Surpreendendo como um dos grandes fenômenos cinematográficos desta primeira metade do ano, Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary), dos diretores Chris Miller e Phil Lord, adapta o romance homônimo de Andy Weir (mesmo autor de Perdido em Marte) para entregar uma obra que, embora parta de uma premissa familiar, demonstra uma ousadia criativa cada vez mais rara dentro do cinema blockbuster contemporâneo, hoje sustentado basicamente por remakes, live-actions e continuações de universos já desgastados.
Na trama, acompanhamos o professor de ciências Ryland Grace (Ryan Gosling), que acorda de um coma induzido em uma espaçonave, após mais de onze anos viajando pelo universo profundo. Inicialmente sem memória, ele reconstrói aos poucos os eventos que o levaram até ali: recrutado pela NASA, Grace carrega a responsabilidade de tentar salvar a Terra de um colapso iminente. Seus dois companheiros de missão não sobreviveram à jornada, deixando-o como o único responsável por um plano que, desde o início, já era uma viagem sem volta.
Os flashbacks entram em cena para contextualizar melhor a urgência da missão. Neles, descobrimos que microrganismos alienígenas, denominados astrófagos, estão consumindo estrelas aos poucos, incluindo o nosso sol. As projeções indicam um colapso climático na Terra capaz de dizimar uma parcela significativa da população em três décadas, e para tentar evitar esta catástrofe global, Grace é enviado para investigar a estrela Tau Ceti, a única que se mostrou resistente aos avanços da nova ameaça.
No entanto, ao cruzar com uma nave alienígena, Grace estabelece contato com uma criatura que foge de qualquer ideia pré-concebida: um ser rochoso, a quem ele dá carinhosamente o nome de Rocky. É neste encontro inesperado com o desconhecido que o filme encontra sua verdadeira identidade, pois assim como o protagonista, Rocky também é o único sobrevivente de sua missão, vindo do planeta Eridani. Unidos pela solidão e pela responsabilidade de salvar suas civilizações, os dois constroem uma amizade improvável e profundamente "humana".
A comunicação entre eles não é imediata, e o processo de aprendizado mútuo se torna um dos aspectos mais encantadores do filme. O humor surge de forma orgânica, mas nunca gratuita, acompanhando uma construção gradual de afeto que transcende a linguagem. Há aqui uma reflexão sensível sobre empatia, diferenças culturais e, sobretudo, cooperação em situações limite. É nesse ponto que reside a essência da obra: na capacidade de emocionar o espectador através de um vínculo genuíno entre dois seres completamente distintos.
Neste contexto, Ryan Gosling é uma escolha certeira para o papel. Seu Grace está longe do arquétipo tradicional do astronauta heróico, assumindo um perfil mais vulnerável. O ator sustenta o filme com muito carisma, mas também sabe dosar o drama muito bem quando a narrativa exige. A montagem conduz bem as idas e vindas temporais, alternando a jornada no espaço com os eventos que antecedem a missão. É nesses momentos, por exemplo, que surge a personagem Eva Stratt (Sandra Hüller), cuja presença é marcada por uma postura deliberadamente fria e contraditória no comando da missão.
Tecnicamente, o filme acumula ainda mais acertos. A trilha sonora é eficiente quando precisa pontuar emoção, mas é no uso do silêncio que ela realmente se sobressai. O vazio sonoro reforça a imensidão e o isolamento do espaço, ampliando a sensação de imersão. Já na parte visual, o filme impressiona tanto na simplicidade, quando explora ambientes fechados como salas da NASA e a própria nave, quanto na grandiosidade e na beleza indescritível do universo.
Ainda que, por vezes, recaia em soluções previsíveis e estruturas já conhecidas do gênero, Devoradores de Estrelas se destaca justamente por sua disposição em apostar em elementos diferentes do lugar-comum. Particularmente, adorei o final, diferente e ousado. Por fim, não se trata de uma grande obra-prima, mas é um filme extremamente honesto, genuinamente divertido e envolvente do início ao fim.




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