terça-feira, 3 de março de 2026

Crítica: A Graça (2025)



O diretor italiano Paolo Sorrentino e o ator Toni Servillo formam uma das parcerias mais sólidas e frutíferas do cinema contemporâneo. Desde Um Homem a Mais (2001), já são sete longas-metragens realizados em conjunto, e A Graça (La Grazia) é o capítulo mais recente dessa colaboração. Com o habitual requinte visual e o humor sarcástico que marca sua filmografia, Sorrentino constrói aqui mais uma fábula política atravessada por melancolia e inquietação existencial.


Ambientada em Roma, coração da história e da política italiana, a trama acompanha Mariano De Santis, o Presidente da República, que está nos seus últimos seis meses de mandato. Servillo, que já havia interpretado o controverso Silvio Berlusconi em outro trabalho do diretor, encarna agora um Chefe de Estado fictício, igualmente complexo, porém mais introspectivo. Ex-juiz, e apaixonado pelo rigor das leis, Mariano carrega o apelido de “concreto armado” entre opositores e colegas políticos, alcunha que traduz sua imagem pública: um homem rígido e inabalável.

Mas, como é típico no cinema de Sorrentino, a superfície é bem diferente do que passamos a ver na profundidade. Por trás da postura solene e da disciplina protocolar, há um homem atravessado por fragilidades, que escuta rap italiano às escondidas e que convive com inseguranças que o cargo não consegue silenciar. O contraste entre a imponência do cargo e a vulnerabilidade íntima sustenta o grande trunfo do filme: um estudo de personagem minucioso, que ganha densidade graças à atuação sempre magnética de Servillo.


Enquanto cumpre uma agenda agitada de compromissos oficiais, Mariano enfrenta dilemas que transcendem a esfera pública. O envelhecimento o deixa cada vez mais preocupado, bem como a perspectiva do que fazer após deixar o poder em breve, um sentimento de vazio difícil de nomear. Além do mais, uma antiga ferida é revisitada: a traição da ex-esposa ocorrida quarenta anos antes, e que volta com tudo para atormentá-lo. A pressão externa também é intensa: a mídia, a filha (Anna Ferzetti), aliados políticos e até o Papa o instigam a se posicionar sobre a legalização da eutanásia, tema que ele preferia evitar durante o mandato justamente para não tomar nenhum lado, mas que agora se torna incontornável.

Sorrentino conduz esses conflitos com sua habitual combinação de ironia e grandiosidade estética. Há cenas emblemáticas que sintetizam seu estilo: a lágrima de um astronauta italiano na estação espacial, que durante uma ligação por vídeo com presidente, que flutua no ar por conta da ausência de gravidade, ou a chegada do presidente português para uma visita oficial, sob uma chuva torrencial, culminando em um tropeço no tapete vermelho seguido de uma pergunta desconcertante de Mariano sobre o peso da idade. Outro momento visualmente poético é quando o filme se transporta ao passado através das lembranças do protagonista do dia em que conheceu o grande amor da sua vida. São momentos que, mesmo parecendo por vezes exagerados e sem sentido, revelam, no fundo, um apreço singular do diretor pela imagem como forma de linguagem.


Em A Graça, Sorrentino não está interessado nos bastidores da política e em toda a podridão que a cerca, mas sim, naquilo que resta quando os holofotes se apagam. O foco está na solidão, na vaidade ferida e no medo de se tornar irrelevante. É um filme que reafirma a força estética do diretor e a entrega absoluta de Servillo, consolidando uma parceria artística rara, daquelas que amadurecem a cada novo projeto.

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