O subgênero das cinebiografias musicais vem sofrendo um desgaste ano após ano, com muitas ideias recicladas e roteiros preguiçosos, mas ainda sobrevive graças ao apelo popular em cima de grandes nomes da música e a pequenos respiros de originalidade trazidos por alguns cineastas. Dentro desta realidade controversa, surgiram obras muito boas recentemente, como Rocketman (Elton John) e Um Completo Desconhecido (Bob Dylan), mas também outras deploráveis, como Bob Marley: One Love (Bob Marley) e Back to Black (Amy Winehouse), que nem de perto faziam jus aos artistas retratados. Dentro deste contexto, dá para dizer que Michael, dirigido por Antoine Fuqua, fica exatamente no meio-termo dessa divisão, pois mesmo sem abrir mão de diversos clichês do gênero, o longa possui grandes acertos narrativos e momentos de genuína potência estética e musical.
O filme acompanha uma boa parte da história do "Rei do Pop", Michael Jackson, desde sua infância em Gary, Indiana, onde começou a cantar com seus irmãos no Jackson Five, até o momento em que passa a brilhar em carreira solo já na década de 1980. Quem interpreta Michael na fase infantil é Juliano Valdi, que demonstra muita competência, tanto nas sequências musicais quanto no controle dramático necessário para retratar uma infância conturbada e emocionalmente complexa. O filme desde cedo cria uma espécie de antagonismo para o pai dos garotos, Joe (Colman Domingo), que com a obsessão de vê-los se tornar um fenômeno musical, exige perfeição absoluta e pune severamente qualquer falha. De acordo com os relatos do próprio Michael em vida, o filme até suaviza parte dessas agressões paternais, que na vida real teriam sido muito mais graves e violentas do que apenas "surras de cinto".
Mesmo diante do comportamento agressivo do pai, o grupo consegue se manter unido e passa a ganhar cada vez mais espaço nas mídias, se tornando um grande sucesso, sobretudo pela voz, pelo carisma e pela desenvoltura do menino Michael em cima dos palco. O roteiro consegue trabalhar muito bem os conflitos internos e externos de Michael nesta fase, e também ilustrar referências que serviriam mais tarde como referência nas suas músicas e na sua estética visual. É ainda nesta fase que o filme também constrói a bonita relação de afeto entre Michael e sua mãe, Katherine (Nia Long), que não concordava com a agressividade do pai mas se via impotente diante da situação.
Quando o filme avança para a fase adulta, surge aquele que talvez seja seu maior trunfo: Jafar Jackson, sobrinho de Michael na vida real, que não apenas interpreta o cantor, mas praticamente o incorpora. Sua performance vai muito além da simples imitação, recriando voz, trejeitos, movimentos, olhares e até a energia física do artista com uma precisão impressionante. É algo que talvez a genética explique, mas a semelhança é tão absurda, que não é difícil imaginar, em diversos momentos, que estamos vendo o próprio Michael em cena, como se estivéssemos em documentário de sua carreira.
Outro ponto forte do filme, e não seria para menos, são suas sequências musicais. Fuqua aproveita ao máximo a presença magnética de Jafar e transforma o longa em um verdadeiro espetáculo audiovisual. Além das apresentações ao vivo, as recriações dos bastidores de videoclipes icônicos, como das músicas Beat It e Thriller, certamente estão entre os momentos mais marcantes do filme. Michael sempre foi conhecido pelo seu apreço pelo cinema, o que explica seus videoclipes grandiosos e muito bem elaborados, e o filme explora muito bem essa sua parte criativa, mostrando como ele era um artista completo.
Ao longo do filme, também ficamos conhecendo algumas figuras importantes da trajetória de Michael, como a executiva Suzanne de Passe, que foi essencial para que os irmãos assinassem com a Motown Records, e Bill Bray, chefe de segurança do cantor entre 1971 e 1996, que mais do que um protetor do artista, também se tornou um amigo e confidente. Outro ponto que o filme explora era o amor de Michael por animais, digamos, exóticos. Aparecem dividindo a casa com ele um ratinho, uma lhama, uma jiboia e até mesmo uma girafa, além é claro, do mais conhecido de todos, o chimpanzé Bubbles, que viveu por muitos anos com Michael e fez várias aparições públicas ao seu lado.
Sem transformar isso em discurso panfletário, o roteiro também toca sucintamente na questão do racismo estrutural presente na indústria musical da época, que em meados dos anos 1980, ainda não dava o espaço merecido à artistas negros. Com o lançamento de Billie Jean, a situação mudou, já que o videoclipe passou a ser amplamente exibido em canais como a MTV, abrindo caminhos para tantos outros.
Por fim, o que falta de ousadia para tratar aspectos mais polêmicos da vida de Michael, sobra em potência e, sobretudo, em respeito à figura retratada. Cada aparição do cantor em cena é tratada como um evento, deixando evidente não apenas o tamanho do artista em sua época, mas também sua permanência no imaginário das gerações futuras. Independente de qualquer controvérsia, é legal demais ver a música de Michael chegar aos jovens de hoje em dia através do filme. Isso, por si só, já faz obras como essa se tornarem necessárias. Agora resta esperar pela sequência, prevista para ser lançada nos próximos anos, e que deve mostrar os últimos anos de Michael.





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