quarta-feira, 10 de junho de 2026

Crítica: Garça-Azul (2026)


Longa metragem de estreia da diretora canadense Sophy Romvari, Garça-Azul (Blue Heron) é um retrato extremamente sensível de sua própria infância, que transforma um drama familiar muito íntimo em um potente relato sobre amor, família, empatia e o poder que a arte tem de resgatar fragmentos da memória.


O filme começa nos apresentando a uma família húngara, composta por um casal (Ádám Tompa e Iringó Réti) e seus quatro filhos, que se muda para o Canadá em meados dos anos anos 1990. A história é contada sob a perspectiva de Sasha (Eylul Guven), de apenas oito anos, que observa atentamente tudo que acontece à sua volta. Em meio a mais uma mudança de endereço, os pais de Sasha precisam lutar para manter a harmonia dentro da família, enquanto seu filho mais velho, Jeremy (Edik Beddoes), vem apresentando comportamentos cada vez mais erráticos, autodestrutivos e perigosos. Sem amigos e bastante isolado, ele demonstra enorme sensibilidade em alguns momentos com a família, mas ao mesmo tempo, suas atitudes são sempre imprevisíveis, tornando-o uma incógnita para todos ao seu redor.

Em um dia, Jeremy sai sem rumo de casa; em outro, retorna algemado, acusado de cometer pequenos furtos. Ora deita na calçada, chamando a atenção dos vizinhos, ora sobe no telhado em meio a uma crise emocional. São atitudes aparentemente pequenas, mas que aumentam progressivamente a preocupação dos pais, não apenas pelo bem-estar do filho, mas também pelos impactos que tudo aquilo pode causar nos irmãos mais novos. Tudo isso em uma época em que ainda havia pouca compreensão e discussão sobre tratamentos adequados para casos semelhantes.


Enquanto as demais crianças se encantavam com os novos lugares a conhecer e os novos amigos a fazer, Sasha parecia ser a única que percebia que algo não estava bem, mesmo sem possuir maturidade suficiente para compreender exatamente o que era. Se a primeira metade do filme transcorre na década de 1990, a segunda promove uma ruptura significativa ao apresentar Sasha já adulta (agora interpretada por Amy Zimmer), tentando reconstruir as memórias daquele período para realizar um filme. Cineasta reconhecida, ela decide contar a história do irmão por meio de um documentário, o que a leva de volta aos lugares onde cresceu e viveu boa parte dos acontecimentos retratados anteriormente.

Em busca de respostas, Sasha revisita suas lembranças por meio de visitas aos locais da infância, consulta arquivos produzidos pela assistente social que acompanhava a família e entrevista especialistas contemporâneos para tentar entender se Jeremy recebeu o tratamento adequado na época ou se algo mais poderia ter sido feito. Nesse momento, Blue Heron passa a se aproximar mais do documentário do que da ficção, e torna-se evidente que Sasha é uma representação da própria Romvari, assim como o filme que ela tenta realizar é, em essência, o mesmo que estamos assistindo.

Ao reconstruir a trajetória do irmão, Romvari não busca apenas explicações clínicas para seu comportamento, mas também entender como aquela experiência moldou toda a dinâmica familiar. O filme observa com sensibilidade o papel dos pais, divididos entre a culpa, a preocupação constante e a sensação de impotência diante de uma situação para a qual pareciam não existir respostas adequadas. Por isso, os questionamentos feitos mais de vinte anos depois carregam um peso emocional genuíno: seria possível ter feito mais? Ou aquela família simplesmente lidou com as limitações de conhecimento e suporte existentes na época?


Por fim, Romvari demonstra enorme maturidade ao transformar uma história tão pessoal em uma obra capaz de dialogar com qualquer espectador. Sua abordagem evita soluções fáceis, julgamentos ou sentimentalismos excessivos, e o resultado é um filme delicado e profundamente humano, que encontra na memória não apenas um espaço de dor, mas também uma possibilidade de compreensão e reconciliação.

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