Após uma volta por cima na carreira, que lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator em 2023 por seu papel em A Baleia, Brendan Fraser volta às telas em Família de Aluguel (Rental Family), uma comédia dramática leve e simpática que se propõe a refletir sobre a solidão no mundo moderno. Porém, apesar da boa intenção e de um ponto de partida instigante, o filme acaba se perdendo em soluções fáceis e em uma sucessão de clichês que infelizmente enfraquecem seu impacto.
A trama acompanha Phillip (Fraser), um ator estadunidense que alcançou fama inesperada no Japão após estrelar um comercial viral de pasta de dente. Anos depois, ainda vivendo no país, ele enfrenta dificuldades para conseguir novos papéis na indústria audiovisual. Para sobreviver, ele passa a trabalhar em um curioso ramo: o de atores contratados para se passarem por membros da família de seus clientes. Seja substituindo um parente falecido, representando um pai ausente em uma apresentação escolar ou simplesmente ocupando o lugar de um amigo em eventos sociais, sua função é encarnar essas figuras por algumas hora, ou até mesmo por dias.
Embora possa soar exótico aos nossos olhos, o serviço de “aluguel de família” é real e relativamente comum no Japão, e o tema já havia sido abordado em 2019 por Werner Herzog no ótimo Uma História de Família. Phillip nunca se sente plenamente confortável com o trabalho, mas o conflito moral se intensifica quando ele é contratado para interpretar o pai de Mia (Shannon Gorman), uma menina de doze anos que nunca conheceu o genitor biológico. Para que a garota possa concorrer a uma vaga na escola, a presença paterna se torna necessária, então sua mãe (Mari Yamamoto) decidi contratar Phillip.
No entanto, para que a menina não tenha que ter o trabalho de mentir junto, ela pede que Phillip não conte nada para ela, e finja que é, de fato, o seu pai verdadeiro voltando para casa depois de muitos anos. A partir daí, o roteiro passa a explorar a relação entre Phillip e Mia, cujo prazo de validade somente um deles conhece. Enquanto isso, o protagonista também cruza o caminho de Kikuo (Akira Emoto), um ator aposentado que enfrenta a perda gradual da memória. Ao ajudá-lo a revisitar lembranças de sua antiga carreira, o filme ensaia uma reflexão sensível sobre a importância da memória na construção da identidade e dos vínculos humanos, em um dos momentos mais genuínos da narrativa.
Entre os vários temas que aborda, Família de Aluguel fala sobretudo da solidão na sociedade contemporânea, em que a fragilidade dos laços afetivos leva indivíduos a recorrerem a relações fabricadas para preencher vazios emocionais. É uma proposta pertinente e atual, mas que infelizmente se dilui nas escolhas da diretora Hikari, que aposta em um tom excessivamente melodramático. O resultado é um filme ingênuo demais, que prefere emocionar pela obviedade em vez de confiar na complexidade de suas próprias ideias.



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