Primeiro filme solo do diretor Josh Safdie sem o irmão Benny, cuja parceria ficou conhecida por filmes como Bom Comportamento (2017) e Jóias Brutas (2019), Marty Supreme se baseia levemente na história real de Marty Reisman, um excêntrico jogador de tênis de mesa que, nos anos 1950, transformou a própria carreira em espetáculo ao usar estratégias pouco ortodoxas para atrair atenção, investidores e notoriedade.
O filme já começa nos apresentando ao seu protagonista, Marty Mouser (Timothée Chalamet), um homem errático, imoral e sem escrúpulos, que é capaz de qualquer coisa para alcançar seus objetivos. Trabalhando como vendedor em uma loja de sapatos de Nova Iorque, ele está tentando juntar dinheiro para poder disputar um campeonato de tênis de mesa importante na Inglaterra que, em sua cabeça, não é uma possibilidade de ascensão, mas uma confirmação inevitável da sua superioridade. Ele não acredita que ganhará o torneio, ele tem certeza. Completamente egocêntrico, manipulador, e movido por uma autoconfiança que beira o delírio, Marty está obcecado em tornar o tênis de mesa um grande espetáculo nos Estados Unidos, e para isso, não vê problema nenhum em atravessar pessoas, situações e limites éticos com a mesma rapidez com que golpeia a bola na mesa.
Safdie apresenta um personagem caótico, com uma urgência tão caótica quanto, que precisa correr contra o tempo para tentar resolver sua vida. Dito isso, é um filme ligado no 220v, sem paradas para respirar e sem espaço para contemplação. E essa energia funciona até certo ponto, pelo menos para prender a atenção do espectador. O problema é que muita coisa na história parece aleatória, desordenada e pouco explicada. Em resumo, o que vemos é um amontoado de situações extravagantes que por vezes se atropelam e não se conectam, criando uma sensação de que estamos acompanhando apenas fragmentos de uma história, e não uma progressão orgânica.
Não dá para negar, no entanto, que o filme tem seus momentos de inspiração. Um dos pontos que acho interessante, é o fato de trazer para o centro da trama um esporte que não tem tanta aclamação do público ocidental, mas que é bem interessante de acompanhar pela sua riqueza técnica. Recentemente o tênis de mesa ficou mais conhecido por nós brasileiros por causa de Hugo Calderano, que fez história ao chegar nas semifinais dos jogos olímpicos de Paris em 2024 e por ganhar a Copa do Mundo do esporte em 2025, sendo o primeiro atleta das Américas a conquistar tal feito. O filme, nesse sentido, acerta ao explorar o potencial cinematográfico das partidas, captando a velocidade e a tensão dos duelos.
A ambientação da Nova Iorque dos anos 1950 também merece destaque. As cenas externas ajudam a consolidar o clima de época, reforçando a atmosfera de um país em transformação, onde oportunismo e espetáculo caminham lado a lado. Mas o verdadeiro trunfo de Marty Supreme é Timothée Chalamet. Em uma performance intensa e fisicamente inquieta, o ator confere magnetismo a um personagem essencialmente detestável. Marty é irritante, vaidoso e moralmente questionável, mas ainda assim, impossível de ignorar. Chalamet equilibra carisma e repulsa com precisão, entregando a sua melhor atuação até então na carreira, e que muito possivelmente irá lhe tender o seu primeiro Oscar daqui há um mês.
No fim das contas, Marty Supreme é um filme que vibra mais pela energia do que pela coesão, o que de forma alguma o faz ser ruim, apenas distante de ser intocável. Há talento, há personalidade e há momentos de verdadeiro impacto, mas falta a amarração que transforma intensidade em grandeza. O fato é que ele confirma o talento de Josh Safdie como cronista de figuras obsessivas à beira do colapso, mas também evidencia que, de certa forma, faz falta o contraponto criativo do irmão.




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