sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Crítica: De Gaulle: A França Livre - Parte 1 (2026)



Dirigido por Antonin Baudry, De Gaulle: A França Livre - Parte 1 é a primeira de duas partes desta superprodução que se propõe a retratar a trajetória do General Charles de Gaulle, uma das figuras políticas mais importantes da história da França, que liderou as Forças Francesas Livres durante a invasão nazista no país em 1940.


A trama tem início em maio de 1940, quando o exército alemão, em plena expansão territorial pela Europa, invade a França. As forças francesas sucumbem em poucas semanas, levando sua liderança a considerar a rendição como única saída. É nesse cenário que o marechal Philippe Pétain, herói da Primeira Guerra Mundial, decide assinar um armistício com Adolf Hitler, aceitando as condições impostas pelos alemães e estabelecendo um regime colaboracionista. Recém-nomeado subsecretário de Estado da Defesa Nacional e da Guerra, Charles De Gaulle (Simon Abkarian) se recusa a aceitar a capitulação e parte para Londres, na esperança de conseguir apoio internacional para sua luta contra os nazistas.

É da capital britânica que o general faz sua histórica transmissão pela rádio BBC, no dia 18 de junho de 1940, reafirmando sua determinação em resistir e convocando militares, engenheiros e operários franceses que estivessem em território britânico a se unir à causa. O caminho, porém, está longe de ser simples. Inicialmente desacreditado, De Gaulle encontra dificuldades para conquistar aliados e acaba sendo tratado pelo próprio governo francês como traidor, chegando a ser condenado à morte. Aos poucos, contudo, sua obstinação começa a render frutos, sobretudo quando conquista a confiança do primeiro-ministro britânico Winston Churchill, que passa a oferecer apoio político e recursos à resistência.


Com o movimento em formação, De Gaulle começa a reunir voluntários dispostos a lutar pela França, e uma parte fundamental desse processo acontece nos territórios africanos sob domínio colonial francês, como Chade, Camarões e Gabão. O filme evidencia justamente um fato que costuma ser deixado em segundo plano nas narrativas sobre o tema: muitos dos homens que combateram em nome da libertação francesa não eram europeus, mas soldados africanos recrutados nas colônias, conhecidos como tirailleurs. Esta primeira parte se encerra quando a trajetória de De Gaulle começa a entrar em uma nova fase, preparando o terreno para os acontecimentos que transformariam a resistência em uma força política e militar decisiva para a libertação do país.

O que mais me chama a atenção, é a maneira como Antonin Baudry retrata a personalidade de seu protagonista. O diretor não tenta esconder a arrogância de De Gaulle, um homem de temperamento difícil, extremamente orgulhoso e convencido de que sua visão era a única capaz de salvar o país. Sua obstinação, que em muitos momentos beira a intransigência, é também aquilo que o mantém de pé quando praticamente ninguém acredita em sua causa. E é dessa contradição que começa a nascer o mito.


A atuação de Simon Abkarian é brilhante e certamente o ponto alto do longa, mas também não posso deixar de elogiar o primoroso trabalho técnico, que transforma a produção em uma experiência visual marcante. Mais do que retratar um herói, De Gaulle: A França Livre apresenta um homem que, em meio ao caos e à derrota, insiste em acreditar na possibilidade de um futuro diferente para seu país. Um personagem que não conquista seu espaço necessariamente pelo carisma ou pela capacidade de conciliação, mas pela obstinação em defender aquilo em que acredita, mesmo quando praticamente todos parecem ter desistido.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Crítica: La Bola Negra (2026)


Premiado em Cannes e apontado como um dos nomes mais fortes na briga pelo próximo Óscar de melhor filme internacional, La Bola Negra, dirigido pelos espanhóis Javier Ambrossi e Javier Calvo, parte de uma peça inacabada deixada pelo poeta e dramaturgo Federico García Lorca, assassinado em 1936, durante os primeiros meses da Guerra Civil Espanhola. A partir dessa obra brutalmente interrompida, o filme constrói uma narrativa que atravessa diferentes períodos da história do país para refletir sobre repressão, identidade e memória.


A trama se desenvolve em três épocas distintas da história espanhola. A primeira nos leva a 1937, em meio à Guerra Civil, quando acompanhamos Sebastián (Guitarricadelafuente), um jovem músico recrutado pelo exército após seu vilarejo ser bombardeado por aviões italianos. Ele fica encarregado de cuidar de Rafael (Miguel Bernardeau), um integrante da resistência capturado pelas forças militares e encaminhado à enfermaria. Sebastián se apaixona pelo rapaz, e o desejo mútuo que surge os coloca em uma posição extremamente perigosa, não apenas pelas tensões políticas que os cercam, mas também pela sociedade profundamente conservadora da época, onde homossexualidade representava uma sentença de exclusão e violência.

Em paralelo, somos apresentados a Carlos (Milo Quifes), cuja história se passa em 1932 e estabelece uma conexão mais direta com a peça de Lorca que inspira o filme. Proveniente de uma família burguesa, o jovem tenta ingressar em uma espécie de fraternidade masculina, submetendo-se a um processo de admissão que depende do voto secreto de seus integrantes. Bolas brancas representam a aceitação, enquanto as pretas simbolizam a rejeição. Ao final da votação, Carlos descobre que a maioria dos membros não deseja sua entrada no grupo, em grande parte devido aos rumores sobre sua sexualidade. Para ser aceito futuramente, Carlos vai precisar confrontar a possibilidade de esconder aquilo que verdadeiramente é.


Por fim, acompanhamos Alberto (Carlos González), um jovem pesquisador que vive em Madri nos dias atuais. Diferentemente dos personagens das outras duas narrativas, ele pertence a uma geração que conquistou maior liberdade para viver e expressar sua sexualidade, fruto de décadas de luta por direitos e reconhecimento. Após a morte do avô, Alberto recebe, junto à herança, um envelope contendo uma carta misteriosa e um manuscrito. A descoberta desses documentos dá início a uma investigação que o conduz ao passado familiar e estabelece os vínculos entre as três histórias, revelando como experiências de repressão e luta podem atravessar gerações.

O roteiro costura essas narrativas para abordar temas como fascismo, homofobia, família, teatro e memória coletiva, construindo um épico de proporções monumentais tanto em sua forma quanto em seu conteúdo. À primeira vista, as três histórias parecem seguir caminhos independentes, situadas em contextos históricos e sociais diferentes. No entanto, todas compartilham um eixo central: a homossexualidade e as diferentes formas de repressão às quais ela foi submetida ao longo do tempo.


Ao aproximar essas histórias separadas por décadas, La Bola Negra monstra que a conquista de direitos não apaga os traumas produzidos pela intolerância ao longo de décadas. Da mesma forma, mostra como o silêncio imposto a uma geração pode continuar repercutindo na vida de tantas outras. Afinal, lembrar aqueles que foram silenciados é uma forma de resistência, e talvez uma das maneiras mais importantes de impedir que a história volte a se repetir.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Crítica: Hope - O Primeiro Contato (2026)


Dirigido pelo sul-coreano Na Hong-jin, Hope: Primeiro Impacto (Hope) estreou no Festival de Cannes deste ano e deu muito o que falar ao concorrer à Palma de Ouro. De fato, trata-se de um filme bastante diferente daquilo que estamos acostumados a ver em um dos festivais mais prestigiados do cinema mundial, diante dos olhares da crítica mundial. Considerado o longa-metragem mais caro já produzido na Coreia do Sul, a obra aposta em muita ação, criaturas monstruosas e efeitos visuais grandiosos, aproximando-se da estética dos grandes blockbusters de Hollywood.


A trama se passa em um vilarejo fictício de aparência bucólica, chamado de Hope Harbor, localizado em uma região desmilitarizada na fronteira entre as duas Coreias. Em um dia aparentemente corriqueiro, o chefe de polícia Bum-seok (Hwang Jung-min) recebe a notícia de que um grupo de caçadores encontrou um boi morto e mutilado no meio de uma estrada. O que restou do animal apresenta profundas marcas de garras, levando os homens a suspeitar do ataque de um tigre vindo da floresta. No entanto, ao chegar à fazenda de onde o bovino havia saído, eles encontram novos sinais de destruição e os restos mortais do fazendeiro, indicando que a ameaça é muito maior do que imaginavam.

Ao retornar à cidade, Bum-seok encontra corpos decapitados espalhados pelas ruas estreitas, além de inúmeros prédios destruídos. Durante aproximadamente cinquenta minutos, o filme constrói uma atmosfera sufocante de medo e mistério, e essa é, de longe, sua melhor parte. É impossível não ficar absorto a cada passo dos personagens, enquanto tentamos imaginar que tipo de ameaça estão enfrentando. Nesse primeiro momento, vemos apenas pessoas arremessadas violentamente, corpos mutilados e um rastro de destruição assustador, enquanto os moradores tentam reagir com armas que se mostram completamente insuficientes diante do perigo.


Na segunda metade, temos finalmente o primeiro vislumbre do monstro. E, de fato, sua aparência foge completamente do esperado. Não vou dar spoilers do seu aspecto, pois acho que o fator surpresa é importante, mas quando o grupo de moradores descobre uma possível nave especial cravada na floresta, é possível concluir que ele não somente venho de outro planeta, como também não está sozinho. Provido de uma força descomunal e uma altura que lembra os Na'vi, de Avatar, a criatura permanece envolta em mistério, e pouco sabemos sobre suas origens ou motivações.

Além do policial Bum-seok, duas personagens femininas desempenham papéis fundamentais na trama: a policial Sung-ae (Jung Ho-yeon) e a chefe do centro médico de Hope (Hwang Seok-jeong), responsável pela autópsia do primeiro monstro capturado e morto. Sua participação é crucial para que os moradores comecem a compreender a biologia da criatura e, consequentemente, a dimensão da ameaça que enfrentam. Outro aspecto interessante é o humor peculiar do filme, que encontra espaço para piadas mesmo em meio ao caos. Os personagens estão longe de ser heróis invencíveis e tampouco tomam sempre as melhores decisões, e é justamente essa humanidade que confere graça a situações que, em outras circunstâncias, seriam apenas aterrorizantes.


O principal problema de Hope, porém, está em suas sequências finais, quando a narrativa se prolonga muito além do necessário. Embora as cenas de perseguição sejam visualmente impressionantes, elas acabam se tornando excessivamente longas e cansativas, presas a uma dinâmica repetitiva que compromete o ritmo da obra. Para completar, o desfecho deixa diversas questões em aberto e transmite a impressão de que o diretor pretende expandir esse universo em possíveis continuações. A possibilidade de uma franquia não seria, por si só, um problema, mas a maneira como o filme termina faz com que a história pareça incompleta.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Crítica: Nimrods - A Green Day Comedy (2026)


Devo iniciar essa crítica deixando claro que escrevo ela muito mais com a emoção do que com a razão. Afinal, Green Day foi a primeira banda que eu me considerei verdadeiramente fã quando comecei a ouvir música no início dos anos 2000. Na adolescência, fiz parte de um clube de fãs, que se juntava na Redenção, em Porto Alegre, para tocar músicas da banda no violão. Na mesma época, comprei toda a discografia em CD's, tinha pôsteres deles espalhados pelas paredes do meu quarto, e cheguei a acampar para pegar grade no primeiro show da banda por aqui. Dito isso, é claro que fiquei muito curioso para ver Nimrods - A Green Day Comedy, filme inspirado na história real de Billie Joe, Mike Dirnt e Tré Cool antes da fama.

Evidentemente, sabia que não deveria esperar grandes méritos técnicos de uma obra que prometia ser despretensiosa. No entanto, me surpreendi positivamente com um filme que, apesar de simples, consegue ser maduro em sua proposta. Em uma época onde até comédias parecem ser obrigadas a apresentar algum conceito moral, o diretor Lee Kirk não se apega a essa preocupação, e diverte justamente por nos remeter a boas comédias musicais do passado, como Rock n' Roll High School (1979) e Detroit Rock City (1999).

O roteiro acompanha Tommy (Mason Thames), Fred (Kyrl Coffman) e Ched (Ryan Foust), três jovens que formam a banda de garagem Analog Dogs. Enquanto Tommy e Fred são típicos adolescentes rebeldes, que fogem da escola e rejeitam qualquer tipo de controle, Ched se mostra um verdadeiro "nerd", parecendo completamente deslocado do grupo. Isso, porém, não abala a forte amizade que existe entre os três, e o desejo compartilhado de assistir a banda favorita, Green Day, que irá tocar na cidade na semana do natal.



Em um encontro rápido em uma loja de discos com os membros do Green Day, os jovens entregam uma fita demo gravada com a primeira música deles, e o número de Tommy escrito nela. Essa é a deixa para que o irmão de Tommy, Wayne (Keen Ruffalo), resolva pregar uma peça nele: ligar se passando pelo baterista do Green Day, convidando a Analog Dogs para abrir o show deles em Los Angeles na virada do ano novo. A mentirinha faz com que Tommy, Fred e Ched partam em uma aventura do Kansas City em direção a Califórnia, dando início a um road movie que tem tudo aquilo que se espera de uma comédia do gênero.

No caminho, vários percalços atrapalham a jornada, como um carro estragado, uma experiência com alucinógenos e até um suposto serial killer. Entretanto, as situações bizarras e engraçadas vão apenas reforçando o espírito de união e amizade entre eles, sempre com a boa música do Green Day por trás. Há rebeldia, há algumas ações irresponsáveis, mas há também personagens extremamente simpáticos, que conseguem conquistar imediatamente o espectador.

O roteiro é previsível do início ao fim, mas o diretor conduz tudo de uma maneira que isso não soe cansativo e nem estrague a experiência como um todo. Para quem é fã da banda, claro que é um prato cheio. Além das músicas, temos diversas referências diretas à banda, como o coelho Bunny, a guitarra Blue (clássico instrumento do vocalista Billie Joe Armstrong), uma guerra de lama em um show de punk rock, e claro, os próprios membros da banda aparecendo como eles mesmos. Mas o filme funciona até mesmo para quem não é fã, e apenas gosta de um filme descompromissado e que não tenta disfarçar suas limitações.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Crítica: Pressão (2026)


Em 6 de junho de 1944, tropas militares Aliadas iniciaram a Operação Overlord nas praias da Normandia, naquele que ficou conhecido como o Dia D. O objetivo da missão, liderada pelo general norte-americano Dwight D. Eisenhower, era criar uma nova frente de batalha para libertar a Europa Ocidental do controle nazista. Pressão (Pressure), do diretor Anthony Maras, conta as 72 horas que antecederam esta ação militar que mudou os rumos da Segunda Guerra, mas sob uma ótica um tanto curiosa e até então inexplorada: a dos meteorologistas do exército.


Quando se fala em estratégias de batalhas, poucos lembram de algo determinante para que elas funcionem: o clima. Ao invés de tiros e explosões, o filme nos coloca dentro de salas militares claustrofóbicas, onde mapas e probabilidades meteorológicas são discutidas e analisadas meticulosamente. Afinal, para o sucesso de uma operação de tamanho porte e importância, era essencial saber se o tempo estaria propício. É neste contexto que o capitão James Stagg (Andrew Scott), um renomado meteorologista britânico, é chamado para entregar a previsão do tempo mais assertiva possível.

É bom lembrar que estamos falando de 80 anos atrás, período em que a tecnologia que conhecemos hoje ainda engatinhava. E com os equipamentos de meteorologia, a situação não era diferente. Por meio de engenhocas que, aos nossos olhos, parecem bastante estranhas, Stagg chegou a uma conclusão que ninguém queria ouvir: a data marcada para o deslocamento tinha chances reais de tempestades severas. A partir de então, grandes embates surgem entre Stagg e o Coronel Krick (Chris Messina), da força aérea dos Estados Unidos, que em contrapartida apresenta dados diferentes de acordo com seus métodos particulares de estudo, prevendo bom tempo para a ocasião. E como adiar a operação não fazia parte dos planos, ficou fácil adivinhar de que lado eles optariam ficar.


A estrutura do filme é bastante protocolar. O roteiro, desde o início, caminha de forma rasa para uma conclusão óbvia sobre quem dos dois está certo, e isso acaba tirando boa parte do suspense que poderia manter a narrativa em ebulição. Entretanto, não dá para considerar o filme um grande desastre. A ideia de acompanhar uma das maiores operações militares da história a partir das previsões meteorológicas é, por si só, excelente, justamente porque desloca o foco das batalhas para uma disputa silenciosa, na qual uma informação aparentemente banal seria determinante para a vida de milhares de soldados.

Por fim, Pressão mostra que, por trás de grandes acontecimentos históricos, muitas vezes existem decisões tomadas longe dos campos de batalha, e cuja importância nem temos ideia. Afinal, quem iria imaginar que uma previsão meteorológica poderia mudar o rumo da humanidade? É uma perspectiva no mínimo interessante, ainda que falte mais ousadia ao filme.