Baseado no livro de memórias homônimo lançado pela escritora norte-americana Lidia Yuknavitch em 2011, A Cronologia da Água (The Chronology of Water) é a primeira investida da atriz Kristen Stewart na direção de longas-metragens, e diga-se de passagem, que bela estreia. Interpretada no filme pela atriz Imogen Poots, Lidi Yuknavitch teve uma vida pessoal turbulenta desde pequena, e o seu livro, que se tornou um enorme sucesso, resgata algumas das suas piores memórias, relatando abusos, vícios e traumas que a acompanharam pela vida adulta.
Dividido em capítulos, e narrado pela voz suave e quase hipnótica da própria protagonista, o filme nos apresenta a história da escritora desde os seus primeiros anos de vida, quando ela morava com os pais e a irmã mais velha. Ainda criança, ela passou a sofrer violência psicológica e sexual por parte do pai (vivido por Michael Epp), e Stewart constrói essas sequências com uma sensibilidade sufocante. Para fugir dos problemas, Lidia se apega à natação, mas até este prazer acaba sendo arrasado pela personalidade destrutiva do pai, que obcecado pelo desempenho esportivo dela, transforma cada braçada em um teste de sobrevivência, punindo-a em caso de fracasso. O retrato dessa família, que sustenta uma aparência de normalidade sob o “véu” da perfeição, é devastador justamente por soar tão plausível e real.
Logo, passamos para a adolescência de Lidia, onde ela se entrega às drogas, a relacionamentos por impulso e a demais comportamentos autodestrutivos, como válvula de escape para anestesiar o sentimento de fracasso e inadequação. Isso a faz largar não só a natação, mas todos os sonhos que ainda guardava dentro de si. A fase adulta não traz alívio imediato: tragédias continuam a atravessar seu caminho, como a dolorosa perda de um filho no parto. E quando tudo parece perdido, quando o mundo desaba de vez, Lidia tem na irmã mais velha (Thora Birch) o seu pilar de apoio. Ela também sofreu abusos na infância, e se culpa silenciosamente por ter permitido isso se repetir com a irmã.
Estudando na Universidade do Oregon, Lidia recebe o convite inusitado de fazer parte de um grupo de alunos que está escrevendo um livro colaborativo com Ken Kessey (uma participação brilhante e carismática de Jim Beluschi), o famoso escritor de clássicos da literatura estadunidense como Um Estranho no Ninho. Kessey vê em Lidia um futuro grandioso no ramo da escrita, e este é o momento crucial em sua vida, pois ao se sentir vista e valorizada pela primeira vez, Lidia acaba encontrando um novo sentido. Pode-se afirmar, sem exagero, que a escrita a resgata do abismo.
Apesar do temas difíceis tratados em cena, Stewart apresenta tudo com muita sutileza e rigor estético. Ao explorar o corpo feminino e o desejo, Stewart também mostra o "superpoder" de mulheres que conseguem recuperar sua sexualidade mesmo depois de tê-la tido roubada ainda na infância. Imogen Poots tem uma presença potente em cena, numa atuação grandiosa e magnética. Por fim, A Cronologia da Água não é apenas um relato de sobrevivência, mas um manifesto sobre reinvenção. Kristen Stewart estreia atrás das câmeras provando que sua sensibilidade artística vai muito além da atuação, entregando um filme corajoso, íntimo e profundamente humano.



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