quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Crítica: Tótem (2023)


Representante do México no próximo Óscar de melhor filme internacional, Tótem, da diretora Lila Avilés, apresenta um realismo social bastante intimista sob o olhar de uma criança, que vê sua família enfrentar problemas que ela ainda não tem idade para compreender, mas cujas consequências a tocam de maneira implacável.


O filme se passa no decorrer de um dia, onde a família de Sol (Naíma Sentíes), uma menina de sete anos, está organizando uma festa surpresa de aniversário para o pai dela, Tona (Mateo García Elizondo). Preso a uma cama por conta de um câncer, Tona não vê motivos para comemoração, mas a família insiste em fazer com que a data não passe batida, até porque, inevitavelmente, pode ser a última vez. Por isso mesmo, a casa se enche de familiares que não se encontravam há muito tempo, e todos parecem empenhados em fazer a noite ser especial.

No meio deste caos, a menina Sol está tentando entender melhor o que está acontecendo. Ela não sabe da enfermidade do pai, mas sente que tem algo estranho rolando no ar, já que ela não consegue vê-lo nunca. Todas as vezes que tenta se aproximar dele, alguém a segura dizendo que o pai está ocupado, e fica nítido que ele está tentando poupar a menina de vê-lo no estado em que está. Cheia de dúvidas, ela chega a perguntar para o "google" se o pai está morrendo, em busca das respostas que ninguém quer lhe dar.


Com uma câmera onipresente, acompanhamos cada centímetro desta pequena casa, bem como a reação de cada um nesta confraternização. E é justamente neste ponto que a qualidade do elenco se faz importante, pois todos estão muito bem nesta complexa teia de relações, inclusive as crianças, como a própria Naíma Sentíes que exala carisma mas também seriedade quando necessário. Apesar de possuir alguns momentos engraçados, a questão principal nunca é deixada de lado, e o sentimento conflitante de todos os presentes em relação a doença de Tona, e a forma como tentam fingir que está tudo normal, permeia durante todo o filme.

Crítica: Ninjababy (2023)


Lançado no Brasil diretamente no catálogo da Mubi, Ninjababy é uma das gratas surpresas desta reta final de ano. Com um humor peculiar, mas trazendo ao mesmo tempo um tom lúcido e dramático por trás, a diretora norueguesa Yngvild Sve Flikke nos faz adentrar na cabeça de uma jovem que tinha muitos planos para a vida e nenhum deles incluía ter filhos, mas que por descuido e obra do destino acaba descobrindo uma gravidez indesejada e já bastante adiantada.


O filme acompanha Rakel (Kristine Thorp), uma garota na faixa dos vinte anos que só descobre que está grávida quando já está com seis meses de gestação. Seu corpo não deu sinais aparentes, e quem percebeu as pequenas alterações hormonais foi sua melhor amiga, que é também que lhe obriga a fazer o teste comprobatório. O pai da criança? Pelos cálculos De Rakel é um homem que ela sequer sabe o nome, e que chama de "Dick Jesus", uma espécie de amigo colorido que ela só vê para transar.

Como não há mais tempo para um aborto, e o pai da criança também não demonstra no início a mínima intenção de ajudar ela no processo, Rakel precisa encarar a gravidez até o fim e enquanto isso busca encontrar alguém que adote a criança após ela nascer. Nesta busca, ela acaba se metendo em algumas situações inusitadas, contando sempre com a ajuda de seu professor de defesa pessoal Mos (Nader Khademi), que tem uma grande queda por ela.


Na teoria o roteiro lembra muito o filme "Juno", lançado em 2007, mas na prática possui a sua própria assinatura, a começar pela abordagem "politicamente incorreta" e sem rodeios. Os personagens são adoráveis, e é impossível não criar empatia pela protagonista logo de cara. Desenhista, ela sonha ganhar a vida como cartunista, e o "ninjababy" que dá nome ao título nada mais é do que uma representação animada que ela cria do próprio filho que está esperando, e que num recurso bem divertido do roteiro, volta e meia "conversa" com ela.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Crítica: Monster (2023)


O cinema do japonês Hirokazu Kore-eda tem uma característica muito própria, que é a de contar histórias aparentemente simples do cotidiano, mas que nas entrelinhas abordam temas importantes e universais. Premiado como melhor roteiro em Cannes deste ano, Monster (Kaibutsu) nos coloca dentro de uma espiral de acontecimentos, fazendo com que a gente tenha que ligar todos os pontos da narrativa aos poucos, até finalizá-la de forma arrebatadora.


A trama acompanha Saori (Sakura Ando), que é mãe solteira de Minato (Soya Kurokawa), um menino bastante ativo que ainda está no ensino fundamental. Desde a morte do pai do garoto, ela se desdobra em duas para sustentar a casa, e naturalmente acaba agindo de forma superprotetora com o filho único. Ao perceber alterações no comportamento do garoto e alguns machucados pelo seu corpo, ela o pressiona para saber o que está acontecendo, e o menino fala que está sofrendo agressões do seu professor na escola. Preocupada com a situação, ela procura a direção da instituição, que parece não levar o caso a sério, deixando ela ainda mais irritada e iniciando um conflito que vai gerar várias reviravoltas.

O que está acontecendo de fato com o menino é contado sob três pontos de vistas diferentes, todos partindo curiosamente de um incêndio de grandes proporções ocorrido em um prédio central da cidade. O primeiro ponto de vista é justamente o de Saori, e essa sua busca pela verdade em relação ao filho. Todas essas verdades pré-estabelecidas nesta primeira parte vão sendo desconstruídas na segunda, que é narrada sob a perspectiva do próprio professor, Hori (Eita Nagayama). O terceiro e último ato conta a versão definitiva sob os olhos de Minato e o seu melhor amigo, Yori (Hinata Hiiragi), montando todas as peças que faltavam de maneira satisfatória.


O que mais chama a atenção nesse quebra-cabeças montado pelo roteiro, é que apesar de contar a mesma história três vezes, o filme não fica repetitivo em momento algum, já que cada ato vai trazendo elementos novos que nos anteriores passaram batidos, justamente por não estarem dentro do campo de visão da perspectiva contada. Dos três capítulos, talvez o segundo seja o mais fraco, e confesso que o filme me perdeu um pouco nele. Porém, o final é dilacerante, e compensa muito.

O elenco é poderoso, mas quem encanta de verdade são os atores mirins, sobretudo o menino que faz Yori. Doce e delicado, ele sofre diariamente com o bullying dos colegas, e isso acaba sendo o ponto central da trama, já que todos os outros personagens acabam se envolvendo com isso, seja para protegê-lo, seja para atacá-lo, ou simplesmente por se omitir. Kore-eda usa esta história simples para montar um panorama da sociedade japonesa atual, onde aborda temas como amizade, bullying na infância e o papel de pais e educadores na construção da personalidade das crianças. Um dos filmes mais belos do ano.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Crítica: Pedágio (2023)


Escrito e dirigido por Carolina Markovicz (do premiado Carvão), Pedágio segue a mesma linha de outros filmes nacionais lançados recentemente como Raquel 1:1 e Medusa, tendo como ponto central em comum mostrar a hipocrisia da igreja e de seus seguidores. Porém, diferentemente das outras obras relacionadas, aqui a diretora assume um tom de sátira, o que faz o filme ser extremamente carismático em alguns momentos, mesmo abordando temas obscuros como o preconceito e a busca disparatada de uma "cura gay".


O filme acompanha Suellen (Maeve Jinkings), uma mulher batalhadora que  trabalha como atendente de um pedágio em Cubatão, na região da baixada santista. Ela mora com o filho Tiquinho (Kauan Alvarenga), um jovem prestes a se formar no ensino médio e que passa boa parte do tempo performando músicas pop, com direito a figurinos extravagantes e muita maquiagem, para vídeos que ele mesmo posta na internet. O jeito do filho incomoda muito Suellen, num misto de vergonha (pelos vídeos viralizarem entre seus colegas de trabalho) e preocupação (por medo de ver seu filho sofrer com o preconceito dos colegas na escola), e influenciada pela colega de trabalho Telma (Aline Marta Maia), ela decide colocar o garoto em uma espécie de "cura gay" organizada por um pastor de fora do país.

Markovicz consegue nos apresentar estes personagens de uma forma muito orgânica, criando um laço de empatia imediata, principalmente quando focamos nesta relação entre mãe e filho. Suellen possui elementos que poderiam facilmente transformá-la em uma antagonista da sua própria história, mas a verdade é que não dá para dizer que existe maldade em suas ações. Sua homofobia com o filho é muito mais uma preocupação com o futuro do garoto, em um mundo que infelizmente ainda não aprendeu a acolhê-lo, do que repúdio por ele ser quem ele é. E isso fica evidente em uma cena onde ela desabafa com o garoto e indaga "você acha que o mundo lá fora é fácil pra gente que nem você?".


O realismo da trama é deixado um pouco de lado com a personagem Telma, que trabalha com Suellen no pedágio. Ela é usada para dissecar a hipocrisia dos fanáticos evangélicos, mas tem algumas escolhas um tanto quanto irreais. Ainda assim, é a responsável por alguns dos momentos mais cômicos do filme, sendo também uma personagem que a protagonista sente muita confiança (pro bem ou pro mal). No meio disso tudo, Suellen também vive um relacionamento complicado com Arauto (Thomas Aquino), que ganha a vida roubando joias e relógios, e que na segunda metade do filme tem um papel importante no desenvolvimento da personagem.

Sabendo do absurdo que é a ideia de existir uma "cura gay", a diretora não economiza na ridicularização disto enquanto mostra o processo terapêutico do pastor, e esses momentos são realmente engraçadíssimos. Infelizmente, por mais absurda que a ideia pareça, tem gente que realmente acredita neste tipo de "cura milagrosa", como se a homossexualidade fosse uma doença que precisasse de tratamento.


O grande destaque do filme fica por conta da atuação de Maeve Jinkings, que trabalha pela segunda vez com a diretora, e é gigantesca em cada cena que aparece. O seu olhar cansado expressa todos os sentimentos de uma personagem extremamente humana que, assim como todos nós, tem qualidades e defeitos pontuais. O design de produção também merece elogios, por recriar espaços que ajudam na fácil identificação do público, como nos detalhes da casa onde os protagonistas moram ou os locais que eles frequentam. Por fim, arrisco a dizer que Pedágio é o melhor filme nacional que vi em 2023 no cinema, e em um ano que foi repleto de ótimas produções feitas por aqui, isso é muita coisa.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Crítica: Nosso Sonho (2023)


Se existe um gênero cinematográfico que está em alta é o das cinebiografias. Nos últimos anos, infindáveis histórias contando a vida de figuras famosas da música e da cultura pop foram levadas às telas, e essa tendência também atingiu recentemente o cinema brasileiro. O mais novo exemplo disto é Nosso Sonho, dirigido por Eduardo Albergaria, que conta um pouco da história da dupla Claudinho & Buchecha, que foi um estrondoso sucesso nos anos 1990.


O filme é narrado sob a perspectiva de Buchecha (Juan Paiva), e inicia ainda na infância quando ele conheceu o menino Claudinho na época em que ambos moravam em São Gonçalo. Apesar da forte amizade criada entre os dois, eles acabaram ficando anos afastados após Claudinho se mudar com a família, mas quis o destino que eles se reencontrassem ainda na adolescência, quando Buchecha precisou sair da casa dos pais. Na mesma época, o funk começava a surgir nas favelas como um novo ritmo que chegava para ficar, e vendo uma oportunidade de prosperar através da música, os dois decidem formar uma dupla para participar de um concurso de MC's na favela do Salgueiro.

Este concurso serve como trampolim para a carreira da dupla, que logo passa a se apresentar na televisão e ganha o país inteiro com seu "funk melody". Porém, confesso que me incomodou bastante a forma como o roteiro, e principalmente a montagem, no traz esse momento de surgimento dos dois no meio artístico. Não há uma contextualização de como eles se "descobriram" artistas, e a impressão que fica é a de que eles aprenderam a cantar repentinamente, que apareceram na televisão de um dia para o outro, e que o sucesso também veio absolutamente do nada, pois não há um ponto de ligação entre os dois extremos da carreira. O filme também perde a chance de trabalhar melhor a questão da importância que foi ter dois jovens negros, oriundos da periferia, chegando à televisão e fazendo tanto sucesso numa época em que isso ainda era considerado um tabu. Também senti falta de mais momentos que mostrassem as composições das músicas e todo o processo criativo da dupla.

Outro ponto negativo é a relação de Buchecha com o pai, que fica um pouco confusa em determinados momentos. Inlcusive o pai, vivido por Nando Cunha, é um personagem detestável, onde é impossível criar qualquer sentimento de empatia. De tudo, no entanto, o que mais me incomodou no filme foi o excesso de maneirismos que existe no roteiro. É tudo muito convencional, e eu não consegui me envolver como gostaria com a história. Isso não é de forma alguma culpa dos atores, e eu inclusive destaco aqui a atuação de Lucas Penteado (conhecido recentemente por ter participado do Big Brother Brasil), que está fenomenal na pele do Claudinho. Até mesmo a língua presa, que era característica do cantor, é trazida pelo ator de uma maneira que não fica nada caricata, e o que temos é um personagem extremamente carismático e apaixonante, à altura do que Claudinho merecia.


Por fim, apesar dos inúmeros defeitos, não dá para negar que Nosso Sonho é um projeto que foi nitidamente realizado com amor, principalmente por ter tido o próprio Buchecha por trás, demonstrando que tudo, na verdade, não passou de uma homenagem dele ao companheiro, morto em um acidente de carro em 2002. A trilha sonora, como já era de se prever, comanda o clima de nostalgia o filme inteiro, e só por isso já vale a vista.