quarta-feira, 22 de abril de 2026

Crítica: Amrum (2025)



Ambientado na pequena ilha alemã de Amrum, no Mar do Norte, o novo filme de Fatih Akin revisita os momentos finais da Segunda Guerra Mundial sob uma perspectiva pouco explorada: a de cidadãos alemães comuns que, mesmo diante do colapso iminente, ainda permaneciam fiéis a Hitler e à ideologia nazista.


A narrativa se passa em 1945, nas últimas semanas do conflito, e acompanha uma família que busca refúgio na ilha para escapar do avanço das tropas soviéticas. Não sendo nativos, eles carregam consigo não apenas o status de forasteiros em uma comunidade isolada, com cultura e dialeto próprios, mas também um conjunto de crenças que os distancia ainda mais dos habitantes locais. Ainda assim, encontram um espaço de convivência em um local onde agricultura e pesca são as atividades primordiais.

É nesse contexto que conhecemos Nanning (Jasper Billerbeck), um garoto que enfrenta dificuldades para se adaptar à nova realidade. Integrante da juventude hitlerista, ele ainda veste o uniforme e reproduz, com convicção quase automática, os ideais que lhe foram ensinados. Esse comportamento o afasta das outras crianças e o coloca em uma posição desconfortável, mas o filme acerta ao não tratá-lo como um vilão. Há, em sua construção, uma clara ideia de que se trata de uma criança moldada por um ambiente ideológico do qual não teve escolha.


A influência familiar é determinante nesse processo. Seu pai, ausente, luta na guerra como membro do partido nazista, enquanto sua mãe, Hillie (Laura Tonke), representa o fanatismo em sua forma mais íntima e doméstica. Incapaz de conceber a derrota alemã, ela reage com desespero a qualquer sinal de colapso do regime, e trata qualquer um que mencione o fato como traidor da pátria. Ao receber a notícia da morte de Hitler pelo rádio, ela entra em um estado de negação, e se recusa a se alimentar, abrindo exceção apenas para pão branco com manteiga e mel, um detalhe aparentemente banal, mas que se torna o motor narrativo da jornada de Nanning.

Diante da escassez provocada pela guerra, o garoto parte em busca dos ingredientes necessários para atender ao desejo da mãe, mas o que poderia ser uma tarefa simples, se transforma em uma travessia simbólica pela ilha, colocando-o em contato com pescadores, agricultores, padeiros e outros moradores locais. Através desses encontros breves, o filme constrói um mosaico de perspectivas sobre o fim da guerra, revelando desde apoiadores silenciosos do regime até aqueles que já enxergavam sua queda como inevitável.


É nesse percurso que Amrum encontra sua força. Ao invés de retratar a guerra em escala macro, como muitos filmes sobre o período costumam fazer, Akin opta por um olhar intimista, explorando sobretudo como ideologias extremas se infiltram nas relações familiares e na formação da identidade. O filme se apresenta como um coming-of-age delicado, onde o amadurecimento do protagonista passa inevitavelmente pelo confronto e pelas crenças que o formaram, que pouco a pouco começam a ruir sob seus olhos. É um filme silencioso, por vezes irregular, mas que permanece relevante pela maneira como provoca uma reflexão incômoda sobre os ecos deixados por um regime, que não desaparecem mesmo com o seu fim oficial.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Crítica: Devoradores de Estrelas (2026)


Surpreendendo como um dos grandes fenômenos cinematográficos desta primeira metade do ano, Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary), dos diretores Chris Miller e Phil Lord, adapta o romance homônimo de Andy Weir (mesmo autor de Perdido em Marte) para entregar uma obra que, embora parta de uma premissa familiar, demonstra uma ousadia criativa cada vez mais rara dentro do cinema blockbuster contemporâneo, hoje sustentado basicamente por remakes, live-actions e continuações de universos já desgastados.


Na trama, acompanhamos o professor de ciências Ryland Grace (Ryan Gosling), que acorda de um coma induzido em uma espaçonave, após mais de onze anos viajando pelo universo profundo. Inicialmente sem memória, ele reconstrói aos poucos os eventos que o levaram até ali: recrutado pela NASA, Grace carrega a responsabilidade de tentar salvar a Terra de um colapso iminente. Seus dois companheiros de missão não sobreviveram à jornada, deixando-o como o único responsável por um plano que, desde o início, já era uma viagem sem volta.

Os flashbacks entram em cena para contextualizar melhor a urgência da missão.  Neles, descobrimos que microrganismos alienígenas, denominados astrófagos, estão consumindo estrelas aos poucos, incluindo o nosso sol. As projeções indicam um colapso climático na Terra capaz de dizimar uma parcela significativa da população em três décadas, e para tentar evitar esta catástrofe global, Grace é enviado para investigar a estrela Tau Ceti, a única que se mostrou resistente aos avanços da nova ameaça.


No entanto, ao cruzar com uma nave alienígena, Grace estabelece contato com uma criatura que foge de qualquer ideia pré-concebida: um ser rochoso, a quem ele dá carinhosamente o nome de Rocky. É neste encontro inesperado com o desconhecido que o filme encontra sua verdadeira identidade, pois assim como o protagonista, Rocky também é o único sobrevivente de sua missão, vindo do planeta Eridani. Unidos pela solidão e pela responsabilidade de salvar suas civilizações, os dois constroem uma amizade improvável e profundamente "humana".

A comunicação entre eles não é imediata, e o processo de aprendizado mútuo se torna um dos aspectos mais encantadores do filme. O humor surge de forma orgânica, mas nunca gratuita, acompanhando uma construção gradual de afeto que transcende a linguagem. Há aqui uma reflexão sensível sobre empatia, diferenças culturais e, sobretudo, cooperação em situações limite. É nesse ponto que reside a essência da obra: na capacidade de emocionar o espectador através de um vínculo genuíno entre dois seres completamente distintos.


Neste contexto, Ryan Gosling é uma escolha certeira para o papel. Seu Grace está longe do arquétipo tradicional do astronauta heróico, assumindo um perfil mais vulnerável. O ator sustenta o filme com muito carisma, mas também sabe dosar o drama muito bem quando a narrativa exige. A montagem conduz bem as idas e vindas temporais, alternando a jornada no espaço com os eventos que antecedem a missão. É nesses momentos, por exemplo, que surge a personagem Eva Stratt (Sandra Hüller), cuja presença é marcada por uma postura deliberadamente fria e contraditória no comando da missão.

Tecnicamente, o filme acumula ainda mais acertos. A trilha sonora é eficiente quando precisa pontuar emoção, mas é no uso do silêncio que ela realmente se sobressai. O vazio sonoro reforça a imensidão e o isolamento do espaço, ampliando a sensação de imersão. Já na parte visual, o filme impressiona tanto na simplicidade, quando explora ambientes fechados como salas da NASA e a própria nave, quanto na grandiosidade e na beleza indescritível do universo.


Ainda que, por vezes, recaia em soluções previsíveis e estruturas já conhecidas do gênero, Devoradores de Estrelas se destaca justamente por sua disposição em apostar em elementos diferentes do lugar-comum. Particularmente, adorei o final, diferente e ousado. Por fim, não se trata de uma grande obra-prima, mas é um filme extremamente honesto, genuinamente divertido e envolvente do início ao fim.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Crítica: O Bolo do Presidente (2026)


Vencedor do Caméra d'Or em Cannes, prêmio concedido ao melhor longa-metragem de um diretor estreante, O Bolo do Presidente (The President's Cake) marca um debut tocante e emocionalmente pulsante do iraquiano Hasan Hadi., cujas referências dialogam expressivamente com cineastas "vizinhos" como Jafar Panahi e Abbas Kiarostami, conhecidos por transformar situações banais em narrativas que escalam de maneira quase absurda.


A trama se passa em abril de 1990, e tem como pano de fundo um Iraque economicamente devastado. Ainda sob os efeitos da guerra Irã-Iraque (1980–1988), o país enfrentava fome, escassez e um colapso estrutural que foi ainda mais acentuado pelas severas sanções internacionais, especialmente impostas pelos Estados Unidos, após o presidente Saddam Hussein decidir invadir o Kuwait. Mesmo diante de instabilidades e de um cenário caótico, Saddam sempre fez questão de manter uma tradição peculiar: celebrar o seu aniversário com festas grandiosas, sustentadas por bolos e acompanhamentos preparados pela própria população.

É importante contextualizar que, naquele período, Saddam Hussein vivia o auge do seu poder, e o culto à sua imagem era uma realidade presente no país inteiro. Seu rosto aparecia em praticamente todos os espaços públicos e privados, seja em pôsteres, murais pintados à mão ou em fotografias emolduradas, enquanto cânticos de exaltação eram entoados diariamente pela população, sobretudo nas escolas. Logo, comemorar seu aniversário quase como uma celebração coletiva de um povo.


Dentro desta realidade, cada instituição de ensino recebia a missão de selecionar os alunos que ficariam responsáveis pelas tarefas essenciais para a realização da festa, como a limpeza do espaço, a decoração, e principalmente a confecção do bolo. É aí que conhecemos Lamia (Baneen Ahmed Nayef), uma garota de nove anos da escola primária, que mesmo tentando escapar, tem o seu nome sorteado para ser a responsável da sua turma pelo bolo. Vivendo em uma zona rural com a avó Bibi (Waheed Thabet Khreibat), e sempre carregando a tiracolo o seu galo de estimação Hindi, ela então se vê obrigada a ir para a cidade atrás dos ingredientes. Sem dinheiro, avó e neta enfrentam a difícil tarefa de reunir o necessário em meio à escassez, pechinchando aqui e ali e fazendo o possível para contornar as limitações.

Gradualmente, a narrativa vai transcendendo a simplicidade da sua premissa, revelando-se muito mais do que uma simples história sobre um bolo. Fragilizada pela doença, a avó enxerga na viagem uma oportunidade de garantir um futuro melhor para a Lamia, planejando entregá-la a um casal disposto a criá-la em melhores condições de vida. Ao perceber as intenções da avó, a menina foge, e passa a perambular pela cidade na companhia do seu amigo e colega de classe Saeed (Sajad Mohamad Qasem), que por sua vez, é quem ficou encarregado de conseguir as frutas da celebração.

A partir daí, a jornada dos dois pelas ruas se consolida como o eixo central do filme, enquanto, em paralelo, a avó recorre à polícia na tentativa de encontrar a neta, dando início a uma busca que carrega, ao mesmo tempo, desespero e resignação. Ainda que não haja um discurso político explícito, a dimensão social se impõe de forma orgânica, revelando através de pequenas situações, os impactos profundos daquele contexto na vida dos personagens. Não há, por exemplo, uma paranoia declarada, mas a constante presença de caças cruzando o céu funciona como um lembrete de que algo está errado.


Por fim, Hasan Hadi constrói uma obra que encontra força justamente na delicadeza, transformando uma missão aparentemente trivial em um retrato sensível sobre infância, perda e sobrevivência em meio ao caos, sem jamais ceder ao excesso melodramático. O maior acerto do filme está no contraste entre a inocência de seus protagonistas e a brutalidade do mundo ao redor, potencializado pelas atuações impressionantes do elenco mirim.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Crítica: A Sombra do Meu Pai (2026)


A eleição presidencial de 1993 na Nigéria foi um daqueles acontecimentos que marcam para sempre a história de um país. Após uma década de ditadura militar, o pleito representava uma possível guinada à democracia, reacendendo na população a esperança por mudanças concretas. No entanto, após perder nas urnas, o governo vigente alegou fraudes e anulou o resultado, o que resultou em uma onda de protestos violentos por parte dos civis e abriu caminho para a eclosão de um novo golpe militar que se estenderia até 1999.


A Sombra do Meu Pai (My Father's Shadow), longa de estreia do nigeriano-britânico Akinola Davies Jr., mergulha nesse período turbulento a partir de um olhar íntimo, nostálgico e profundamente pessoal do diretor. Escrito em parceria com seu irmão mais velho, o roteiro acompanha Akinola (Godwin Egbo) e Olaremi (Chibuike Marvellous Egbo), dois irmãos de oito e onze anos, que deixam o vilarejo onde vivem para ir até Lagos na companhia do pai, Folarin (Sopè Dìrísù). Oficialmente, a viagem tem um objetivo claro: o homem quer ir pessoalmente cobrar o chefe que não lhe paga há seis meses; na prática, porém, também carrega um lado afetivo: aproveitar a ocasião para apresentar aos filhos a vida na capital do país, que até então lhes era desconhecida.

Ao longo do trajeto, o encantamento dos meninos diante daquele novo mundo surge de forma natural. Lagos se revela como um espaço vibrante, caótico e fascinante, um contraste direto com a realidade de onde vieram. O pai, que cresceu na cidade, atua quase como um guia sentimental, revisitando lugares da sua juventude, compartilhando histórias e reencontrando figuras de seu passado. É uma jornada que mistura descoberta e memória, e que de certa maneira remete ao sensível Aftersun, da diretora Charlotte Wells, que também usa seu filme como uma ferramenta particular de reconexão afetiva.


No entanto, ao contrário do filme de Wells, que acompanha um pai em uma viagem de férias com sua filha, aqui a atmosfera que envolve a viagem dos personagens é constantemente atravessada por tensões. A instabilidade política não funciona apenas como pano de fundo, mas é parte integrante do drama, moldando o ambiente e contaminando até os instantes mais simples. Caminhões militares, discussões acaloradas entre apoiadores e opositores do regime, e manchetes que traduzem a ansiedade coletiva compõem um cenário onde a inocência infantil convive com uma inquietação latente. Mesmo sem compreender completamente o que está acontecendo, os meninos sentem o peso daquele momento histórico e o receio do que virá dali para frente.

O mais tocante de tudo (e algo que descobri apenas depois de assistir o filme) é que o pai do diretor, na realidade, morreu quando ele era apenas um bebê. Ou seja, o filme não apenas revisita memórias da infância: ele as inventa, as reconstrói, e serve para preencher lacunas irreversíveis deixadas por algo que nunca pôde ser vivido de verdade. Há algo profundamente comovente nessa tentativa de criar um passado possível, de imaginar conversas, gestos e experiências com o pai, que não existiram na vida real, mas que agora passam a existir, para sempre, no cinema.


Confesso que sabia muito pouco sobre a política nigeriana antes de assistir ao filme, mas isso em momento algum comprometeu a experiência. Pelo contrário: a obra encontra sua força justamente na maneira como transforma um contexto histórico específico em uma vivência universal, onde memória, ausência e pertencimento falam mais alto do que qualquer explicação formal. Filmado em 16mm, A Sombra do Meu Pai carrega o calor nostálgico de um filme caseiro, feito de amor e saudade, e encanta sobretudo pela simplicidade.

Crítica: A Noiva! (2026)


Depois de sua promissora estreia na direção em 2021 com o drama intimista A Filha Perdida, Maggie Gyllenhaal volta às telas com A Noiva! (Bride!), trabalho que segue na direção oposta do anterior e se apresenta como um filme caótico, frenético e extremamente ousado. Inspirado em A Noiva de Frankenstein (1935), o filme parte de uma premissa bastante instigante e provocativa, mas infelizmente se perde no caminho ao acumular ideias excêntricas sem a coesão necessária para sustentá-las.

A trama inicia na Chicago dos anos 1930, marcada pela violência urbana e pelo domínio do crime organizado. A narrativa é conduzida pela escritora Mary Shelley (Jessie Buckley), que surge estranhamente como uma figura espectral em registros nebulosos e em preto e branco, como se estivesse vivendo em uma espécie de "limbo". Ela anuncia ao espectador que tem uma história para ser contada; uma que ela não conseguiu contar enquanto ainda era viva. Logo, conhecemos Ida (também interpretada por Buckley), que após um surto psicótico em um jantar com pessoas da elite, acaba sendo morta por capangas de um poderoso gângster.

Paralelamente, o filme nos leva a outro ponto da cidade, onde a criatura de Frankenstein (Christian Bale), aqui chamada simplesmente de Frank, procura a Dra. Euphronius (Annette Bening), uma cientista renomada e especialista em reanimação. Seu pedido é claro e direto: ele quer que ela crie uma parceira para ele, alguém com quem possa compartilhar a existência e escapar da solidão que o define. Após desenterrarem o corpo de Ida, a doutora a traz de volta à vida por meio de suas engenhocas elétricas, e Frank se aproveita da ausência de memória da jovem para convencê-la de que os dois eram noivos antes de um suposto acidente ter lhe causado amnésia.


Diante deste encontro entre duas criaturas renascidas da morte e inseridas dentro de um universo frio e pouco acolhedor, o filme parecia ter em mãos um enorme potencial e inúmeras possibilidades narrativas a serem exploradas. Porém, o que se vê é um grande desperdício de ideias. A expectativa por uma abordagem mais consistente e crítica, como a vista no ótimo Pobres Criaturas do diretor Yorgos Lanthimos, dá lugar a uma sucessão de cenas desconexas, nas quais a diretora parece mais interessada em chocar do que em construir uma narrativa minimamente racional.

Não fica claro qual é, afinal, a proposta de Gyllenhaal. Há indícios de uma releitura feminista, elementos de uma fábula sobre identidade, traços de um road movie e até mesmo referências a thrillers no estilo Bonnie & Clyde, mas nada disso se desenvolve de forma satisfatória. Personagens surgem e desaparecem sem impacto, conflitos são introduzidos e abandonados, e a própria transformação da criatura em símbolo de revolução ocorre de maneira abrupta e pouco fundamentada. A trama mafiosa por trás, os detetives que perseguem o casal, tudo soa superficial e mal articulado.


É inegável, entretanto, que Jessie Buckley se destaca em meio ao caos. Em um papel duplo, a atriz, que ganhou o Óscar este ano por Hamnet, prova ainda mais sua versatilidade na pele desta personagem dúbia e extremamente vulnerável. Mesmo quando a narrativa se fragmenta, Buckley permanece como um dos poucos pontos harmônicos, entregando uma performance visceral. Soma-se a isso uma fotografia estilizada, marcada por contrastes fortes e uma atmosfera decadente que, em alguns momentos, me fez lembrar o trabalho visto em Coringa: Delírio a Dois.

No entanto, para uma diretora que demonstrou tanto controle e sensibilidade em A Filha Perdida, é frustrante ver Maggie Gyllenhaal se perder em um projeto extremamente pretencioso. A Noiva! até apresenta lampejos de criatividade estética, mas carece de nexo e propósito. E o que poderia ter sido uma releitura provocadora do universo de Mary Shelley se transforma em um filme que grita o tempo todo, mas que, ironicamente, não tem nada a dizer.