Representante da Áustria no último Oscar de filme internacional, Peacock dialoga diretamente com obras recentes como Uma História de Família (2019), de Hirokazu Kore-eda, e Família de Aluguel (2025), de Hikari, que exploram não apenas a solidão do mundo moderno, onde é preciso terceirizar o afeto, mas sobretudo a crescente incapacidade do ser-humano em lidar com desafios habituais da vida.
A trama acompanha Matthias (Albrecht Schuch), funcionário de uma empresa especializada em “aluguel de relações humanas”. Ele pode assumir o papel de pai em uma apresentação escolar, de filho afetuoso em uma reunião familiar, ou de qualquer figura que preencha lacunas emocionais alheias. Trata-se de um trabalho que exige precisão, controle e, acima de tudo, ausência de identidade própria. Como o próprio personagem diz, diferente de uma ator de ficção que pode refazer a mesma cena incontáveis vezes, ele só tem uma única chance na vida real do personagem cujo lugar está ocupando, e não pode cometer erros.
Esse domínio absoluto sobre a performance, no entanto, não se estende à sua vida pessoal. Seu casamento com Sophia (Julia Franz Richter) se encontra em frangalhos: ela o percebe como alguém cada vez mais distante, incapaz de se posicionar nas mínimas situações, como se estivesse permanentemente operando no modo automático. E a ironia aqui é evidente: Matthias ganha a vida encenando vínculos autênticos, mas é incapaz de sustentar os seus.
Sua vida profissional começa a ruir quando ele é contratado por uma mulher que deseja treinar confrontos verbais com o próprio marido. Sempre derrotada nos argumentos, ela quer aprender a se impor. O que inicialmente parece um exercício controlado de comunicação acaba desencadeando consequências reais, culminando na separação do casal, e, posteriormente, na perseguição de Matthias pelo homem abandonado. É o momento em que o “faz de conta” deixa de ser seguro e invade, de maneira irreversível, o campo da realidade.
Visto como uma tragicomédia que beira o absurdo, Peacock constrói um mundo emocionalmente gélido, onde afeto é substituído por validação. Um universo em que pessoas não trocam elogios, mas avaliações na internet após se encontrarem, e onde até mesmo o cão da família é alugado por um tempo determinado em contrato. Mais do que um retrato da solidão, o filme propõe uma reflexão incômoda sobre a terceirização das emoções e o esvaziamento da experiência humana.





.webp)












