Poucos diretores são tão fortemente ligados a um gênero específico quanto Steven Spielberg é à Ficção Científica. Apesar de alguns dos seus melhores filmes pertencerem a outras vertentes, como os dramas A Lista de Shindler e A Cor Púrpura, é inegável sua importância para a consolidação do gênero, sobretudo quando se propôs a investigar a vida extraterrestre. Sendo assim, era inevitável que seu novo filme, Dia D (Disclosure Day), carregasse uma enorme expectativa, já que prometia um retorno triunfal do diretor ao universo que ajudou a redefinir. O resultado, no entanto, é um dos filmes mais insossos e decepcionantes do ano.
Desde o primeiro minuto, fica claro que o filme navega para um lado completamente oposto do esperado. Ao invés de construir um mistério envolvente sobre o desconhecido, o diretor aposta em um thriller de perseguição que, em diversos momentos, remete a um filme de ação genérico, daqueles que o ator Jason Statham adora protagonizar. Não há problema algum nesse tipo de entretenimento, mas certamente não é o que se espera de um cineasta que revolucionou a ficção científica justamente por utilizar o extraordinário como ferramenta para discutir a condição humana.
A trama acompanha Daniel (Josh O'Connor), um especialista em segurança cibernética que trabalha na Wardex, uma suposta grande empresa de tecnologia, que na realidade, serve como fachada para algo muito maior: proteger arquivos ultra secretos acumulados durante o século XX que, por sua vez, conteriam evidências concretas do contato entre humanos e seres extraterrestres. Convencidos de que a verdade precisa ser revelada, Daniel e um pequeno grupo de funcionários colocam em prática um plano meticulosamente elaborado para roubar os arquivos e expor tudo ao mundo. Isso dá início a uma fuga frenética, onde eles precisam enfrentar agentes fortemente armados, liderados por Noah (Colin Firth), que tentam a todo custo impedir o vazamento dos arquivos.
Paralelamente, passamos a acompanhar Margaret (Emily Blunt), meteorologista do principal noticiário de Kansas City, que passa a experimentar visões inexplicáveis após um estranho encontro com um pássaro. Durante uma transmissão ao vivo, ela sofre uma interferência que a faz emitir sons ininteligíveis aos ouvidos humanos, compreendidos apenas por Daniel. Embora os dois jamais tenham se encontrado, ambos compartilham uma misteriosa conexão que o roteiro sugere estar ligada a uma espécie de condição especial, surgida ainda nas suas infâncias. O problema, no entanto, é que essa relação nunca é devidamente desenvolvida, permanecendo vaga durante praticamente toda a narrativa.
Josh O'Connor e Emily Blunt fazem o possível, mas acabam bastante limitados por personagens pouco desenvolvidos e por um roteiro que parece mais interessado em levá-los de uma sequência de ação à outra do que em explorar seus conflitos internos. O mesmo vale para os coadjuvantes, como seus respectivos parceiros Jane (Eve Hewson) e Jackson (Wyatt Russell), que existem apenas para cumprir funções narrativas bastante superficiais. Colman Domingo também aparece como parceiro de Daniel nesta missão complexa, mas assim como os demais, seu personagem também carece de mais profundidade. E Colin Firth, por fim, parece mais um vilão fanfarrão tirado do universo Marvel do que um personagem a ser levado a sério.
A ideia de discutir como a sociedade reagiria diante da confirmação definitiva de que não estamos sozinhos no universo tinha potencial para render uma excelente ficção científica, justamente por abrir espaço para debates políticos, religiosos, científicos e filosóficos. É esse o tipo de reflexão que sempre marcou os melhores trabalhos de Spielberg dentro do gênero, e é justamente isso que se esperava novamente. Entretanto, o filme abandona essa possibilidade para investir na estrutura de perseguição incessante, onde tiros, explosões e fugas ocupam o lugar das questões realmente interessantes. E quando finalmente tenta abordar as implicações dessa descoberta nos minutos finais, a narrativa já está desgastada e sem força suficiente para provocar qualquer impacto.
Como se isso não bastasse, o roteiro acumula conveniências e diálogos excessivamente expositivos, que explicam aquilo que deveria ser descoberto pelo espectador enquanto deixa justamente as perguntas mais importantes sem resposta. Em vez de alimentar o mistério, essas escolhas acabam enfraquecendo a tensão e tornando a experiência cada minuto mais frustrante. Nem mesmo o aspecto técnico consegue salvar a produção. Em alguns momentos, os efeitos visuais apresentam um acabamento surpreendentemente irregular para os padrões da filmografia de Spielberg. A trilha sonora de John Williams, parceiro inseparável do diretor e responsável por algumas das composições mais memoráveis da história do cinema, também soa estranhamente preguiçosa, incapaz de criar uma atmosfera de encantamento ou suspense.
Por fim, Dia D é um raro tropeço de um cineasta que sempre soube transformar a ficção científica em algo muito maior do que simples entretenimento. Há boas ideias por trás do roteiro, mas o que sobra é um thriller artificial, incapaz de transmitir o fascínio, o senso de descoberta e a carga emocional que fizeram de Spielberg uma referência absoluta quando o assunto é a imaginação do desconhecido.




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