sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Crítica: Cartas Amarelas (2026)


Após uma tentativa de golpe de estado que ocorreu em julho de 2016, o governo turco de Recep Tayyip Erdogan iniciou uma caça às bruxas institucional, realizando expurgos em massa em universidades, órgãos públicos e companhias culturais, onde milhares de funcionários foram arbitrariamente demitidos sob acusações de manterem algum vínculo ideológico com os golpistas. Esse episódio serve como base para Cartas Amarelas (Gelbe Briefe), filme do diretor Ilker Çatak, que aborda o autoritarismo e a progressiva perda de liberdades que a sociedade turca vem enfrentando desde então.


Vencedor do Urso de Ouro de melhor filme no último Festival de Berlim, o filme acompanha o casal Derya (Özgü Namal) e Aziz (Tansu Biçer), que leva uma vida aparentemente tranquila na capital do país, Ancara, enquanto as notícias na televisão mostram que fora das suas quatro paredes as coisas estão bem caóticas. Derya é uma renomada atriz de teatro, enquanto Aziz é dramaturgo e professor universitário. Os dois colaboram nas peças escritas por Aziz, e demonstram um forte engajamento político redes sociais, embora sem grandes exposições públicas. Isso não seria problema se Derya, após uma apresentação teatral, não tivesse se negado a tirar uma foto com um político importante. Esta recusa acaba atraindo uma investigação do governo contra eles, durante a qual também vem à tona a informação de que Aziz teria incentivado seus alunos a participarem de uma manifestação política.

A trama toma novos rumos quando o casal e todos os seus colegas de profissão passam a receber as famosas cartas amarelas do governo, que anunciam suas demissões. Mais do que isso, Aziz também terá que responder perante um tribunal pelo suposto crime de insubordinação e incitação ao terrorismo. A perseguição política os obriga a se mudar para Istambul, levando junto a filha adolescente Ezgi (Leyla Smyrna Cabas). A partir de então, os dois precisam encontrar alternativas para reconstruirem suas vidas: Aziz passa a trabalhar como taxista, e a perda dos privilégios e do conforto que tinham antes, acaba inevitavelmente afetando a relação dentro de casa, trazendo à tona conflitos que até então permaneciam em segundo plano.

Sempre que a democracia começa a ruir em algum país, a classe artística e intelectual costuma estar entre as primeiras que sofrem os efeitos da repressão. O roteiro ilustra muito bem essa realidade, mas também não deixa de apontar a hipocrisia de uma parcela privilegiada da sociedade, que só parece despertar para os perigos do autoritarismo quando se torna vítima direta dele. Uma das cenas que melhor evidencia essa contradição acontece quando o casal é questionado sobre o motivo de só ter tomado conhecimento da gravidade da situação política do país naquele momento, e não antes, quando jovens e trabalhadores já estavam nas ruas lutando contra as injustiças.


Se a primeira metade do filme consegue transmitir com bastante eficiência a atmosfera sufocante e amedrontadora de uma sociedade submetida a um regime autoritário, a segunda passa a concentrar suas atenções nos conflitos internos e familiares dos protagonistas. O elemento que ainda mantém a história conectada à luta contra a opressão é a ideia de Aziz para uma peça de teatro clandestina e subversiva, que promete expor os métodos do regime. Afinal, em tempos de autoritarismo, a arte pode se tornar uma poderosa ferramenta de resistência, capaz de denunciar injustiças e provocar reflexões. Entretanto, ao final, Derya e Aziz acabam refletindo uma parcela da classe intelectual que, diante da ameaça, prefere fazer concessões para preservar aquilo que ainda lhes resta. Entre a sobrevivência da estrutura familiar e o compromisso com os ideais progressistas, eles optam pelo comodismo e pela omissão, simbolizando como o autoritarismo vence ao cansar e domesticar seus opositores.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Crítica: Love of Your Life (2026)


O luto é um tema tão abordado no cinema quanto o amor, mas quem disse que é possível separar um sentimento do outro? Em Love of Your Life, a diretora Rachel Morrison nos apresenta uma história que vai muito além do drama romântico, abordando, de maneira surpreendentemente madura, temas como perda, resiliência e, sobretudo, auto descoberta.


O longa acompanha sete anos na vida de Maya (Qualley), uma enfermeira de Boston que, em sua vida privada, sempre foi bastante reservada. Fora da rotina cansativa do hospital, ela mantém um hobby de restaurar móveis antigos, e é através desta atividade que ela conhece Charlie (Gabriel Basso), que a chama para sair após lhe vender uma pequena estante. A química entre os dois é imediata, apesar das personalidades distintas. Diferentemente de Maya, Charlie é cheio de vida, e essa convivência faz com que ela passe a enxergar o mundo sob uma nova perspectiva. Em apenas um ano, os dois se casam, dando início a uma relação que parece viver em uma eterna lua de mel.

Com o agravamento da pandemia em 2020, Maya passa a ter que trabalhar mais tempo no hospital e, mesmo tomando todos os cuidados possíveis, acaba contraindo o corona vírus e passando para Charlie, que por sua vez,  sofre de asma desde criança. Esse é o grande ponto de ruptura da história e, justamente por trazer à tona uma memória ainda tão viva em todos nós, também representa seu momento mais impactante. O desespero nas alas hospitalares, os hospitais de campanha, as máscaras e os equipamentos de proteção, e a agonia de testemunhar pessoas próximas sucumbindo à doença. Tudo é retratado com uma brutalidade impressionante, mas sem jamais soar exagerado ou apelativo.


A segunda parte do filme apresenta uma nova versão da mesma personagem. Sem aquele que lhe ensinou o verdadeiro significado do amor, Maya precisa reaprender a viver, talvez um dos maiores desafios para quem perdeu não apenas uma pessoa amada, mas também parte da própria vontade de seguir em frente. Maya decide abandonar tudo e partir rumo à Europa, sem avisar ninguém, onde passa a trabalhar com telemedicina para se sustentar. Nesse período, entrega-se às bebedeiras e ao sexo casual constante, prometendo a si mesma nunca mais se permitir amar. Mas, como o destino costuma pregar peças, ela encontra pelo caminho Felix (Aaron Pierre), e se vê diante da possibilidade de criar novos laços novamente mesmo carregando profundas feridas do passado.

O roteiro tem vários momentos previsíveis, mas a direção conduz a narrativa com bastante equilíbrio estes momentos, evitando cair em armadilhas comuns do gênero e dramatizar excessivamente a dor da personagem. Os romances também estão longe de soarem piegas, pois há sempre uma complexidade interessante de acompanhar por trás. Margaret Qualley tem uma presença explosiva, e entrega uma atuação que reforça mais uma vez o porquê de ser, hoje, uma das atrizes mais requisitadas de Hollywood. Sua personagem não é perfeita, e toma atitudes controversas e egoístas, mas é justamente isso que ajuda a reforçar sua humanidade.


Se há um ponto negativo, talvez seja sua reta final, quando o filme parece se prolongar além do necessário, comprometendo um pouco o ritmo de uma história que, até então, vinha sendo conduzida com bastante sensibilidade. No entanto, isso de forma alguma atrapalha o resultado final. Love of Your Life é, no fim das contas, um filme delicado e muito sensível sobre a capacidade de se reinventar.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Crítica: De Gaulle: A França Livre - Parte 1 (2026)



Dirigido por Antonin Baudry, De Gaulle: A França Livre - Parte 1 é a primeira de duas partes desta superprodução que se propõe a retratar a trajetória do General Charles de Gaulle, uma das figuras políticas mais importantes da história da França, que liderou as Forças Francesas Livres durante a invasão nazista no país em 1940.


A trama tem início em maio de 1940, quando o exército alemão, em plena expansão territorial pela Europa, invade a França. As forças francesas sucumbem em poucas semanas, levando sua liderança a considerar a rendição como única saída. É nesse cenário que o marechal Philippe Pétain, herói da Primeira Guerra Mundial, decide assinar um armistício com Adolf Hitler, aceitando as condições impostas pelos alemães e estabelecendo um regime colaboracionista. Recém-nomeado subsecretário de Estado da Defesa Nacional e da Guerra, Charles De Gaulle (Simon Abkarian) se recusa a aceitar a capitulação e parte para Londres, na esperança de conseguir apoio internacional para sua luta contra os nazistas.

É da capital britânica que o general faz sua histórica transmissão pela rádio BBC, no dia 18 de junho de 1940, reafirmando sua determinação em resistir e convocando militares, engenheiros e operários franceses que estivessem em território britânico a se unir à causa. O caminho, porém, está longe de ser simples. Inicialmente desacreditado, De Gaulle encontra dificuldades para conquistar aliados e acaba sendo tratado pelo próprio governo francês como traidor, chegando a ser condenado à morte. Aos poucos, contudo, sua obstinação começa a render frutos, sobretudo quando conquista a confiança do primeiro-ministro britânico Winston Churchill, que passa a oferecer apoio político e recursos à resistência.


Com o movimento em formação, De Gaulle começa a reunir voluntários dispostos a lutar pela França, e uma parte fundamental desse processo acontece nos territórios africanos sob domínio colonial francês, como Chade, Camarões e Gabão. O filme evidencia justamente um fato que costuma ser deixado em segundo plano nas narrativas sobre o tema: muitos dos homens que combateram em nome da libertação francesa não eram europeus, mas soldados africanos recrutados nas colônias, conhecidos como tirailleurs. Esta primeira parte se encerra quando a trajetória de De Gaulle começa a entrar em uma nova fase, preparando o terreno para os acontecimentos que transformariam a resistência em uma força política e militar decisiva para a libertação do país.

O que mais me chama a atenção, é a maneira como Antonin Baudry retrata a personalidade de seu protagonista. O diretor não tenta esconder a arrogância de De Gaulle, um homem de temperamento difícil, extremamente orgulhoso e convencido de que sua visão era a única capaz de salvar o país. Sua obstinação, que em muitos momentos beira a intransigência, é também aquilo que o mantém de pé quando praticamente ninguém acredita em sua causa. E é dessa contradição que começa a nascer o mito.


A atuação de Simon Abkarian é brilhante e certamente o ponto alto do longa, mas também não posso deixar de elogiar o primoroso trabalho técnico, que transforma a produção em uma experiência visual marcante. Mais do que retratar um herói, De Gaulle: A França Livre apresenta um homem que, em meio ao caos e à derrota, insiste em acreditar na possibilidade de um futuro diferente para seu país. Um personagem que não conquista seu espaço necessariamente pelo carisma ou pela capacidade de conciliação, mas pela obstinação em defender aquilo em que acredita, mesmo quando praticamente todos parecem ter desistido.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Crítica: La Bola Negra (2026)


Premiado em Cannes e apontado como um dos nomes mais fortes na briga pelo próximo Óscar de melhor filme internacional, La Bola Negra, dirigido pelos espanhóis Javier Ambrossi e Javier Calvo, parte de uma peça inacabada deixada pelo poeta e dramaturgo Federico García Lorca, assassinado em 1936, durante os primeiros meses da Guerra Civil Espanhola. A partir dessa obra brutalmente interrompida, o filme constrói uma narrativa que atravessa diferentes períodos da história do país para refletir sobre repressão, identidade e memória.


A trama se desenvolve em três épocas distintas da história espanhola. A primeira nos leva a 1937, em meio à Guerra Civil, quando acompanhamos Sebastián (Guitarricadelafuente), um jovem músico recrutado pelo exército após seu vilarejo ser bombardeado por aviões italianos. Ele fica encarregado de cuidar de Rafael (Miguel Bernardeau), um integrante da resistência capturado pelas forças militares e encaminhado à enfermaria. Sebastián se apaixona pelo rapaz, e o desejo mútuo que surge os coloca em uma posição extremamente perigosa, não apenas pelas tensões políticas que os cercam, mas também pela sociedade profundamente conservadora da época, onde homossexualidade representava uma sentença de exclusão e violência.

Em paralelo, somos apresentados a Carlos (Milo Quifes), cuja história se passa em 1932 e estabelece uma conexão mais direta com a peça de Lorca que inspira o filme. Proveniente de uma família burguesa, o jovem tenta ingressar em uma espécie de fraternidade masculina, submetendo-se a um processo de admissão que depende do voto secreto de seus integrantes. Bolas brancas representam a aceitação, enquanto as pretas simbolizam a rejeição. Ao final da votação, Carlos descobre que a maioria dos membros não deseja sua entrada no grupo, em grande parte devido aos rumores sobre sua sexualidade. Para ser aceito futuramente, Carlos vai precisar confrontar a possibilidade de esconder aquilo que verdadeiramente é.


Por fim, acompanhamos Alberto (Carlos González), um jovem pesquisador que vive em Madri nos dias atuais. Diferentemente dos personagens das outras duas narrativas, ele pertence a uma geração que conquistou maior liberdade para viver e expressar sua sexualidade, fruto de décadas de luta por direitos e reconhecimento. Após a morte do avô, Alberto recebe, junto à herança, um envelope contendo uma carta misteriosa e um manuscrito. A descoberta desses documentos dá início a uma investigação que o conduz ao passado familiar e estabelece os vínculos entre as três histórias, revelando como experiências de repressão e luta podem atravessar gerações.

O roteiro costura essas narrativas para abordar temas como fascismo, homofobia, família, teatro e memória coletiva, construindo um épico de proporções monumentais tanto em sua forma quanto em seu conteúdo. À primeira vista, as três histórias parecem seguir caminhos independentes, situadas em contextos históricos e sociais diferentes. No entanto, todas compartilham um eixo central: a homossexualidade e as diferentes formas de repressão às quais ela foi submetida ao longo do tempo.


Ao aproximar essas histórias separadas por décadas, La Bola Negra monstra que a conquista de direitos não apaga os traumas produzidos pela intolerância ao longo de décadas. Da mesma forma, mostra como o silêncio imposto a uma geração pode continuar repercutindo na vida de tantas outras. Afinal, lembrar aqueles que foram silenciados é uma forma de resistência, e talvez uma das maneiras mais importantes de impedir que a história volte a se repetir.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Crítica: Hope - O Primeiro Contato (2026)


Dirigido pelo sul-coreano Na Hong-jin, Hope: Primeiro Impacto (Hope) estreou no Festival de Cannes deste ano e deu muito o que falar ao concorrer à Palma de Ouro. De fato, trata-se de um filme bastante diferente daquilo que estamos acostumados a ver em um dos festivais mais prestigiados do cinema mundial, diante dos olhares da crítica mundial. Considerado o longa-metragem mais caro já produzido na Coreia do Sul, a obra aposta em muita ação, criaturas monstruosas e efeitos visuais grandiosos, aproximando-se da estética dos grandes blockbusters de Hollywood.


A trama se passa em um vilarejo fictício de aparência bucólica, chamado de Hope Harbor, localizado em uma região desmilitarizada na fronteira entre as duas Coreias. Em um dia aparentemente corriqueiro, o chefe de polícia Bum-seok (Hwang Jung-min) recebe a notícia de que um grupo de caçadores encontrou um boi morto e mutilado no meio de uma estrada. O que restou do animal apresenta profundas marcas de garras, levando os homens a suspeitar do ataque de um tigre vindo da floresta. No entanto, ao chegar à fazenda de onde o bovino havia saído, eles encontram novos sinais de destruição e os restos mortais do fazendeiro, indicando que a ameaça é muito maior do que imaginavam.

Ao retornar à cidade, Bum-seok encontra corpos decapitados espalhados pelas ruas estreitas, além de inúmeros prédios destruídos. Durante aproximadamente cinquenta minutos, o filme constrói uma atmosfera sufocante de medo e mistério, e essa é, de longe, sua melhor parte. É impossível não ficar absorto a cada passo dos personagens, enquanto tentamos imaginar que tipo de ameaça estão enfrentando. Nesse primeiro momento, vemos apenas pessoas arremessadas violentamente, corpos mutilados e um rastro de destruição assustador, enquanto os moradores tentam reagir com armas que se mostram completamente insuficientes diante do perigo.


Na segunda metade, temos finalmente o primeiro vislumbre do monstro. E, de fato, sua aparência foge completamente do esperado. Não vou dar spoilers do seu aspecto, pois acho que o fator surpresa é importante, mas quando o grupo de moradores descobre uma possível nave especial cravada na floresta, é possível concluir que ele não somente venho de outro planeta, como também não está sozinho. Provido de uma força descomunal e uma altura que lembra os Na'vi, de Avatar, a criatura permanece envolta em mistério, e pouco sabemos sobre suas origens ou motivações.

Além do policial Bum-seok, duas personagens femininas desempenham papéis fundamentais na trama: a policial Sung-ae (Jung Ho-yeon) e a chefe do centro médico de Hope (Hwang Seok-jeong), responsável pela autópsia do primeiro monstro capturado e morto. Sua participação é crucial para que os moradores comecem a compreender a biologia da criatura e, consequentemente, a dimensão da ameaça que enfrentam. Outro aspecto interessante é o humor peculiar do filme, que encontra espaço para piadas mesmo em meio ao caos. Os personagens estão longe de ser heróis invencíveis e tampouco tomam sempre as melhores decisões, e é justamente essa humanidade que confere graça a situações que, em outras circunstâncias, seriam apenas aterrorizantes.


O principal problema de Hope, porém, está em suas sequências finais, quando a narrativa se prolonga muito além do necessário. Embora as cenas de perseguição sejam visualmente impressionantes, elas acabam se tornando excessivamente longas e cansativas, presas a uma dinâmica repetitiva que compromete o ritmo da obra. Para completar, o desfecho deixa diversas questões em aberto e transmite a impressão de que o diretor pretende expandir esse universo em possíveis continuações. A possibilidade de uma franquia não seria, por si só, um problema, mas a maneira como o filme termina faz com que a história pareça incompleta.