quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Crítica: Nuremberg (2025)

Entre 1945 e 1946, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, oficiais do alto escalão nazista foram levados a julgamento por um Tribunal Militar Internacional formado por juízes dos países Aliados (Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e União Soviética), em um dos julgamentos mais desafiadores, complexos e memoráveis da história. Sob acusações de crimes de guerra e principalmente crimes contra a humanidade, vinte e dois oficiais foram julgados em um primeiro momento, entre eles o sucessor direto de Hitler, Hermann Göring.

Dirigido por James Vanderbilt (de Conspiração e Poder, 2015), Nuremberg se inicia logo após as tropas soviéticas tomarem Berlim. Hitler e Goebbels já haviam cometido suicídio, mas figuras centrais do regime acabam sendo capturadas, entre elas Göring (Russell Crowe). Sua prisão funciona como o eixo dramático da narrativa, especialmente a partir de seus encontros com o psiquiatra americano Douglas Kelley (Rami Malek), encarregado de avaliá-lo psicologicamente enquanto ele aguarda julgamento.

A relação entre os dois se transforma em uma amizade tão improvável quanto inquietante, sustentada por interesses claramente distintos. Göring demonstra confiança absoluta de que escapará das acusações e retornará à sua família, usando as conversas não apenas para reafirmar essa convicção, mas também para manipular Kelley como intermediário na sua relação com a esposa e a filha. Kelley, por sua vez, vê nessas interações a oportunidade de compreender os mecanismos psicológicos que permitiram tamanha brutalidade por parte dos líderes nazistas, com a ambição de escrever um livro sobre o tema.

O que começa como uma avaliação clínica, logo se revela um truque orquestrado pelos oficiais americanos. Kelley descobre que sua verdadeira função é, na verdade, extrair informações estratégicas sobre como os réus se defenderiam no tribunal, e diante desse dilema moral, ele é forçado a abrir mão de princípios que construiu ao longo de sua vida profissional. Ainda que tal conduta fosse, em qualquer outro contexto, moralmente condenável, o filme habilmente provoca o espectador ao questionar se há espaço para ética tradicional quando se está lidando com mentes por trás de um genocídio. Göring, em especial, age com um cinismo perturbador, fingindo ignorância sobre os horrores dos campos de concentração, apesar da posição central que ocupava no regime.

Nos minutos finais, Nuremberg assume a forma de um clássico filme de tribunal, mas evita cair em clichês. Quando Vanderbilt opta por inserir imagens reais do Holocausto, com montanhas de corpos empilhados, corpos desfigurados e evidências incontestáveis da barbárie, o impacto é devastador. São registros que, na vida real, foram exibidos pela primeira vez durante o próprio julgamento, e que mesmo já exaustivamente vistos em documentários e outras obras de ficção, continuam a ferir como se fossem inéditos.

O filme estabelece paralelos inquietantes com o cenário político contemporâneo, especialmente com a ascensão de discursos de ódio e do extremismo ao redor do mundo. Em um dos momentos mais perturbadores, Göring, ao ser indagado sobre o que lhe fez se tornar um seguidor fiel das ideias nazistas, afirma, com um sorriso irônico, que “Hitler fez todos se sentirem alemães novamente”. A frase arrepia, não apenas por responder a eterna pergunta sobre como uma nação inteira permitiu que aquilo acontecesse, mas por ecoar discursos atuais, funcionando como um alerta sombrio de que ideias parecidas precisam ser combatidas antes que seja tarde demais.

Russell Crowe entrega uma atuação sólida e dominante, compondo um Göring manipulador e perigosamente carismático, que mantém sua postura de superioridade mesmo atrás das grades. Se Crowe é destaque, o mesmo não posso dizer de Malek, que não consegue alcançar a seriedade que o personagem necessitava, com tiques e cacoetes irritantes que se sucedem o filme inteiro. O elenco de apoio cumpre bem sua função, com destaque para Michael Shannon como o promotor Robert H. Jackson, John Slattery como o comandante da prisão e Leo Woodall no papel do tradutor.

Por fim, Nuremberg não é apenas um filme histórico ou um drama jurídico bem executado, mas um lembrete incômodo de que o mal raramente se apresenta como monstruoso à primeira vista. Ele se disfarça de discurso civilizado, de carisma e de promessas de pertencimento e prosperidade. Ao revisitar um dos julgamentos mais importantes do século XX, o filme reafirma que a memória é uma ferramenta essencial para impedir que os erros mais brutais da humanidade se repitam.

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