quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Crítica: O Convite (2026)


Filmes de estrutura teatral, que confinam seus personagens a um único cenário e apostam em longas conversas e reflexões sobre a vida, costumam me agradar muito. Alguns bons exemplos recentes são Deus da Carnificina (2011), Perfeitos Desconhecidos (2017) e Mass (2021), obras que encontram justamente neste espaço limitado a oportunidade para explorar o desconforto, geralmente provocado por verdades inconvenientes vindo à tona. É dentro dessa proposta que Olivia Wilde constrói O Convite (The Invite), seu terceiro filme como diretora após os elogiados Fora de Série (2019) e Não Se Preocupe, Querida (2022), que transforma um simples jantar entre vizinhos em uma espécie de acerto de contas emocional, misturando drama, humor e sensualidade de maneira bastante peculiar.


O filme começa nos apresentando ao melancólico professor de música Joe (Seth Rogen), que ao chegar em casa descobre que sua esposa, Angela (Olivia Wilde), convidou os vizinhos do andar de cima para jantar, em agradecimento por terem sido compreensivos com os barulhos da reforma que fizeram nos últimos meses. Ele fica indignado, pois a última coisa que ele tinha planejado para a noite era ter que socializar com pessoas que ele, nitidamente, não tem simpatia alguma. A situação gera uma longa discussão, e dá para perceber que isso é apenas mais uma noite normal dentro de uma relação conjugal marcada pelo desgaste e pela distância. Para piorar, enquanto os dois vivem uma crise que parece não ter fim, os vizinhos parecem desfrutar de uma relação intensa e sexualmente muito ativa, algo que fica evidente pelos sons que atravessam os apartamentos todas as noites. A situação desperta certa inveja em Angela e uma grande repulsa em Joe, que decide aproveitar o jantar para reclamar do comportamento dos vizinhos.

Logo, conhecemos os visitantes, quando a terapeuta e sexóloga Pina (Penélope Cruz) e o bombeiro aposentado Hawk (Edward Norton) batem à porta. Após um início amigável, com trocas de elogios e pequenos presentinhos, as conversas cruzadas evidenciam o que cada um dos personagens possui em comum, até que em determinado momento os casais se separam. Angela e Hawk passam a compartilhar suas paixões por arte e decoração, enquanto Joe e Pina dividem um baseado e conversam, com muito bom humor, sobre as nuances da vida adulta. Quando os quatro se reúnem novamente na sala de estar, uma proposta bastante inusitada dos visitantes é finalmente verbalizada, moldando o rumo da história e fazendo o filme entrar em verdadeira combustão.

Mesmo limitado a um único cenário, o roteiro inteligentemente segura a tensão até o fim, utilizando cada conversa, cada mudança de ambiente e cada nova revelação para alterar a dinâmica entre os personagens. O próprio apartamento acaba se tornando um personagem da história, já que as reformas, as decorações e até mesmo a disposição dos cômodos revelam muito sobre o estado emocional daqueles que ali vivem. Porém, muito desse êxito também se deve ao elenco. Temos quatro nomes de peso envolvidos, que conseguem criar personagens extremamente carismáticos. Angela é ansiosa, e está angustiada para que cada detalhe do jantar seja perfeito. Joe é um homem que não sente mais tesão em viver, mas que sempre encontra uma brecha para desfilar seu humor afiado com piadas incômodas. Hawk é o mais enigmático dos personagens, e nunca é possível saber exatamente o que ele está pensando, enquanto Pina exala um ar intelectual e parece ser a mais sincera e direta do grupo.

A reunião destes quatro elementos não cria nenhum conflito do zero, mas acaba sendo o estopim de muitos ressentimentos que já existiam bem antes deste encontro. Até mesmo Pina e Hawks, que aparentavam ser um casal bem seguro de si e "perfeito", demonstram suas fraquezas no desenrolar da noite. E quanto mais as conversas avançam, mais sérias ficam as discussões sobre a vida e sobre o que se espera dentro de um relacionamento. O sexo acaba surgindo como um tema crucial do filme, mas o roteiro não se reduz a isso de maneira vazia, usando a sexualidade como ferramenta para discutir até que ponto a ausência de desejo pode revelar sobre a saúde geral de uma relação. Por fim, O Convite sabe ser engraçado, constrangedor e, em alguns momentos, genuinamente sensível, se apresentando como uma das surpresas cinematográficas mais agradáveis do ano.


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