segunda-feira, 16 de março de 2026

Crítica: "O Morro dos Ventos Uivantes" (2026)


Acho corajoso e ao mesmo tempo perigoso quando um(a) cineasta se propõe a trazer para as telas uma releitura pessoal de um dos maiores clássicos da literatura mundial. É preciso ter plena consciência de que qualquer alteração na obra original pode transformar profundamente o contexto da narrativa e a forma como o público percebe seus personagens e conflitos, além de inevitavelmente atrair críticas severas. Particularmente, não vejo problema em revisitar obras com novos olhares, desde que haja coesão e propósito. Infelizmente, não é o caso desta versão da diretora Emerald Fennell para O Morro dos Ventos Uivantes, da escritora Emily Brontë (1818-1848), que é surpreendentemente medíocre em todos os aspectos.

O filme começa mostrando uma cena de enforcamento em praça pública, acompanhada por uma multidão ávida pelo respiro final da vítima, que visa de alguma forma apresentar o contexto social de uma época longínqua, marcada pela brutalidade e pelo espetáculo público da violência. No meio do povo está Cathy, uma jovem de boa família, que mora com o pai em uma grande mansão. Bêbado inveterado, certa noite o homem volta para casa com um menino pobre, que ele ajudou a tirar das garras de um homem cruel. Cathy então decide chamá-lo de Heathcliff, nome de seu irmão falecido, e entre os dois nasce uma ligação imediata que atravessará os anos.

O filme rapidamente salta para a vida adulta dos personagens. Cathy e Heathcliff continuam profundamente próximos, mas já não com a inocência da infância: o vínculo entre eles agora é atravessado por um desejo reprimido, que ambos tentam esconder durante muito tempo. Esse sentimento só começa a emergir quando Cathy se vê prometida a um homem rico recém-chegado à região. Incapaz de lidar com o casamento iminente da mulher que ama, e sem poder impedir o enlace, Heathcliff decide partir, deixando a cidade por anos. Quando retorna, misteriosamente enriquecido, carrega consigo a aparente intenção de recuperar o tempo perdido.


O primeiro grande problema do filme, na minha visão, é a sua fragmentação. Não há uma coesão entre os diferentes períodos mostrados, e tampouco há um elo emocional com força suficiente para criar um senso de tragédia. Mais grave ainda é a forma como o roteiro subverte as motivações centrais de Heathcliff. No romance original, seu retorno é impulsionado por um desejo de vingança contra aqueles que o humilharam e maltrataram, um motor dramático fundamental para a construção do personagem. Nesta adaptação, no entanto, essa motivação praticamente desaparece. Sem o antagonista que justificava sua fúria no livro, Heathcliff se torna apenas um homem obcecado por reverter uma rejeição amorosa, o que esvazia completamente sua complexidade psicológica.

Outro ponto problemático está na ambientação. Em nenhum momento, ao longo das mais de duas horas de duração, senti verdadeira verossimilhança na atmosfera do filme. Tudo parece artificial, dos cenários aos figurinos excessivamente estilizados, e raramente há a sensação de que aquela história pertence de fato a um passado distante. Essa artificialidade se intensifica com o uso de uma trilha sonora anacrônica, composta majoritariamente por músicas contemporâneas da cantora Charli XCX. A escolha remete a uma estratégia já presente em Saltburn, outro trabalho de Fennell, mas aqui o recurso soa ainda mais deslocado, contribuindo para a sensação de inconsistência estética.

Com o passar do tempo, o próprio centro emocional do filme se dissolve. Torna-se difícil acreditar no romance entre os protagonistas, sobretudo porque falta química entre Margot Robbie e Jacob Elordi, atores que, em teoria, foram escalados justamente para sustentar essa relação. A maneira apressada com que o roteiro atravessa os anos também enfraquece o vínculo entre os personagens. Fennell parece incapaz de lidar com a passagem do tempo que estrutura o romance de Brontë: não há peso na separação, nem sensação de perda, tampouco urgência no reencontro.


Antes de assistir ao filme, imaginei que Emerald Fennell pudesse ser uma grande admiradora da obra de Emily Brontë. Após vê-lo, a impressão é quase a oposta. A diretora parece menos interessada em reinterpretar o romance e mais em "desmontá-lo", como se sua intenção fosse esvaziar o drama original até que reste apenas uma caricatura estilizada. O resultado é uma adaptação que é impossível de ser levada a sério.

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