Enquanto cumpre uma agenda agitada de compromissos oficiais, Mariano enfrenta dilemas que transcendem a esfera pública. O envelhecimento o deixa cada vez mais preocupado, bem como a perspectiva do que fazer após deixar o poder em breve, um sentimento de vazio difícil de nomear. Além do mais, uma antiga ferida é revisitada: a traição da ex-esposa ocorrida quarenta anos antes, e que volta com tudo para atormentá-lo. A pressão externa também é intensa: a mídia, a filha (Anna Ferzetti), aliados políticos e até o Papa o instigam a se posicionar sobre a legalização da eutanásia, tema que ele preferia evitar durante o mandato justamente para não tomar nenhum lado, mas que agora se torna incontornável.
Sorrentino conduz esses conflitos com sua habitual combinação de ironia e grandiosidade estética. Há cenas emblemáticas que sintetizam seu estilo: a lágrima de um astronauta italiano na estação espacial, que durante uma ligação por vídeo com presidente, que flutua no ar por conta da ausência de gravidade, ou a chegada do presidente português para uma visita oficial, sob uma chuva torrencial, culminando em um tropeço no tapete vermelho seguido de uma pergunta desconcertante de Mariano sobre o peso da idade. Outro momento visualmente poético é quando o filme se transporta ao passado através das lembranças do protagonista do dia em que conheceu o grande amor da sua vida. São momentos que, mesmo parecendo por vezes exagerados e sem sentido, revelam, no fundo, um apreço singular do diretor pela imagem como forma de linguagem.
Em A Graça, Sorrentino não está interessado nos bastidores da política e em toda a podridão que a cerca, mas sim, naquilo que resta quando os holofotes se apagam. O foco está na solidão, na vaidade ferida e no medo de se tornar irrelevante. É um filme que reafirma a força estética do diretor e a entrega absoluta de Servillo, consolidando uma parceria artística rara, daquelas que amadurecem a cada novo projeto.




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