A eleição presidencial de 1993 na Nigéria foi um daqueles acontecimentos que marcam para sempre a história de um país. Após uma década de ditadura militar, o pleito representava uma possível guinada à democracia, reacendendo na população a esperança por mudanças concretas. No entanto, após perder nas urnas, o governo vigente alegou fraudes e anulou o resultado, o que resultou em uma onda de protestos violentos por parte dos civis e abriu caminho para a eclosão de um novo golpe militar que se estenderia até 1999.
A Sombra do Meu Pai (My Father's Shadow), longa de estreia do nigeriano-britânico Akinola Davies Jr., mergulha nesse período turbulento a partir de um olhar íntimo, nostálgico e profundamente pessoal do diretor. Escrito em parceria com seu irmão mais velho, o roteiro acompanha Akinola (Godwin Egbo) e Olaremi (Chibuike Marvellous Egbo), dois irmãos de oito e onze anos, que deixam o vilarejo onde vivem para ir até Lagos na companhia do pai, Folarin (Sopè Dìrísù). Oficialmente, a viagem tem um objetivo claro: o homem quer ir pessoalmente cobrar o chefe que não lhe paga há seis meses; na prática, porém, também carrega um lado afetivo: aproveitar a ocasião para apresentar aos filhos a vida na capital do país, que até então lhes era desconhecida.
Ao longo do trajeto, o encantamento dos meninos diante daquele novo mundo surge de forma natural. Lagos se revela como um espaço vibrante, caótico e fascinante, um contraste direto com a realidade de onde vieram. O pai, que cresceu na cidade, atua quase como um guia sentimental, revisitando lugares da sua juventude, compartilhando histórias e reencontrando figuras de seu passado. É uma jornada que mistura descoberta e memória, e que de certa maneira remete ao sensível Aftersun, da diretora Charlotte Wells, que também usa seu filme como uma ferramenta particular de reconexão afetiva.
No entanto, ao contrário do filme de Wells, que acompanha um pai em uma viagem de férias com sua filha, aqui a atmosfera que envolve a viagem dos personagens é constantemente atravessada por tensões. A instabilidade política não funciona apenas como pano de fundo, mas é parte integrante do drama, moldando o ambiente e contaminando até os instantes mais simples. Caminhões militares, discussões acaloradas entre apoiadores e opositores do regime, e manchetes que traduzem a ansiedade coletiva compõem um cenário onde a inocência infantil convive com uma inquietação latente. Mesmo sem compreender completamente o que está acontecendo, os meninos sentem o peso daquele momento histórico e o receio do que virá dali para frente.
O mais tocante de tudo (e algo que descobri apenas depois de assistir o filme) é que o pai do diretor, na realidade, morreu quando ele era apenas um bebê. Ou seja, o filme não apenas revisita memórias da infância: ele as inventa, as reconstrói, e serve para preencher lacunas irreversíveis deixadas por algo que nunca pôde ser vivido de verdade. Há algo profundamente comovente nessa tentativa de criar um passado possível, de imaginar conversas, gestos e experiências com o pai, que não existiram na vida real, mas que agora passam a existir, para sempre, no cinema.
Confesso que sabia muito pouco sobre a política nigeriana antes de assistir ao filme, mas isso em momento algum comprometeu a experiência. Pelo contrário: a obra encontra sua força justamente na maneira como transforma um contexto histórico específico em uma vivência universal, onde memória, ausência e pertencimento falam mais alto do que qualquer explicação formal. Filmado em 16mm, A Sombra do Meu Pai carrega o calor nostálgico de um filme caseiro, feito de amor e saudade, e encanta sobretudo pela simplicidade.




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