segunda-feira, 13 de abril de 2026

Crítica: A Noiva! (2026)


Depois de sua promissora estreia na direção em 2021 com o drama intimista A Filha Perdida, Maggie Gyllenhaal volta às telas com A Noiva! (Bride!), trabalho que segue na direção oposta do anterior e se apresenta como um filme caótico, frenético e extremamente ousado. Inspirado em A Noiva de Frankenstein (1935), o filme parte de uma premissa bastante instigante e provocativa, mas infelizmente se perde no caminho ao acumular ideias excêntricas sem a coesão necessária para sustentá-las.

A trama inicia na Chicago dos anos 1930, marcada pela violência urbana e pelo domínio do crime organizado. A narrativa é conduzida pela escritora Mary Shelley (Jessie Buckley), que surge estranhamente como uma figura espectral em registros nebulosos e em preto e branco, como se estivesse vivendo em uma espécie de "limbo". Ela anuncia ao espectador que tem uma história para ser contada; uma que ela não conseguiu contar enquanto ainda era viva. Logo, conhecemos Ida (também interpretada por Buckley), que após um surto psicótico em um jantar com pessoas da elite, acaba sendo morta por capangas de um poderoso gângster.

Paralelamente, o filme nos leva a outro ponto da cidade, onde a criatura de Frankenstein (Christian Bale), aqui chamada simplesmente de Frank, procura a Dra. Euphronius (Annette Bening), uma cientista renomada e especialista em reanimação. Seu pedido é claro e direto: ele quer que ela crie uma parceira para ele, alguém com quem possa compartilhar a existência e escapar da solidão que o define. Após desenterrarem o corpo de Ida, a doutora a traz de volta à vida por meio de suas engenhocas elétricas, e Frank se aproveita da ausência de memória da jovem para convencê-la de que os dois eram noivos antes de um suposto acidente ter lhe causado amnésia.


Diante deste encontro entre duas criaturas renascidas da morte e inseridas dentro de um universo frio e pouco acolhedor, o filme parecia ter em mãos um enorme potencial e inúmeras possibilidades narrativas a serem exploradas. Porém, o que se vê é um grande desperdício de ideias. A expectativa por uma abordagem mais consistente e crítica, como a vista no ótimo Pobres Criaturas do diretor Yorgos Lanthimos, dá lugar a uma sucessão de cenas desconexas, nas quais a diretora parece mais interessada em chocar do que em construir uma narrativa minimamente racional.

Não fica claro qual é, afinal, a proposta de Gyllenhaal. Há indícios de uma releitura feminista, elementos de uma fábula sobre identidade, traços de um road movie e até mesmo referências a thrillers no estilo Bonnie & Clyde, mas nada disso se desenvolve de forma satisfatória. Personagens surgem e desaparecem sem impacto, conflitos são introduzidos e abandonados, e a própria transformação da criatura em símbolo de revolução ocorre de maneira abrupta e pouco fundamentada. A trama mafiosa por trás, os detetives que perseguem o casal, tudo soa superficial e mal articulado.


É inegável, entretanto, que Jessie Buckley se destaca em meio ao caos. Em um papel duplo, a atriz, que ganhou o Óscar este ano por Hamnet, prova ainda mais sua versatilidade na pele desta personagem dúbia e extremamente vulnerável. Mesmo quando a narrativa se fragmenta, Buckley permanece como um dos poucos pontos harmônicos, entregando uma performance visceral. Soma-se a isso uma fotografia estilizada, marcada por contrastes fortes e uma atmosfera decadente que, em alguns momentos, me fez lembrar o trabalho visto em Coringa: Delírio a Dois.

No entanto, para uma diretora que demonstrou tanto controle e sensibilidade em A Filha Perdida, é frustrante ver Maggie Gyllenhaal se perder em um projeto extremamente pretencioso. A Noiva! até apresenta lampejos de criatividade estética, mas carece de nexo e propósito. E o que poderia ter sido uma releitura provocadora do universo de Mary Shelley se transforma em um filme que grita o tempo todo, mas que, ironicamente, não tem nada a dizer.

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