terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Crítica: A Voz de Hind Rajab (2026)

Não é exagero dizer que existem filmes capazes de provocar um desconforto quase físico em quem assiste. Não por serem ruins, mas justamente por serem tão reais, tão humanos, que nos obrigam a encarar, sem filtros, o mundo em que estamos inseridos. A Voz de Hind Rajab (The Voice of Hind Rajab) é mais um drama devastador da cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, conhecida por seu cinema de forte viés social, e se debruça sobre uma história real ocorrida na Faixa de Gaza.

O filme nos coloca dentro do Cento de Chamadas de Emergência do Crescente Vermelho Palestino, localizado em Ramallah, na Cisjordância, onde voluntários atendem diariamente dezenas de chamadas telefônicas pedindo socorro em meio à guerra. A narrativa se concentra em um único dia de janeiro de 2024, quando o exército israelense tomou a cidade de Tel Al-Hawa e decretou a evacuação total da população palestina da região. Em meio aos ataques, Omar (Motaz Malhees) atende à ligação de uma mulher presa dentro de um carro no fogo cruzado, chamada que se encerra abruptamente após o som de disparos.

Logo, ele descobre que a pessoa com quem estava falando foi morta pelos tiros, assim como todos os seus familiares que estavam junto no mesmo veículo. No entanto, no meio dos cadáveres, há uma sobrevivente: Hind Rajab, uma menina de seis anos de idade, que passa a se corresponder com Omar e seus colegas Rana (Saja Kilani), Nisreen (Clara Khoury) e Mahdi (Amer Hlehel) por telefone, enquanto a equipe tenta, desesperadamente, encontrar uma solução para furar o bloqueio e resgatá-la com vida. A ligação da prima de Hind Rajab, e posteriormente a comunicação da menina com o grupo, permeia todo o tempo da tela, e em diversos momentos a diretora opta por colocar a gravação original da ligação, fazendo com que o som cru do desespero ecoe na tela sem edição.

Em nenhum momento vemos a menina em tela, apenas sua foto, e tão pouco o local onde ela está ilhada. No entanto, os sons ouvidos na ligação, como tiros ao fundo, tanques passando e gritos distantes, são suficientes para criar uma atmosfera de angústia insuportável. Mesmo restrito fisicamente ao espaço do centro de operações, o filme assume um ritmo frenético, já que cada minuto sem resgate se transforma em uma eternidade. As barreiras burocráticas impostas para autorizar uma operação de salvamento urgente, sobretudo envolvendo uma criança, sufocam e indignam. Os socorristas querem agir imediatamente, mas estão presos a regras, protocolos e negociações que, paradoxalmente, colocam em risco tanto a vítima quanto aqueles que tentam salvá-la.

Se há algum ponto questionável na obra, talvez esteja nas atuações. Não a ponto de comprometer o impacto final, mas a escolha por manter a mesma intensidade dramática do início ao fim impede uma progressão emocional mais gradual. Esse efeito é potencializado pelo uso constante de closes nos rostos e nas expressões dos personagens, decisão que, embora coerente com a proposta claustrofóbica, acaba por nivelar o drama em um único tom. Por fim, A Voz de Hind Rajab é uma obra que recusa o conforto, e que ao misturar ficção com a realidade, se torna um registro doloroso da desumanização causada pela guerra, transformando uma simples ligação telefônica em um grito impossível de ignorar, e com um final que ficará pra sempre na minha memória.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Crítica: Drácula: Uma História de Amor Eterno (2025)

A história do Conde Drácula é amplamente conhecida. Desde os primórdios do cinema, incontáveis adaptações do romance de Bram Stoker chegaram às telas, seja sob o nome do próprio vampiro ou na figura icônica de Nosferatu. De volta aos cinemas após Dogman (2023), o diretor francês Luc Besson (de O Quinto Elemento e O Profissional) decide apresentar sua própria versão do mito, e embora tenha passado despercebido pelo grande público nos cinemas, Drácula: Uma História de Amor Eterno tem suas qualidades, em um filme esteticamente grandioso e narrativamente ambicioso.

A trama tem início em 1480, quando Drácula (Caleb Landry Jones) ainda não havia se tornado a criatura lendária que conhecemos. Príncipe da Valáquia, na região da atual Romênia, Vlad era respeitado tanto por sua posição na aristocracia quanto por sua devoção à Igreja Católica. Nesse período, ele vive uma paixão arrebatadora por Elisabeta (Zöe Bleu), amor plenamente correspondido e responsável por lhe conferir uma sensação de plenitude absoluta. No entanto, após a morte violenta da amada, Vlad renuncia a Deus em um ato de fúria e desespero, desencadeando a maldição que lhe concede a imortalidade e o transforma em vampiro.

Quatrocentos anos se passam, e o agora Conde Drácula vive isolado em seu castelo monumental. Durante muitos anos ele viajou o mundo tentando encontrar Elisabeta em outras mulheres, temente de que ela reencarnaria a qualquer momento. No entanto, ele nunca obteve sucesso, o que foi lhe deixando cada vez mais melancólico e recluso. A esperança ressurge quando ele fica sabendo da existência de Mina, uma jovem idêntica à Elisabeta, que vive em Paris e está noiva de Jonathan (Ewens Abid).

Embora a estética gótica remeta diretamente ao clássico Drácula de Bram Stoker (1992), de Francis Ford Coppola, Luc Besson imprime aqui uma assinatura bastante particular. O diretor aposta em elementos fantasiosos e quase barrocos, como gárgulas que ganham vida e servem como “empregados” do conde, além de sequências de dança que evocam musicais performáticos. O resultado é um visual exuberante e mais imaginativo do que o habitual, que casa com um ritmo frenético que não deixa o filme cair na monotonia. A fotografia é encantadora, bem como o figurino e os cenários, todos criados com muito esmero nos detalhes.

Na parte das atuações, o destaque é Caleb Landry Jones, ator que admiro e acompanho de perto desde o ótimo e desconhecido Nitram (2021). Sua interpretação confere ao Drácula um caráter ambíguo, oscilando entre a melancolia profunda e uma sedução quase trágica. Aqui, o vampiro deixa de ser apenas uma figura enigmática para assumir plenamente o papel de um amante condenado, movido pelo luto e pelo desejo eterno.

Diferentemente de outras versões do personagem, o filme dá um peso maior à questão religiosa, explorando o conflito entre fé, culpa e redenção, e acredito que este seja o seu único ponto fraco, sobretudo no desfecho raso que vai diretamente ao encontro desta abordagem do diretor. Entretanto, é inevitável dizer que Drácula: Uma História de Amor Eterno é uma experiência singular, em uma obra que une terror, romance e até mesmo ação com competência e apuro técnico.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Crítica: Família de Aluguel (2026)


Após uma volta por cima na carreira, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator em 2023 por seu papel em A Baleia, Brendan Fraser volta às telas em Família de Aluguel (Rental Family), uma comédia dramática leve e simpática que se propõe a refletir sobre a solidão no mundo moderno. Porém, apesar da boa intenção e de um ponto de partida instigante, o filme acaba se perdendo em soluções fáceis e em uma sucessão de clichês que infelizmente enfraquecem seu impacto.

A trama acompanha Phillip (Fraser), um ator estadunidense que alcançou fama inesperada no Japão após estrelar um comercial viral de pasta de dente. Anos depois, ainda vivendo no país, ele enfrenta dificuldades para conseguir novos papéis na indústria audiovisual. Para sobreviver, ele passa a trabalhar em um curioso ramo: o de atores contratados para se passarem por membros da família de seus clientes. Seja substituindo um parente falecido, representando um pai ausente em uma apresentação escolar ou simplesmente ocupando o lugar de um amigo em eventos sociais, sua função é encarnar essas figuras por algumas hora, ou até mesmo por dias.

Embora possa soar exótico aos nossos olhos, o serviço de “aluguel de família” é real e relativamente comum no Japão, e o tema já havia sido abordado em 2019 por Werner Herzog no ótimo Uma História de Família. Phillip nunca se sente plenamente confortável com o trabalho, mas o conflito moral se intensifica quando ele é contratado para interpretar o pai de Mia (Shannon Gorman), uma menina de doze anos que nunca conheceu o genitor biológico. Para que a garota possa concorrer a uma vaga na escola, a presença paterna se torna necessária, então sua mãe (Mari Yamamoto) decidi contratar Phillip. 

No entanto, para que a menina não tenha que ter o trabalho de mentir junto, ela pede que Phillip não conte nada para ela, e finja que é, de fato, o seu pai verdadeiro voltando para casa depois de muitos anos. A partir daí, o roteiro passa a explorar a relação entre Phillip e Mia, cujo prazo de validade somente um deles conhece. Enquanto isso, o protagonista também cruza o caminho de Kikuo (Akira Emoto), um ator aposentado que enfrenta a perda gradual da memória. Ao ajudá-lo a revisitar lembranças de sua antiga carreira, o filme ensaia uma reflexão sensível sobre a importância da memória na construção da identidade e dos vínculos humanos, em um dos momentos mais genuínos da narrativa.

Entre os vários temas que aborda, Família de Aluguel fala sobretudo da solidão na sociedade contemporânea, em que a fragilidade dos laços afetivos leva indivíduos a recorrerem a relações fabricadas para preencher vazios emocionais. É uma proposta pertinente e atual, mas que infelizmente se dilui nas escolhas da diretora Hikari, que aposta em um tom excessivamente melodramático. O resultado é um filme ingênuo demais, que prefere emocionar pela obviedade em vez de confiar na complexidade de suas próprias ideias.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Meus 15 Filmes Preferidos Lançados no Brasil em 2025

Como acontece todos os anos, chegou a hora de postar aqueles que, para mim, foram os melhores filmes do ano. Antes, porém, começo citando filmes que estão fora da lista final, mas que também merecem atenção com uma menção honrosa: São eles: Better Man: A História de Robbie Williams, de Michael Gracey, Um Completo Desconhecido, de James Mangold, Filhos, de Gustav Moller, Os Enforcados, de Fernando Coimbra, Homem com H, de Esmir Filho, e O Último Azul, de Gabriel Mascaro. Agora sem mais delongas, vamos à lista oficial:

15º Ladrões, de Darren Aronofsky

Ladrões é Darren Aronofsky com cara de Guy Ritchie. Empolgante e, até certo ponto, engraçadíssimo, o filme tem tudo que se espera de um thriller urbano: mafiosos caricatos, planos mirabolantes que dão errado, reviravoltas (muitas) e um ritmo frenético do início ao fim. É uma "bagunça" narrativa, mas que, por incrível que pareça, dá certo. Pode não ser a grande obra-prima do Aronofsky, mas é ágil, divertido e funciona muito bem naquilo que propõe.

14º Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi


Vencedor da Palma de Ouro em Cannes este ano, Foi Apenas um Acidente apresenta um dilema moral instigante, que fala sobre memória, traumas e cicatrizes do passado. A trama acompanha um grupo que foi torturado na prisão em um passado distante, e que se reencontram ao suspeitar que o algoz das torturas está entre eles. O peso ético da reação de cada um é o que move o filme, em um trabalho que reafirma a coragem de Panahi em expôr as fraturas mais profundas da sociedade iraniana diante de governos tiranos.

13º A Meia-Irmã Feia, de Emilie Blichfeldt

O conto da cinderela na perspectiva da vilã, em um bodyhorror grotesco, escatológico e visceral, que se assemelha muito mais ao conto original dos irmãos Grimm do que a versão suavizada pela Disney. O filme de estreia da diretora Emilie Blichfeldt foi para mim uma enorme surpresa. Blichfeldt não teve receio nenhum em subverter a narrativa do conto, trazendo o ponto de vista da meia-irmã feia de Cinderela, mostrando todos os desafios físicos e mentais que ela enfrenta para tentar ser a escolhida do "príncipe" no baile.

12º Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson

Um épico que combina revolução, política e drama familiar, e uma metáfora contundente da América contemporânea. É assim que eu definiria Uma Batalha Após a Outra, filme que marca o retorno de Paul Thomas Anderson aos holofotes após quatro anos. O roteiro, baseado em um livro de Thomas Pynchon, é extremamente vibrante, trazendo perspectivas diferentes de uma mesma história, que basicamente consiste em um grupo de revolucionários que tenta, de maneira transgressiva, reparar injustiças sociais e abalar as estruturas de poder. O grande destaque do filme é uma cena de perseguição em uma auto estrada, com toda certeza a cena mais tensa do ano.

11º Jay Kelly, de Noah Baumbach

Com Jay Kelly, Noah Bamubach presta um claro tributo a todos aqueles que vivem da sétima arte e acompanham suas vidas se entrelaçarem com as histórias que interpretam, encontrando na ficção um reflexo da própria existência. O filme acompanha o ator Jay, que está cada vez sentindo mais o peso do envelhecimento e o descompasso com o mundo ao redor, sensação que piora quando pessoas do passado retornam à sua vida, resgatando memórias boas e ruins.

10º A Vida de Chuck, de Mike Flanagan

Adaptado de um conto homônimo de Stephen King, A Vida de Chuck é uma obra nada convencional e cheia de metáforas, que proporciona inúmeras interpretações e pontos de vista, mas que encanta pela maneira peculiar e particular de abordar questões existenciais da vida humana. A história é contada em três capítulos, que por sua vez são mostrados de trás para a frente. Flanagan nos coloca diante de um cenário apocalíptico, onde o mundo está às vésperas de um apagão generalizado na internet, enquanto mudanças climáticas são responsáveis pela devastação de países inteiros. No meio disso tudo, um homem enigmático de meia-idade chamado Chuck está lutando contra uma doença terminal.

 Nosferatu, de Robert Eggers

Cento e dois anos depois do clássico inigualável de F. W. Murnau, e quarenta e cinco anos após a releitura marcante de Werner Herzog, Nosferatu esteve novamente entre nós. E mais uma vez, em boas mãos. Com uma autenticidade única, e uma assinatura própria que já se tornou marcante em tão pouco tempo de carreira, Robert Eggers nos apresenta sua visão fascinante e ao mesmo tempo horripilante do conde Orlof, sem deixar a essência do original de lado.

8º Flow, de Gints Zilbalodis

O "boom" de Flow aconteceu ainda no fim do ano passado, mas a estreia oficial no Brasil foi apenas em janeiro deste ano, e por isso ele não podia ficar de fora da lista. A animação brilhante, que encantou o mundo e disputou até o prêmio de melhor filme internacional no Óscar, tem uma doçura singular e acompanha a saga de um gatinho preto e seus amigos "incomuns" por um mundo devastado após uma tragédia climática.

7º Frankenstein, de Guillermo Del Toro

Conhecido por suas obras fantasiosas, marcadas por uma estética visual singular e pelo uso de metáforas que expõem as imperfeições humanas em seus extremos, o mexicano Guillermo del Toro encontrou em Frankenstein a história perfeita para expandir o seu universo autoral. O cineasta revisita o clássico de Mary Shelley imprimindo sua assinatura própria, numa combinação de lirismo sombrio, imaginação exuberante e uma profunda empatia por seus monstros, transformando o horror em compaixão, e o grotesco em beleza.

6º O Agente Secreto, de Kléber Mendonça Filho

Conquistando vários prêmios ao redor do mundo desde o seu lançamento em Cannes no mês de maio, e fortemente cotado para estar entre os finalistas no Óscar de 2026, O Agente Secreto foi o grande fenômeno do cinema nacional este ano. Ambientado na Recife dos anos 1970, o filme acompanha um homem que retorna à sua terra Natal após um tempo afastado, afim de recomeçar a vida. No entanto, o passado misterioso continua na sua cola, botando a vida dele e dos familiares em risco. Não é um filme que entrega todas as respostas, mas que fisga o espectador com uma trama instigante. Um thriller policial atemporal e universal.

5º Bird, de Andrea Arnold

A diretora britânica Andrea Arnold tem em Bird o seu melhor filme da carreira. A trama acompanha uma jovem de doze anos que vive com o irmão em uma região suburbana do Reino Unido e que, mesmo diante das dificuldades, nunca deixa de sonhar. O realismo social de Arnold aborda os desafios de uma vida com poucos recursos, sobretudo quando se tem uma família disfuncional e problemática, em um ambiente violento e nada acolhedor.

4º Desconhecidos, de JT Mollner

Um filme que chegou de mansinho, sem alarde, mas que para mim é o melhor suspense do ano. Contado de forma não linear, o roteiro de Desconhecidos (Strange Darling) apresenta diversos pontos de vista de uma mesma história, que vai fazendo o espectador, pouco a pouco, montar junto o quebra-cabeças de um crime. Sim, falando assim parece até mais do mesmo, mas a ruptura com o estilo clássico de narrativa que Mollner propõe brinca com perspectivas de uma maneira que, confesso, não lembro de ter visto igual.

3º A Hora do Mal, de Zach Cregger

Até eu estou surpreendido com um filme de terror entre os meus três preferidos do ano, mas o fato é que A Hora do Mal (Weapons) é realmente diferenciado. Na leva atual de filmes do gênero, ele se sobressai pela originalidade, não somente na questão narrativa, mas também na estética. Zach Cregger criou um clássico moderno, que é cadenciado e misterioso quando precisa ser, grotesco e violento no momento certo, e engraçado sem jamais perder sua seriedade.

2º Memórias de um Caracol, de Adam Elliot

Do mesmo criador do excelente Mary and Max (2009), Memórias de um Caracol é mais uma animação stop-motion comovente de Adam Elliot. O roteiro segue no mesmo campo emocional da obra anterior, trazendo importantes reflexões sobre a vida ao acompanhar uma garota melancólica e desajustada, que tenta encontrar esperanças mesmo diante das dificuldades extremas da vida. Cheio de diálogos espirituosos e metáforas, é um filme singelo e muito sensível, que faz repensar muito na vida.

1º Pecadores, de Ryan Coogler

O meu filme preferido de 2025 é também aquele que mais me surpreendeu. Após muitos burburinhos na internet, fui olhá-lo no cinema com uma boa expectativa, mas sem ler absolutamente nada da história, e essa foi uma escolha certeira, que engrandeceu ainda mais a experiência para mim. Música, história, terror e cultura negra, tudo unido em um roteiro intenso e visceral, que tem em sua virada de chave o ponto máximo do cinema no ano.

Crítica: Tudo o que Resta de Você (2025)


O conflito entre Israel e Palestina é complexo, traumático e de longa data. Todos crescemos acompanhando notícias na televisão, como se se tratasse de uma guerra eterna, fadada a nunca encontrar um desfecho. Desde o fim do século XIX, e de maneira ainda mais brutal a partir da metade do século XX, milhares de famílias tiveram suas vidas atravessadas pela violência, pelo deslocamento forçado e pela perda. Tudo o Que Resta de Você (All That's Left of You) conta a história de uma delas, acompanhando três gerações diferentes que cresceram com a Guerra literalmente na porta de casa.

O filme se inicia em 1948, ano da Nakba, quando forças sionistas, com apoio do Reino Unido, tomam à força extensas regiões da Palestina para a fundação do Estado de Israel. Entre as cidades tomadas pelo judeus está Jaffa, onde Sharif (Adam Bakri) vivia com a família, cultivando laranjas em campos férteis e abundantes. A perseguição sistemática obriga a população muçulmana local a fugir para campos de refugiados na Cisjordânia, dando início a um êxodo que marcaria a história do povo palestino. A família de Sharif parte, mas ele decide ficar para trás, junto de outros homens, na tentativa desesperada de formar uma resistência. Como era de se esperar diante da assimetria de forças, a iniciativa fracassa: Sharif é capturado e enviado a um campo de trabalhos forçados, de onde retorna anos depois, marcado por cicatrizes visíveis e invisíveis.

Trinta anos se passam, e agora o roteiro acompanha os filhos de Sharif já adultos, vivendo na Cisjorânia. O patriarca, por sua vez, permanece apenas fisicamente presente: sua mente parece aprisionada em um passado que nunca deixou de existir. Claramente desorientado, Sharif vive entre silêncios e lapsos de memória que lhe rasgam por dentro. A família sobrevive sob uma falsa sensação de normalidade, já que a cidade onde vivem está submetida a um rígido controle militar, com toques de recolher arbitrários e a constante ameaça de punições severas. A palavra "paz" nunca esteve no vocabulário da família em décadas.

Na segunda metade do filme, o protagonismo recai sobre Salim, filho de Sharif. A narrativa, que antes acompanhava sua formação, avança no tempo para mostrá-lo adulto, casado com Hanan (interpretada pela própria diretora do filme) e trabalhando como professor. No entanto, a tentativa de construir uma vida comum é novamente interrompida pela violência. Em meio a mais um período de tensões militares, uma tragédia atinge o núcleo familiar, desta vez envolvendo Noor (Muhammad Abed Elrahman), filho do casal, um adolescente que desejava apenas viver a juventude como qualquer outro. Porém, a realidade em que a família está inserida nunca foi e nunca será normal.

O ato final, quase estruturado como um epílogo melancólico, acompanha Salim já idoso, retornando a Jaffa após décadas de ausência. O reencontro com a cidade evidencia não apenas as transformações urbanas e arquitetônicas, mas também o apagamento cultural e simbólico de uma história que lhe foi arrancada. Tudo o Que Resta de Você é, por fim, um drama familiar que trata sobre memórias, perdas, identidade e resiliência. Um filme que lembra que, por trás dos números e das manchetes, existem vidas inteiras marcadas por uma ferida que insiste em não cicatrizar, e um povo que, mais uma vez, em pleno 2025, precisa pedir socorro.