curioso é que, já na vida adulta, Roland viria a trabalhar muito próximo de sua maior referência, sendo mais do que apenas um colaborador, mas um amigo e confidente.


Mesmo que em alguns momentos o filme flerte com o melodrama, Ken Scott demonstra sensibilidade suficiente para não permitir que a história se torne totalmente manipuladora. O diretor encontra equilíbrio entre humor, emoção e esperança, transformando uma trajetória marcada pela dor e pela superação em uma celebração da perseverança humana. Por fim, mais do que um relato sobre deficiência, Era Uma Vez Minha Mãe é uma homenagem comovente à força transformadora do amor materno.