segunda-feira, 22 de junho de 2026

Crítica: Um Triste e Belo Mundo (2025)


Longa-metragem de estreia do libanês Ciryl Aris, Um Triste e Belo Mundo (Nujum Al'Amal W Al'Alam) foi o representante do país na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025. A obra apresenta uma história que, em essência, demonstra o quão desafiador pode ser o amor quando ele precisa sobreviver às instabilidades de um país mergulhado em crises, onde o dia de amanhã é sempre uma incógnita.


Yasmina (Mounia Akl) e Nino (Hasan Akil) nasceram praticamente ao mesmo tempo, em meio a um bombardeio da Guerra Civil Libanesa que atingiu a maternidade onde estavam. O dia ficou marcado na história por dois opostos: de um lado, um massacre ocorrido no país deixava o mundo em choque; do outro, o país comemorava o lançamento do primeiro foguete, que alavancava sua corrida espacial. É neste cenário de contrastes que os dois chegam ao mundo, sem imaginar que seus destinos permaneceriam conectados pelos próximos trinta anos.

Após mostrar a infância de Yasmina ao lado da família, o filme avança cerca de duas décadas e passa a acompanhar Nino já adulto, administrando um restaurante. Para quem assistiu à série The Bear, o ambiente da cozinha remete imediatamente ao mesmo clima de tensão constante: gritos, correria e caos. Ao deixar o trabalho dirigindo, ele tem a visão prejudicada por objetos que atingem o para-brisa e acaba invadindo um estabelecimento, ferindo uma mulher. Após prestar socorro, ele a acompanha até o hospital e, tentando amenizar os ânimos exaltados da família, oferece um jantar gratuito para todos. O que não esperava era descobrir que a filha da vítima era justamente Yasmina, transformando um acontecimento aparentemente trágico em mais um divisor de águas na trajetória dos dois.


Com uma narrativa não linear, o longa também retorna à época em que Nino e Yasmina eram crianças e se tornaram grandes amigos na escola. O vínculo parecia inquebrável, até que as circunstâncias da vida os separaram por milhares de quilômetros. A premissa é simples, mas profundamente humana em sua execução. Aqui, o Líbano não funciona apenas como cenário, mas como um personagem ativo da trama. As crises econômicas, políticas e sociais que marcaram o país ao longo das décadas moldam diretamente os caminhos dos protagonistas e influenciam cada etapa de sua relação, e o espectador acompanha diferentes fases desse vínculo em paralelo às transformações e tragédias que atingem a nação, tornando impossível dissociar a história de amor do contexto que a envolve.

Além do caos externo, ambos também cresceram em ambientes familiares conturbados, o que contribuiu para aproximá-los ainda mais. Yasmina passou a infância testemunhando as constantes brigas dos pais, enquanto Nino perdeu a família muito cedo em um acidente devastador. Embora tenham passado mais de três décadas sem notícias um do outro, o reencontro traz à tona memórias, cicatrizes e questionamentos que o tempo jamais foi capaz de apagar. Mais do que uma história sobre coincidências ou reencontros, o filme reflete sobre a permanência dos laços afetivos mesmo quando tudo ao redor parece desmoronar.


Por fim, o título da obra sintetiza perfeitamente sua essência. O mundo retratado por Ciryl Aris é, de fato, triste, marcado por guerras, perdas, crises e incertezas. Mas também é belo justamente porque, mesmo diante de tantas adversidades, ainda existe espaço para o amor, para a esperança e para as conexões humanas.

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