terça-feira, 3 de março de 2026

Crítica: Father Mother Sister Brother (2025)


Um verdadeiro cronista das nuances humanas. Esse é Jim Jarmusch, cineasta independente pelo qual nutro grande admiração, especialmente por três obras que considero fundamentais em sua filmografia: Trem Mistério, Uma Noite na Terra e Ghost Dog. Talvez justamente por essa admiração, a minha frustração diante de Father Mother Sister Brother tenha sido ainda mais intensa. O longa, que surpreendeu ao conquistar o prêmio principal no Festival de Veneza, revela-se, na prática, uma experiência aborrecida e desinteressante, embora o tema principal suscite boas reflexões a respeito da relação que temos com nossos pais.


A trama é dividida em três histórias distintas, que se relacionam apenas pelo tema em comum: encontros familiares carregados de tensões emocionais. Na primeira delas, acompanhamos os irmãos Jeff (Adam Driver) e Emily (Mayim Bialik) indo de carro visitar o pai (Tom Waits), que mora sozinho em uma região remota após a morte da esposa. Lá, os três conversam sobre a vida, em diálogos simples e banais, que revelam tanto um carinho contido quanto uma distância emocional difícil de transpor. Jarmusch aposta na naturalidade das conversas, mas o minimalismo aqui flerta perigosamente com a estagnação.

Na segunda história, temos as irmãs Timothea (Cate Blanchett) e Lilith (Vicky Krieps), que estão indo visitar a mãe (Charlotte Rampling), que assim como na história anterior, também vive sozinha. As irmãs também demonstram grandes diferenças, mas se relacionam bem na ocasião, quase numa formalidade protocolar. A mesa farta do café contrasta com o silêncio, pois mãe e filhas não parecem ter muitos assuntos a conversar. O constrangimento é palpável, porém pouco evolui além disso. Há sentimento, mas falta conexão.

Por último, temos a história mais emotiva e sensível do filme, onde dois irmãos, Billy (Lula Sabbat) e Skye (Indya Moore), que acabaram de perder os pais em um acidente aéreo, se encontram na dor para ir até a casa de infância fazer uma última visita ao local e pegar alguns objetos deixados para trás. Aqui, Jarmusch finalmente permite que a nostalgia encontre alguma pulsação. A dor é mais concreta, e o reencontro com o passado traz momentos genuinamente tocantes. É também nesse segmento que o filme explicita, de forma quase didática, sua mensagem central: valorizar os pais enquanto ainda é possível.


Apesar do tema universal e potencialmente poderoso, o roteiro infelizmente se torna enfadonho demais. O silêncio, recurso tão conhecido do cinema de Jarmusch, deixa de ser eloquente e passa a soar vazio. Falta conflito, falta progressão dramática, e, sobretudo, falta tensão que sustente o interesse ao longo das três narrativas. O elenco é talentoso e entrega performances coerentes com a proposta, mas nem mesmo esse conjunto de grandes nomes consegue ultrapassar a superficialidade. Preso a uma formalidade que não deixa o filme evoluir, Father, Mother, Sister, Brother é, sem dúvidas, um dos filmes mais anêmicos da filmografia de Jarmusch.

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